[Cobertura] Armageddon Metal Fest 2019

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Armageddon Metal Fest 2019
Expoville
Joinville/SC
01 de junho de 2019

Por Kenia Cordeiro e Clovis Roman

Após 5 anos de sua primeira edição, o Armageddon Metal Fest voltou ao calendário metálico catarinense, reunindo grandes nomes do estilo no Brasil, como Tuatha de Danann, The Mist, o Ratos de Porão e o Shaman, que inacreditavelmente encerraria suas atividades uma semana mais tarde, com a repentina morte de seu vocalista André Matos. Ainda houve no lineup os equatorianos do Total Death e diretamente da Grécia o glorioso Rotting Christ, que se encontra em uma das melhores fases de sua longeva carreira.

Os shows do festival, realizado em Joinville, foram divididos em dois palcos, o que permitiu a montagem dos equipamentos de uma banda enquanto outra tocava ao lado. Dessa maneira rolou música de maneira praticamente sem intervalos por mais de 12 horas. Somado à isso, uma estrutura profissional foi proporcionada pela organização do evento, o que tornou a experiência ao público marcante. Havia opções de alimentação e bebidas (desde cerveja comum até chopps artesanais bastante saborosos), muito merchandising das bandas, copos comemorativos e tudo o mais, além claro, de opções de acessibilidade.

Os shows começaram às 14h com o Violent Curse, trio de Thrash Metal de São Bento do Sul, cujo som, segundo eles mesmos, reproduz “o caos altamente veloz e amaldiçoado”. Na sequência, o Semblant, grupo de Dark/Gothic de Curitiba, que mandou seis músicas, sendo duas inéditas, do vindouro disco Obscura. Os paulistas do Huey chamaram atenção com sua formação instrumental com um som denso, um Stoner caótico, que claro, bebe na fonte do Black Sabbath.

Tuatha de Danann (foto: Clovis Roman)

O Tuatha de Danann apresentou um set enxuto, que iniciou um tanto vacilante devido a alguns problemas, mas logo tudo entrou nos eixos e no pouco tempo que estiveram no palco, comprovaram o motivo de serem uma das bandas mais criativas do cenário nacional. Antes mesmo de flautas e música celta em geral virarem pragas, os caras já usavam esses recursos em seu trabalho, e de maneira muito mais sólida e convincente que os que vieram depois. O show foi curto na quantidade de músicas, mas proporcionou momentos sublimes aos fãs, que cantavam junto na grade com empolgação e admiração pelas belas melodias. Material novo como faixas do EP “The Tribes of Witching Souls” – como a faixa-título e “Turn” – e do último disco completo, Dawn of a New Sun, não faltaram, assim como clássicos como “Believe: It’s True!” e “Tan Pinga Ra Tan”.

Flesh Grinder (foto: Clovis Roman)

Das delicadas melodias aos gritos amorfos e riffs primais do Black Metal, veio a banda Blackmass, com toda indumentária e maquiagem que o gênero solicita/impõe. Os caras mandaram sons de seu segundo álbum – Nemesis, de 2008 – como “Phantoms”, “Diavolul”, “Bleeding Heaven’s Angels” e a faixa título, e também material ainda não gravado oficialmente, como “Rising Sulphur”. Show monocromático e agressivo, como manda a cartilha. Ficou de fora do repertório o disco de estreia, Gloria Diaboli, de 2005. O gigante do goregrind mundial, Flesh Grinder, fez um show um tanto apático. Referência no estilo, seu set foi um tanto burocrático. De maneira alguma foi ruim, entretanto os outros shows deles foram mais efetivos. Tocaram alguns sons do mais recente play como “Graveyard Meat” e “Putrilagem”, e um monte de velharia, como “SPLATTER”, “Aroma of an Open Gall-Bladder” e “Granulomatous Inflammation with Elliptical Macrophages”.

The Secret Society (foto: Clovis Roman)

O Symmetrya, nome veterano do Metal catarinense veio na sequência, com um novo – novo mesmo – baixista no lugar de Gean Carlos. O show começou marcando a metade do festival, quando os primeiros sinais de cansaço do público começaram a se fazer presentes. O som da banda, calcado no Power/Melódico, é coeso e bem tocado. Mandaram também uma boa homenagem aos criadores do Metal: “Heaven & Hell”, do Black Sabbath, e “Armageddon”, música tema do festival, com participação de Lucas, vocal da Zombie Cookbook.  Mudando mais uma vez a direção musical, a The Secret Society ecoou melancolia com suas melodias tétricas o pavilhão da Expoville. O som dos caras, inspirado no Rock gótico dos anos 80, veio no momento certo, pois permitiu ao público ficar parado, sendo hipnotizado pela música. Descanso ao corpo e elevação da alma. As pesadíssimas – para os padrões estilísticos da banda – “Fields of Glass” e “Rites of Fire” foram destaques. Uma pena que acabou não rolando “The Architecture of Melancholy”, faixa de videoclipe soberbo que condensa em si as qualidades mais latentes do trio; e que cujo refrão taciturno emana do ouvinte um sentimento libertador. O The Secret Society caminha a passos largos para o sucesso, quiçá internacional, já que fará no segundo semestre uma turnê com o The Sisters of Mercy, lendária banda que é uma de suas grandes influências.

The Mist (foto: Clovis Roman)

Os mineiros do The Mist vieram na sequência. A banda conta com lendas do Metal nacional, como o guitarrista Jairo Guedz (ex-Sepultura, Overdose e Eminence) e Vladimir Korg, do Chakal. O show da banda foi baseado nos dois primeiros álbuns, os ambos clássicos Phantasmagoria (89) e The Hangman Tree (91). O show foi um arregaço só, um Thrash Metal com guitarras melodiosas mas com riffs certeiros e muito peso. Em seu repertório de pouco menos de 50 minutos – caberia mais umas duas músicas fácil – mandaram sons como as faixas títulos de ambos os discos, e também “Barbed Wire Land (At War)”, que abriu o show; “A Step Into The Dark” e “Hate”; além de “Scarecrow” e “Peter Pan Against the World” do segundo play. Em entrevista, o vocalista chegou a comentar que eles pensam, no futuro, em tocar sons do disco Gottverlassen (95), mas o que foi apresentado aqui foi tão forte que na verdade nem precisaria.

Gangrena Gasosa (foto: Clovis Roman)

A bagunça tomou conta do palco do Armageddon com o Gangrena Gasosa, grupo de Saravá Metal que faz uma bem humorada mistureba de Rock pauleira com temáticas voltadas a umbanda, entidades e afins. Divulgando o disco Gente Ruim Só Manda Lembrança Pra quem Não Presta, o som do conjunto carioca abriu as rodas mais violentas de todo festival. A galera começou a se quebrar já na primeira música e assim foi até o fim; bolas e bóias de piscina eram vistas voando pra lá e pra cá no meio da quebração. No palco, em meio às pilhérias, ainda houve uma crítica à preocupação com a sexualidade alheia, na genialmente intitulada “Fiscal de Cu”. Músicas famosas da banda, como “Se Deus é 10, Satanás é 666”, a espetacular “Surf Iemanjá”, “Quem gosta de Iron Maiden também gosta de KLB”, “Eu não entendi Matrix” e “Centro Do Picapau Amarelo” foram cantadas pela galera na grade. O show mostrou que a Gangrena Gasosa é diferenciada, anos-luz à frente do padrão da música pesada. Nada de carranca (só nas máscaras) ou postura arrogante do metaleiro padrão. É uma galera fazendo um som original, com temática realmente interessante, e engraçado: uma música chamada “Matou a Galinha e foi ao Cinema” não nos deixa mentir. No final, com “O Saci”, a banda sacramentou de vez a zoeira e mandou um banho de pipoca na galera. Banda foda é assim: Som foda, show foda, enérgico e entusiasmante. Carranca headbanger não tá com nada.

Ratos de Porão (foto: Clovis Roman)

O Gangrena Gasosa foi idealizado com o sonho de um dia abrir um show do Ratos de Porão. Isso se concretizou e aconteceu várias vezes no decorrer dos anos, e se repetiu em Joinville. O R.D.P. subiu ao palco logo depois dos cariocas, mandando o clássico disco Brasil na íntegra, numa velocidade e fúria absurdas. A banda está com a mesma formação há mais de 15 anos, o que lhe confere uma unidade forte e coesa. Brutal demais, fica até complicado destacar músicas, mas mesmo assim “Aids, Pop, Repressão” e “Beber até Morrer” foram os highlights do primeiro bloco. Na reta final ainda houve tempo para alguns outros clássicos como “Sofrer”, “Morrer” e claro, “Crucificados pelo Sistema”. O discurso virulento da banda se mantém intacto, e concordando com a visão dos caras ou não, é inegável que são um grupo com integridade.

Shaman (foto: Clovis Roman)

Como um bálsamo, as harmonias agradáveis e as afáveis melodias do Shaman tomaram conta do pavilhão da Expoville. O grande headliner do festival permaneceu no palco por duas horas, com seu show extravagante e completíssimo. A banda, que se reuniu com sua formação clássica, decidiu não deixar ninguém na mão e resolveu tocar seus dois discos na íntegra. A primeira parte veio com Reason (2005), que apesar de suas qualidades, não se sustenta tanto ao vivo quanto Ritual (2002), que veio no segundo ato. Esse é um disco indiscutível do Metal nacional, e quando a introdução “Ancient Winds” começou, foi difícil não se emocionar, principalmente aqueles que já tinham visto a banda em ação, cerca de 15 anos antes. Sons como “Here I Am”, “For Tomorrow” e a bela balada “Fairytale” transbordaram nostalgia e foram acompanhadas atentamente por todos. 

Shaman (foto: Clovis Roman)

André Matos estava bem, empolgado como sempre, e a banda destruindo no instrumental. O ápice da energia veio com a saideira “Pride”, um Heavy poderoso que teve em seu fim apoteótico  André Matos pegando a guitarra de Hugo para fazer uma firula. O quinteto estava à vontade no palco, se divertindo ao tocar todo seu material. O show foi irretocável em sua segunda metade, até mesmo emocionante. Inacreditavelmente, André Matos nos deixaria apenas uma semana depois, vítima de um ataque cardíaco. A apresentação do Shaman em Joinville foi a penúltima da banda – no dia seguinte tocaram em São Paulo ao lado do Avantasia. Um show cujas memórias são doces e amargas ao mesmo tempo. O maestro fará falta para todo o sempre.

Reta Final
Uma das qualidades do festival foi mesclar vários estilos, então os fãs de coisas mais agressivas tinham algumas ‘pausas’ para comer ou beber, e voltar nas bandas que mais lhe agradavam. Logo que saiu o Shaman, com seu Metal melodioso, o Rotting Christ iniciou seu set no palco ao lado, com seu som ríspido, classificado como Black Metal, mas que vai muito além desse rótulo tão limitador. A banda divulga The Heretics, do qual tocaram três músicas: “Hallowed Be Thy Name”, que abriu de maneira apocalíptica, servindo como um prelúdio para a veloz “Kata ton Demona Eautou”, já um clássico do grupo; além de “Fire, God and Fear” e “Dies Irae”. Os dois discos anteriores, Kata Ton Daimona Eaytoy (2013) e Rituals (2016) também apareceram com destaque no repertório. Desse último vieram as caóticas, com percussão forte e gritos desesperados “Apage Satana” e “Elthe Kyrie”. A grandiosa “Grandis Spiritus Diavolos”, com seu andamento cadenciado e tenso, foi o grande destaque do show com um todo, ao lado da enigmática “In Yumen-Xibalba”, repleta de referências étnicas unida a velocidade excruciante do Black Metal.

Rotting Christ (foto: Clovis Roman)

A fase intermediária, onde a banda flertou mais com o gótico, até refinar suas experiências em discos como Theogonia e Aealo, ficou totalmente de fora. Além do material dos álbuns mais recentes, vieram apenas sons dos primórdios (entre 1991 e 1996) Non Serviam (a faixa-título e saideira), Passage to Arcturo (a surpresa “The Forest of N’Gai”), Thy Mighty Contract (“The Sign of Evil Existence”, um momento glorioso) e Triarchy of the Lost Lovers, de onde veio a maravilhosa “King of a Stellar War”. Essa separação entre o passado e a fase atual parece ter sido proposital, para evidenciar ainda mais a evolução da banda nestes 30 anos. Mas como são uma banda íntegra, mesmo tendo mudado tanto, o Rotting Christ consegue ‘linkar’ tudo isso, e mesmo com essa fórmula arriscada, entregaram um show bastante homogêneo. Fica aqui a recomendação de leitura do livro “Non Serviam: The Story Of Rotting Christ” – que infelizmente não saiu e não deve sair em português – que conta de maneira espantosamente sincera a caminhada da banda de Sakis Tolis e seu irmão Themis.

Motorocker (foto: Clovis Roman)

Após o show acachapante do Rotting Christ, boa parte do público partiu em retirada. Quem ficou, entretanto, foi agraciado com mais um belo show do Motorocker, grupo de Rock and Roll de Curitiba, que fez uma apresentação furiosa. Impressionante como o frontman Marcelus sempre canta como se aquele fosse o último show de sua vida. O quinteto mandou uma sequência incessante de pauladas como “Rock Brasil”, “Igreja Universal do Reino do Rock”, “Rock Na Veia”, “Acelera e Freia” e “Salve a Malária”,  junto ao som cadenciado de “Blues Do Satanás” e a tocante balada “Homem Livre”. Baita banda! O Total Death, do Equador, com seu som competente, fechou as portas da segunda edição do Armageddon Metal Fest, já madrugada adentro. Festival em ambiente fechado, apenas um dia, é a melhor fórmula que existe. O Armageddon Metal Fest foi experiência fantástica, uma celebração à música pesada em suas mais variadas vertentes.

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