[Cobertura] O retorno perfeito com Zé Ramalho

Zé Ramalho
Live Curitiba
Curitiba/PR
09 de abril de 2022

Texto: Gustavo Abiner
Fotos: Mari Ribeiro

Que me perdoem os ávidos leitores deste nobre veículo, mas iniciarei este texto falando não sobre o objeto principal e quase que único desta análise, nosso querido Zé Ramalho, e sim sobre mim mesmo. Afirmo-lhes, contudo, que não o faço por julgar que eu seja mais interessante ou importante que o cantor – jamais o seria – mas sim porque creio que todos aqueles que por dois anos estiveram distantes dos palcos, shows e espetáculos entenderão o que senti e o sentirão junto comigo. Peço, portanto, um voto de confiança.

Curitiba, 9 de abril de 2022. Campo Largo, região metropolitana, na verdade. Um sábado tranquilo e, a princípio, ordinário. Meu coração, contudo, acelerava gradualmente com o passar das horas e o cair da noite. Não ia a um show desde 2019 e parecia nunca ter ido, não sabia o que fazer, quando chegar, o que vestir… Um novo começo. Tomei coragem e saí.

Na razoavelmente longa viagem entre minha casa e a Live Curitiba não pude evitar o turbilhão de pensamentos que me ocorria. Lembranças de tantos momentos incríveis que vivi e vivemos naquele mundo “pré-pandêmico” que, certamente, em algum momento cremos não mais voltaria. O calor do público, a emoção dos fãs assíduos, a intensidade dos artistas, o alto som dos amplificadores… tudo isso eram memórias já bastante desgastadas pelo tempo que eu sabia estarem prestes a serem ressuscitadas. Era uma ansiedade boa de se sentir, e quase todos que ali estiveram a sentiram, tenho certeza.

Cheguei e fui recebido por um clima tranquilo, acolhedor, quase que familiar e um público eclético como poucas vezes vi em shows. Rapidamente adentrei o salão e acompanhei o agradável passo da versão acústica d’Os Milagrosos Decompositores. Tocavam, com baixo, violão e cajon, grandes sucessos do samba, e, ainda que bastante contrastante com o da atração principal, o estilo parecia agradar a todos. Espectadores ecléticos, como já disse, cantavam com gosto os refrãos de icônicas canções como “Não Deixe o Samba Morrer” e “Maneiras”, que corroboravam com aquele ambiente tão agradável. Jamais imaginaria que samba, e um tantinho de MPB, como em “Gostava Tanto de Você”, pudesse combinar tanto com o Zé!

Tocando “Cidadão”, Os Milagrosos Decompositores encerraram sua ótima participação na noite, com um sambinha quase groovado pela interessante levada debaixo de Fernando Schubert, preenchendo todo e qualquer espaço. Tudo estava lindo e todos estavam felizes, mas para mim (e creio que para muitos outros ali, da mesma forma) ainda faltava algo. Era, obviamente, muito gratificante ver todas aquelas pessoas juntas e contentes cantando e acompanhando o bom som da Live. Transbordávamos de alegria com aquela volta. Contudo, ainda não sentira a verdadeira energia de um show, o coração acelerado e vontade de pular e gritar e por um momento tive medo que a apatia, uma das vilãs ascendidas da pandemia, tivesse me tomado de forma irreversível nesses anos pouco musicais que passei e passamos.

Pontualmente à meia-noite foi que tive a certeza (e o alívio) de que estava errado. Escutei os gritos do público e cambiei de emoção como num passe de mágica. Aquele sentimento “gostosinho”, porém, pouco intenso, que me tomou desde que lá cheguei fez-se em pura e quase histérica quando o vi. Quase como Michael Jackson no Super Bowl XXVII, Zé Ramalho recebia uma ovação simplesmente por estar parado, sem nada dizer ou fazer, frente ao público em sua pose triunfal – e como entende de poses o Sr. José Ramalho Neto, diga-se de passagem – parecendo um gigante mesmo em sua baixa estatura. Tive certeza ali que seria uma noite memorável.

Prontamente recebeu seu violão e iniciou, junto de sua excepcional banda, a apresentação com uma escolha, em minha opinião, pouco ortodoxa, por sua cadência bastante lenta: “O Que É, o Que É?”, de Gonzaguinha. A canção, porém, não poderia ter se encaixado melhor à voz marcante do cantor, que cantava, às vezes quase falando, com sua prosódia peculiar e adorável que “é bonita, e é bonita e é bonita…”, acompanhado fortemente da plateia, que fez o mesmo em quase todas as outras obras executadas.

Não pude não me emocionar com aquela música tão forte e com aquela voz tão potente e naquele momento tão específico. As lágrimas eram inevitáveis, mas não esperava tê-las vertido tão rapidamente. Contudo, ocorre que, de fato, e embora isto seja um tanto simples de se pensar, creio que deixamos de achar que “é bonita…” por tudo de “nada bonito” que nos ocorreu nesses últimos tempos. Foi como uma lufada de ar fresco no dia mais quente do ano, a lavar nossas almas e catarticamente trazê-las de volta.

Seguiu com mais um cover – uma versão, na verdade – de Bob Dylan, “Tá Tudo Mudando” (“Everything’s Changing”, originalmente), com mais um refrão marcante a cantar as “pessoas loucas” e o “tempo estranho”. Emendou algumas canções de sua autoria como “Kriptônia” e “Beira-Mar”, parando para dar uma curta, porém poderosa, mensagem de agradecimento por poder estar de volta com todos após a pandemia. Em todas essas, era acompanhado por seu próprio violão, baixo, teclados, saxofone, bateria e percussão – esse último com vários instrumentos ao longo da noite, mas principalmente uma brilhante zabumba que preenchia ainda mais as lindas e bem arranjadas músicas. Uma banda digna de nosso Zé e daquela noite tão importante.

Foi na sexta canção que percebi que também o público curitibano “não estava para brincadeiras”. “Táxi Lunar”, uma obra relativamente “lado b”, teve seu refrão entoado pela plateia como fosse o hit do verão. Acompanhados do baixo oitavado e dos backing vocals precisos de Chico Guedes, Zé Ramalho e sua sinérgica audiência outorgavam ali (mais) um momento quase místico, do tipo que poucas vezes protagonizamos.

Com a mesma energia, o cantor deu seguimento à apresentação ainda cantando músicas um pouco menos conhecidas (para o público geral, talvez, mas não para aquele público), como “Terceira Lâmina” e “Eternas Ondas”, as quais, nem seria necessário dizer, têm a mesma qualidade dos sucessos e foram também executadas com primazia. Os grandes hits chegaram apenas pela metade do repertório, com a maravilhosa “Avohai”, na qual vimos ainda mais energia tanto em cima quanto em baixo do palco, além de muitas luzes diferenciadas e sintetizadores.

Após mais uma canção interessante, “Vila do Sossego”, chegou, perdoem a redundância, o “maior ponto alto da noite”. Os primeiros acordes de “Chão de Giz” bastaram para incendiar os já eletrizados espectadores, que cantaram-na palavra por palavra até o fim, se abraçaram, choraram, celebraram, provando o poder da música de qualidade e dos eventos ao vivo, do qual muitos já haviam se esquecido. Ao fim, aqueles que estavam mais próximos do palco, que acompanhavam a maior parte do espetáculo sentados às suas mesas, invariavelmente levantaram-se, proporcionado uma ovação merecidíssima e inesquecível.

O show seguiu com “Garoto de Aluguel”, em que cada “baby” proporcionava-me um arrepio diferente e terminou com um não tão longo, mas extremamente preciso (como a toada parecia ser), solo de bateria. Em seguida, veio a imprescindível “Admirável Gado Novo”, com belos “solinhos” de saxofone, que também arrancou suspiros do público que alegremente a cantava em coro.

Já encaminhando-se o para o fim, o show continuou com Zé dizendo que iria apresentar duas músicas de Raul Seixas, as quais foram executadas com respeito e maestria. “Medo da Chuva”, a segunda, foi irretocável e perfeitamente apropriada para o show, mas foi em “Gita” que realmente fui impactado, com Zé pausadamente cantando sobre ser o “Início… o Fim… o Meio…”. Um baluarte da música nacional homenageando outro, e nós saindo privilegiados.

Para a última música (antes do encore), e para citar novamente o Rei do Pop, a banda tocou a vinheta de “Billie Jean”, a qual se encaixou de forma inacreditavelmente perfeita em “Frevo Mulher”, executada com ainda mais oitavas no sensacional contrabaixo e levou o público não só a cantar, como fizera a noite toda, mas a dançar de pura alegria. Zé apresentou nome a nome seus cinco companheiros de palco e agradeceu com veemência ao público curitibano, que retribuiu com aplausos e entusiasmo.

Tirou rapidamente o violão do pescoço, mas, não dando tempo para qualquer dúvida, rapidamente o colocou de volta e não chegando a sair do palco iniciou o “quero mais”. A penúltima canção proporcionou, como indicavam os casais abraçando-se e acariciando-se por todo o salão, o momento mais emocionante daquele já tão impressionante show. “Sinônimos” foi a escolhida como a última obra de Zé tocada, e, não havendo guitarra, teve seu solo executado com teclado e saxofone num blend musical perfeito e quase transcendente.

Para retomar a animação pulsante da plateia, e transformando assim a apresentação num ciclo que se iniciou com o filho e terminou com o pai, foi escolhida a canção “Vida do Viajante”, de Luiz Gonzaga, tocada de forma muito mais animada do que estamos acostumados, mas nem por isso com menos qualidade. Zé cantou a “saudade do Gonzagão” mudando a letra de alguns refrãos, e agradecendo mais uma vez, retirou-se pela primeira e última vez do palco, deixando ali a banda sozinha por mais alguns instantes, para o derradeiro instrumental. Fim.

As luzes do salão se acenderam e tive, após o show, ainda mais uma emoção intensa, ao ver claramente aqueles sorrisos, antes no escuro, do público de todas as idades que lotava a casa. Eu era dono de mais um deles, e esse mesmíssimo riso agora me volta ao relembrar de cada um desses momentos, do nervosismo, quase desconforto, inicial, à purificação do fim.

Refletia, na solitária volta para casa, e o faço agora a escrever, com maior clareza, que talvez não houvesse o que temer. Vivera, é claro, dois anos apáticos e sem grandes emoções, e não sabia mais se poderia senti-las, se poderia voltar a ser como antes. Zé Ramalho mostrou-me que, de fato, não voltei a ser como antes, mas que na verdade estou melhor, mais intenso, mais puro, e que o medo que sentia serviu, apesar de todos os pesares, para que aproveitasse melhor e fosse mais grato aos momentos bons e hoje o sou.

Havia, é claro, o agravante de ser meu primeiro show como imprensa, e desse medo, do medo de não entregar uma boa cobertura, só me libertarei com vosso feedback. Afirmo-lhes, contudo, que é do fundo de um coração que pouco a pouco se recupera que saem estas palavras – e o que de melhor que a música há para as almas sensíveis?

Obrigado, Zé.

Setlist

O que é, o que é?
Tá tudo Mmdando (Everything’s Changing)
Kryptônia
Beira-mar
Entre a serpente e a estrela
Táxi lunar
A terceira lâmina
Banquete de signos
Eternas ondas
Avôhai
Vila do sossego
Chão de Giz
Garoto de aluguel
Admirável gado novo
Gita
Medo da chuva
Frevo mulher
Sinônimos
Vida de viajante

Confira a galeria de fotos:


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s