[Cobertura] Gorillaz: Damon Albarn e cia roubam o show em Curitiba

Gorillaz
Pedreira Paulo Leminski
Curitiba/PR
18 de maio de 2022

Texto: Gustavo Abiner
Fotos:
Kenia Cordeiro

O frio agoniante da capital paranaense não foi, de modo algum, empecilho para que Damon Albarn capitaneasse uma noite memorável na Pedreira Paulo Leminski. Conhecidos como a banda virtual mais bem-sucedida de todos os tempos, mostraram na última quarta-feira que seus membros reais não devem nada aos icônicos cartoons. Murdoc, 2-D, Noodle e Russel (os quais aprendemos a amar ao longo dos últimos vinte e poucos anos), nos agraciaram com uma apresentação capaz de evocar os mais diversos sentimentos, levando-nos do êxtase às lágrimas em questão de minutos.

Britanicamente pontuais (literalmente), o Gorillaz iniciou os trabalhos às 21h com a hipnótica “M1A1”, com os robóticos “Hellos” de seu início ajudando a ditar o tom do que viria a ser uma noite inesquecível. Quando as luzes se acenderam, vimos uma banda extremamente energética e um frontman sereno, mas impontente, swingando em sua telecaster, para complementar a já muito presente guitarra de Jeff Wootton. O simples e potente refrão da canção já contou com a participação intensa do público. No final, vimos as luzes se apagarem novamente e tivemos um instante de silêncio, o que ajudou a criar um clima quase místico para a segunda música, “Strange Timez”. Essa interessante estratégia para a transição entre canções ocorreu repetidamente,  e a cada vez nos sentíamos impactados e tínhamos um momentinho para imaginarmos o que poderia vir em seguida. Mais um exemplo do porquê chamamos os shows desse grupo de espetáculos audiovisuais.

Foto: Kenia Cordeiro

O mesmo se deu na música seguinte, na qual os espectadores mais atentos tiveram mais uma prova de como o Gorillaz representa muito mais do que suas músicas. No telão, durante a execução de “Last Living Souls” (e em alguns outros momentos), contamos com a presença digital de Ace, personagem originalmente d’As Meninas Superpoderosas, que assumiu o baixo (virtual) da banda enquanto Murdoc, da formação clássica, esteve preso. Foi quase como um presente aos fãs mais assíduos, os quais sabem quão intrincado é o folclore da banda com os personagens criados por Damon e Jamie Hewlett. Uma ode aos apreciadores dos cartoons e mais uma pecinha no quebra-cabeça perfeito idealizado por essas mentes brilhantes.

O blend perfeito entre alguns momentos dançantes, com instrumentais introspectivos e até tristes, continuou com as belíssimas “Tranz” e “Aries”, ao fim da qual Damon comentou jocosamente sobre nunca ter imaginado que o Brasil pudesse ser tão frio. Em seguida, já na sexta faixa, foi executado o primeiro grande sucesso da noite, com o frontman pegando sua escaleta para executar o lindo solo de “Tomorrow Comes Today”, que, mais uma vez, contou com a participação da audiência durante o refrão. Mais para o fim da canção, Albarn fez um solo mais longo que o da versão de estúdio, acompanhado das palmas do público, nos outorgando mais um de tantos momentos icônicos.

Além das já mencionadas guitarra e escaleta, o extremamente criativo frontman também tocou violão, teclados, sintetizadores, bateria eletrônica e até mesmo uma espécie de vuvuzela gigante (por falta de um nome melhor) ao final de “19-2000”, provando que a versatilidade é uma de suas muitas qualidades. Essa constante troca foi, para mim, análoga à mistura de emoções que a apresentação nos proporcionou, como a euforia das danças, a introspecção, a tranquilidade e as lágrimas (que veremos adiante). 

O show continuou a nos dar a possibilidade de visitar o âmago de nossas almas com as intensas “Every Planet We Reach Is Dead”, em que o vocalista, pela primeira vez, “foi pra galera”, cumprimentando e segurando as mãos daqueles que tiveram a sorte de estarem próximos ao palco, em “Rhinestone Eyes”. Em seguida, foi a vez de mais um hit: “19-2000”, durante o qual o interessantíssimo clipe era transmitido nos telões, em sincronia perfeita com os vocais de Damon, como muitas vezes foi feito ao longo da noite. Mais uma vez – e nem seria necessário dizer – a plateia se animou a dançar, pular e cantar junto o chiclete verso entoado por Noodle no clipe: “Get the cool, get the cool shoe shine…”.

As sensações diferentes continuaram a vir com os backing vocals quase fantasmagóricos em “Saturn Barz”, com a participação de um rapper na mesma canção e a dança quase que inevitável na versão extendida de “Pirate Jet”. Antes dela, porém, Albarn já havia proporcionado mais um momento emotivo tocando o piano na introdução da belíssima “O Green World”. Contudo, foi logo depois dessa balada que até mesmo para os mais durões hão de ter vindo as lágrimas, quando ele pegou seu violão e executou o profundíssimo combo “On Melancholy Hill” e “El Manãna”, quando vi muitos espectadores a se abraçar, abraçar seus amigos, pais e filhos, e também a chorar copiosamente. Como poderia ser diferente? 

Foto: Kenia Cordeiro

O primeiro ato, por se dizer assim, foi encerrado logo em seguida com “Kids With Guns” e então vimos uma animação de um elevador subindo, nos levando, metaforicamente, para um novo momento naquela performance. Antes, porém, de falar sobre a segunda metade do show, devo me desculpar por ter, provavelmente, voltado todas as atenções deste texto para o líder Damon Albarn, assim quase menosprezando a banda que o acompanhava. Quando se trata de um dos gênios da música contemporânea, é difícil não se voltar para ele, mas afirmo categoricamente que os outros músicos ali presentes estavam totalmente à altura. O baixo cheio de efeitos de Seye Adelekan e seu incrível solo em “Aries”, a percussão muito presente do sempre sorridente Remi Kabaka Jr., que tocou até mesmo um udu em “Saturn Barz”, e as backing vocals espetaculares, que roubaram a cena com uma performance espetacular em “Kids With Guns”, são só alguns exemplos do que vimos na última quarta. Além do seu talento como músico e compositor, podemos ver que Damon também tem na escolha de suas companhias musicais mais uma qualidade.

Outro predicado do artista britânico é saber a hora de deixar que outros apareçam, e essa foi a toada para o “segundo ato”, com as participações extremamente animadas dos rappers Pos e Bootie Brown, nas dançantes “Superfast Jellyfish”, “Feel Good Inc.” e “Dirty Harry”, em que cativaram o público de uma maneira ainda não vista na noite, arrancando gritos de emoção, pulos, danças, ovações e euforia. Em “Dirty Harry”, especialmente, com a ajuda das já mencionadas backing vocals, parecia estar ouvindo a música diretamente do CD, mas com o tempero digno de um chef da animação de Bootie Brown. Foi um show dentro de um show a participação dos artistas estadunidenses.

O clima voltou a ficar um tanto mais pesado, mas de um jeito bom, com “Momentary Bliss” e“Plastic Beach”, e após um curto agradecimento, os músicos se retiraram brevemente. Em seguida, veio o encore, para o qual, na humilde opinião deste redator, não poderiam ter sido escolhidas canções melhores. O retorno ao palco se deu com a charmosa “The Pink Phantom”, com a participação, pelo telão, da versão animada de ninguém menos que Elton John, que também contribuiu com a versão de estúdio. Em seguida, veio “Stylo”, com seu incrível videoclipe passando ao fundo, o que representou mais uma participação virtual icônica: Bruce Willis, desta vez. O clima estava perfeito e todos ansiavam pelo que já sabiam que estava por vir.

A derradeira obra a ser tocada não poderia ser diferente: “Clint Eastwood”. Nela, vimos novamente a animação e energia de todos os membros reais do Gorillaz, enquanto víamos as caras e bocas de Murdoc e a introspecção de 2-D no telão. Além disso, contamos com a participação de Russel Hobbs, digo, do rapper Sweetie Irie. No final, veio a versão remixada da canção, e o rapper junto do próprio Damon animando o público a cantar de forma acelerada a icônica estrofe “I ain’t happy, I’m feeling glad…”, momento que se entendeu consideravelmente, já que nem o público e aparentemente nem a banda queriam que a noite chegasse ao fim. Novamente, com a intensa colaboração da plateia, contudo, chegou, com mais um agradecimento de Albarn e outra salva de palmas. E esse foi o Gorillaz, pela primeira vez em nossa capital.

Em seguida, acenderam-se as luzes da Pedreira Paulo Leminski e se pôde ver um público, com o perdão do neologismo, catartizado. Catarse, na essência, significa a purificação dos sentimentos, e a lista dos quais nos proporcionaram Damon e Cia. seria infinita. Sendo assim, a sensação do final não poderia ser diferente, nem tampouco mais intensa e singular, colocando enfim e, pela primeira vez, uma banda virtual no rol das grandes, memoráveis e fatídicas apresentações que já passaram por nossa querida cidade. Diferente da maioria delas, com toda certeza, mas de modo algum menos importante.

Repertório:
M1 A1
Strange Timez
Last Living Souls
Tranz
Aries
Tomorrow Comes Today
Every Planet We Reach Is Dead
Rhinestone Eyes
19-2000
Saturnz Barz
Glitter Freeze
Cracker Island
O Green World
Pirate Jet
On Melancholy Hill
El Mañana
Kids With Guns
Andromeda
Superfast Jellyfish
Feel Good Inc.
Dirty Harry
Momentary Bliss
Plastic Beach
The Pink Phantom
Stylo
Clint Eastwood

Confira a galeria de fotos:

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