[Cobertura] Bandas superam dificuldades técnicas no Odin’s Krieger Fest

Odin’s Krieger Fest
John Bull
Curitiba/PR
16 de junho de 2022

Texto: Gustavo Abiner e Kenia Cordeiro
Fotos: 
Vicente Filizola

Na última quinta-feira (16/06), as bandas Hugin Munin, Terra Celta e Corvus Corax subiram ao palco John Bull, na Odin’s Krieger Fest 2022. Contudo, uma possível falta de documentação por parte da casa encurtou drasticamente as apresentações das últimas, tirando do público o que teria sido uma experiência incrível, dada a excelência que os artistas demonstraram mesmo com tamanha adversidade.

Era um festival de música folclórica como manda o figurino. Sons de flautas e gaitas-de-foles, armaduras e lanças por todas as partes, e pessoas que pareciam ter vindo da Terra Média bebendo hidromel em guampas. Lá pelas 18h00, os santistas da Hugin Munin iniciaram sua apresentação, a qual foi consistente do início ao fim e, embora a própria banda já tenha recusado publicamente os rótulos de Viking e Folk Metal, combinou perfeitamente com o clima do evento. Em seguida, foi a vez da Terra Celta subir ao palco, mas ainda antes que isso acontecesse, já víamos alguns policiais andando pela casa. Ao fim da quinta canção, o frontman Elcio Oliveira teve de anunciar a todos: por problemas com a lei, teriam de parar o show. O Corvus Corax viria a tocar, em seguida, mas também tendo de interromper abruptamente sua apresentação após meia-dúzia de músicas.

Os problemas, na verdade e como deve ter percebido o leitor mais atento, começaram ainda antes de abrirem-se as portas, afinal o local do evento fora anunciado como o CWB Hall, e a mudança para o John Bull foi comunicada apenas três dias antes do festival, muito discretamente num post nas redes sociais. Quase como um presságio, muitos espectadores se dirigiram até a casa original, enfrentando trânsito pesado causado pelas celebrações de Corpus Christi, e foram, enfim, informados sobre a mudança. Contudo, isso e também pequenos problemas com o som se tornariam totalmente irrelevantes, pudessem as bandas terem feito seus shows normalmente.

Do que se pode elogiar (as bandas):

Embora os três artistas, em maior ou menor grau, se encaixassem bem dentro da temática da Odin’s Krieger Fest, em termos de sonoridade o line-up se mostrou bastante variado, a agradar todos os gostos dentro da cena Folk. Para aqueles que gostam de peso, drives e gutural, a banda Hugin Munin entregou tudo isso e mais um pouco. Aos amantes da música folclórica mais jocosa e dançante, não teria como dar errado com a Terra Celta. E, por fim, para os mais medievais (e apreciadores de gaitas-de-foles), estava ali a atração internacional Corvus Corax. Uma escalação diversa, mas coerente, com cada parte voltada para um subgrupo da audiência e como um todo agradando a maioria dela, pelas reações que vi durante todas as performances.

A abertura, como já disse, ficou incumbida da Hugin Munin, banda de Metal do litoral paulista, elegantemente nomeada a partir do corvos conselheiros de Odin, o qual está quase sempre presente nas letras da banda. Os músicos entregaram uma apresentação sólida e intensa, contado com a participação frequente do público nos “heys!”, mosh pits e até mesmo numa pequena versão da “wall of death” que o vocalista Surt tentou (e conseguiu) coordenar ao fim do show.

Trata-se de uma banda interessantíssima, que certamente deveria ser mais popular. As duas guitarras, por exemplo, estavam muito bem sincronizadas e com timbres pesados e robustos, nas mãos de Thorgirm e Hjalmar, que alternavam base e solo. Foi com Surt, porém, que me surpreendi ainda mais. Seu vocal gutural pesado e forte se encaixava perfeitamente em cada canção, não desafinando em momento algum, e soando, ainda mais que os outros músicos, mais aparente que nas gravações de estúdio.

Em seguida, subiram ao espremido palco do John Bull os londrinenses da Terra Celta e mesmo aqueles que não apreciam tanto o estilo da banda têm de admitir que o que esse quinteto faz em suas apresentações é absolutamente singular. O carisma do vocalista e multi-instrumentista Elcio Oliveira contagia até os mais maldispostos, e sua proficiência nos instrumentos que toca é igualmente surpreendente. Acompanhado de baixo, bateria, guitarra e acordeom, capitaneou (enquanto o deixaram) uma apresentação memorável, regada a danças, risos e cantoria.

Já começando com tudo, conquistando de vez o público com canções muito dançantes e simpáticas (e engraçadas, até), como “Surdos Nós Vamos Ficar” e “O Quadrado”, enquanto Elcio alternava entre gaita-de-foles e violino (não havendo tempo para empunhar sua nyckelharpa¸ que estava ali no palco também). Mantiveram essa toada, com coros e coreografias, até o fatídico anúncio, após o qual o  frontman pediu, um pouco de improviso, um dó maior à banda e entoou o etílico hit “Até o Último Gole”. O público foi à loucura e em frente ao palco ocorreu uma espécie de “mosh do bem”, em que os espectadores se empurravam e dançavam ao mesmo, produzindo uma cena deveras pitoresca. Por essas e outras afirmo que foram dos quinze minutos mais divertidos da minha vida.

Por fim, foi a vez dos alemães entrarem em cena. Embora “Corvus Corax” venha do nome científico do corvo mais comum existente, apenas pelo visual do sexteto já é possível perceber que o grupo não tem nada de ordinário. A formação, com bateria, percussão, contrabaixo acústico, nenhuma guitarrista e três gaiteiros (de fole), corrobora com a excecionalidade da banda. Da mesma forma, a música que fazem é diferente de quase tudo que há por aí, fazendo de show uma oportunidade de experimentar algo totalmente novo.

O estranhamente carismático Castus, vocalista e gaiteiro, que sem camisa e com uma espécie de pelego sobre os ombros, parecia ter vindo diretamente de uma caçada na tundra, foi quem comandou a festa. Com vocais graves e poderosos, acompanhados por um instrumental intrincado e muito medievalesco, conquistou rapidamente todo o público, o qual, ainda mais que nas apresentações anteriores, cantava fortemente. Mesmo que não entendêssemos cem por cento de que cantavam ou diziam, a energia e voracidade que o faziam eram inegavelmente sensacionais.

Música após música a solidez só aumentava, com Hatz e Norri (bateria e percussão) comandando uma barulheira de respeito, acelerando ou arrefecendo quando necessário, e sempre num compasso lento ou moderado, o qual nos inseria ainda mais naquela atmosfera de outros tempos. Fomos, contudo, transportados de volta para nosso tempo com o enorme choque de realidade que foi a interrupção, a qual nos deixou sedentos por um show completo dos “Corvos (nem tão) Comuns” – o que intuo não deve acontecer tão cedo na capital, infelizmente.

Das adversidades

Está fresca em minha memória a cena a seguir, pois se deu há poucos dias, mas mesmo num futuro distante não a terei esquecido. Findada a apresentação da Hugin Munin, dirigi-me à área externa da casa e logo tomei um grande susto por me deparar com um punhado de policiais. Voltei à pista e mergulhei de cabeça no turbilhão que foi aquele show da Terra Celta, momentaneamente esquecendo-me daquela questão legal. Via ainda alguns dos agentes aqui e ali, mas estava totalmente concentrado em cantar e dançar.

Veio, então, o ponto sem volta, quando os músicos abaixaram o volume de seus instrumentos e Elcio explicou com toda calma e clareza a situação. Foi como uma facada no peito, a qual ainda mais dolorida dada a virtude do que assistíamos. Veio, contudo, um certo alívio quando o frontman (que foi avisado disto em cima do palco) afirmou, com satisfação, que os headliners ainda assim tocariam. Porém, ninguém parecia saber muito bem o que estava acontecendo…

Ainda que um tanto confusos, os fãs lá ficaram e rechearam ainda mais a frente do palco, a esperar a atração principal. Porém, e apesar do já mencionado quilate da apresentação do sexteto europeu, algo parecia não estar certo. Além do som não tão bem equalizado, que tirou grande parte da riqueza melódica trazida pela singular parede de gaitas-de-foles, os músicos pareciam um pouco apressados, incomodados com algo. Descobriria posteriormente que de fato estavam.

Encerrando a sexta canção, Castus muito educadamente deu o aviso o qual, apesar do Inglês carregado do vocalista, todos entenderam. Disse que sentiam muito e que esperavam poder voltar em breve, mas que não havia o que fazer. Com exímio profissionalismo, atenderam o fãs e passaram um bom tempo em frente ao pub, fumando e “trocando ideia” conosco, numa cena que só eventos assim podem proporcionar – e que nos faz pensar o quão incrível tudo poderia ter sido.

A produção, alguns dias depois,  postou uma nota de esclarecimento, que pode ser conferida no link a seguir: https://www.instagram.com/p/CfCJGh-LGXf

Conversando brevemente após o show com o gaiteiro Xandru, um mexicano que toca um instrumento escocês numa banda alemã (!), pude notar quão desapontados estavam. Disse-me que teriam tocado um repertório pelo menos quatro vezes maior, e que por ser também latino entendia como a polícia pode tornar tudo complicado em alguns momentos.

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