[Entrevista] Föxx Salema fala sobre sua carreira

Rebel Hearts

Por Gustavo Abiner

Rebel Hearts é o álbum de estreia da experiente cantora paulista Föxx Salema. Até por vir de uma vocalista que canta e compõe desde os anos 1990, trata-se de uma obra sólida, a qual flerta com vários subgêneros do rock e metal, mas que se torna coesa graças a atitude e intensidade transmitida pelas letras, que são todas compostas por Föxx.

O disco é focado basicamente nos vocais, contando solos curtos e poucos interlúdios, e por isso não se encaixa especificamente em um só gênero ou dois, já que a própria cantora afirma ter influências de muitas vertentes. A voz, na maioria das faixas, tem um estilo que lembra o Power Metal clássico, com agudos emocionantes. Contudo, a vocalista experimenta outras técnicas e timbres em alguns momentos, como os vocais um pouco mais rasgados de “Mankind” e o gutural no refrão de “Vengeance Will Come”. O instrumental flutua da mesma forma, indo para o Heavy Metal e o Hard Rock de vez em quando, e apesar de conciso, como já disse, é interessante e tem solos que, ainda que curtos, tornam as canções mais bonitas e detalhadas.

Essa diferença entre as canções, ao contrário do que se pode pensar, não é, de forma alguma, ruim, pois a consistência do álbum é garantida pela mensagem transmitida pelas letras. Nelas, Föxx expressa os percalços de sua história, soltando sua raiva em alguns momentos, mas dando conselhos e motivando o ouvinte em outros, invariavelmente de maneira intensa e sincera. “Vengeance Will Come”, por um lado, contém uma crítica ferocíssima com ecos do mau que Föxx sofreu em seu passado, enquanto “Emotional Rain” parece trazer palavras de conforto para aqueles que sofrem agora.

Todos esses aspectos convergem em “I”, que tem provavelmente a letra mais interessante do disco. De modo curto e grosso, a cantora exprime como o sistema e a sociedade a tentaram derrubar e como superou os obstáculos e o preconceito, tendo, apesar de tudo isso, vontade de seguir em frente e conquistar mais e mais. “Eu não estou no fim de minha esperança / Eu tenho muito mais a conquistar / Eu vou realizar todos os meus sonhos / Eu vivo sabendo qual caminho seguir” é o que diz o refrão, quase um manifesto de sua força que certamente tocará os corações de minorias que vivem hoje o que Föxx viveu e mostra ter superado nessa canção (e nas outras, e também em sua atitude, como um todo). De quebra, ainda conta com vocais apaixonados e um bonito solo.

O grande acerto do álbum, contudo, vem com a faixa-título, que toca já de início após ouvirmos algumas batidas de um coração, que por sinal são da própria Föxx, como para dizer de onde veio o trabalho. A quase balada conta um instrumental levemente acelerado e uma letra motivadora, os quais nos fazem sentir aquele “hype”, como dizem os jovens, que tantas canções clássicas nos trazem. A melodia é honesta e se encaixa perfeitamente, e a letra funciona tão bem que foi até adaptada para o Português, na canção “Rebelião”, a primeira da cantora em nosso idioma, a qual não faz parte do álbum.

Em suma, Rebel Hearts é uma obra sincera e de atitude, muito boa para um trabalho de estreia. Certamente, conforme Föxx ganhar mais entrosamento com seus músicos de apoio, trabalhos mais intrincados virão, mas de modo algum esse pode ficar para trás, pois se vê que contém a alma e o coração de uma energética e sonhadora vocalista. Todos os elementos estão aqui, e Rebel Hearts nos dá uma ótima esperança em relação ao Metal atualmente, que urge por uma cena mais livre e inclusiva, e a terá, no que depender de musicistas como nossa Föxx Salema.

Föxx e Cleber (Foto: Divulgação)

Entrevista

Antes de tudo, gostaria de saber como começou a Föxx Salema. Como você passou a se envolver com a música? E como o Metal entrou na sua vida?

Bom, eu canto desde criança e sempre gostei também do tema Terror, nessa época eu passava e via sem saber ao certo o que era, pôsteres do Iron Maiden na parede de uma pequena loja de discos e achava muito massa aqueles desenhos. Quando entrei na adolescência um primo meu que já colecionava fanzines do gênero e tinha vários discos, me apresentou devidamente ao Metal. Ele inclusive gravou em fita cassete o álbum “Seven Churches” do Possessed, ao qual eu pedi xerox do encarte para poder acompanhar nas letras o que era cantado. Dali para eu começar a cantar Metal e fazer shows foi algo natural, entre o “final” dos anos 90 e o começo dos 2000 (em diante), eu passei por bandas autorais e também outras que tocavam apenas covers. Já o meu nome artístico eu comecei a utilizar em meados de 2007, em 2013 lancei minha primeira música solo e em 2015 montei uma banda que levava esse meu nome e cuja formação perdurou até 2016. Em 2017 eu me concentrei em meu canal no YouTube e gravei vários covers em estúdio, fiz alguns shows em casas e festivais LGBT+s, até que em 2018 o meu marido e tecladista Cleber me incentivou a gravar um álbum 100% autoral. Lançamos o “Rebel Hearts” em 2019, digitalmente e também em CD, em formato digipak e com encarte.  Este entrou em várias listas de “Melhor álbum Nacional de Metal do Ano” e após meses, eu me tornei a artista autoral de Metal da minha cidade natal, Bragança Paulista / SP, com maior número de streamings no Spotify.

Vendo seu canal do YouTube, encontrei covers vocais dos mais variados artistas e bandas, e as próprias músicas que você já lançou contém elementos de diversas vertentes. Quais suas principais influências, em geral, e como isso impacta no seu processo criativo?

Eu posso citar dois vocalistas que influenciaram bastante a minha forma de cantar e compor Metal: o (infelizmente falecido) André Matos e também o Andi Deris. Em termos de inspirações musicais, além claro das bandas e projetos deles, eu ouço vários subgêneros de Metal, do mais clássico, melódico e tradicional, ao tido como mais agressivo, extremo e pesado. Tudo isso, mesmo que em diferentes graus, me inspiram ao compor.

Por falar em criação, apesar de estar na estrada desde a década de noventa, sua primeira canção em Português só veio em 2020. Você sentiu dificuldades em transitar para nossa língua? Além disso, é muito diferente compor em Inglês e em Português? Você acha que a tradução, ou adaptação, feita de “Rebelião” para “Rebel Hearts” pode acontecer em outras canções suas (mas de Inglês para Português, no caso)? E, por útilmo, você tem planos para mais músicas em Português?

Só uma ressalva: a Rebelião foi adaptada posteriormente a Rebel Hearts, pois esta foi composta originalmente em 2016. Mas não, eu não senti dificuldade alguma, tanto que ela é quase uma “tradução” lírica literal para a nossa língua. Quando eu componho uma letra a idéia já “vem” com a melodia vocal junto, aí eu acabo desenvolvendo e lapidando isso. No caso dela em específico, a letra em português fluiu naturalmente pra mim. Eu não sei se farei algo semelhante novamente com alguma música já lançada em inglês, mas já estou compondo (do zero) uma letra 100% em português para um single futuro.

Voltando a falar um pouco de sua história, a transição de gênero pode ser um período complicado para muitas pessoas. Gostaria de saber se a sua relação com música, tanto ouvindo quanto criando, te ajudou de alguma forma nisso?

Ah, sem dúvidas que me ajudou, a música e o canto sempre foram meus refúgios emocionais. Tanto que a grande maioria das minhas letras são sobre minhas experienciais de vida. Além claro, da minha visão pessoal sobre a comunidade LGBT+, a política, a religião “cristã” e a sociedade no geral, principalmente a brasileira.

Você foi uma das primeiras, quiçá a primeira, vocalistas transgêneras do metal brasileiro. Sendo assim, terá toda a propriedade para dizer: quão preconceituosa é a nossa cena? E qual seria seu conselho para as pessoas trans que estão começando agora?

Amem o que façam, acreditem em si e sejam verdadeiras consigo mesmas. Estudem, se empenhem, sejam perseverantes e sigam firmes e fortes! O caminho do Metal não é nada fácil, ainda mais no Brasil. Assim, estejam preparadas e sobretudo: ânimo, garra e resiliência!

Infelizmente, você sofreu ataques e até mesmo boicotes em parte do meio. Mesmo sendo uma situação que, tristemente, se repete, você crê que houve piora na cena (e em nosso país como um todo) recentemente?

Olha, na cena em si eu acredito que aos poucos a situação está melhorando, mesmo que de forma bem devagar. Isso ao meu ver se deve à uma conscientização das pessoas que fazem parte dela, e principalmente da luta diária através do ativismo de várias pessoas, eu inclusa. Já quanto ao Brasil como país, eu não sou tão otimista assim. Os danos causados por fundamentalistas, negacionistas e reacionários irão demorar anos para serem devidamente revertidos.

No ano passado, foi lançada a forte “You’re the Next”, na qual você é bem contundende nas críticas em relação ao governo atual e à situação do país. Havendo eleições nesse ano, qual é o papel da cultura e da Arte, na sua opinião, em momentos de crise com este? Haverá mais canções lançadas com essa veia?

A palavra chave é conscientização: através da cultura e da arte convidar as pessoas a questionarem e ponderarem, a analisarem com ética e lógica as situações, a voltarem a pensar por si ao invés de acatarem o que é imposto como “verdade absoluta”. Mesmo que outras(os) artistas não ajam assim, eu ajo, vide as minhas letras e os textos críticos que escrevo em minhas redes sociais. Já sobre novas músicas de mesmo teor: aguardem, no mínimo haverá conteúdo semelhante nas letras.

Retornando a temas um pouco mais leves, como é sua relação com seu marido e tecladista Cleber Magalhães? Como vocês fazem para encontrar um equílibrio entre a relação pessoal e profissional?

A nossa relação é ótima! Cleber é o homem da minha vida e o meu principal incentivador! Ele e eu procuramos sempre nos entender e aceitar as falhas e limitações um do outro. Existe um apoio mútuo, principalmente diante das dificuldades. São nas diferenças existentes que encontramos nosso ponto de equilíbrio: eu procuro ser + maleável e tolerante quanto a “imperfeições”, e ele paciente e prestativo com as minhas exigências. No final, com amor e dedicação, tudo dá certo.

E, por fim, gostaria de saber o que mais seus fãs podem esperar para este ano (e o futuro, em geral). Novos álbuns, novos estilos, experimentação, parcerias…. Quais são as cenas dos próximos capítulos?

Bom, além do futuro lançamento do meu 2º álbum / CD autoral, existem também planos para 3 singles novos e no mínimo, um lyric vídeo. A parceria musical de composição e criação instrumental com nosso atual guitarrista, o Beto Lani, está sendo muito bem produtiva.

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