[Cobertura] Com virtuose e intensidade, Angra renasce ainda mais forte

Angra
Ópera de Arame
Curitiba/PR
26 de junho de 2022

Texto: Gustavo Abiner

No último domingo (26), o Angra subiu ao palco da Ópera de Arame pela turnê de comemoração de 20 anos do Rebirth, voltando enfim à capital paranaense após três longos anos. A banda fez um show intenso e intimista, no qual tudo contribuiu para a perfeição. Como homenagem justíssima à própria história, o grupo tocou o disco na íntegra, além de uma seleção de outras canções com vários hits e uma ou outra lado b, e assim cativou o público provocando uma montanha russa de emoções e mostrando que, mesmo após todos esses anos, podemos esperar a qualidade absurda que o Angra sempre entregou, a qual parece, na verdade, estar aumentando.

A alegria mútua do retorno

Como era de se esperar, o público curitibano compareceu em peso, tendo esgotado os ingressos dias antes do evento. Mais do que isso, participou efusivamente do espetáculo, cantando praticamente todas as canções, mostrando as lanternas de seus celulares para criar aquela clássica visão e não conseguindo nem mesmo se sentar, em momento algum. Isso, é claro, é bastante esperado quando se torna a ver uma banda dessa magnitude após três anos, mas a forma igualmente empolgada com que a banda se mostrou ao público foi o que surpreendeu.

A apresentação já começou com a enérgica “Nothing to Say”, em que os músicos já corriam e interagiam entre si e com a plateia, mostrando um entusiasmo poucas vezes visto em estar sobre o palco. O público cantava o refrão com força, enquanto Fabio Lione dançava por ali e o trio de cordas (Felipe Andreolli, Marcelo Barbosa e Rafael Bittencourt) fazia poses de guitarras gêmeas e solava em sincronia. Quanto ao percussionista Guga Machado… espero que suas mãos estejam bem, pois a forma voraz como batucava era tão fascinante quanto assustadora.

Rafael Bittencourt (foto: Mari Ribeiro).

A paixão dos músicos se mostrou ainda mais durantes as canções mais emotivas da banda, como as amadas “Rebirth” e “Bleeding Heart”. Nessas, é claro, vimos os músicos invariavelmente imersos na profundidade da obra que executavam com perfeição. A faixa que dá o título à turnê, por exemplo, foi tocada com um furor quase transcendente, de artistas que pareciam estar renascendo por meio da música que vinha de seus instrumentos. Além disso, a marcante harmonia vocal entre Bittencourt e Lione, no refrão “recalling, retrieving…”, foi cantada com a mesma perfeição da versão da estúdio, mas intensificada pela emoção contida naquela performance. O público, é claro, retribui cantando a canção de cabo a rabo, como fez na maioria delas, e criando aquela bela visão com as lanternas dos celulares, bem como um isqueiro aqui e ali, como nos velhos tempos.

Em algumas músicas, fomos do entusiasmo de “Metal Icarus” à paixão de “Bleeding Heart” e então ao “como eles conseguem tocar isso!?” de “Upper Levels”, para citar uma fração da infinidade de sensações diferentes que tivemos. Sem contar aquelas presentes na jornada que é o Rebirth, tocado na íntegra e em ordem.

A virtuose inacreditável do septeto

Não há dúvidas de que tudo isso é maravilhoso e denota, para além de tudo, a nobreza dos artistas que tivemos a honra de acompanhar no último domingo. Todavia, arrisco-me a dizer que, mesmo sem a maravilhosa interação com o público, ainda teriam entregado uma apresentação ótima. Por quê? Porque estamos falando sobre cinco dos músicos mais talentosos do planeta, acompanhados, na turnê, por outros dois que sem dúvidas podem se sentar na mesma mesa.

O frontman Fábio Lione, por exemplo, foi um show dentro do show. Além de ser um animador em cima do palco, dançando, puxando palmas e interagindo com (ou “incomodando”, mas de um jeito legal) Barbosa durante os solos, o italiano também fez um pouco de tudo musicalmente falando. Seus agudos consistentes e que nunca desafinam estavam lá o tempo todo, é claro, mas ele, em diversos momentos, também mostrou sua capacidade para o canto erudito, até mesmo puxando uma ópera à capela, possivelmente de improviso, e ainda arriscou um gutural na parte cantada originalmente por Alissa White-Gluz em “Black Widow’s Web”. Sua tessitura inacreditável, escopo técnico e afinação impecável o fazem um vocalista excepcional. Mais do que isso, tornam totalmente irrelevantes as pequenas coisas como o errinho na letra de “Bleeding Heart” e a conveniente “deixa para o público” nas partes altíssimas de “Carry On”, as quais, de certa forma, dão ainda mais uma pitada de autenticidade ao cantor.

De modo muito nobre, o vocalista apresentou ao público, em momentos diferentes, os dois músicos adicionais, o tecladista Dio Lima e o percussionista Guga Machado, os quais transformam o quinteto em septeto na turnê. Os teclados são parte fundamental da maioria das canções do Angra, e Lima inegavelmente deu conta do recado, entrando com tudo naquelas seções que amamos, como a gloriosa introdução de “Nova Era” e o emocionante primeiro verso de “Millennium Sun”. Da mesma forma, Machado foi espetacular e tocou um pouco de tudo, como os icônicos batuques da introdução de “Unholy Wars”, berimbau, triângulo e até uma mini bateria para enriquecer ainda mais as linhas de Bruno Valverde. Bruno, um dos integrantes mais recentes da banda, toca como se tivesse estado sempre ali, criando com Andreolli uma das cozinhas mais frenéticas e alucinantes do Metal.

Angra (foto: Mari Ribeiro).

É com o trio das cordas, que a coisa fica ainda mais insana. A guitarra de Barbosa é poderosa e precisa, e ele pôde mostrar todo seu escopo técnico no show, com sweeps ágeis, acordes diferenciados e um tapping perfeito, como no início de “Heroes of Sand”, em que ficou sozinho com Lione no palco, produzindo um momento emblemático. Andreolli, por sua vez, toca numa velocidade difícil de acreditar aquelas linhas complexíssimas e nem precisaria solar seu baixo para se destacar, mas quando o fez, como em “Rage of the Waters” e com o tapping duplo em “Judgement Day”, foi categórico, e além de tudo até se arriscou no triângulo (!) para acompanhar o dedilhado de “Temple of Shadows”. Quanto a Rafael Bittencourt…. O que dizer sobre ele? O homem faz tudo! Bases precisas, solos poderosos, dedilhados no violão e até mesmo canta (e muito bem), tanto como um ótimo backing para Lione, quanto como voz guia, na parte de Sandy de “Black Widow’s Web”, por exemplo.

Nesse sentido, a banda proporcionou momentos que dificilmente teríamos em apresentações de outras e gostaria de destacar dois bem específicos. O primeiro foi em “Upper Levels”, canção que se destaca por sua complexidade num repertório já muito complexo, quando o trio foi à frente do palco e começou a solar aquelas linhas inacreditáveis, da segunda metade da música, e enquanto o faziam Barbosa e Andreolli conversavam quase que casualmente, como se estivessem tocando “Parabéns pra Você”, sem errar uma única nota. O segundo, uma das cenas mais angelicais que já vi, quando Barbosa e Bittencourt foram ao centro do palco e ficaram um de frente para o outro para solar em “Acid Rain”. As luzes brancas voltadas apenas para eles, a fumaça pairando no ar, a gloriosidade do que tocavam, poderiam ter ascendido aos céus a qualquer momento e ninguém acharia nada estranho.

A falta de algo para ser criticado

Que me perdoe o leitor mais purista ou exigente, mas dessa vez, não importa o quanto procure, não consigo achar defeitos na noite. Até mesmo aspectos totalmente coadjuvantes, como o clima frio e a escolha da casa, contribuíram para o clima aconchegante que um show assim intimista pede. As várias canções do Shaman tocadas no som mecânico, da mesma forma, ajudavam nessa ambientação e também prenunciavam as emoções diversas que sentiríamos.

Vanessa Rafaelly e Trend Kill Ghosts (foto: Mari Ribeiro).

Vieram então as bandas de abertura e ambas somaram demais ao espetáculo. A Trend Kill Ghosts veio com energia e entusiasmo, com o vocalista Diogo Nunes comandando a festa, encerrando de forma emocionante com a participação de Vanessa Rafaelly nos vocais, com seu belo canto lírico, sinfônico, quase Nightwish-ico. Da mesma forma, a Rage in my Eyes trouxe um Power Metal diferenciado, com instrumental e vocais de respeito, e a cereja do bolo com o “metal com gaita” das canções que contaram com o acordeonista Matheus Kleber, por quem o público chegou a clamar: “Gaiteiro, gaiteiro!”.

Rage in my Eyes (foto: Mari Ribeiro).

O Angra então subiu ao palco, e além de tudo que já apontei, traziam também um setlist basicamente perfeito. O repertório claramente estava dividido em três sessões, com duas canções fortes para iniciar com vontade, o Rebirth inteiro, e mais uma seleção de respeito de sucessos e pedradas. Ouvir ao menos uma canção de cada uns dos álbuns, incluindo daqueles mais esquecidos, como “The Course of Nature”, do Aurora Consurgens (2006), provou toda a capacidade e variedade da banda. A íntegra do Rebirth também trouxe canções que não eram tocadas há anos, possivelmente décadas, como “Visions Prelude”, e mais do que isso, foi aquela experiência profunda que é escutar o álbum de fio a pavio, intensificada cem vezes pelo poder do ao vivo e força do público.

Rafael, ao fim da execução do álbum, falou com o público palavras sinceras e poderosas. Ele explicou que, assim como o Rebirth significou uma reinvenção e literalmente um renascimento para a banda lá em 2001, aquele show funcionava de forma muito parecida, após toda a dor e dúvida que sentimos durante a pandemia, a emoção dos músicos e do público provou a veracidade de sua afirmação. Além disso, ainda deu um pequeno spoiler do que pode acontecer futuramente, um acústico orquestrado ali mesmo na Ópera. Renascendo com esse ímpeto e amor mesmo após trinta anos, vejo que a banda se renova a cada dia e se torna cada vez melhor e mais poderosa, nos entregando tudo isso no presente e nos deixando animadíssimos com o futuro. Estamos ansiosos pelo acústico.

Angra e fãs que lotaram a Ópera de Arame (foto: João Marcos Coelho/Angra).

Repertório – Angra:

Nothing to Say
Black Widow’s Web
Nova Era
Millennium Sun
Acid Rain
Heroes of Sand
Unholy Wars
Rebirth
Judgement Day
Running Alone
Visions Prelude
The Course of Nature
Metal Icarus
The Shadow Hunter
The Rage of the Waters
Bleeding Heart
Upper Levels
Carry On

Foto capa: Pri Oliveira
Foto platéia: João Marcos Coelho/Angra (@jmcoelhofoto)
Fotos shows: Mari Ribeiro

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