[Cobertura] São menos, mas ainda são Titãs

Titãs
Teatro Guaíra
Curitiba/PR
24 de junho de 2022

Texto: Gustavo Abiner
Fotos: Pri Oliveira/CWB Live

Na última sexta-feira (24/06), a banda Titãs subiu ao palco do Teatro Guaíra, pela turnê Titãs Trio Acústico. Como o nome indica, restam três integrantes da formação original, Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto, os quais, acompanhados do violonista Beto Gui e do baterista Mario Fabre, protagonizaram uma apresentação diferente, bela e intimista, uma nobilíssima homenagem aos vinte e cinco anos do Acústico MTV.

O show também marcou a volta aos palcos do baixista e vocalista Branco Mello, após sete meses sem tocar, graças a um problema de saúde.  Ser escolhida como sede de um evento tão importante é uma honra para Curitiba, que protagonizou um momento único e emocionante, com o público salvando Branco com palmas e gritos de incentivo diversas vezes ao longo da apresentação.

Os Titãs subiram ao palco com Mello no baixolão, Britto nos teclados e Bellotto na guitarra, e os dois últimos também nos vocais. O repertório foi uma grande seleção de hits das mais diversas fases da banda, incluindo alguns arranjos especiais do Acústico MTV (como “Comida” e “Go Back” em Espanhol) e também duas canções do álbum de inéditas mais recente, a ópera rock Doze Flores Amarelas. Isso tudo, e a primazia com que foi feito, cativou demais o público, que participou ativamente em todos os momentos, cantando e interagindo com o trio, e se emocionando deveras.

Há quarenta anos donos do palco

Sabemos que a palavra “intimista” está um pouco gasta, e hoje em dia atribuir esse adjetivo a um show não quer dizer muita coisa. Da mesma forma, ninguém mais acredita muito quando artistas dizem que vêm para conversar com o público, trocar experiências etc. Todavia, lhes garanto que com o Titãs foi diferente e a banda realmente cumpriu o que prometeu ao propor uma performance com essas qualidades, a qual só poderia ter sido realizada por uma banda com tanta experiência e domínio.

Foi maravilhoso ouvir as tantas histórias vividas desde 1982, as quais eram contadas quase toda a vez que a banda parava e por vezes se estendiam mais do que o normal, o que não foi, de jeito nenhum, um problema. Lá pelo final, Britto até perguntou se “estava chato” ouvir tudo aquilo, para o que o público respondeu com um “não” efusivo – e eu teria ficado muito decepcionado se o contrário tivesse ocorrido. Os músicos conversavam, riam, brincavam uns com os outros e mesmo assim não perdiam a atenção da audiência por um segundo sequer.

Aconteceu um pouco de tudo no palco do Guairão. Na primeira música, “Sonífera Ilha”, já sentimos a beleza dos arranjos, com o baixo de Mello soando deliciosamente e as teclas de Britto servindo como um complemento diferenciado, e tivemos algo relativamente com os vocais de Tony, que cantou basicamente metade das músicas do espetáculo e o fez otimamente. Sérgio, por sua vez, fez um pouco de tudo, saindo de traz de seu teclado para dançar livremente pelo palco, demonstrando sua capacidade e agressividade no voz, em canções como “Comida” e “Bichos Escrotos”, cantou uma música de sua carreira solo (“Epifania”, num momento em cada um dos Titãs ficou sozinho no palco e escolheu o que tocar) e até errou a letra de “Pra Dizer Adeus” e fez piada com a situação. Tudo isso para dizer o quanto o músico estava à vontade no palco.

Com 40 anos de estrada, não poderia ser diferente, e foi um prazer ouvir algumas das tantas histórias sobre o que aconteceu nessas quatro décadas. O trio falou de como compôs algumas músicas, explicou a origens de outras e relembrou bons momentos com membros que já não fazem parte da banda. Além disso, muito nobremente dedicaram “Enquanto Houver Sol” aos profissionais da saúde e mostraram-se muito felizes por estarem em Curitiba, lembrando do último show que fizeram na capital, na Pedreira Paulo Leminski, e do próprio Paulo Leminski, que foi muito próximo dos músicos nos anos 1980. É muito bom ouvir quem tem algo para dizer, seja por meio das músicas, seja literalmente dizendo.

Todas essas coisas, e várias outras, como a mudança da ordem do repertório quando Britto contou a história “errada”, tendo de inverter “Família” com “Enquanto Houver Sol”, provavelmente não funcionariam com outra banda, sem o traquejo e a experiência do Titãs, adquiridos em todo esse tempo. Igualmente, a banda se destaca por não se acomodar, trazendo um formato realmente diferente, com a maioria dos arranjos totalmente nova e também por estar gravando um novo álbum, como anunciou Britto durante o show, em primeiríssima mão.

Da balada à pedrada, qualidade

Das tantas bandas icônicas com as quais o rock nacional dos anos 1980 nos presenteou, arrisco-me a dizer que Titãs seja a maior hitmaker. Todas têm incontáveis predicados e por isso não ouso compará-las em relação à qualidade, mas no que diz respeito a sucessos, não vejo alguma que os tenha em maior número que o Titãs que tocaram um setlist de 22 músicas das quais apenas duas ou três poderiam ser chamadas de “lado b”. São obras atemporais essas baladas como “Flores” e “Epitáfio”, e que serviram e servem de trilha sonora para os momentos mais diversos das vidas de tanta gente, furando com veemência a bolha em que muitas vezes o rock se encontra.

Contudo, por serem canções mais comerciais (ou comercializáveis), penso que alguns dos fãs mais angariados pelo Cabeça Dinossauro, por exemplo, ou em qualquer momento mais agressivo da banda, poderiam incomodar-se com ela. Obviamente, um grupo que passeou por tantos gêneros irá desagradar alguns dos seguidores menos ecléticos, mas mesmo se tratando de baladas, termo que é quase pejorativo no meio da música menos popular, quando paramos para analisá-las com maior carinho (e o último show foi um ótimo momento para fazer isso), podemos ver que, apesar de muito mais palatáveis do que “O Pulso” ou “AA UU”, passam a quilômetros daqueles hits fast-food. “Epitáfio”, por exemplo, como apontou Britto, é uma reflexão intensa que qualquer um já fez sobre a vida, e que particularmente me atinge com cada vez mais força conforme envelheço. “Flores”, por sua vez, que sucedeu “Epitáfio” fechando com graça o show (antes do encore), contém um significado um pouco escondido o qual eu nunca tinha notado, e agora não mais poderei “desver” após o trio tê-lo apontado, novamente refletindo sobre sua obra. E se você não o conhece, tente descobri-lo sozinho, vale a pena.

São canções lindas, sem dúvidas, e o formato do show as embelezou ainda mais. “Porque Eu Sei que É Amor”, por exemplo, ganhou um coro maravilhoso do público, criando já na segunda música a atmosfera perfeita que durou até o final. “Pra Dizer Adeus”, então, teve uma roupagem nova e muito mais polida, como apontou a própria banda, rindo de como a canção fora “mal vestida” no álbum Televisão, de 1985. “Isso” também ganhou algo novo com Tony cantando, com Sérgio exclamando no final: “ganhamos um ótimo cantor”. “Enquanto Houver Sol”, “Família”, “Epifania”… a lista é imensa!

Apesar de tudo isso, sabemos que a agressividade também é parte fundamental e inerente à banda, e nem mesmo o formato acústico os impediu de a mostrarem. Na vez de Bellotto ficar sozinho no palco, ele tocou com paixão “Querem meu Sangue”, versão de “The Harder They Come”, de Jimmy Cliff, dando bons indícios das pedradas que viriam, mesmo só com seu violão. Nesse momento, o guitarrista lembrou de alguns versos da canção original, comparando-os ao momento atual, e manifestou, de forma até tímida, mas incisiva, seu desgosto com o governo atual, concordando com um fã que gritara. Com a banda toda, então, muitas vezes nem parecíamos estar num acústico, afinal tínhamos guitarra e bateria e toda a vontade do quinteto. Em “Polícia”, Tony novamente mostrou seu lado mais bruto, puxando os fãs com um “Dizem que Ela Existe…!” cheio de drives. No encore, então, a calmaria do acústico foi, por bem, esquecida, e foi a vez de Britto exibir seus coléricos vocais, em “Homem Primata” e “Bichos Escrotos”.

Essas canções de protesto (de rebeldia, na verdade, como bem apontou Tony) sempre fizeram parte dos repertórios da banda e, nesse sentido, as novíssimas “Me Estuprem” e “Canção da Vingança” se encaixaram perfeitamente. A opera-rock Doze Flores Amarelas (2018), trabalho de inéditas mais recente e do qual vieram essas músicas, infelizmente não pareceu causar o impacto imaginando, com o grupo até mesmo lamentando só terem feito dois shows nessa turnê (um deles em Curitiba, inclusive, fato que Britto lembrou com carinho). Ainda assim, as músicas ficaram e mostraram ter aquela qualidade de sempre, podendo fazer parte dos repertórios daqui para frente. “Me Estuprem”, em especial, que contou com Sérgio Britto no violão, é dotada de uma ironia provocante, quase desconfortável de se ouvir, sendo aquele dedinho na ferida que o rock de qualidade sempre se propôs a colocar. Certamente deixou, assim como a “Canção da Vingança” e as explicações dos membros sobre o trabalho, o público curioso para mergulhar de cabeça na ópera-rock.

Além disso, a banda tocou dois covers, velhos conhecidos de quem acompanha seus shows, que também cativaram demais o público, sendo eles, como disse, uma balada e uma pedrada. A “balada” foi “É Preciso Saber Viver”, de Erasmo e Roberto Carlos, e contou com o belíssimo solo de Tony o qual, como o próprio, lembrou, foi abraçado pelos compositores originais, que convidaram o guitarrista para tocá-lo em seu DVD, momento o qual Bellotto nos descreveu como um dos mais nervosos de sua vida. Já a pedrada foi “Aluga-se”, de Raul, mais uma daquelas em que a agressividade tomou conta, com Sérgio e Tony fazendo um trabalho incrível em expressá-la nos vocais.

A volta emocionante de Branco Mello

Ao final da primeira música, Britto lembrou aqueles (poucos, imagino) que haviam esquecido do fator que tornava aquela apresentação completamente singular. Lembrou-nos de que o vocalista e baixista Branco Mello estava de volta, para o que o público respondeu com uma salva de palmas, como várias vezes fez ao longo da noite – muitas delas em pé. Mello tornara a lutar contra um tumor na laringe que já o afastara dos palcos em 2018, tendo ficado, dessa vez, sete meses sem poder se apresentar. Isso obviamente deu à noite um caráter totalmente inesquecível, e deveríamos nos sentir honrados por termos recebido, o primeiríssimo show do Titãs depois de tanto tempo.

Todos sabemos como Branco é um músico completíssimo. Seu baixo, por exemplo, estava perfeito, tanto nas linhas que executava, quanto no timbre limpo e brilhante, perfeito para o formato. Sua voz, contudo, não estava ainda pronta para cantar. Porém, apesar de muito rouco, o artista fez de tudo para participar da conversa, interagindo com o público e seus companheiros de banda sempre que podia e mostrando quão grato estava em regressar àquilo que ama fazer.

Para compensar a perda (temporária, agradeçamos!) de um de seus vocalistas, a banda utilizou várias estratégias. Tony, que já vem cantando mais e mais nos últimos anos, assumiu de vez a função, ganhando mais músicas e dizendo estar muito feliz em fazer algo novo mesmo tendo 60 anos de idade. O violonista Beto Gui também ajudou, cantando, como já vinha fazendo há meses, a música “Televisão” e arrancando elogios do próprio Branco. Porém, como afirmou Sérgio, a principal artimanha foi apelar para a voz do público, que parecia, por coincidência ou não, estar cantando mais músicas e com mais intensidade do que o normal, fazendo de “Flores”, por exemplo”, uma canção que nem precisou de vocalista, em mais um momento emocionante que vivemos.

Ainda assim, Branco participou daquele momento solo que cada um dos três teve, e quando chegou a sua vez, me perguntei meio ansioso: “e agora?”. Tendo uma ideia perfeita para a ocasião, o músico pegou seu baixo (não o violão) e cantou uma canção que disse ter sido pensada para aquela voz rouca, a intrigante “Cabeça Dinossauro”, a qual arrancou aplausos sinceros de todos.

Foi maravilhoso ver a dedicação e vontade do baixista em demonstrar sua arte. Além disso, pudemos ver demonstrações sinceras de amizade entre o trio. Os músicos brincaram uns com os outros, apontaram suas qualidades e se mostraram especialmente felizes com a volta de Branco. Britto lembrou que a doença poderia ter tirado até mesmo a fala do cantor e encheu a boca para falar a palavra “curado”. Tony, por sua vez, abraçou o baixista com carinho ao voltar para o palco depois de “Cabeça Dinossauro”, protagonizando um momento puro e singular.

A parte todos esses, um momento épico ficou guardado para o final. Numa espécie de jam em “Bichos Escrotos”, os músicos foram para a frente do palco e Branco ficou em pé no centro, numa pose triunfal, solando em seu baixolão, enquanto Sérgio e Tony diziam palavras de incentivo e interagiam com o público. Se alguém ainda tinha dúvidas sobre a resiliência da banda, pudemos ver ali que apesar de tudo, dos males, das saídas, do tempo, eles continuam a ser os deuses do rock nacional que sempre foram. Deuses não, Titãs.

Repertório:

Sonífera ilha
Porque Eu Sei que é Amor
Go Back [Spanish version]
Isso
Comida
É preciso saber viver
Epifania
Cabeça Dinossauro
Querem meu sangue
Família
Enquanto Houver Sol
Me Estuprem
Aluga-se
Polícia
Pra Dizer Adeus
Canção da Vingança
Marvin
Televisão
Epitáfio
Flores
Homem Primata
Bichos Escrotos

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