[Resenha] The MothMan Curse une peso e modernidade em seu álbum Lie, Pt.1

Por Gustavo Abiner

Lie, Pt.1 é o terceiro álbum da banda italiana de Nu Metal The MothMan Curse, lançado neste ano. Trata-se de um disco bastante coeso, que representa uma evolução em relação aos trabalhos anteriores e mostra a capacidade do grupo de variar. O full-length se enquadra muito bem naquele Nu Metal tradicional, lembrando um pouco bandas como Slipknot ou Korn, com muitos traços de Groove Metal e também Death, aqui e ali.

O que surpreende no álbum, e o torna muito interessante para ouvir de cabo a rabo, é a capacidade da banda de inventar dentro do gênero. A sincronia perfeita entre a guitarra de M.J. e o bumbo de Coldface, sempre variando o estilo e criando bases diferentes, é o que dá liga ao disco, com aquelas clássicas mudanças de velocidade e alguns breakdowns servindo como um ótimo tempero. Por cima disso, temos um belo baixão, e também os vocais precisos e variados de Rat.

A faixa de abertura, “317”, talvez não dê uma dimensão muito boa de tudo o que se pode ouvir no disco, mas em “Hate!”, a coisa já fica muito boa. Com um início mais compassado e então guitarra e baixo entrado com tudo, numa mudança de ritmo precisa, a faixa contém várias das coisas incríveis que a banda é capaz de produzir. Rat vai do gutural a um vocal mais limpo, e também àquela voz tranquila com efeitos, como tantas vezes vimos com Corey Taylor, no Slipknot, mostrando toda sua capacidade. Slipknot, na verdade, é a melhor comparação que se pode fazer com The MothMan Curse, com todo o peso e raiva se misturando a algumas partes mais calmas.

Os riffs diferenciados também estão muito presentes, fazendo com que a banda quase sempre fuja daquela base tradicional, e por vezes meio insossa, que tantas vezes encontramos por aí. A própria “Hate!” é cheia dessas escalas e em “React” se dá o mesmo, mas com os belos agudos da guitarra de M.J. “Darkness Inside” também é um ótimo exemplo de como a banda usa uma progressão clássica (i – VI – V, para os mais traquejados, que é mesma que dá o “tchã” em “Children of The Grave”, do Black Sabbath, para citar um exemplo), mas a deixa mais moderna e interessante com os já citados riffs precisos e bem compassados.

Ainda sobre “React”, essa foi a música escolhida para o videoclipe, e funciona muito bem para tal. Os graves da guitarra e do baixo de Ghost criam uma atmosfera imersiva, e contrastam com os riffs agudos, dos quais falei antes, e o vocal quase que tranquilo de Rat, que depois se torna muito mais agressivo. Na verdade, esses são os dois aspectos essenciais do álbum. Rat, indo de um vocal totalmente limpo para um gutural bastante grave, às vezes usando efeitos e até chegando perto de um screamo, e também a imersão quase mística criada pelos graves distorcidos, fruto da ótima mixagem do disco, que permite que os agudos, que aparecem aqui e ali, se destaquem muito.

Outras faixas mostram ainda mais sobre a criatividade dos Italianos. “317”, por exemplo, tem um pouquinho de tudo, se tornando um pouco menos coesa que o resto do álbum, mas ainda bem legal. “DeathRaw”, por sua vez, impacta pela velocidade e aqueles pedais duplos que tanto amamos. Contudo, é em “Have you Decided to Love?” que vejo o ponto alto do disco, com riffs acelerados, Rat mandado ver nos guturais, o baixo de Ghost entrando com tudo e as mudanças de velocidade coordenadas pela “batera” de Coldface sendo perfeitas para nos imaginarmos batendo cabeça com vontade num show. É uma faixa que vale a pena e surpreende pela maturidade e camadas.

Ao final, nas faixas que servem como um bônus, ganhamos de presente conhecer um lado totalmente diferente da banda. “Hope” e “Hypnotic Rain” são regravações do álbum Hope (2018), e funcionam quase como baladas, com uma guitarra bem melódica e com solos flutuantes, e vocais limpinhos (na maior parte) e muito bonitos, fugindo totalmente do peso constante do álbum e apresentando um lado que pode servir de porta de entrada para aqueles menos iniciados. “Screaming”, também uma regravação, já se encaixa mais no álbum atual, com vocais rápidos e uma progressão bem quebrada e interessante.

Em geral, o disco funciona bem demais, especialmente para os amantes do metal mais moderno, com elementos clássicos aqui e ali. Além de ser muito bem gravado, mostra a criatividade e a evolução da banda, que demonstra talento e consistência. The MothMan Curse não perde em quase nada para as grandes do gênero, e é questão de tempo para que um álbum tão preciso com “Lie, Pt.1” caia nas graças do público. Esperamos que a parte dois venha logo, e que seja tão boa quanto ou ainda melhor.

Entrevista:

Eu gostaria de começar bem do começo. Como era o projeto de 2008? De quais bandas vocês faziam covers naquela época? E quão diferente é a banda hoje em dia do que era quando vocês começaram?

Oi, gente! Eu sou o Rat (vocal), muito obrigado pela oportunidade. Sim, o projeto começou em 2008/09 e acabou alguns anos depois. Nós tocávamos covers de artistas que gostávamos, por exemplo Devil Driver, Lamb of God, etc, e algumas de nossas músicas. Tudo que foi escrito nesse período é amplamente apresentado no nosso primeiro álbum, Hope. Hoje em dia, embora nossa formação seja quase a mesma, nós crescemos muito musicalmente e encontramos nosso próprio estilo.

Até onde eu sei, se fala sobre o “Mothman” [homem-mariposa] praticamente só nos EUA. Como uma lenda Estadunidense foi nomear uma banda Italiana? Em outras palavras, por que vocês escolheram esse nome? Tem algo a ver com o filme de terror menos conhecido de 2014?

Tudo começou com uma paixão por Creepypastas. Era uma história que nos intrigava muito. Primeiro o nome era só “MothMan”, mas depois nós fomos aconselhados a colocar algo mais e então colocamos “Curse”. Infelizmente não sabemos nada sobre o filme 🙂

Vocês também têm uma estética muito particular, mostrada por meio das máscaras, dos videoclipes e das capas dos álbuns. Quais são as inspirações e razões por trás disso?

Nós usamos máscaras porque em nossa opinião toda pessoa se esconde atrás de uma máscara todos os dias. Nós simplesmente relevamos nosso lado oculto.

Agora, enfim falando de música. Vocês parecem ser compositores muito produtivo, pois lançaram três álbuns em apenas cinco anos (e poderia ter sido mais, não fosse pela pandemia, creio eu). O que vocês fazer para conseguir se manter fazendo música tão frequentemente? Onde vocês encontram essa criatividade?

Tudo vem de um riffzinho ou pedaços de músicas. Daquela pequeno fragmento, você está na sala do ensaio e todo mundo coloca suas ideias. A gente encaixa tudo e é isso 🙂

Certo ou errado, nós frequentemente tentamos categorizar artistas e bandas usando palavras como “Symphonic Death Metal”, “Gothic Black Metal”, etc. Vocês se irritam quando as pessoas tentam rotular vocês com essas palavras? E, usando elas ou não, como vocês descreveriam a música que fazem?

Realmente nos chamaram de muitos jeitos hahaha, Nos honestamente não ligamos, porque variamos entre muitos gêneros. Na nossa opinião, um bom rótulo poderia ser “Groove Nu Metal”.

Pelo que eu vejo, baseado em músicas como “Hate” e “DeathRaw”, a música de vocês está ficando mais pesada, mais bruta, até. Vocês concordam com isso? Se sim, foi intencional? O que podemos esperar da segunda parte de “Lie”?

Foi tudo intencional. Nós sempre falamos sobre problemas como morte, ataques de pânico, sentir que não pertence a este mundo ou esquizofrenia. Com esse álbum, em vez disso nós quisemos falar sobre raiva. Raiva de uma pessoa que te afetou completamente ou raiva de um comportamento que achamos que não é bom. Bem ali no meio também tem algumas músicas para fazer as pessoas reagirem (como nossa música “React” [reagir]). A segunda parte do Lie, por hora posso dizer que vai seguir a mesma linha, mas com algumas melhorias.

Ainda falando da música de vocês, mas agora mais por curiosidade, quase tudo que vocês produziram é em Inglês, o que é totalmente justo, mas vocês têm planos de lançar músicas em Italiano, ou até em Friulano. Tem bandas de metal extremo que cantam em Italiano pelas quais vocês foram particularmente inspirados?

Nunca se sabe. Talvez algo legal saia também. Com certeza não em Friulano. Tem algumas bandas aqui na nossa área que fazem Death Metal em Friulano, mas por melhores que elas sejam, na nossa opinião é uma língua muito cacofônica para cantar.

Falando de música ao vivo agora, há uma tendência que as oportunidades de show aumentem agora que o vírus está perdendo força. Vocês pretendem fazer mais shows neste ano ou nos próximos? E festivais, vocês gostariam de tocar no Wacken, no HellFest, etc?

A gente espera tocar o máximo possível. Nós amamos estar no palco e amamos nos divertir com as pessoas. Se aparecesse uma chance de tocar num desses festivais grandes, nós certamente seríamos as pessoas mais felizes do mundo 🙂

E, para terminar, como um fã brasileiro, eu tenho que perguntar: vocês querem vir para a América do Sul algum dia? Por quê ou por que não? E, se sim, quando?

Mas eu adoraria ir para a América do Sul hoje também. Meu pequeno problema é que eu definitivamente não sou um fã de avião 🙂 mas mais cedo ou mais tarde eu também vou superar meus medos.

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