[Resenha] Um documentário em forma de disco: Symphonity evolui e inova em trabalho mais recente

Por Gustavo Abiner

O álbum Marco Polo: The Metal Soundtrack é o terceiro full-length do Symphonity, banda tcheca de Power Metal. Mais do que uma evolução em relação aos trabalhos anteriores, o disco representa uma leve mudança de rumos para o grupo, mostrando um lado muito mais inventivo, mas sem se tornar estranho ou difícil de ouvir. Como tantos outros álbuns conceituas, a experiência de Marco Polo: The Metal Soundtrack torna-se absurdamente mais interessante que se escuta do início ao fim e em ordem, ainda que várias das faixas também funcionem muitas bem sozinhas.

Como o nome implica, o álbum todo é dedicado a contar a história do explorador Marco Polo. Para fazê-lo, a banda lançou de vários elementos, como as letras, é claro, alguns elementos musicais (dos quais falarei a diante) e algo que poucas vezes encontrei em discos: um narrador, que adiciona detalhes à narrativa no espaço entre as músicas. Trata-se, por certo, de uma escolha pouco comum, mas que, embora seja um pouco estranha a princípio, acaba por dar um toque especial à experiência, especialmente pela ótima escolha do dublador, e adiciona ao caráter fílmico do disco.

Na música, diversos timbres, escalas e até técnicas, normalmente relacionadas diretamente aos países que o viajante italiano visitou, são utilizados para melhorar a ambientação – termo mais utilizado no cinema, mas que faz todo sentido aqui. Em “The Plague”, por exemplo, é utilizado aquele tema árabe (que normalmente chamamos de “egípcio”, que conhecemos muito bem, enquanto em “Mongols”, ouvimos canto gutural mongol ao longo de quase toda a canção. Além disso, a velocidade das músicas também é congruente aos temas, havendo faixas como “Dreaming of Home” e “Prisoner”, muito compassadas e quase românticas por contarem aquela do período em que Marco Polo viveu na China sem poder regressar para sua casa e esta de quando ficou preso durante a guerra em Gênova.

Vários outros aspectos da obra, os quais não estão diretamente relacionados ao tema central, também se destacam. Um exemplo disso se dá na dinâmica entre os dois vocalistas, algo não tão usual em bandas de metal. Konstantin Naumenko e Mayo Petranin se alternam entre aquele vocal limpo e agudo, o qual nos acostumamos a ver nos refrãos de Power Metal, e uma voz grave e cheia de drives, que dá ao disco um tempero especial, muito por não ser tão comum ao estilo. A guitarra do líder Libor Křivák também é um dos pontos positivos, com solos precisos e muito velozes na maioria das faixas. A mezzo-soprano Jana Hrochová, convidada especial, da mesma forma traz novas notas à história, com sua voz quase angelical.

A banda se descreve como Power Metal Sinfônico, e é difícil discordar disso. As músicas contém todo aquele aspecto épico, de grupos como Angra e Stratovarius, por exemplo, com diversas inovações e sem perder o rumo. Aqueles refrãos em coro, cheios de animação, dos quais só não gosta quem já perdeu a fé na vida, estão ali presentes também, em faixas como “The Plague” e “I Found My Way Back Home”. Essas duas, na verdade, são provavelmente aquelas que melhor funcionam sozinhas (i.e. ouvidas sem o restante do álbum), contendo vocais sublimes e solos incríveis de guitarra, baixo e teclado.

Quanto às faixas menos comercias, creio que nenhuma, exceto a abertura e o encerramento, e também o interlúdio “Love Theme”, que servem propósitos muito específicos para a história contada, deixaram de funcionar se ouvidas sozinhas. Dito isso, “Mongols” é um prato cheio para os amantes de construções menos ortodoxas. A música tem mais de dez minutos e é uma jornada épica em que se pode ouvir um pouco de tudo. Instrumentos diferentes, um coral quase místico lá para o final e sobretudo o canto mongol tornam tudo muito mais interessante e dão a faixa aquele caráter de “nunca ouvi nada parecido antes”, o que normalmente (e neste caso) significa um elogio e tanto, especialmente dentro de um subgênero já tão testado. Além disso, o baixo de Tomáš Sklenář, embora nem sempre tão presente em outros momentos do disco, é simplesmente sensacional na canção.

O aspecto “sinfônico” fica por conta dos arranjos orquestrados que a maioria das faixas tem. Křivák, líder e fundador, cuida também dos teclados, e a admissão do tecladista Johannes Frykholm, membro mais recente, parece ter consolidado ainda mais esse lado da banda, com o piano de músicas como “Dreaming of Home” contribuindo da mesma forma. Essa cançao, além de “Mongols” e “I Found My Way Back Home”, conta com uma versão orquestrada, a qual há de ter tornado tudo ainda mais lindo, mas que só está disponível na versão física do disco.

A banda trocou de formação inúmeras, com nenhum integrante além do líder Libor Křivák estando presente tanto em Marco Polo: The Metal Soundtrack quanto em King of Persia (2016), o álbum de inéditas anterior. Apesar disso, a banda mostrou uma consistência impressionante, com um trabalho melhor que os anteriores e conectado do início ao fim pelo trabalho feito em prol da ambientação. Sem contar, é claro, com o tema escolhido, já que é a história de Marco Polo é interessantíssima, e a forma escolhida para conta-la também foi. Em suma, trata-se de uma obra completa, com a seriedade de um documentário, tendo fatos narrados (às vezes literalmente) do início ao fim e ordem cronológica, mas com a emoção e imersão do Power Metal clássico.

Faixas:

01. Part 1: Venezia

02. Part 2: Crimson Silk

03. Part 3: The Plague

04. Part 4: Love Theme

05. Part 5: Mongols

06. Part 6: Dreaming of Home

07. Part 7: I Found My Way Back Home

08. Part 8: Prisoner

09. Part 9: Venezia Finale

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