[Cobertura]Max & Iggor Cavalera quebrando tudo no aniversário do Roots

Max & Iggor Cavalera
Live Curitiba
04 de agosto de 2022
Curitiba/PR

Texto: Gustavo Abiner
Foto de Capa: Pri Oliveira

Em 2022, o álbum Roots, do Sepultura, completa 25 anos. Trata-se de um trabalho icônico e sem precedentes, inquestionavelmente parte da discografia essencial do metal brasileiro – e também do thrash como um todo. Celebrá-lo, portanto, era quase uma obrigação e ninguém poderia fazê-lo de forma mais digna que os fundadores do Sepultura e principais forças criativas por trás do disco: os irmãos Max e Iggor Cavalera. Ainda que não façam mais parte da banda mineira há décadas, entregaram, na última quinta-feira (04), na Live Curitiba, uma apresentação praticamente impecável, na qual pudemos voltar no tempo e ainda desfrutar de toda a qualidade adicional que a experiência deu aos dois.

Para o primeiro show da mini turnê Return to Roots, os Cavalera se juntaram ao baixista Mike Leon, do Soulfly, e ao insigne guitarrista Dino Cazares, responsável por bandas como Brujeria e Fear Factory, os quais tornaram a apresentação ainda mais intensa. O setlist foi composto pelo Roots, quase na íntegra e praticamente em ordem, e uma seleção de outras pedradas do Sepultura e covers de respeito. Além disso, nos intervalos entre as músicas, ou nos interlúdios, Max comandou o público puxando, como que de improviso, trechos de algumas canções clássicas do metal, como “War Pigs” e “Ace of Spades” e outras menos conhecidas, como “Rios, Pontes e Overdrives”, de Chico Science.

Envelhecendo como vinho

Seria injusto dizer que os Cavalera entregaram um show “como nos velhos tempos”, pois acredito realmente que fizeram algo ainda melhor. Com, praticamente, a mesma empolgação de sempre, somada à primazia e ao traquejo que só seus quase 40 anos de carreira podem dar. Ambos deram a alma sobre o palco e nos outorgaram uma apresentação alucinante. Leon, com seu baixo soando quase como uma britadeira, e Cazares, cujo talento dispensa comentários, vibraram na mesma frequência e fizeram sua parte em dar a Max o suporte necessário para fazer o que sabe de melhor.

Max, na verdade, nunca foi conhecido por sua virtuose. Contudo, isso nunca foi um problema, já que o músico tem uma série de outras qualidades. A sua presença de palco é rara e ainda mais única foi a forma como comandou a festa, interagindo com o público, “organizando” circle pits e uma wall of death e impactando a todos com seu vocal agressivo. Sua performance vocal, inclusive, foi invejável, com guturais para todos os gostos e sempre precisos e uma intensidade poucas vezes vista. A banda já começou com “Roots Bloody Roots”, e ali sua voz ainda não estava cem por cento, mas em pouquíssimo tempo engrenou e só acertou até o final da noite, causando arrepios em hinos como “Cut Throat”, “Refuse/Resist” e “Orgasmatron” (cover do Motorhead).

Vale lembrar, ainda assim, que Max não é, de forma alguma, um guitarrista ruim. Pelo contrário, ao empunhar suas guitarras durante quase todo o show, não o fez apenas por enfeite, e pôde ser ouvido como um complemento preciso a Dino Cazares. Na verdade, ele só ficou sem seu instrumento lá para o final, quando a banda tocou “La Migra”, do Brujeria, quase como uma homenagem ao Dino, que deu, com seus backings, a única ajuda vocal que Max recebeu ao longo da noite. A música, assim como a já mencionada “Orgasmatron” e “Polícia” (clássico cover dos Titãs feito pelo Sepultura), caiu como uma luva no set, trazendo um tipo novo de peso e brutalidade à noite.

Iggor, por sua vez, está também no seu auge técnico. O Cavalera mais novo sempre foi um baterista excepcional e único, mas mostrou ter evoluído em cada um dos aspectos que sempre o destacaram. O músico melhorou as já muito intrincadas linhas de bateria do Roots, mas em nenhum momento aparecendo mais do que deveria. Mais do que isso, nos presenteou com seu timbre absolutamente singular, temperado pelo pequeno tom que usa acima do chimbal, que traz aquele elemento “tribal” às suas linhas.

Foi uma performance extremamente energética e também absolutamente precisa. Iggor mostrou sua velocidade absurda em canções como “Breed Apart” e “Refuse/Resist”, mas também conduziu com primazia as mudanças de tempo presentes em grande parte das músicas do set. Além de tudo isso, protagonizou um momento icônico quando solou tendo como base a música ritualística dos Xavantes, usada também na versão de estúdio do álbum, na faixa “Itsári”, tendo, por incrível que pareça, o apoio de seu irmão no final do solo, batucando em um dos tons e na caixa de sua bateria.

A interação entre os dois, na verdade, foi determinante para o aspecto singular da apresentação. Durante toda a noite, Max olhava para seu irmão, ou ia até ele, para sincronizar seus instrumentos e também simplesmente para interagir. Nesses momentos, ficava muito clara a gratidão que possuem em, mesmo após tanto tempo, estarem dividindo o palco e “fazendo bagunça”, como disse o próprio Max. A prova maior disso veio quando, já numa das últimas canções, Iggor pediu o microfone e lembrou o público de que aquele dia era também o aniversário do “cara mais importante do mundo”, seu irmão. Em seguida, puxou um “Parabéns pra você”, o qual o público prontamente acatou em acompanhar, e Max respondeu dizendo que guardaria aquele momento para sempre em seu coração – que honra para nós!

Muito além do Roots (e da música)

O álbum Roots é, inegavelmente, uma das obras mais espetaculares que o metal brasileiro já produziu, e seria estranho se não quiséssemos vê-lo ser interpretado por seus “pais”. Nem seria preciso dizer que o público foi à loucura com grandes sucessos como “Roots” – que abriu a apresentação como um soco nas têmporas – e “Ratamahatta”, nas quais todos pularam e os mais animados juntaram-se ao mosh gigante que se formou ali, na frente do palco.

O primeiro ato do show, por se dizer assim, foi o próprio Roots, do qual quase todas as canções fizeram parte do repertório. De seu pad, Iggor, aparentemente, comandava as partes de som mecânico do álbum, aquelas com berimbaus e outros instrumentos exóticos, enquanto Max emulava, em sua voz versátil, alguns outros efeitos, como aquela “chiadeira” insana da transição de “Breed Apart” para “Straighthate”. Contudo, mesmo nessa parte, já pudemos ver trechos de outras canções, como quando o frontman fez o público todo cantar a primeira estrofe de “War Pigs”, do Black Sabbath, no meio de “Lookaway” – durante a qual a banda também executou um trecho da pedrada “Territory”. Ele também entoou o cântico de capoeira “Paranauê”, adicionando à temática das raízes do Brasil, fundamental ao disco.

Em seguida, veio uma seleção um tanto peculiar, mas inegavelmente boa. Por um lado, foram apresentados sucessos de outros álbuns do Sepultura, como “Refuse/Resist”, a qual Max nos confessou ser sua música favorita, com um pedacinho de “Raining Blood”, do Slayer, no início. Por outro, vieram alguns lados B ainda mais pesados da banda, como “Troops of Doom”, do primeiríssimo full-length dos mineiros, o Morbid Visions (1987), a qual empolgou o público da mesma forma, com sua brutalidade visceral.

Troops of Doom, por sinal, é o nome da banda que abriu o show, capitaneada por ninguém menos que Jairo Guedz, que estava presente no primeiríssimo trabalho de estúdio do Sepultura, o EP Bestial Devastation, de 85, e também no Morbid Visions, tendo deixado a banda em 87. Os músicos fizeram uma apresentação de respeito, com Jairo dando tudo aquilo que se espera de um (virtual) fundador de uma banda desse quilate. Max, inclusive, agradeceu fielmente ao ex-colega, pedindo palmas para a Troops of Doom durante seu show, as quais a audiência entregou com vontade. Não pudemos, porém, vê-los juntos no palco, como alguns esperavam, mas ainda assim é confortante saber que lendas, como eles, andam próximas.

Creio que ficou possível entender como, entre canções do Sepultura, vinhetas e covers, o show foi muito mais completa que uma mera execução do Roots. Porém, o aspecto político também esteve presente – como sempre esteve. Não houve manifestações enfáticas, ou nominais, de nenhum dos irmãos, mas bastava ler nas entrelinhas. Para além das letras do Roots e de canções como “Refuse/Resist” e “Polícia”, essencialmente políticas, e da bandeira Antifa pendurada nos microfones da bateria, tivemos a palavra de Max Cavalera, que dedicou o show a Chico Mendes, e, além disso, lembrou que a luta indígena é tema central do Roots e reiterou a frase que está estampada em letras garrafais nas camisetas da turnê Return to Roots: “o futuro é indígena”. É muito mais que só música.

Lendários, com ou sem Sepultura

Um dos pontos altos não-musicais da noite foi o breve e emocionante discurso de Max depois do parabéns. Além de agradecer, ele nos lembrou de que dedicou sua vida inteira – mais de 50 anos de idade, 45 de metal e quase 40 de carreira – ao Heavy Metal. Mais do que suas palavras, falam tudo que já fez, compôs e entregou, e ainda entrega, sobre os palcos (e o mesmo vale para Iggor).

Durante o show, o frontman disse que o “espírito do Sepultura” estava ali presente, e isso não dá para negar. Se fechássemos os olhos – com cuidado para não tomar uma porrada, é claro – talvez seríamos transportados para o auge dos anos noventa, quando aquele quarteto icônico saía de Minas Gerais e conquistava o mundo. Abrindo-os, porém, veríamos que os Cavalera ainda estão aqui, e o que fazem atualmente não depende mais do Sepultura. Obviamente que a história em que construíram com a banda durante mais de dez anos (mais de vinte, no caso de Iggor) é inigualável, e por isso somos muito gratos por terem decidido voltarem as raízes (trocadilho intencional) e celebrarem o Roots. Porém, a família Cavalera é incrível por si só, e isso pudemos ver na última quinta.

No final do show, após mais uma “das antigas”, a velocíssima “Escape to the Void”, pudemos ver mais um membro do clã subir ao palco. Uma, na verdade, já que os músicos encerraram a apresentação de forma apoteótica da mesma forma que iniciaram, com “Roots Bloody Roots”, mas mais rápida e com a voz de Max já aquecida, dedicada a sua mãe, Vânia Cavalera.

Após a última canção e a foto de sempre, Max tornou ao microfone para puxar um coro polêmico, o qual foi timidamente aderido pelo público. Ele gritou “verdadeiro! Sepultura!” algumas vezes, para não perder o costume da pequena controvérsia de sempre. A veracidade dessa afirmação eu deixo para o leitor decidir, mas o fato é que, independentemente disso, Max e Iggor estão no rol de maiores e mais lendários da música brasileira – e cada vez mais alto.

Setlist

Roots Bloody Roots
Attitude
Cut-Throat
Ratamahatta
Breed Apart
Straighthate
Spit
Dusted
Lookaway
Itsári
Ambush
Born Stubborn
Dictatorshit
Troops of Doom
La Migra (Brujeria)
Refuse/Resist
Orgasmatron (Motörhead)
Polícia (Titãs)
Escape to the Void
Roots Bloody Roots

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