Insane Devotion – Tormento
(Mindscrape Music – nacional)
Material gentilmente fornecido por Fernando Nahtaivel
Por Clovis Roman
O Insane Devotion foi fundado em 1996, e levou quatro anos até chegar ao seu primeiro registro In Inferioribus Terrae, split com o Scorner, em 2000. Em 2005, veio Slaves Shall Serve e em 2015, Infidel. Cada um deles mostrando uma evolução constante na obra de Fernando Nahtaivel (teclado, sintetizadores e vocal), Maurício A. Laube (cordas e vocal) e Moloch (vocal). Para Tormento, o terceiro álbum completo, o Insane Devotion contou apenas com os dois primeiros, já que Moloch não pode participar do processo de gravação.
A audição da obra tem início com “Tormentas Passadas”, com uma pegada death metal, mas que logo amplia o leque sonoro com efeitos eletrônicos comedidos aqui e acolá, sem perder a força em momento algum. As partes mais doom lá pela metade engrandecem a obra, assim como a parte seguinte, brutal e tensa, antes de retomar o riff de abertura. Com mais referências do som industrial, “A Arte que me Vinga” mantém o caráter caótico, com vocais super rasgados que transcendem os limites do desespero. A abertura é memorável, e todo o restante da faixa não fica para trás.
Outro destaque em Tormento é a bateria, programada magistralmente pelo tecladista Nahtaivel, uma lenda do metal curitibano, que gravou com praticamente todas as lendárias bandas da cidade. Se no primeiro split do grupo, lá nos anos 1990, a bateria programada era a pedra no sapato, aqui tudo está redondo e clinicamente encaixado. O recurso começou a ser usado pelo Insane Devotion pela falta de músicos capacitados para tal função, e se tornou uma das marcas registradas do grupo: “Eu e Mauricio programamos bateria desde 1998, e vimos o quanto evoluiu essa tecnologia. Hoje em dia, se bem programado, é muito difícil você saber o que é real e o que é eletrônico. Hoje, os programas oferecem um recurso chamado humanize, que utilizamos, onde você programa a bateria e ela inclui desvios no andamento e dinâmica, pequenos ‘erros’, como um baterista humano toca, o que deixa muito mais real. Os samples também estão em um nível excelente. Usamos o Ezdrummer nos últimos dois álbuns, um ótimo programa. Dividimos a programação da bateria entre nós dois. Geralmente quem fazia o riff, já programava a bateria”, explica Nahtaivel.
Na mais curta canção deste disco, “Tempo sem Fim”, isto fica bastante evidente. A força aqui são as partes rápidas em profussão, como uma hecatombe nuclear, realçada pelos vocais caóticos, principalmente no refrão, com teclados aterradores. A parte mais lenta que leva ao final fs música é espetacular e doentio, com ruídos sintetizados como o último suspiro. O épico de encerramento, “Sombra Eterna”, vai crescendo de maneira custosa e imprevisível, até desembocar em um amargurado andamento doom metal. Apenas pela metade da composição temos algo mais acelerado, mas ainda bastante arrastado, e com a mescla de um riff marcante e teclado minimalista. A segunda parte aposta mais na velocidade interpolada por breves momentos mais introspectivos, sendo finalizado com mais ruídos do puro caos.
A mudança entre Infidel e Tormento é bastante notável. Lá, havia mais elementos sinfônicos e coisas que remetem ao Samael, com passagens menos extremas e até mesmo mais experimentais. Aqui, o ódio sobrepuja tudo, moldando um artefato muito mais agressivo. Não há melhor ou pior nesta comparação, apenas focos artísticos diferentes. Outra diferença notável é a ausência do vocalista Moloch (Doomsday Ceremony), responsável pelos vocais em todos os trabalhos anteriores. Todavia, Nahtaivel e Laube assumiram este cargo, dividindo a tarefa, e o resultado foi igualmente satisfatório.
Um elemento externo que agregou muito ao resultado final de Tormento foi Hernan Oliveira, um dos mais conceituados baixistas de metal de Curitiba, que integrou diversas bandas lendárias e hoje integra o Ethel Hunter. Escritor com evidente destreza com as palavras e como usá-las para se expressar, Hernan abordou o tormento da existência humana. Embarcar nestes temas é uma tarefa indispensável para assimilar o conteúdo da obra como um todo. “Ele teve liberdade total na criação das letras e temas. Inclusive, o nome Tormento só escolhemos após ler o que ele tinha escrito, pelo fato dos pontos que tratam do tormento da existência humana. Ficamos muito contentes de termos letras de tamanha qualidade em nosso álbum, inclusive soube de pessoas que foram tocadas profundamente pelas letras que o Hernan fez”, explica o tecladista. A utilização, pela primeira vez, de letras em português foi ideia dos músicos, e Hernan foi quem colocou esta concepção no papel, de maneira magistral.
O disco saiu pela Mindscrape Music (atual Metal Army), em CD com caixa acrílica, com slipcase envernizado e poster com a arte da capa (criação de Ars Moriendee, que trabalhou anteriormente com Expurgo, Infamous Glory, Outlaw, entre outros); inclusive, Tersis Zonato, proprietário da gravadora e integrante do lendário Offal e mentor do Lutemkrat, cuidou do design gráfico e layout do álbum. Trabalho esmerado de quem entende do assunto.
Ao final das contas, são cerca de 33 minutos em cinco obras reluzentes e odiosas. O som do Insane Devotion sempre foi um pandemônio maléfico, porém em Tormento, eles foram além, exponencializando todos os elementos inerentes de sua música. O resultado é um ódio musical sem precedentes. A experiência de ouvir este CD pode ser tudo, menos um tormento.
Compre o CD: https://www.metalarmy.com.br/produto/insane-devotion-tormento-slipcase-cd-poster/
Músicas
1 – Tormentas Passadas
2 – A Arte Que Me Vinga
3 – Falso Despertar
4 – Tempo Sem Fim
5 – Sombra Eterna


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