[Cobertura] Extreme Metal Carnival – Dia 2

Krisiun, Ethel Hunter, Abadon, Hokmoth, Divulsor, Postmortem Inc.

19 de fevereiro de 2023
Basement Cultural
Curitiba/PR

Por Clovis Roman

Seguindo o cronograma à risca, assim como na primeira data, o Extreme Metal Carnival teve sua derradeira noite no domingo, dia 19 de fevereiro. Se a casa já estava cheia no sábado, desta vez a coisa ficou ainda mais apinhada de gente. Tanto que o show foi sold-out, com o público esgotando os ingressos restantes na portaria.

Postmortem Inc. (foto: Clovis Roman)

A abertura da noite ficou com o Postmortem Inc., outro nome que carrega o legado gaúcho de fazer death metal brutal. Com reminiscências de Cannibal Corpse e Deicide, o som do grupo conquistou de cara com a incansável “Of Mars and Wars”, seguida pela mais técnica “Breed of the Insane”. Mesclando momentos de brutalidade, técnica e riffs ganchudos,  mostram composições que duram em média quatro minutos, e assim sendo, não sobra espaço para firulas ou enrolações. Alguns dos destaques foram a cadenciada “Disfigured in Solitude”, embebida em Morbid Angel, e “Warfield Earth”, que pareceu ainda mais veloz que no disco The Conqueror Worm (2020), do qual vieram quase todas as canções. De diferente, a saideira “Possession of Spirit and Flesh”, faixa antiga presente na primeira demo, Out of Tomb, quando ainda se chamavam apenas Postmortem. Atuando como trio, o grupo não teve baixista esta noite. O vocalista e guitarrista Bruno Añaña havia tocado na noite anterior, com o headliner Rebaelliun, outra banda que integra.

Divulsor (foto: Clovis Roman)

Na sequência, a one-mand-band Divulsor, outra sem contrabaixo, liderada pelo guitarrista e vocalista Bruno Schmidt, que toca na Ethel Hunter, já passou pelo Libidinum e teve o projeto Warclouds, uma pérola do underground curitibano. Nesta empreitada, o músico tem como foco um brutal death metal com bateria programada alicerçando os riffs de guitarra e os vocais na linha Mortician. Abriu com duas do EP Defiled Corridors of Ruptired Oblivion, a quebrada “Lascivious Repletion” e a igualmente agressiva “Perfidious Spectrum of Human Deeds” (sem as suaves camadas de teclado presentes na versão em estúdio), que mostra a habilidade em mesclar momentos velozes com outros arrastados, para então emendar faixas que estarão em um vindouro álbum. Presentes no repertório do Divulsor há algum tempo, “Derailment of Dimensions”, que impressiona nas partes velozes de bateria e com os ótimos riffs, e a insana “An Unfavorable Omen”, mantiveram o público atento. Era visível na plateia que a maioria observava com atenção, assim como a aprovação dos bangers após o encerramento.

Hokmoth (foto: Clovis Roman)

Mudando de ares, vieram dois representantes do black metal, cada um com suas peculiaridades, afinal, Hokmoth e Abadon tem pegadas com notáveis diferenças, apesar de repousarem sobre o mesmo rótulo. Fazendo o segundo show de sua carreira, a Hokmoth já havia mostrado seu poder de fogo quando realizaram a abertura do Gaerea, no final de 2022. Divulgando o EP Neophytvs, desta vez tiveram tempo de palco para apresentar composições ainda não lançadas oficialmente. O posicionamento de palco impacta de imediato, com as pinturas corporais (e não apenas corpse paint) e expressões malígnas. Abriram com a nova “Crimson Dusk”, seguindo com a mais reconhecida do EP de estreia, “Qliphothic Meditation”, que conta com partes calcadas no death metal e recebeu um lyric video quando de seu lançamento, em 2019. O trabalho foi gravado por Tati Klingel, que saiu da formação posteriormente. Para seu lugar, contaram com o apoio da excelente vocalista L. Scarlet (Alocer), que cumpriu estas duas datas. A performance dela, mesma que estática ao palco, impressiona,  e chega a lembrar o Gaahl (ex-Gorgoroth), pelos movimentos parcos e poucos gestos característicos, todavia, marcantes. A comunicação com o público foi nula, o que amplificou a aura maléfica da apresentação, afinal, tocar um black metal cavernoso e depois mandar um “valeu galera aeeeeee” realmente dá uma quebrada no clima. A preparação deles para o show é notável, não apenas as músicas são ensaiadas (e isto fica evidente na precisão das palhetadas do guitarrista Yuri Seima), mas os elementos visuais que complementam a experiência. Como destaque, além das supracitadas, a paulada cadenciada “Sekthor”, a veloz “Binamorph, Pt. II (Eros and Violence)”, as novas “Realm of Flies” e “Nox Unleashed” e a cover do Mayhem, “Freezing Moon”.

Abadon (foto: Clovis Roman)

Cavando fundo nos primórdios musicais e ideológicos do black metal, quando este ainda tomava forma de maneira desordenada e caótica nos confins nórdicos, o Abadon não abre concessões para modernidades ou fusões. A proposta é o black metal em sua forma mais profana. As vestimentas vão de encontro aos padrões do estilo, com riffs e andamentos lúgubres e vocais primitivos. A mensagem, em geral, é alastrar o mal, e a música “Mensagem do Mal” não me deixa mentir, assim como “Páginas da Mentira”, uma clara referência a um determinado livro religioso. Como destaque no campo musical, a faixa que leva o nome da banda, “Abadon”, que começa com muita velocidade e riffs característicos, e encerra com um tema mórbido e arrastado; e “Chamas da Angústia”, com suas partes dedilhadas. O que falta é, urgentemente, lançar algum material oficial nas plataformas digitais para ampliar o alcance dos hinos de Azrael (vocal), Void (guitarra), Ondska (baixo) e Perversor (bateria).

Ethel Hunter (foto: Clovis Roman)

Retornando ao death metal, tivemos o Ethel Hunter, com mais de 10 anos de atividades, que atualmente é um quinteto formado pelos guitarristas Gerson Watanabe (ex-Fornication e Anmod) e Bruno Schmidt (Divulsor), o monstruoso baixista Hernan Rodrigo (ex-Fornication e outras 30 bandas), o baterista Weliton Lisboa e a vocalista Larissa Pires. O repertório contou com boa parte das músicas do debut Consciousness Awakening (2020), como “Ignoble Redemption” e  “Relentless Hunt”, além das pedradas “Darkest Cult” e “By Nightfall”, que compuseram um show bastante homogêneo; além da antiga “No Man Is Truly Free”, do EP de mesmo nome, lançado em 2014. O setlist vem sendo basicamente o mesmo nos últimos tempos, portanto, tivemos a ainda inédita (ao menos nas plataformas digitais) “Feel the Dirt Under Your Skin”. Certamente as dimensões reduzidas do palco, uma bateria imensa ocupando espaço, pertencente ao Krisiun e a formação com cinco músicos prejudicou a presença de palco, afinal, mal havia espaço para movimentação.

Krisiun (foto: Clovis Roman)

O ápice de público e empolgação veio com o início do Krisiun, que pela primeira vez tocava na cidade após o lançamento do bom Mortem Solis (Century Media, no Brasil, lançado pela Shinigami Records). Dele, três músicas estiveram presentes, as canções 2, 3 e 4 do disco: “Serpent Messiah” (uma paulada de respeito que sugere caminhos que o Krisiun pode seguir no futuro), “Swords into Flesh” (durante a qual o microfone de Alex Camargo caiu do pedestal) e a modernosa “Necronomical”, que poderia facilmente ter sido trocada por “Sworn Enemies” ou “Worm God”.

Outro que contribuiu com três no setlist foi o clássico Apocalyptic Revelation (1998): “Apocalyptic Victory”, “Kings of Killing” (que abriu o massacre) e “Vengeance’s Revelation”. Curiosamente, deram uma boa repassada no legado do Krisiun, todavia, um álbum importante da discografia ficou de fora: Conquerors of Armageddon (2000). Faixa-homônima (e a melhor) do disco de 2018, a ultra técnica mas ainda brutal “Scourge of the Enthroned” mostra que deve perdurar por mais anos. Atuando como headliner, o trio gaúcho tocou seu repertório completo, com 13 músicas, sendo 12 delas próprias e a sempre desnecessária “Ace of Spades”, do Motörhead. Tudo bem, Lemmy é deus, o cara era foda e tudo o mais, todavia, quando vamos ver o Krisiun, queremos ouvir as criações deles, não uma cover carne de vaca.

Como recorrente nas apresentações do Krisiun, houve conversa com a galera, e Alex, visilmente animado, saudou o público curitibano e o metal: “A gente tem muito orgulho de estar aqui mais uma vez. Tudo o que a gente fez e faz até hoje só faz sentido por causa do apoio de vocês. Sabemos que este país tem um monte de problemas, mas o Krisiun é uma banda que tem orgulho de ser brasileira. Tem um monte de papagaio que fala pra caralho. Aqui a gente não fala, fazemos as coisas acontecerem. São quase trinta anos lutando pelo metal nacional. Doa a quem doer, falou mano?”. Caminhando para o fim da noite, o público ainda se quebrou ao som de “Apocalyptic Victory”, a groovada “Blood of Lions” e esgotou as energias com “Black Force Domain”, que não estava prevista no setlist. Infelizmente, havia planos de rolar “Hatred Inherit”, porém, ela acabou sendo cortada. Em todo caso, mais um massacre impetuoso, que durou cerca de 1h20, de uma das melhores bandas de death metal do mundo.

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