[Entrevista] Insane Devotion: Os atormentados infiéis do black metal sinfônico

O Insane Devotion foi fundado em 1996, e estreou com gravações com In Inferioribus Terrae, split com o Scorner, em 2000. Em 2005, veio Slaves Shall Serve, depois Infidel (2015) e por fim, Tormento (2022). Sobre este trabalho, você já leu nossas impressões na resenha publicada há alguns meses.

Agora, temos um bate papo com os cabeças desde projeto de estúdio que aposta no black metal sinfônico. A veterana banda realizou um par de shows há mais de duas décadas, e desde então, foca seus esforços em composição e gravação. Confira nossa conversa com Fernando Nahtaivel e A. Maurício Laube, na qual dissecamos o mais recente lançamento e toda a trajetória do Insane Devotion.

por Clovis Roman

Clovis Roman: O primeiro registro do Insane Devotion foi o EP In Inferioribus Terrae, com o Scorner, outra banda do guitarrista Maurício Laube. Como foi o retorno na época e qual sua visão deste EP, hoje em dia, dentro da discografia do Insane Devotion?

Nahtaivel: Esse EP foi recebido supreendentemente bem. Vendemos as cópias rapidamente e tivemos excelente resposta do público e crítica. Éramos uma banda desconhecida, sem nunca ter lançado uma demo ou feito shows. Acho que foi um ótimo cartão de visitas para a banda e até hoje ele sempre é lembrado.

Mauricio: Ouso dizer que deve ser um dos trabalhos que mais repercute. As músicas deste trabalho criaram um direcionamento para as demais composições, então ele foi realmente a nossa base para desenvolver o som da banda.

Clovis Roman: Vocês já pensaram em regravar aquelas quatro músicas, tendo em vista que hoje a qualidade técnica de gravação está muito mais avançada?

Nahtaivel: Nunca conversamos sobre isso. Particularmente eu não teria esse interesse. Eu gostaria mais de regravar alguma do Slaves Will Serve, pois com o passar do tempo fui ficando descontente com sua produção.

Mauricio: Eu creio que fazer uma nova versão, ou nova abordagem, de uma faixa seria algo interessante, mas regravar tudo não vejo muito a necessidade. Creio que o material mostra muito bem a nossa origem.

Clovis Roman: O Insane Devotion é uma banda de estúdio, basicamente, todavia, realizou um par de shows na época do EP, com Ichthys Niger na bateria. Como foram estes shows? (fale sobre locais, lembranças dos shows, enfim)

Nahtaivel: Na época do lançamento do EP eu estava tocando também na banda Evilwar. Então pudemos contar com Ichthys Niger na bateria e Azarack (O. Uber) no baixo, ambos do Evilwar e ex-Murder Rape, para fazermos os únicos dois shows da história do Insane Devotion. O primeiro show foi um evento muito marcante aqui em Curitiba. Escolhemos a sexta-feira $anta como data para lançarmos o Split-CD com o Scorner. E foi também a primeira vez que o Great Vast Forest (banda onde hoje sou tecladista) tocou em nossa cidade. Posteriormente O. Uber além de baixista assumiu o cargo de guitarrista, fazendo dupla com Mauricio Laube na banda para as composições e gravações do álbum Slaves Will Serve. O show de Curitiba estava lotado. Foi um evento que ficou na memória do underground curitibano. Fizemos também um show em Guaramirim/SC, neste segundo show Mauricio não pode comparecer, então meu irmão Adriano (na época tocando também no Necrotério), assumiu a guitarra. Ele teve de aprender as músicas rapidamente, inclusive minutos antes de entrar no palco O. Uber estava repassando alguns trechos das músicas para ele. Foi um excelente evento também, e foi uma honra ter tocado num dos templos do black metal do sul do país, que é o Curupira em Guaramirim.

Mauricio: O show de lançamento do split foi realmente marcante. Foi a primeira vez que eu tive a oportunidade de tocar em Curitiba, mesmo o Scorner não tinha tocado na cidade ainda. Lembro muito bem que foi um show muito insano, o público reagiu muito bem e foi muito legal ver as músicas tomarem corpo ao vivo. Lamento somente não ter podido tocar no segundo show, que acabaria sendo o último da banda.

Clovis Roman: Ainda sobre apresentações ao vivo: Laube mora nos EUA há anos. Todavia, vocês já cogitaram em tentar agendar alguma apresentação ao vivo em algum momento que a agenda de vocês permita? Ou vocês já assimilaram que, de fato, o Insane Devotion ficará restrito às gravações em estúdio mesmo?

Nahtaivel: Nós assimilamos a ideia de manter a banda apenas em estúdio mesmo. Eu sinto vontade de tocar ao vivo, e satisfaço essa vontade tocando com as outras bandas que também faço parte, Eternal Sorrow e Great Vast Forest. Moloch também faz shows com o Doomsday Ceremony. Para o Insane Devotion tocar ao vivo precisaríamos incorporar mais membros na banda para os shows, pois o Mauricio faz múltiplos papéis dentro da banda (duas guitarras, baixo e vocal) que ao vivo teriam de ser divididos. A preparação para os shows seria complexa também, pela divisão entre EUA e Brasil, e na minha visão só valeria a pena se fizéssemos uma pequena turnê, e não shows únicos como é a regra para a maioria das bandas nacionais.

Mauricio: Eu toquei muito nos anos 1990 com o Scorner e creio que minha cota de shows ao vivo já foram suficiente. Hoje em dia eu gosto realmente deste trabalho de estúdio. Buscar novas sonoridades, novas técnicas de gravação e toda a experimentação que os nossos estúdios caseiros nos permitem.

Clovis Roman: Slaves Will Serve foi o primeiro álbum completo. Este é o único registro em que vocês contavam com um baixista oficial. Como foi esta experiência e porque O. Uber/Azarack (Evil War, Murder Rape) não continuou nos registros seguintes?

Nahtaivel: O. Uber além do baixo gravou guitarras em dupla com o Mauricio nesse registro. Ele é um ótimo guitarrista e compositor. Somos grandes amigos desde que entrei no Evilwar em 1999. Infelizmente ele decidiu se aposentar da guitarra/baixo e não toca mais em bandas. É um grande fã e colecionador de música extrema e sempre comparece em shows do gênero. Não é por falta de insistência minha que ele não faz e grava mais músicas. Além de amigo sou fã de seu estilo de tocar e de suas composições no Murder Rape, Evilwar e do trabalho que fizemos juntos no Slaves Will Serve. Ainda tenho esperança de escutar novas músicas dele e quem sabe trabalharmos em algum projeto juntos novamente. 

Mauricio: Para mim, particularmente, foi uma experiência incrível trabalhar com o Oliver. Ele tem uma técnica e approach ao instrumento completamente diferente dos meus e creio que conseguimos complementar muito bem as duas guitarras ao material da banda, o que me fez também trabalhar um pouco diferente dos materiais posteriores.

Clovis Roman: Este álbum, na época, saiu apenas em formato digital, outra coisa bastante incomum na época. Como veio esta decisão? E qual foi o sentimento de, quase uma década de pois, poder lançar aquelas músicas em formato físico, como material bônus do álbum Infidel?

Nahtaivel: Não era o plano inicial lançá-lo apenas digitalmente. O álbum seria lançado pela Evil Horde Records, porém não aconteceu, e então em 2005, dois anos após finalizarmos as gravações, decidimos lançá-lo gratuitamente na internet. Era algo muito raro na época, não lembro de outras bandas fazendo o mesmo. Talvez por isso não teve a repercussão que poderia ter tido. Hoje em dia é algo muito mais comum e tem diversas ferramentas que facilitam isso. Quando estávamos trabalhando no Infidel percebemos que os dois álbuns caberiam em um CD único, então aproveitamos a oportunidade para poder dar uma forma física a nosso primeiro álbum.

Mauricio: Foi uma frustração enorme para a época. Investimos tanto em trabalho e suor no disco e não ver ele sair oficialmente foi duro. Mas felizmente conseguimos resolver isso posteriormente. De qualquer maneira o álbum ficou com essa cara de obscuridade por não ter sido lançado da forma tradicional até hoje tanto que sempre é uma das questões levantadas em entrevistas e conversar de bar.

Clovis Roman: Infidel saiu em 2015, mostrando uma evolução exponencial no som do Insane Devotion. Como foi lançar um novo trabalho após uma década e como foi o retorno geral do público e imprensa a este trabalho?

Nahtaivel: Após as gravações do Slaves Will Serve eu comecei a compor novamente. Fiz diversas músicas (uma delas acabamos usando no álbum Infidel, outra virou a música Killer Speaks do meu projeto industrial Nahtaivel, e as outras descartamos). Porém tivemos de dar uma grande pausa na banda, pois o Mauricio teve um problema de saúde com sua mão. Então usei esse tempo para me dedicar a meu projeto solo industrial. Quando Mauricio estava pronto novamente ele fez alguns riffs e me mostrou, com a ideia de gravarmos um novo material. Com a passagem dos anos não éramos mais as mesmas pessoas do começo dos anos 2000, tínhamos novas ideias e influências. Além de que tínhamos adquirido bastante experiência com produção sonora, o Maurício gravando com o Scorner e eu com meu projeto solo industrial. Então pudemos fazer todo o trabalho do Infidel em nossos estúdios. O que nos permitiu um tempo maior para pensarmos em cada riff e detalhe da produção. O retorno do público e imprensa foi muito bom, com muitos elogios e também surpresa, pelo retorno de uma banda que estava desativada a tantos anos.

Mauricio: Foi muito gratificante ouvir todos os comentários positivos sobre o trabalho e fez com que nos inspirássemos para continuar na batalha. Realmente o tempo e a experiência trabalhando nos bastidores nos fez atingir uma maturidade para trabalharmos da forma que fizemos esse material, que é um tanto quanto diferente da grande maioria das bandas.

Clovis Roman: Como vocês analisam a evolução ou diferenças entre Infidel e Tormento?

Nahtaivel: Eu vejo que Tormento é uma evolução e uma extrapolação dos elementos que exploramos em Infidel. No álbum anterior já estávamos colocando mais elementos de death metal em nossa música e dando mais ênfase as guitarras, e em Tormento levamos isso a um patamar ainda mais alto. Decisões que talvez tenham sido inconscientes em Infidel, em Tormento as tomamos conscientemente. Os elementos industriais também já estavam em Infidel, só que bem mais discretos. Em Tormento a gente escancarou esses elementos e tentamos levá-los a nosso limite.

Mauricio: Creio que a ideia de buscar um som mais sujo e agressivo nos levou a usar elementos industriais ao invés de sinfônicos. Como o Fernando comentou, utilizamos um pouco disso em Infidel, mas neste trabalho colocamos isso mais em evidência e em conjunto com a pegada mais death metal, funcionou muito bem.

Clovis Roman: Tormento traz mais uma mudança na formação do Insane Devotion, desta vez, no núcleo, afinal, sempre foi você, Nahtaivel, Laube e Moloch. Desta vez, Moloch não participa e vocês dois revezam os vocais. Por que isto ocorreu e como foi a adaptação para cobrir esta parte dos vocais?

Nahtaivel: Nas gravações de Tormento, Moloch estava com alguns problemas pessoais e indisponível para gravar, mas ele ainda faz parte da banda e esperamos contar com ele no próximo trabalho. Para nós dois foi tranquilo assumir essa parte, pois Mauricio já faz os vocais no Scorner desde meados dos anos 1990, e eu, em meu projeto solo desde meados dos anos 2000. Fazer arranjos vocais é algo que fazemos com facilidade. Inclusive gravamos os vocais para o álbum inteiro duas vezes. Uma versão só o Mauricio cantando, outra versão só eu. Então na versão final pegamos os trechos de um ou outro que achamos que ficou melhor. Acredito que por volta de 60% do álbum seja o Mauricio cantando, 40% eu.

Mauricio: Não foi nenhuma novidade pelo fato de já gravarmos vocais nos nossos outros projetos e mesmo nos trabalhos anteriores com Insane, já havíamos gravado algumas partes.

Clovis Roman: Tormento Foi gravado durante um período extenso, de cerca de quatro anos (2017 a 2020). O que levou a esta demora?

Nahtaivel: A composição das músicas até que foi rápido, acho que mais rápido que em Infidel, mas a produção foi bem demorada e árdua. Como fizemos em nossos estúdios, tivemos todo o tempo que desejamos disponível para analisarmos cada detalhe. As músicas e arranjos de Tormento exigiam um nível muito mais alto de produção sonora que Infidel. Os arranjos são complexos, as músicas longas, e por vezes quase uma centena de canais gravados. Chegamos em um nível que minha máquina não aguentava mais rodar o projeto do DAW (programa de gravação), então tivemos de dividir, um projeto apenas para os instrumentos, outro projeto rodando as vozes, o que deixou a parte de produção ainda mais complexa. Na parte dos teclados decidimos também trabalhar apenas com sintetizadores analógicos, o que é bem mais trabalhoso e problemático que sintetizadores digitais. Tudo isso fez com que levássemos alguns anos trabalhando nesse álbum. Mas valeu a pena, pois ficamos muito contentes e orgulhosos com o resultado.

Mauricio: Sem contar o fato da logística envolvida tendo em vista que cada um de nós trabalha em seu estúdio doméstico, que envolvem trocas de arquivos enormes, constantes mudanças para ajustes de arranjos, timbres, etc. Mas realmente nunca tivemos a preocupação em terminar o material num tempo específico. Nossa ideia sempre foi de buscar o som certo e isso para nós leva tempo.

Clovis Roman: Com faixas extensas, Tormento conta com cinco músicas e cerca de 34 minutos de duração. A que se deve esta abordagem?

Nahtaivel: Eu e Mauricio sempre tivemos a ideia de que álbuns extremos não podem passar de 40 minutos. O Deicide por exemplo, seus melhores trabalhos têm por volta de 30 minutos ou menos. Mais do que 40 minutos de blast beats intensos começam a cansar o ouvinte. Eu acho entre 30 a 40 minutos a duração ideal para um álbum de black e death metal. Ainda mais nos tempos atuais, quando as atenções são tão facilmente perdidas.

Mauricio: Atualmente as pessoas não costumam ficar ouvindo o álbum até o final só por ouvir. Então achamos que mais vale um álbum curto e consistente que longo com várias faixas dispensáveis e fillers, como se fala no mercado da música.

Clovis Roman: Outra novidade é que, neste disco, as letras ficaram a cargo de Hernan Oliveira, um dos mais talentosos músicos da cena do metal extremo de Curitiba. Como rolou esta parceria? Ele teve liberdade na criação dos temas ou vocês passaram para ele alguns parâmetros para a criação destas letras?

Nahtaivel: Quando chegou o momento de fazermos as letras em português vimos que não tínhamos capacidade para entregar algo de qualidade. Escrever em português é muito mais difícil que em inglês. Já conhecíamos e gostávamos muito das escritas do Hernan, então fizemos o convite e ele felizmente aceitou. Ele teve liberdade total na criação das letras e temas, inclusive o nome Tormento só escolhemos após ler as letras que ele tinha escrito, pelo fato dos pontos que tratam do tormento da existência humana. Ficamos muito contentes de termos letras de tamanha qualidade em nosso álbum, inclusive soube de pessoas que foram tocadas profundamente pelas letras que o Hernan fez. Temos muito o que agradecer a ele.

Clovis Roman: Aliás, este novo álbum conta apenas com letras em português. Até então, vocês nunca haviam feito ao menos uma música na língua pátria. Por que esta mudança brusca neste sentido? Qual a diferença que você vê em interpretar black metal em português?

Nahtaivel: A ideia surgiu do Mauricio. Ao escutar o álbum 1755, do Moonspell, ele sugeriu escrevermos em português. Nós achamos que iria ser difícil fazer os arranjos vocais com letras em português, mas após recebermos as letras do Hernan, fazer os arranjos foi surpreendentemente fácil. Não conversamos ainda sobre o que fazer no próximo álbum, mas eu gostei bastante de como fizemos desta vez e ficaria feliz em seguir com letras em português.

Mauricio: A ideia de usar o português foi para nos diferenciar um pouco da cena, além do fato de que o nosso idioma é muito mais rico que o inglês e com isso poderíamos também evoluir nas letras. Por muitas vezes, nos limitamos aos clichês do estilo e as composições do Hernan quebraram completamente esse padrão. Quanto a cantar, em português é muito mais simples que em inglês, pelo domínio da língua. Há quem diga que o inglês é o idioma oficial do rock pela sua métrica quase sempre padrão e de fácil adaptação a qualquer ritmo, mas o português funciona muito bem e foi uma tarefa bem divertida.

Clovis Roman: Um dos destaques deste trabalho é a bateria eletrônica, programada de maneira soberba. Nos conte mais sobre como foi este processo, tecnicamente falando.

Nahtaivel: Eu e Mauricio programamos bateria desde 1998, e vimos o quanto evoluiu essa tecnologia. Hoje em dia, se bem programado, é muito difícil você saber o que é real e o que é eletrônico. Hoje os programas oferecem um recurso chamado humanize, que utilizamos, onde você programa a bateria e ela inclui desvios no andamento e dinâmica, pequenos “erros”, como um baterista humano toca, o que deixa muito mais real. Os samples de bateria também estão em um nível excelente. Usamos Ezdrummer nos últimos dois álbuns, um ótimo programa. Dividimos a programação da bateria entre nós dois, geralmente quem fazia o riff já programava a bateria.

Clovis Roman: Ainda sobre a bateria eletrônica: Desde os primórdios o Insane Devotion usou este recurso. No EP de estreia, bateria eletrônica ainda era um tabu no meio do metal extremo, por exemplo, o Sarcófago usou e foi bastante criticado por isto. Por que vocês optaram por seguir usando este recurso e como foi a evolução disto no decorrer das décadas?

Nahtaivel: Nós começamos a usar bateria eletrônica por absoluta falta de opção. No início tivemos diversos bateristas na banda, mas quando um era bom em blast beats, tinha defeitos com linhas lentas. Quando era bom em linhas cadenciadas, não fazia blast beats e bumbos duplos como desejávamos. Então para chegar na visão que tínhamos de nossas músicas tivemos de usar o recurso de bateria eletrônica. Nós sempre utilizamos abertamente esse recurso, mas quem trabalha com produção musical no meio do metal sabe, a esmagadora maioria das gravações modernas do estilo usa recursos eletrônicos na bateria. Ou totalmente programada, ou substituição por samples, ou correção de tempo (quantização) do áudio gravado. É extremamente raro hoje um álbum de metal que não faça uso dessas ferramentas. Valeu Clovis e Acesso Music pelo apoio em todos estes anos e o espaço cedido para nós. Muito obrigado mesmo!!!

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