[Cobertura] Angra Fest deixa na memória shows intensos do Viper e do Angra

Angra Fest
Angra + Viper + Matanza Ritual + Electric Mob
25 de março de 2023
Jockey Eventos – White Hall
Curitiba/PR

Por Clovis Roman e Kenia Cordeiro

Viper

Precursores do metal melódico no Brasil, o Viper abriu o caminho que o Angra trilhou alguns anos depois. Fundada nos anos 1980,  lançou dois álbuns fundamentais do estilo, Soldiers of Sunrise e Theatre of Fate, que chegaram ao outro lado do mundo, o Japão. Em meio a idas e vindas, o Viper segue na ativa e promete finalmente para 2023 o novo álbum, Timeless. Do ainda inédito trabalho, veio a abertura com a grudenta “Under the Sun”, bastante empolgante e chamando o público de maneira contundente. Daí para frente, um desfile de clássicos atemporais, tanto sons da fase André Matos quanto petardos dos anos 1990, quando o Viper deixou a pomposidade de lado e apontou para algo mais direto ao ponto, flertando com o hardcore.

A speed metal “Knights of Destruction” e a épica “A Cry from the Edge” nos levaram a uma viagem ao passado, com uma banda redondíssima e um vocalista que teve ótima interpretação, bastante técnica e coadunada com as gravações originais de Matos. Da fase com Pit Passarell nos vocais, “Evolution” soou ainda mais gigante ao vivo, assim como a pancadaria alegre de “Coma Rage” e a simples e fulminante “Rebel Maniac”, que encerrou o curto repertório.

Ainda tivemos tempo para a primorosa “To Live Again”, que a banda regravou em 2019 com o adendo “Redux” no título. Em Curitiba, todavia, interpretaram a versão original; e “Living for the Night”, meio balada, meio power metal, que se tornou o maior hino do quinteto. Nessa, todos os integrantes foram à frente do palco para cantar perto do público os versos iniciais, em uma bela homenagem ao maestro Andre Matos. O grande highlight foi “Prelude to Oblivion”, com coros, melodias açucaradas, além de riffs e solos metálicos à exaustão. Os versos “Cruel reality, wears away our will to live” são daqueles que, ouvidos uma vez, jamais deixam a memória. Caçoilo aqui dominou com destreza a primeira parte, com alguns exageros nas partes mais agudas perto do final.

No contrabaixo, foi muito bom ver Pit Passarell empolgado e tocando de fato. O músico passou por momentos complicados na vida, e se no passado entregou performances inaceitáveis, em 2023, transparecendo uma felicidade genuína, está em plena forma. Comandando as seis cordas, o exímio guitarrista e jornalista Felipe Machado, responsável direto pelo nascimento do metal melódico no Brasil e que, no passar das décadas, caminhou por outros territórios musicais sempre mantendo um bom gosto impressionante nas composições.

O colega de Machado no instrumento, Kiko Shred, se mostrou mais bem entrosado e à vontade no palco, comparando com a apresentação regular no Rock in Rio do ano passado. Instrumentista acima de qualquer suspeita, Kiko tem uma discografia prolífica e durante a carreira, dividiu palco com gente do gabarito de Tim Ripper Owens, Michael Vescera, Leather Leone, Udo Dirkschneider, Andre Matos, entre outros. Na bateria, a pegada monstruosa de Guilherme Martin foi o elemento que uniu todas as nuances musicais do Viper em uma massa sonora pungente e sólida. No repertório, por mais que saibamos ser uma utopia, poderiam ter tocado algo do espetacular e esquecido All My Life (2007), ou, quem sabe, uma música a mais do Soldiers of Sunrise. Em todo caso, foi cerca de 60 minutos de pura magia.

Repertório

Under the Sun
Knights of Destruction
A Cry from the Edge
Evolution
Coma Rage
To Live Again
Prelude to Oblivion
Living for the Night
Rebel Maniac

A abertura da noite veio com a curitibana Electric Mob, que tem contrato com a gravadora italiana Frontiers Music e recém lançou o segundo disco, 2 Make U Cry & Dance. Infelizmente, nossa equipe chegou depois do quarteto. A terceira banda da noite foi o Matanza Ritual, liderada pelo caricato vocalista Jimmy London. A banda cover do Matanza conta com um time de peso na parte instrumental: Antônio Araújo (Korzus) na guitarra, Amílcar Cristófaro (Torture Squad) na bateria e Felipe Andreoli (Angra, Sons of Apollo) no baixo. Como este último tocaria logo mais com o Angra, para esta tour, trouxeram Juninho (baixista do Ratos de Porão há 20 anos), um excelente músico, que aqui teve mais espaço para mostrar suas habilidades.

Apresentando hits que tocaram alucinadamente nas rádios e na MTV, como “A Arte do Insulto” e “Bom É Quando Faz Mal”, o grupo conquistou a galera que tem por volta dos 30 anos, mesmo com o começo sendo um pouco vacilante. Um coro pouco edificante de “Hey, Jimmy, vai tomar no cu” foi entoado algumas vezes, alimentando a performance do personagem Jimmy London, o barbudo mal-encarado e pronto para a briga. Claro, tudo de forma amigável, no fim das contas. O show extenso ainda teve sons como “Eu Não Gosto De Ninguém” e “Pé Na Porta, Soco Na Cara”. Quando o quarteto estava pegando fogo, fomos agraciados ainda com “Tempo Ruim” e a divertida “Ela Roubou Meu Caminhão”, que encerrou o set.

Angra

Os donos da festa subiram ao palco após um atraso de meia hora, por volta da meia-noite. O som, bastante estourado desde o início da noite, não teve melhora significativa na hora da banda principal. A visão do público na pista comum era bastante complicada, a despeito do som ali estar melhor que na área vip, mais próxima ao palco. O ambiente interno do White Hall, infelizmente, não é o local mais adequado para shows neste formato. Seja como for, o Angra abriu a noite com “Newborn Me”, do Secret Garden (2005), prometendo um repertório que celebraria os mais de trinta anos de história de uma das mais importantes bandas do metal brasileiro de todos os tempos. Para a abertura, poderiam ter antecipado “Nothing to Say”, daquelas que te pegam pela jugular instantaneamente, e trocado a representante do Secret Garden por “Storm of Emotions”, que sempre funcionou muito bem ao vivo.

A altura do fundo do palco era baixa, portanto, a bateria ficou na frente do telão, tirando bastante do impacto visual das ilustrações exibidas. Na faixa de abertura, “Newborn Me”, a letra era exibida, todavia, não era possível lê-la. Nesta, ainda houve um problema com os retornos, impedindo que o vocalista italiano Fabio Lione se ouvisse. O começo um tanto frio foi logo revertido com a magistral “Nothing to Say”, iniciada meio de súbito, mas que trouxe a magia única do perfeito Holy Land (1996). Desse trabalho, tivemos também “Make Believe”, mas que em formato acústico não funcionou tão bem. O arranjo simplificado e sem orquestrações de uma obra tão delicada tirou um tanto do impacto; assim como a voz de Lione, soberbo tecnicamente, porém, sem imprimir aquela atmosfera lamuriosa que a canção traz no álbum.

Falando em músicas com nuances mais suaves, a inebriante surpresa “Lease of Life” (do Aqua, 2010) e a jurássica “Reaching Horizons” foram momentos tocantes, assim como o hit “Lisbon”, do Fireworks (1998), outro álbum que muitos ignoram e que, todavia, é uma aula de heavy metal classudo. Se a proposta era celebrar toda a história do grupo, tocar três músicas do mais recente disco Omni (2018) pareceu um exagero, já que esta foi a mesma quantidade de músicas do multiplatinado Temple of Shadows e mais que o histórico debut Angels Cry. As três escolhas do álbum Omni foram bastante acertadas: “Magic Mirror”, brilhante tanto no CD quanto ao vivo, assim como “Black Widows Web” e seus versos memoráveis, “Travelers of Time”, um speed/prog de respeito.

Todos os discos foram lembrados, com maior ou menor ênfase, exceto o EP Freedom Call. Grande sucesso comercial, Rebirth, tocado na íntegra na turnê passada, aqui teve duas  músicas, justamente os hits “Nova Era” e a faixa-título, que contou com a boa participação de Fábio Lima no violão (artista que tocou esta mesma música com Edu Falaschi na turnê de 2022). A belíssima balada “Bleeding Heart”, também apresentada em Curitiba, saiu como bônus desse disco em alguns países, mas foi lançada oficialmente mesmo na tracklist do EP Hunters and Prey, de 2002. No encerramento, “Carry On”, com os já tradicionais errinhos de Lione na letra, e a supracitada “Nova Era”. Não há fã que resista a esta dobradinha.

A despeito da experiência complicada do público quanto ao local em que o festival foi realizado, musicalmente fomos brindados com dois shows estelares do Viper e do Angra.

Repertório
Newborn Me
Nothing to Say
Travelers of Time
Angels Cry
Lisbon
Ego Painted Grey
Late Redemption
Rebirth
Winds of Destination
Lease of Life
Black Widow’s Web
Reaching Horizons [acústico]
Make Believe [acústico]
Waiting Silence
Bleeding Heart
Magic Mirror
Carry On
Nova Era

Galeria de Fotos (por Clovis Roman):

Deixe um comentário