[Entrevista] Johan Längquist: A lendária voz do Candlemass

O Candlemass esteve no Brasil em duas oportunidades: em 2006, na turnê do álbum homônimo, com o lendário Messiah Marcolin. Dez anos mais tarde, retornaram sem o baixista Leif Edling (afastado por problemas de saúde) e com o exímio Mats Léven no microfone.

Por fim, em 2023 será a vez da terceira visita dos gigantes suecos ao nosso país. E com um terceiro vocalista. Johan Längquist é a voz original do álbum de estreia do Candlemass, o colossal Epicus Doomicus Metallicus. Ele sempre esteve por perto, mas só voltou de fato para a banda após trinta anos. Antes tarde que nunca. Com performances soberbas, ele já gravou dois álbuns de estúdio, um EP e um disco ao vivo, tudo isso num intervalo de apenas três anos.

O Candlemass se apresenta no Brasil dia 22 de abril, no Monsters of Rock. A visita é repentina, afinal, eles só virão pois o Saxon cancelou a participação no festival em cima da hora. Confira mais detalhes sobre o Monsters of Rock aqui e aqui.

Confira abaixo nossa conversa com o simpático Johan Längquist, que falou sobre toda a carreira da banda e também sobre sua história na música.

por Clovis Roman
Tradução: Kenia Cordeiro

Obrigado por aceitar a minha ligação e contar um pouco sobre o Candlemass e sobre a sua história também.

De nada! Obrigado por ligar!

É um prazer! Bem, vamos começar. O álbum The Door to Doom e também o EP Pendulum mostra uma banda que nunca muda a sua sonoridade, mas ao mesmo tempo, a banda soa renovada. Você também acha isso?

Sim, com certeza. Seria triste se nós não mudássemos nada após tantos anos, então que bom que mudamos pra algo mais “2020” ou algo assim.

E a sua performance vocal nos dois discos são incríveis. Como foi o processo de gravação? Você compôs alguma coisa?

Na verdade, não. Se começarmos com o Pendulum, todas as músicas já estavam feitas quando cheguei, então fui ao estúdio e gravei os vocais. As músicas já festavam prontas. Sim, nós tocamos e eu brinquei um pouco com minha voz, criando algumas coisas que todos nós gostamos. Assim, essa foi a minha única contribuição com as músicas: meus vocais.

O EP e o álbum foram gravados na mesma sessão de estúdio?

Na verdade, eu não sabia sobre essas músicas do Pendulum até alguns meses depois que fizemos o álbum The Door to Doom. Foi uma surpresa para mim, mas claro que eu fiquei: “Nossa, que legal! Tem mais músicas”. Não sei exatamente quantos meses depois de gravar o  The Door to Doom que gravamos essas músicas, mas achamos que seria ótimo podermos lançar um EP alguns meses depois que o álbum foi feito. Foi ótimo que o EP seguiu o álbum The Door to Doom.

Ter um solo do Tony Iommi (Black Sabbath) foi incrível. Como vocês entraram em contato com ele?

Eu não estava envolvido nesse processo, mas eles me contaram. Mappe [Björkman] e Lars [Johansson] estavam conversando e tiveram a ideia: “Vamos ligar para o Tony Iommi e perguntar se ele pode fazer um solo neste álbum?” e Leif [Edling] disse : “De jeito nenhum! Acho que ele não é o tipo de cara que faria uma coisa dessas”. No final, resolveram mandar um e-mail para ele e o resultado foi uma ótima música. Ele respondeu que sim imediatamente, na verdade. Eles nunca acharam que ele diria sim, mas ele disse. Isso é incrível. Acho que ele meio que é fã do Candlemass, de certa forma. E o Leif adora tudo do Sabbath. Talvez seja por isso que ele aceitou.

Na turnê do The Door to Doom, o Candlemass tocou vários shows com o Ghost. Você acha que vocês alcançaram um novo público com esses shows? Novos fãs, algo assim?

Sim, a gente sentiu isso. Quando encontramos um público completamente novo, nunca se sabe o que vai acontecer, mas os shows foram ótimos. Acho que foi uma boa combinação, a gente tocava primeiro e depois o Ghost subia no palco, acho que o público gostou. Acredito que ganhamos mais alguns fãs, com certeza! Tenho certeza disso!

E qual a sua opinião sobre as músicas do Ghost? Você gosta desse tipo de música, essa mistura de metal e pop?

As músicas são ótimas e eles estão fazendo um ótimo trabalho e, claro, viramos amigos de Tobias e sua gangue. Eles são ótimos músicos e Tobias é um cara muito legal, tenho muito respeito pelo o que eles fazem. Porém, sobre ser o meu estilo… Eu gosto de assisti-los, ouvi-los e acho algumas músicas incríveis. Porém, não posso dizer que é exatamente o meu estilo, mas eles são ótimos.

E qual é o seu estilo? Que tipo de música você gosta?

Gosto muito das coisas dos anos 1980. Gosto do bom e velho heavy metal, hard rock dos anos 1980 e das músicas que são no estilo dos anos 1980. Quando você é jovem, você escuta a música e descobre os seus heróis, sabe. É assim que tudo começa.  Não lembro quais foram os primeiros discos [que ouvi], acho que foi Mud ou T-Rex e, depois de alguns anos, descobri o Judas Priest e fiquei: “Ah, adorei Judas Priest  logo de cara”. Na verdade, Rob se tornou um dos meus artistas favoritos de todos os tempos. Adoro como Rob Halford é uma personalidade, ele é incrível, na minha opinião. Aí, é claro, descobri o Black Sabbath, o Rainbow, o Scorpions… Havia muitas bandas ótimas nos anos 1980.

Sobre o Judas Priest, qual o seu álbum favorito dos anos 1970?

Dos anos 1970, acho que o Sad Wings of Destiny foi meu primeiro amor. Depois foi o Unleashed the East, claro. Posso escolher músicas de todos os álbuns, eu era fã,  hoje em dia já não ouço mais tanta música, mas às vezes,  quando você está numa noite legal, você ouve todas essas coisas boas mais uma vez. Então, foi assim que começou.

Bom, voltando ao Candlemass, eu vi o setlist que a banda está tocando e não há músicas da era do Robert Lowe. Vocês chegaram a ensaiar algumas dos álbuns que ele gravou?

Não, ainda não, mas fizemos alguns shows juntos com o Lowe, eu cantei uma parte e Rob cantou outra. Ele gravou várias músicas boas com o Candlemass, e ele tem uma voz muito boa. Nós passamos muito tempo juntos quando fizemos esses shows.

Esse show que você falou, que você cantou uma parte e ele outra, foi o Roadburn, não?

Foi a última vez, acho que foi no navio, pelo o que eu me lembro. 70000 Tons of metal, aquele no Caribe. Você conhece?

Sim, sim, claro.

Yeah, claro.

Nesse show que mencionei, o Roadburn, você cantou o Epicus na íntegra. Depois ele foi lançado em vinil ou CD, não me lembro. Como foi a sensação de cantar esse álbum novamente do começo ao fim?

Na minha opinião, todas as músicas desse álbum são ótimas. Quando se é um vocalista, é muito importante que você ache interessante as músicas que você está cantando e que você goste delas. Eu não posso ser um ator, cantando as coisas que não gosto, entende o que estou falando? Tem que ser real e eu gosto mesmo dessas músicas e eu ainda acho que elas são ótimas, então nunca é um problema cantar uma ótima canção.

A próxima pergunta não é fácil, eu acho, mas você disse que se sente bem cantando as músicas do Epicus e que gosta delas. Você sente o mesmo com as canções que você gravou nas demos do álbum Chapter VI?

Ah, elas eram só demos [risos]. Então, não tenho a mesma relação que tenho com o Epicus, mas, claro que acho que são ótimas músicas também.

E em outro momento da sua carreira, você gravou novamente algumas demos para o Candlemas, pelo o que eu me lembro foi quando o Messiah saiu e antes do Robert entrar na banda. Naquela época você pensou sobre entrar na banda? Ou a ideia era somente gravar algumas demos?

Eles me ligaram e perguntaram se eu gostaria de gravar algumas demos, e eles estavam procurando por um novo vocalista. Eu estava tocando sozinho, mas aí eles me perguntaram: “Você pode vir e gravar algumas demos pra gente?”. Sempre fomos bons amigos, então eu disse: “Sim, claro”, então eu gravei.

Em 2007 rolou o show de aniversário do Candlemass, que depois foi lançado em DVD. Aquela foi a primeira vez em um bom tempo que você cantou com eles, certo?

Sim, com certeza! Acho que foram 20 anos, não sei exatamente quanto tempo, mas sim, com certeza. Então fazia muito tempo que eu não subia em um palco. Quero dizer, eu sempre estive envolvido com música, compondo e tudo mais, mas não muito em cima do palco antes de 2007.

E qual foi a sensação? Foi estranho? Como você se sentiu?

De certa forma, me senti muito… como posso dizer… privilegiado, porque naquele momento, as pessoas estavam felizes só por me ver e saber que eu estava vivo. Elas gritavam meu nome, e eu cantei aquelas músicas. Não foi problema algum. Sinto-me muito confortável quando estou no palco fazendo o que eu gosto, mas é claro que eu estava bem nervoso antes de começar. Você nunca sabe o que vai acontecer, mas deu tudo certo. Foi ótimo.

Você disse que sempre esteve compondo e trabalhando nas suas coisas antes do Candlemass. No começo da sua carreira você integrou o Jonah Quizz, certo?

Yeah, tá certo. Essa banda na verdade é uma brincadeira com algumas letras do meu nome. Se você misturá-las… Bem, meu nome é Johan Lanqvist e a banda Jonah Quizz. Se você mexer um pouco nas letras, você terá Jonah, e então isso também remete à Judas Priest. Assim, o nome da banda veio disso. 

Oh, nunca havia notado essas semelhanças

Na verdade, os membros da banda também não perceberam isso lá no começo. Eu contei pra eles a minha sugestão de nome e eles disseram: “Esse nome parece ótimo”, mas eles não sabiam que era um jogo de palavras com o meu nome, mas era.

E essa banda gravou alguma coisa? Alguma demo?

Na verdade, eu estava muito ocupado com essa banda, na mesma época em que gravamos o álbum Epicus. Nós estávamos prestes a assinar o contrato com uma gravadora. Naquela época, nos anos 1980, ter um contrato com gravadora era algo importante. Nós estávamos prestes a assinar com a filial sueca da Elektra, mas alguns dias antes do nosso suposto acordo, o cara da gravadora nos ligou, muito triste, e disse: “Infelizmente a filial sueca será fechada e não há nada o que eu possa fazer, sinto muito, rapazes”. Aquilo foi bem triste, às vezes é muito difícil ser músico, mas chegamos bem perto [de dar certo]. Nós tocamos na mesma competição sueca que o Europe e eles ganharam. Você sabia disso sobre o Europe? Nós chegamos na semi-final e o Europe ganhou, então, mais uma vez, chegamos muito perto. No final das contas, não conseguimos o contrato e os caras ficaram muito tristes. Eu e os guitarristas tivemos que nos virar por nossa conta, então trabalhamos juntos por alguns anos depois daquilo, mas só compomos algumas músicas e fizemos alguns shows. Porém, a banda não deu muito certo.

E aí você gravou o Epicus. Você já conhecia os caras antes ou só conheceu eles no estúdio?

Na verdade, as coisas com o Jonah Quizz e o Candlemass aconteceram quase ao mesmo tempo. Foi por isso que eu não entrei no Candlemass na época, porque, como te contei, estávamos no meio daquele processo do contrato e nós estávamos trabalhando duro para que desse certo. Eu não sei ao certo as datas, mas era na mesma época da gravação do álbum do Candlemass e eles sabiam disso, conversamos abertamente sobre isso e eu falei pra eles: “Eu adoraria cantar no álbum de vocês, mas nesse momento o meu coração está com a minha própria banda”. Claro que eles entenderam e me disseram: “Mas nós queremos que você grave o álbum mesmo assim, se você quiser”. E eu disse: “Claro! Seria uma honra!”. Aquela coisa, gravar um álbum quando você está na faixa dos 20 anos. Então foi assim que aconteceu, essa é a história. Eu não estava disponível na época, eu tinha a minha banda e quando você tem a sua própria banda, você acredita nela e deposita confiança nela. Você se coloca em primeiro lugar na balança. Mas, infelizmente, no final acabou não dando certo.

E como foi o processo de gravação do Epicus? Eu li algo em uma revista chamada Candlemass Chronicles que foi em algum lugar em um metrô…

Nós temos uma estação de metrô chamada “The University” em inglês, e na verdade, o estúdio era em baixo, na estação. Eu fiquei maravilhado quando cheguei lá pela primeira vez, e claro, quando você desce na estação de metrô e alguém fala: “Vamos lá, rapazes, entrem”. Aquilo durou duas ou três noites, eu acho, e aí finalizamos o álbum. Nós gravamos os vocais muito rápido e não exatamente da forma como faríamos hoje em dia. É claro que é possível fazer rápido, mas aqueles eram outros tempos, era caro estar no estúdio e nem todo mundo tinha seu próprio estúdio.

Bom, você disse que gosta de todas as músicas do Epicus, mas qual é a sua favorita pra cantar ao vivo?

Quando você é jovem e escuta várias músicas pela primeira vez, talvez você consiga escolher a sua favorita ou a que você gosta mais que outra, e é claro que eu gosto de todas as músicas. Gosto de “Black Stone Wielder” e “Solitude”, é claro. Gosto muito delas e acho que nenhuma música é ruim, são ótimas músicas, todas elas. Então não consigo escolher uma favorita, depende do humor, do dia. Sempre temos que tocar “Solitude” porque é uma canção bem popular e eu não tenho problemas com isso, acho bom. Toda vez que canto as  músicas antigas eu tento mudar algumas coisinhas aqui e ali, só aproveitar o momento.

A minha opinião é a mesma que a sua, eu gosto muito de todas as músicas. Esse é um dos melhores álbuns, na minha opinião.

Yeah, há álbuns ruins por aí e há aqueles que têm somente uma ou duas boas músicas, mas eu acho que todas do Epicus são ótimas. Talvez por isso que ele tenha se tornado um clássico.

Novamente, sobre as suas músicas favoritas, gostaria de saber qual a sua favorita das que você não gravou originalmente? Sabe, aquelas da época do Messiah ou de outras eras do Candlemass.

Posso afirmar que eu acho basicamente a mesma coisa do que considero do Epicus. Acredito que há ótimas músicas também. Não sei quantas músicas eu cantei do Nightfall, mas pode ser quatro ou cinco. Quando estamos montando o setlist, eles querem que eu me sinta confortável com todas as músicas e eu não cantei nenhuma música que eu não goste. Todas as músicas que você me ouvir cantando, são músicas que eu gosto.

O Candlemass fez um show no formato live stream no ano passado. Como foi a experiência de tocar sem ter um público presencialmente, só pela internet?

Eu tive que fingir que erámos atores, eu ficava imaginando que a câmera era o público. Eu ainda não assisti aquele show, você assistiu?

Não, infelizmente não consegui adquirir o convite.

Então, a gente fez o melhor que pode, na minha opinião. Eu só ficava imaginando que a câmera era o público, então eu demonstrava o meu melhor para a câmera, algo assim.

Tenho uma pergunta que faço a todos os meus entrevistados. Qual banda você acha que faria uma boa cover de alguma música do Candlemass?

Wow, essa é difícil. [haha]

Yeah, claro [haha]

Você acha que o Judas Priest poderia fazer? É difícil escolher uma, claro que várias bandas poderiam fazer uma cover do Candlemass, se elas conseguirem tocar da mesma forma. É difícil escolher, mas eu diria Judas Priest.

Boa resposta.

Seria uma honra se eles fizessem.

 Ah, com certeza! O Judas Priest tem algumas músicas da década de 1970 que são mais voltadas ao doom, do álbum Sin After Sin. Há algumas músicas que se parecem com doom e eu acho que o Judas poderia fazer algo incrível.

Yeah, a música Victim of Changes… Há várias músicas, com certeza.

Johan, muito obrigado.

Obrigado por ligar do brasil, isso é incrível.

Foi bom falar com você, se precisar de algo no Brasil, é só me chamar [risos]

Tudo bem [risos]. Sim, tenho você no meu telefone agora [risos]. Tchau Clovis, tudo de bom para você.

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