Noturnall – Cosmic Redemption
Material gentilmente cedido por Saulo Xakol/Noturnall
por Clovis Roman
A banda brasileira Noturnall, foi formada em 2013 por músicos renomados, a maioria deles oriundos do então recém finado Shaman. Ficaram conhecidos pela mistura de metal progressivo e power metal, abusando da técnica. Lançaram álbuns os Noturnall (2014), Back to Fuck You Up! (2015) e 9 (2017) – sem contar alguns registros ao vivo –, sempre em meio a mudanças de formação constantes. Nesse ínterim, conquistaram importantes feitos, como se apresentar no Rock in Rio em 2015.
A banda sempre me pareceu bater na trave nesses discos. De boas intenções, a estrada para o inferno está cheia, como diria Bruce Dickinson. Faltava fluência na audição dos álbuns. Com a atual formação consolidada, apesar do vai e vem de guitarristas, o Noturnall finalmente mostrou a que veio com o quarto CD da carreira, Cosmic Redemption, que sacramenta a cozinha formada por Henrique Pucci (bateria) e o baixista Saulo Xakol (que co-produziu o álbum e contribuiu com diversas letras), que faz chover, seja no estúdio ou ao vivo.
“Try Harder” abre o disco com uma mensagem positiva, refrão memorável e ares acessíveis – apesar do riff que sustenta os primeiros versos ser muito similar a “Curse the Gods”, do Destruction –, enquanto “Reset the Game” pisa no acelerador, mesclando a velocidade do metal melodico com uma maior consciência na construção das músicas e na própria execução. Há melodias que lembram muito o Angra, como no trecho dos versos “Are we Mice…”, o que é sempre uma coisa boa. “Lie to You” é alicerçada no peso (chega bem perto dos blast-beats no trecho após o solo, antes do retorno do refrão), e tem até uma chupinhada no riff inicial de “Superhero”, do Anthrax.
A épica “Shallow Grave” explora longas passagens instrumentais com classe; enquanto “Shadows (Walking Through)” é mais delicada, com violões e a participação especial de Michael Romeo, do Symphony X. As duas a seguir vinham sendo apresentadas ao vivo há anos, tanto que estão no álbum ao vivo Made In Russia, gravado em 2019. A faixa-titulo, “Cosmic Redemption” é um power metal bastante acessível, com guitarras cintilantes e melodias vocais grudentas. Quer mais uma similaridade? O trecho instrumental no começo tem uma parte que remete a introdução de “Running Alone”, do Angra. A outra, “Scream! For!! Me!!!”, para o bem ou para o mal, é bastante agressiva, com Thiago Bianchi se aproximando do vocal gutural em alguns versos, sem contar trechos bastante rápidos e agressivos. Bem posicionada no tracklist, ela traz mais dinamismo para a audição, além de trazer o mestre Mike Portnoy nas baquetas.
A releitura de “O Tempo Não Para” é um grande destaque. O arranjo ficou legal, respeitando a original ao mesmo tempo que adiciona peso, na medida, para a composição. Bianchi canta exibindo bastante técnica, o que pode não ser a melhor abordagem para uma música simples. O melhor cantor do Brasil, Ney Matogrosso, surge abrilhantando mais a versão. Gravar esta música foi algo corajoso, e o resultado, louvável.
O bloco final de Cosmic Redemption surge com “Take Control”, com contornos mais thrash metal e a participação de David Ellefson, e a extensa “The Great Filter”, repleta de passagens e climas, também dando uma ênfase no peso. A estrutura complexa e fluída comprova, mais uma vez, a maturidade do grupo. Como um todo, impressiona como um disco de longa duração consegue cativar e prender a atenção sem esforços. As músicas tem seis minutos de duração em média, e não cansam em momento algum.
A evolução do Noturnall é gritante nesse disco em comparação aos anteriores. A urgência indulgente de exibição técnica deu mais espaço para outros elementos mais salutares brilharem, como os versos mais melódicos, passagens com peso orgânico e uma estruturação mais equilibrada das faixas. Ainda é bastante técnico e rápido, porém, com um propósito. Não há firulas desnecessárias na bateria. Agora, as firulas se encaixam nas canções sem parecer terem sido colocadas ali a esmo. Thiago Bianchi (que integrou no passado a banda Karma e o ótimo projeto FireSign) nunca cantou tão bem na carreira, deixando bastante de lado os agudos altíssimos, usados em profusão no passado. Após 10 anos, o Noturnall finalmente veio para arregaçar a porra toda.
Músicas
1.Try Harder
2.Reset The Game
3.Lie To You
4.Shallow Grave
5.Shadows (Walking Through)
6.Cosmic Redemption
7.Scream! For!! Me!!!
8.O Tempo Nao Para
9.Take Control
10.The Great Filter
Foto: Clovis Roman

