[Cobertura] Cynic e Beyond Creation em noite de complexidade musical para público seleto

Cynic, Beyond Creation
15 de abril de 2023
Basement Cultural
Curitiba/PR

Texto e foto por Clovis Roman

Dois nomes importantes do death metal progressivo, que caminham em caminhos distintos – e de épocas diferentes – se uniram para uma turnê pela América Latina, com uma passagem por Curitiba. O Basement Cultural recebeu um público seleto, mas empolgado com a oportunidade. Foi a primeira vez de ambas as bandas na cidade.

O Beyond Creation tem um status meio cult, pois muitos falam deles de maneira reverencial, mas poucos ouviram de fato a fundo. Formado em 2005, com o nome Behind Human Creation, adotaram a alcunha atual em 2009, dando início, dois anos mais tarde, a sua ainda pequena discografia. O conjunto canadense tocou três canções do mais recente (ou menos antigo álbum, afinal, saiu no longínquo ano de 2018) Algorythm, no bloco intermediário: a brutal “In Adversity”, “Ethereal Kingdom” (com uma intro dedilhada e partes marcantes do contrabaixo) e faixa-título, com passagens velozes de blast-beats e etéreos momentos progressivos.

Simon Girard, do Beyond Creation (foto: Clovis Roman).

Para a abertura, “Fundamental Process” esbanjando técnica, chamando atenção de imediato dos desavisados, e a cadenciada e variada “Earthborn Evolution”, do disco homônimo de 2014. Antes da dobradinha final, o vocalista e guitarrista Simon Girard apresentou a formação, composta por Kévin Chartré (guitarra), Hugo Doyon-Karout (baixo) e com Michel Bélanger (bateria) como convidado, pela indisponibilidade do titular Philippe Boucher. Ainda rolou um coro de “Beyond Creation, Beyond Creation” da galera antes das duas faixas do debut The Aura (2011): “Coexistence” e “Omnipresent Perception”, ambas extensas e intrincadas. 

Foi um show digno de headliner, que, com apenas sete músicas (cerca de 50 minutos de palco), deixou uma sensação de que poderiam ter tocado mais tempo. A aprovação do público se refletiu também nas boas vendas do merchandising do grupo. Ao se despedir, Girard mandou um “You’re fucking awesome. See you next time”. Promessa é dívida.

Beyond Creation (foto: Clovis Roman).

Repertório:
Fundamental Process
Earthborn Evolution
In Adversity
Ethereal Kingdom
Algorythm
Coexistence
Omnipresent Perception

Todavia, as estrelas da noite eram os músicos do Cynic, grupo formado em 1987 e que destrincha caminhos de mãos dadas com o metal progressivo, incorporando outros elementos para criar uma sonoridade única e complexa. No repertório, o foco foi o debut Focus (1993), tocado na íntegra logo de cara. A música do trabalho é de complexa assimilação, e pintou cenários distintos, de acordo com a percepção do espectador. Os fãs mais fiéis se deliciaram com a mescla de momentos agressivos (como as partes mais ríspidas de “Veil of Maya”) com passagens de excentricidade técnica, mergulhando no fusion, jazz e até bossa nova. Os desavisados, confusos com tanta informação, podem ter sentido um certo cansaço no decorrer do set, que rondou a marca de 80 minutos.

Cynic (foto: Clovis Roman).

A viagem celestial da obra do gênio Paul Masvidal (que gravou o colossal Human, do Death) ganhou vida, essa noite, ao lado de Matt Lynch (baterista que assumiu a vaga de Sean Reinert (outro ex-Death, falecido em 2020; ele também gravou o supracitado Human), Max Phelps (guitarra e vocais, conhecido pelo trabalho com o Death to All, tributo ao Death), Ezekiel Kaplan (teclados) e o baixista Brandon Giffin (do The Faceless). Alguns vocais de apoio do disco original foram sampleados, porém, foi algo que não tirou um milímetro da vibrante e orgânica apresentação. Impossível não sentir algo quase espiritual com  “Sentiment” ou a complexa e cheia de texturas “Textures”, que, não à toa, inspirou o nome da banda holandesa Textures, também adepta da complicação musical.

O primeiro bloco foi encerrado com “How Could I”, derradeira faixa de Focus. Ainda meio grogue, o público, que foi mais contemplativo que agitado, foi gentilmente abraçado pela introdução da belíssima “Kindly Bent to Free Us”, do álbum homônimo de 2014, seguida por “Adam’s Murmur” (Traced in Air, 2008) e Aurora (do mais recente Ascension Codes, 2021). Do mesmo disco, “In a Multiverse Where Atoms Sing” foi o encerramento definitivo. O torpor musical levou um tempo até passar. Masvidal entregou tudo e mais um pouco, em uma noite memorável. Depois, ainda gentilmente atendeu todos os fãs que se aproximaram.

Cynic (foto: Clovis Roman).

Repertório:
Veil of Maya
Celestial Voyage
The Eagle Nature
Sentiment
I’m but a Wave to…
Uroboric Forms
Textures
How Could I
Kindly Bent to Free Us
Adam’s Murmur
Aurora
Box Up My Bones
Evolutionary Sleeper
In a Multiverse Where Atoms Sing

Deixe um comentário