[Entrevista] Camisa de Vênus: 40 e tantos anos e contando

O Camisa de Vênus é uma das mais sólidas instituições do rock and roll nacional. Surgidos no começo dos efervescentes anos 1980, nunca se enquadraram em regras de etiqueta, entregando à sua imensa base de fãs músicas com letras despudoradas e um humor ácido único proveniente da mente criativa do vocalista Marcelo Nova. Mais de quarenta anos mais tarde, o grupo segue compondo, gravando e realizando shows memoráveis. Na iminência da apresentação do grupo em Curitiba, dia 13 de maio (mais informações no fim da página), conduzi uma entrevista com Mr. Nova em pessoa.

por Clovis Roman
*matéria atualizada posteriormente para adicionar as fotos de Pri Oliveira

Marcelo Nova (foto: Pri Oliveira).

O último álbum Agulha no Palheiro, saiu em 2021. Agora com o devido distanciamento, onde você encaixaria ele num eventual ranking na discografia do Camisa de Vênus.

O Agulha no Palheiro apresenta uma característica que me agrada muito. É o nosso décimo disco e eu nunca me senti confortável nessa ideia de que o passado é sempre mais relevante do que o presente. Nunca senti, nunca tive essa sensação. Sempre quando gravo um disco novo, seja meu solo ou seja do Camisa de Vênus, procuro ir adiante do que fiz anteriormente. E o Agulha foi um disco que nós fizemos um esforço muito grande para conseguir conservar todas as características que a banda sempre teve e, no entanto, levá-las um passo adiante. E eu acho que o Agulha acabou chegando a bom termo nesses quesitos. O Drake produziu, mixou e masterizou o disco, e o trabalho dele teve uma importância muito grande na confecção sonora. É um disco que soa muito nervoso e inquieto, feito no meio da pandemia e a minha sensação era de não abaixar a cabeça, não receber ordens de políticos, nem de esquerda nem de direita, porque não acredito em nenhum deles. A nossa experiência foi de contestação e de enfrentamento, como sempre, não é? Como sempre. Tenho três filhos e uma neta e se eu pudesse resumir em uma palavra o legado que pretendo deixar para eles à medida que o tempo vai passando, ou melhor, à medida em que eu vou adentrando no tempo, porque o tempo é perene, né? Nós é que vamos passando através dele. Se eu pudesse resumir esse sentimento numa palavra só, seria coragem. Coragem.

Como será preparado o setlist para o show com o Velhas Virgens em Curitiba? O quão complicado é para vocês balancear as músicas novas e as mais antigas?

O setlist é sempre uma diversão, porque como nós não temos um setlist definitivo, nós nos damos ao prazer e à diversão de mudá-lo com muita frequência, então não tenho uma resposta de como será o setlist especificamente, mas evidentemente que procuro sempre estar de olho numa espécie de retrospectiva da nossa carreira, com músicas de, quando possível, de todos os nossos discos, nem sempre isso é possível, mas dá sempre pra ter uma ideia do que era o Camisa nos anos 1980, 1990 e o que é o Camisa nos dias de hoje.

Camisa de Venus em ação em Curitiba (foto: Pri Oliveira).

Agora aquela pergunta protocolar: O Camisa de Vênus retorna a Curitiba em maio, para um show na Opera de Arame. Quais são suas memórias sobre outros shows na cidade no decorrer das décadas?

Curitiba sempre nos recebeu muito bem, desde o começo. Os shows em Curitiba são sempre bons, são sempre cheios, são sempre carregados de bota pra fuder, sabe? Esse hino, esse grito de guerra que o Camisa possui e que é um plus em todas as nossas apresentações. É curioso, porque provavelmente é a única banda no mundo que tem isso, né? Os Rolling Stones não tem isso, o AC/DC não tem isso, Led Zeppelin nunca teve e por aí e assim por diante. Esse grito, nós estamos no camarim e já estamos ouvindo, é algo como se dissesse vamos lá garotos, vocês sabem que vocês contam conosco, nós estamos aqui e vamos fazer essa noite acontecer, é muito, muito, muito estimulante. Curitiba sempre representou esse espírito, não acredito que [dessa vez] vá ser diferente, não.

Marcelo, o Drake, seu filho, é um dos atuais guitarristas do grupo. Como é ter ele ao seu lado, ajudando a manter o legado que você vem construindo desde os anos 1980?

O Drake, se fosse só meu filho, ele não estaria na banda [risos]. Ele está na banda porque ele é um músico do primeiro time, de primeira grandeza, é meu parceiro. Ele tem produzido os nossos últimos trabalhos, ele mixa, masteriza, ele tem um estúdio e se dedica muito ao trabalho. Ele conhece a minha obra desde muito cedo e sabe, por exemplo, que a minha obra se fundamenta no texto, o texto é o cerne do meu trabalho. A música é uma espécie de capote para vestir a alçada das minhas letras. Ele capta isso muito bem. Normalmente, músicos, e principalmente guitarristas, estão preocupados com o lick, com o riff, com o solo, com a ponte. Então, a música para eles é matemática, um, dois, três, quatro. Para o Drake não é assim, ele tem a sensibilidade de prestar atenção, ele sabe que a base de tudo são as minhas letras, e ele procura adequar com a sonoridade uma ambiência para que essas letras possam funcionar melhor. Isso é muito raro, e eu nunca tive isso anteriormente na minha carreira de, hoje, 43 anos, e sou muito grato por esse tipo de dedicação que ele possui e pelo talento que, inegavelmente, ele tem. Além do Drake, existem o Leandro Dalle, que é outro guitarrista; Célio Glouster, que é o baterista; e Robério Santana [baixista], que é meu amigo e meu parceiro e foi a primeira pessoa a quem eu chamei para para montar uma banda em 1980, e continuamos junto nos aturando mutuamente. Então, o Camisa de Vênus tem essas particularidades que, gosto de pensar, que a transformam numa banda específica e especial.

Drake e Marcelo Nova (foto: Pri Oliveira).

Sobre sua carreira solo, foram lançados nos últimos tempos os singles “Fios Desemcapados” e “O Lado Errado do Trilho do Trem”. Como estas duas músicas representam o seu vindouro álbum solo? O que mais “As Cartas Que Eu Nunca Enviei” oferecerá ao público nos campos musical e lírico?

Sim, estou lançando um álbum novo agora em junho, chamado As Cartas que eu Nunca Enviei, que tem uma uma sonoridade bem distinta dos meus dois últimos trabalhos solos, que foram O Galope do Tempo e o 12 Fêmeas; o Galope é um álbum autobiográfico e existencialista e que narra uma trajetória de vida do útero ao caixão; o 12 Fêmeas que é um disco sobre sobre sentimentos fortes em relação a mulheres e sentimentos às vezes ambíguos, às vezes não, às vezes carregados de de paixão e visceralidade, às vezes carregados de ódio – quando digo ódio, digo ódio puro, não é esse odiozinho de para vender jornal e revista e programa de televisão; o ódio puro é o outro lado da moeda do amor.  A moeda do amor, de um lado é o amor puro cristalino, do outro é o ódio puro e cristalino.  São sentimentos da natureza humana, independente da aprovação ou da aceitação, eles existem de verdade.

Eu não gosto da ideia de criar trincheiras para me abrigar quando estou compondo e gravando. Eu me dedico ao meu trabalho de forma passional intensa, eu gosto e tenho prazer no que eu faço.  Gostar do que você faz não necessariamente garante um bom trabalho, mas talvez um pouco de experiência, o passar do tempo vai nos ensinando alguns truques, sabe? Lembro-me de uma frase muito boa de Paul McCartney. Mick Jagger havia declarado que o The Beatles era uma banda pop, e que rock and roll mesmo era com os Rolling Stones, que eles faziam rock and roll e blues, e o Beatles era apenas uma banda pop. Inquirido a esse respeito, McCartney respondeu ‘não é isso não: é que o meu cavalo sabe bem mais truques que o cavalo dele’ [risos].

Aliás, o título “O Lado Errado do Trilho do Trem” evoca alguns questionamentos. Afinal, inicialmente tendemos a pensar que precisamos ir “para o lado certo”. Todavia, qual a importância de estarmos no lado errado? Conhecer as duas extremidades pode nos tornar pessoas melhores, pois teremos uma visão mais ampla do contexto que estamos inseridos?

Curioso como essa canção, o segundo single do disco, apesar de ser uma música de dez minutos, foi intencional a escolha porque é uma música que agradou muito a mim e ao Drake quando a finalizamos. As pessoas me questionam sobre qual é o lado certo do trilho do trem, se existe o lado errado, será que não é uma questão metafísica, uma questão de bússola para saber para que lado vai? Não, não, não! O lado errado do trilho do trem é apenas uma metáfora que eu usei para relatar que eu nunca pertenci a nada, desde garoto eu era deslocado, nunca me senti integrante de congregação, de grupo, de clube. Algumas pessoas, é visível que nasceram do lado errado do trilho do trem. É só uma metáfora, não é para intelectualizar isso e querer esmiuçar a frase, é só uma metáfora.

Marcelo Nova (foto: Pri Oliveira).

Você teve relação com monstros sagrados do rock mundial, como emprestar uma guitarra para Chuck Berry ou gravar com o magistral Eric Burdon. Caso pudesse escolher alguma outra lenda para fazer um som ou, ao menos, trocar uma ideia, quem seria?

Para um cara que, como você mesmo afirmou, emprestei a minha guitarra para Chuck Berry. Gravei, mais uma vez com as suas palavras, com o magistral Eric Burdon, e também não posso esquecer de que Rauzito foi uma referência para mim quando eu tinha 14 anos, ele tinha 20 e pouquinho, Rauzito e os Panteras foi a primeira banda que eu ouvi ao vivo. Então, eu acho que você ter a sua guitarra manuseada por Chuck Berry, ser parceiro de Raul Seixas, ser parceiro de Eric Burdon… já dá para você guardar essas medalhas no peito. Não precisa exibi-las, é só pegar uma flanela de vez em quando, dar um polimentozinho aqui no peito e mantê-las luzindo, para que você também não esqueça de como isso foi importante na sua, no caso, na minha vida.

Poderia deixar uma mensagem aos fãs curitibanos?

A mensagem aos fãs curitibanos é: Vamos lá, vamos lá! Nós e vocês da plateia formamos uma coisa só. Quando o Camisa está em cima do palco e os outros integrantes do Camisa estão na plateia, existe essa interação que é algo que eu sempre apreciei muito na minha banda, sempre apreciei essa participação constante da plateia em todas as canções, não só nos hits, isso é que é o mais interessante, não só nos hits. Nos hits é muito fácil. Nos lados B e C, é isso que faz o Camisa ser uma banda. Não se trata de ser melhor ou ser pior, se trata de ser uma banda diferente, diferenciada.

Serviço
Camisa de Vênus e Velhas Virgens em Curitiba
Data: 13 de maio de 2023 (sábado)
Local: Ópera de Arame
Endereço: Rua João Gava, 920 – Abranches
Classificação etária: 16 anos (acompanhado de responsável legal)
Horários: 19 (abertura da casa), 20h30 (Velhas Virgens), 22h (Camisa de Vênus)

Pontos de venda

Online (com taxa de conveniência): https://www.bilheto.com.br/evento/1184/Camisa_de_Vnus_e_Velhas_Virgens  (em até 12x no cartão)

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