Picture
14 de setembro de 2023
CWB Hall
Curitiba/PR
por Clovis Roman
O Picture goza de grande prestígio no cenário metal, mesmo nunca tendo estado no primeiro escalão do heavy mundial no que diz respeito ao sucesso comercial. Quem busca isto, aqui, está no lugar errado. Todavia, os que são devotos de um grupo pela sua obra artística, são plenamente correspondidos com o legado que estão deixando para os headbangers nesses quase de 45 anos de atividades.
Durante esse período, lançaram dez álbuns de estúdio, em intervalos irregulares. A formação da banda também foi bastante inconstante, e de certo modo, ainda é até hoje. Enquanto a fenomenal cozinha formada pelo baixista Rinus Vreugdenhill e pelo baterista Laurens Bakker segue a mesma desde sempre, os cargos de guitarristas e vocalistas rodam mais que cabeça de bêbado em festa open bar. Nas seis cordas, de um lado, desde 2016 está Appie de Gelder. No outro, mudança recente: membro original, Jan Bechtum havia retornado também em 2016, mas recentemente passou por uma cirurgia que não teve o resultado esperado. Com o aval do mesmo, Len Ruygrok fez a turnê e deve ficar como membro efetivo daqui pra frente.

E nos vocais? O imortal Pete Lovell saiu em 2016, quando rolou um racha na formação, levando consigo os guitarristas André Wullems e Mike Ferguson. Daí, saiu o Lovell’s Blade, que lançou os bons Deadly Nightshade (2022) e The Nightmare Begins (2019) e o excelente Stone Cold Steel (2017). Com o Picture, Lovell registrou o mega clássico Eternal Dark (1983), o mediano Traitor, e dois álbuns depois da volta às atividades – ambos excelentes e mais pesados, em geral: Old Dogs New Tricks (2009) e Warhorse (2012).
De lá pra cá, Ronald van Prooijen – a voz dos ótimos Picture (o debut de 1980) e Heavy Metal Ears (1981) – ficou quatro anos e deixou Wings (2019) gravado antes de partir. Após uma breve passagem de Simon Chiola (?), Peter Strykes assumiu os microfones, e se mostrou apto tecnicamente para a função. Cantou os hinos de Lovell com força e personalidade e passeou por todo o catálogo de maneira confortável. Antes de parar de falar de Lovell, necessário citar que o aclamado Eternal Dark teve quatro músicas, bem distribuídas entre as 18 apresentadas: a esplêndida e reluzente “Griffons Guard the Gold”, abrindo a noite sem dó alguma (mesmo com o som fraquinho saindo das caixas), “The Blade” no meio e “Make You Burn” lá no final, meio de surpresa, pois não estava no setlist. E claro, a própria “Eternal Dark”.

O bloco inicial ainda trouxe “Message From Hell” e duas novas, “Blown Away” e “Line of Life” (que começa como uma balada, mas logo vira um quase power metal), ambas alinhadas com o melhor do que fizeram nos anos 1980. Do Diamond Dreamer (1982), a visceral “Night Hunter” foi uma agradável surpresa, assim como “Nighttiger”. Do brutal Warhorse (2012), a estupenda “Killer in my Sight” quase passou batida com o som pouco nítido, ainda mais por ser menos conhecida que a maioria das outras apresentadas esta noite.
Em meio a clássicos inquestionáveis como “Diamond Dreamer” (que ganhou uma cover vergonhosa do Arch Enemy ano passado), a gloriosa “Eternal Dark”, “The Blade” e “Heavy Metal Ears”, tivemos a emotiva balada “You’re Touching Me”, que, diferente de outrora, funcionou muito bem, com Strykes roubando a cena e Bakker saindo lá do fundo e indo pra frente do palco dar um alô pra galera do gargarejo. Aliás, impossível não destacar o vigor do músico, que espancou a bateria sem dó o show inteiro, até mesmo derrubando alguns pedestais em “Unemployed”. Em “Bombers”, cordas de guitarra arrebentando e Vreugdenhill saindo no meio da música renderam um momento único. A música em si não parou.

Caminhando para o final do longo show, que durou mais de uma hora e meia, tivemos “Make You Burn”, a triunfante “Lady Lightning” (com direito a apresentação da banda e até uma beliscada em “Smoke on the Water”) e o encerramento com o rock turbinado “The Hangman” e seu refrão apoteótico. O principal fator que tirou um pouco do brilho da apresentação foi o som magérrimo, sem força e profundidade. Mesmo tendo visto a banda outras vezes tendo a disposição equipamentos humildes, jamais havia testemunhado algo tão pálido no quesito técnico. A guitarra de Gelder sumia na hora dos solos, só para citar uma particularidade.
Os rapazes do Picture ainda curtiram um day off em Curitiba, que rendeu, entre muitas cervejas, pérolas como “You’re Touching Me” e “Diamond Dreamer” tocadas em versões acústicas, no meio da rua, na frente de um bar qualquer – um entre os inúmeros que visitaram na capital paranaense.

Repertório
Griffons Guard the Gold
Message From Hell
Blown Away
Night Hunter
Line of Life
Nighttiger
Killer in My Sights
Diamond Dreamer
Eternal Dark
You’re All Alone
You’re Touching Me
The Blade
Bombers
Unemployed
Heavy Metal Ears
Lady Lightning
Make You Burn
The Hangman

2 comentários em “[Cobertura] Picture atiça ouvintes do heavy metal com apresentação vigorosa em situação adversa”