[Cobertura] L7 e Black Flag causam sentimentos diferentes em noite histórica

L7 + Black Flag
24 de outubro de 2023
Tork N’ Roll
Curitiba/PR

Por Clovis Roman

A passagem de L7 e Black Flag pelo Brasil movimentou fãs do rock alternativo e do punk rock, pelas cidades onde passaram. Curitiba levou sorte ao receber ambos os grupos em uma única noite, e não em apresentações separadas. Ambas mostraram seus repertórios completos, proporcionando uma noite memorável.

Donita Sparks (foto: Clovis Roman).

O Black Flag é mais antiga e de inegável importância para o cenário do rock mundial, por isso, tocaram por último. Todavia, foi o L7 que entregou o show mais enérgico, visceral e praticamente sem pontos negativos.  Surgida em meados dos anos 1980, marcou época com singles de sucesso como “Everglade”, “Andres” e, principalmente, “Pretend We’re Dead”. Álbuns como Bricks Are Heavy e Hungry for Stink são cultuados até hoje por fãs em todo o mundo. Donita Sparks (guitarra/vocal), Suzi Gardner (guitarra/vocal), Dee Plakas (bateria) e Jennifer Finch (baixo) retornaram pela terceira vez ao país – e a segunda em Curitiba – com o vigor de uma banda experiente.

L7 em Curitiba (foto: Clovis Roman).

A primeira música, “Deathwish”, foi o chamado das quatro garotas para o público: Venham para perto do palco, pois a aula vai começar. Outra cadenciada, “Andres”, foi a ponte para a raivosa “Everglade”, dez vezes mais letal que a versão de estúdio. “Bad Thing” trouxe a baterista Dee Plakas cantando com Suzi, enquanto o arrasa-quarteirão “Fuel My Fire” foi entoada com fúria por Donita e Jennifer. Se o repertório focou no multiplatinado Bricks are Heavy, houve espaço para quase todos os trabalhos do grupo. Os álbuns Hungry for Stink, Smell the Magic e The Beauty Process: Triple Platinum tiveram três representantes cada, e o último, Scatter the Rats, duas: a Kashimir do L7, “Fighting the Crave” e o rock simples “Stadium West”.

O show foi crescendo no quesito empolgação do público, que se entregou a energia infindável do quarteto. O bloco final não deixou essa vibração sinérgica diminuir: “Drama”, quase um heavy metal, abrilhantada por um solo brutal de Suzi Gardner, e a lenta e grudenta “Non-Existent Patricia” foi uma dobradinha certeira, abrindo caminho para “Wargasm”, a divertida “Dispatch From Mar-a-Lago” e o maior hit, “Pretend We’re Dead”, o ponto alto da interação entre banda e plateia. O caos foi encerrado, somando 23 músicas, com petardos como “Shitlist” e a porrada “Fast and Frightening”, com riffs ganchudos e agressivos e um refrão irresistível, perfeita para fechar uma apresentação praticamente irretocável. A loucura foi tanta que um retardado roubou a correia do baixo de Finch no final, depois de tentar roubar o próprio instrumento em si. Rock and Roll pra caralho.

Repertório – L7

Deathwish
Andres
Everglade
Scrap
Shove
Stadium West
One More Thing
Mr. Integrity
Slide
Can I Run
Human
Bad Things
Monster
Fuel My Fire
Fighting the Crave
Drama
Non-Existent Patricia
Wargasm
Dispatch From Mar-a-Lago
Pretend We’re Dead
Shitlist
American Society [Eddie and the Subtitles]
Fast and Frightening

Greg Ginn, do Black Flag (foto: Clovis Roman).

Depois da devastação do L7, o cenário ficou difícil para o Black Flag. Uma boa parte do público saiu da frente do palco, permitindo que os adeptos do punk se aproximassem para conferir a veterana banda (são 47 anos desde a fundação), atualmente composta pelo guitarrista e membro fundador Greg Ginn, Mike Vallely (voz), Harley Duggan (baixo) e Charles Wiley (bateria). Nas primeiras músicas, os fãs tentaram abrir algumas rodas em momentos mais rápidos, mas as músicas quebradas e pouco convencionais foram esfriando esse ímpeto, a ponto de algumas delas nem sequer terem sido aplaudidas pelo público nos intervalos.

Por mais que a precisão técnica na execução não seja assim tão primordial nesse estilo, o estilo despojado demais – principalmente na guitarra de Ginn – por vezes incomodou. O problema foi que o Black Flag começou o show com o segundo e aclamado álbum My War, que é arrastado e confuso, sendo tocado na íntegra, e ao vivo, esses pontos ficam ainda mais evidentes, praticamente escancarados. A trinca final “Nothing Left Inside”, “Three Nights” e “Scream”, com mais de seis minutos cada, foi especialmente sofrida.

Black Flag em Curitiba (foto: Clovis Roman).

O martírio acabou quando o repertório deixou My War para trás e virou um “best of” do lendário grupo. Após uma breve apresentação dos integrantes, foi começar com a sequência “Nervous Breakdown”, “Fix It”, “I’ve Had It” e “Wasted” – todas do EP de estreia, Nervous Breakdown (1979) – que o cenário mudou de figura. Em 17 músicas, o Black Flag revisitou uma parte importante de sua obra, como um bom punhado de faixas do primeiro álbum completo, Damaged, de 1981: “Gimmie Gimmie Gimmie”, “Rise Above”, “Room 13”, “Six Pack” e “TV Party”. Aí, não sobrou pedra sobre pedra. A galera se quebrou muito, tentando compensar o tempo perdido nas nove primeiras músicas.

Os momentos de quebração foram diversos, como em “Black Coffee”, a empolgante “Gimmie, Gimmie, Gimmie” (não tem como não gritar junto “Gimme, gimme, gimme, Gimme some more, Gimme, gimme, gimme, Don’t ask what for”) ou nas já citadas “Six Pack” e, principalmente, o petardo “Rise Above” (que já regravada pelo Sepultura). A bobinha “Louie Louie” valeu pela farra, e encerrou um show que pareceu ser dividido entre duas bandas diferentes. Ao menos, teremos a segunda parte para relembrar.

Repertório – Black Flag

My War
Can’t Decide
Beat My Head Against the Wall
I Love You
Forever Time
The Swinging Man
Nothing Left Inside
Three Nights
Scream
Nervous Breakdown
Fix Me
I’ve Had It
Wasted
Jealous Again
No Values
Black Coffee
Gimmie Gimmie Gimmie
Six Pack
Depression
In My Head
I Can See You
Room 13
Revenge
TV Party
Rise Above
Louie Louie [Richard Berry]

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