Uriah Heep
CWB Hall
09 de dezembro de 2023
Curitiba/PR
Por Clovis Roman
“Hot Night in a Cold Town” pode não ser a música mais famosa do Uriah Heep, mas seu título define bem o que aconteceu em Curitiba na noite de 09 de dezembro de 2023. De fato, a canção é uma daquelas lembradas apenas pelos fãs mais viciados, hall no qual, admito, estou incluído. Toda minha jornada musical e profissional teve como trilha sonora músicas das mais variadas fases da banda. Primeiro, descobri os anos 1970, com David Byron, para na sequência ter acesso ao Live in Moscow, a estreia dos atuais Bernie Shaw (vocal) e Phil Lanzon (teclado). Embarcar nos anos 1990 e descobrir o fantástico John Lawton foi questão de meses. A intensa relação de amor estava estabelecida.
Dada a devida volta, retorno para explicar o motivo da referida música se encaixar tão bem com o portentoso espetáculo dos britânicos na capital paranaense, fria tanto no clima quanto na simpatia. A magia musical, o carisma e os sorrisos incessantes do guitarrista e membro fundador Mick Box, enfeitiçaram os presentes que lotaram o CWB Hall. A produção primorosa, que deu um upgrade VIOLENTO na tímida estrutura costumeira da casa, permitiu a todos ouvirem tudo de maneira cristalina, e verem com clareza os cinco magos em ação.

A atual formação do Uriah Heep está junta há dez anos, desde a entrada do baixista Davey Rimmer, que se juntou aos veteranos Shaw, Lanzon e Box, e do baterista Russell Gilbrook. Juntos, gravaram três discos primorosos, com destaque para o mais recente, Chaos & Colour, que nem sequer foi lembrado no repertório dessa noite. Afinal, a proposta era celebrar os cinquenta anos da banda (que foram completados há alguns anos já, na verdade). Mesmo assim, escolheram duas do Living the Dream, penúltimo álbum, para abrir a noite: “Grazed by Heaven” e “Take Away My Soul”, sólidas e com refrães marcantes.

Embarcando nos anos 1970, “Traveller in Time” foi uma semi surpresa. Não tão constante assim nos setlists, apesar de ter sido tocada na última vinda deles à cidade, em 2014, foi a primeira pérola entre tantas outras, como a vibrante “Sweet Lorraine” e “Rainbow Demon” e seu clima soturno e refrão libertador. “Too Scarred to Run” foi solitária representante da décade de 1980, do injustiçado Abominog. Impossível não cantar “Too scared to run, Too scared to run away”.
Da década seguinte, “Between Two Words” foi brilhante, como sempre, cheia de camadas, melodias e climas sensacionais. Ainda teríamos “Against the Odds”, mas ela foi limada, abrindo espaço para “Look at Yourself”. Do material setentista foi uma enxurrada: “Stealin’”, o heavy metal “Gypsy”, a balada “Lady in Black” e a épica “July Morning”, com seus dez minutos de transe coletivo e versos comoventes. A fase do vocalista John Lawton foi revisitada com a porrada “Free ‘n’ Easy” (teríamos The Hanging Tree, tocada no Peru poucos dias antes, mas esta também foi retirada), impressionando a precisão cirúrgica de Mick Box na palhetada. Aliás, Box roubou a cena com seus gestos característicos e simpatia infinita, que, vale frisar, não se restringe aos palcos. Estive com a banda por dois dias e o cara é assim, um gentleman, o tempo todo, até mesmo na hora do café da manhã no hotel.

O bis veio com a densa “Sunrise”, apoteótica, e, claro, “Easy Livin'”, que encerrou um show que poderia durar mais oito horas, que ninguém iria reclamar. Foi a quinta visita da banda ao Brasil, a terceira em Curitiba. Em 1995, vieram com o Nazareth, e em 2014, naquela que também foi, de certa maneira, uma turnê focada nos grandes sucessos. Uma noite mágica, como aquelas que a banda vem proporcionando aos seus fãs há mais de cinquenta anos. Uma celebração única, memorável e inspiradora.
Repertório
Grazed by Heaven
Take Away My Soul
Traveller in Time
Between Two Worlds
Stealin’
Too Scared to Run
Rainbow Demon
Sweet Lorraine
Free ‘n’ Easy
Gypsy
Look at Yourself
July Morning
Lady in Black
Sunrise
Easy Livin’
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