[Cobertura] O rei cavalga majestoso com repertório surpreendente

Roberto Carlos
23 de março de 2024
Arena da Baixada
Curitiba/PR

Texto e fotos por Clovis Roman

Se você veio aqui para ler sobre o quão bonitas são as músicas religiosas de Roberto Carlos, sugiro que olhe as fotos e feche a página. Eu tenho tanto para falar, e com palavras, tentarei falar, porém, com foco na música e obra.

Para Roberto Carlos, fugir do clichê é praticamente impossível. Com um vasto repertório que rendeu mais de uma centena de músicas fabulosas e de grande sucesso comercial, ele não teria como fazer um show apenas com lados B. Seria o caso se ele mandasse pérolas esquecidas como “Noites de Terror”, a amargurada “Oração de um Triste”, “Um Leão Está Solto Nas Ruas”, “O Velho Homem do Mar” (inspirada em Hemingway), “Dizem Que um Homem Não Deve Chorar” ou “Quero me Casar Contigo”, maravilhosa e que chegou a ser eleita a pior música do artista pela Medium.

Roberto Carlos não iria tão longe, todavia, é impossível falar que ele não surpreendeu o público predominantemente vetusto que lotou a Arena da Baixada para prestigiar o rei que, prestes a completar 83 anos, cantou primorosamente, e melhor que no show na cidade ano passado.

Em meio a faixas indispensáveis, como as belíssimas “Como é Grande o Meu Amor por Você”, “Como Vai Você”, a estupenda “Detalhes” ou a clichê – mas ainda exuberante – “Emoções”, Roberto Carlos desenterrou um punhado considerável de faixas menos cotadas, mas ainda muito amadas pelo público. Um exemplo foi “Mulher de 40”, do álbum de 1996, uma das poucas brilhantes daquela década. Uma surpresa agradável, assim como a tétrica “Cavalgada” e seus versos explícitos sobre sexo.

Tal vocábulo, inclusive, causou frenesi quando citado de maneira não cifrada. Ao final de um majestoso medley, primordialmente formado de músicas sobre conjunção carnal, a esplendorosa e densa “O Côncavo e o Convexo” – a última fila – fez a plateia vibrar com o último e direto verso: “Cada parte de nós tem a forma ideal; quando juntas estão, coincidência total; do côncavo e o convexo; assim é nosso amor, no sexo”. O referido pot-pourri reuniu ainda maravilhas com narrativa erótica como “Seu Corpo”, “Café da Manhã” (sobre sexo matutino), “Seus Botões” (sobre o mesmo ato, todavia, sem horário definido). Junto delas, “Falando Sério” – do espetacular álbum homônimo de 1977 – é a menos assanhada.

Outro momento marcante foi a dobradinha “O Calhambeque (Road Hog)” (1964), a mais antiga das canções apresentadas, com longa sessão instrumental antes da entrada de Roberto, seguida pela música irmã (e muito mais nova) “O Cadillac” (2003). A versão mais descontraída de “Além do Horizonte” ficou aquém do brilho reluzente da original, mas não fez feio. O final do show veio com “Eu Ofereço Flores”, música nova, na qual a luta por uma rosa do Rei, como sempre, foi violenta.

Roberto Carlos é desses artistas que tem uma gama tão vasta de obras-primas que seria possível montar diversos repertórios diferentes, sem repetir músicas. De cara, considerando a mesma quantidade de músicas tocadas essa noite, um setlist sugerido – um puro e divertido exercício de confabulação –, seria o seguinte:

Repertório (o sonho):

As Curvas da Estrada de Santos
Você Não Serve pra Mim
Sua Estupidez
Todos Estão Surdos
Quero que Vá Tudo Pro Inferno
Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo
Eu Sou Terrível
Por Isso Corro Demais
Parei na Contramão
Eu Te Amo Tanto
Força Estranha
Ciúme de Você
Mulher Pequena
O Grude (Um Do Outro)
O Portão
Não Vou Ficar
Se Você Pensa
Noite de Terror
Quando

Sonhar não custa nada. Mas voltando a realidade, é preciso saber viver e aceitar o óbvio: Roberto Carlos é, sim, o rei supremo da música brasileira. Por mais que seu principal legado artístico resida nos anos 1960 e 1970, essas dezenas e dezenas de clássicos atemporais, que somadas ultrapassam a centena, ecoam até hoje na memória e no coração de inúmeras gerações.

Meu pai, nascido em 1950, era um grande fã de Roberto Carlos, e passou para mim uma admiração lúcida pela obra do Rei.  Caso tivesse filhos, provavelmente passaria adiante o bastão à prole, e assim seguiríamos. Em tempos nos quais a música vem decaindo vertiginosamente em qualidade, bom gosto e perenidade, o legado de Roberto Carlos segue firme como uma rocha, e se tornou maior que seu próprio intérprete. Se este foi o último show que vi dele, só me resta agradecer, do fundo do coração, pelas emoções. Se você despreza tudo isso, recolha-se a sua estupidez.

Repertório (o verdadeiro):

Emoções
Como Vai Você
Além do horizonte
Desabafo
Detalhes
Outra vez
Olha
Nossa Senhora
O Calhambeque (Road Hog)
O Cadillac
Lady Laura
Seu corpo / Café da Manhã / Seus Botões / Falando Sério / O Côncavo e o Convexo
Mulher de 40
Cavalgada
Esse cara sou eu
Amigo
Como é Grande o Meu Amor Por Você
Jesus Cristo
Eu Ofereço Flores

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