[Cobertura] Summer Breeze Brasil 2024 – 1º dia

[Cobertura] Summer Breeze Brasil 2024 – 1º dia

Summer Breeze Brasil 2024
26 de abril de 2024
Memorial da América Latina
São Paulo/SP

por Clovis Roman e Kenia Cordeiro

A edição brasileira do Summer Breeze Open Air chegou a sua segunda edição apresentando uma estrutura de primeiro mundo e um cast fenomenal, que englobou praticamente todos os subgêneros do Metal, trazendo aos fãs desse estilo oportunidade de ver diversos shows de qualidade, indo do mais acessível e dançante – como o show soberbo do The Night Flight Orchestra – até a extrema brutalidade, como a entregue por Ratos de Porão, Carcass e o Biohazard.

A diversão – envolta em dilemas – começou antes mesmo da abertura dos portões: Afinal, quais bandas escolher? No domingo, foi dificílimo escolher entre Anthrax e Amorphis, mas deixo para falar mais sobre isto no último capítulo dessa série. Com o itinerário de sexta-feira em mãos, pegamos nossas credenciais de imprensa e entramos nesse universo maravilhoso. O sol escaldante demandou uma energia extra, mas os excelentes shows em profusão supriram isto. Após ver trechos de Dr. Sin e Edu Falaschi, testemunhamos o show acachapante do Tygers of Pan Tang, no Sun Stage. Este, localizado sozinho de um lado do Memorial da América Latina, enquanto o Hot Stage e o Ice Stage estavam do outro lado da passarela (que passa por cima da rua), poderia ser encarado inicialmente como um terceiro palco. Mas a qualidade de som oriunda dele era tão boa quanto a de seus irmãos opostos.

Tygers of Pan Tang

Os britânicos do Tygers of Pan Tang, pela segunda vez no Brasil, apresentaram um repertório com suas músicas mais aclamadas, mas sem deixar de lado materiais mais recentes. A melódica “Destiny”, a explosiva “Only the Brave”, a maravilhosa “Keeping me Alive” e a dobradinha do mais recente play, Bloodlines, a cadenciada “Back for Good” e o heavy metal “Fire on the Horizon” não fizeram feio ao lado de clássicos inquestionáveis como “Euthanasia”, “Suzie Smiled” ou “Slave to Freedom”. O show foi bastante homogêneo e cada música apareceu no momento certo. Para convocar todos a prestarem atenção, abriram com “Gangland” (uma das mais famosas, que muitos conheceram primeiro pela versão do Kreator) e a extremamente melódica e grudenta “Love Don’t Stay”, dona daqueles refrães que, ouvidos uma vez, ficam na cabeça pelo menos por uma semana.

Se o Kreator foi, para muitos, porta de entrada para o Tygers of Pan Tang, a MTV teve grande influência para a galera da geração dos anos 1990. O videoclipe de “Love Potion Nº 9” era exibido constantemente no Furia Metal, e atiçou a curiosidade de muitos em conhecer a obra da banda. Esta canção em especial, foi a saideira, e mais uma vez a interpretação brilhante de Jacopo Meille, que mostrou uma habilidade técnica incomum, presença de palco hipnotizante e muito feeling. Regendo a atual formação, Robb Weir único membro original, está em grande fase, tanto como instrumentista como quanto compositor. O baterista Craig Ellis, mostrou a habitual precisão e classe, enquanto os mais novatos Huw Holding (baixo) e Francesco Marras (guitarra) completam um time que está em verdadeiro estado de graça.

Em um repertório enxuto de 12 músicas, em uma hora cravada, mostraram que mereciam, ao menos, mais uma hora em cima do palco. Um show vibrante e intenso, que não baixou o ritmo um segundo sequer. A primeira vinda deles ao Brasil rolou em 2016, quando abriram para o Picture. Agora, vieram para data única no país como atração do Summer Breeze, também com tempo contado. Que voltem ao Brasil com uma turnê própria. É um dever cívico de cada headbanger prestigiar o Tygers of Pan Tang ao vivo quando surgir a oportunidade. Para quem não conhece, sugiro os quatro primeiros álbuns, e os quatro últimos. Faça o dever de casa agora mesmo.

Ouça as músicas do show:

Repertório:
Gangland
Love Don’t Stay
Only the Brave
Fire on the Horizon
Destiny
Keeping Me Alive
Slave to Freedom
Back for Good
Suzie Smiled
Euthanasia
Hellbound
Love Potion No. 9 [The Clovers]

Exodus

Os reis do Thrash Metal foram bravos ao enfrentar o sol das quatro da tarde, e também prepararam um setlist especial para o festival. Diferente do show em Curitiba, que conferimos quatro dias antes, tiraram faixas como “Impact Is Imminent”, “Iconoclasm” e “R.E.M.F.” e trouxeram outras mais famosas, como “Brain Dead” (uma agradável surpresa, cantada de maneira impressionante por Steve ‘Zetro’ Souza) e “Deathamphetamine”, da fase Rob Dukes. Funcionou. O público agitou bastante, mas não tanto como o caos causado por bandas como Carcass a Anthrax nos dias seguintes. Até porque a quantidade de público na sexta-feira foi um pouco menor, provavelmente por ser um dia útil.

Depois de duas atrações mais melódicas, o Exodus trouxe brutalidade e velocidade na maioria das canções. Momentos mais cadenciados vieram com a apocalíptica “Prescribing Horror” ou a cansativa “Blacklist”, mas a agressividade predominou, com as furiosas “A Lesson in Violence”, “Fabulous Disaster”, “Piranha” e “And Then There Were None”, e também com “The Beatings Will Continue (Until Morale Improves)”, uma das duas faixas do último disco, Persona Non Grata, de 2022. Com uma década de vida, “Blood In, Blood Out” foi um arrasa quarteirão como segunda no repertório, logo após a abertura devastadora com “Bonded By Blood” (outra mudança em relação a Curitiba, lá, ela foi a última antes do encore). A dupla de encerramento foi a mesma, “Toxic Waltz” (que já foi chamada por Holt de música dançante (!), ao menos um tom abaixo do original, foi uma catarse coletiva, e “Strike of the Beast”, um arregaço de thrash metal, que encerra praticamente desde sempre os shows do quinteto.

Dos onze álbuns de estúdio do grupo, sete foram contemplados em um repertório de 13 músicas. Banda experiente, o Exodus preparou uma apresentação feita tanto para fãs (afinal, quem em sã consciência questionaria qualquer uma dessas faixas?) quanto para quem conhece o legado apenas por cima. Acho improvável que alguém desse segundo grupo tenha passado incólume pela máquina de matar do Exodus.

Ouça as músicas do show:

Repertório:
Bonded by Blood
Blood In, Blood Out
And Then There Were None
Piranha
Brain Dead
Deathamphetamine
Prescribing Horror
The Beatings Will Continue (Until Morale Improves)
A Lesson in Violence
Blacklist
Fabulous Disaster
The Toxic Waltz
Strike of the Beast

Sebastian Bach

A nostalgia é um elemento muito forte no mercado da música. Saindo do metal, basta lembrar da turnê de reunião da dupla de irmãos Sandy & Junior, realizada há meia década. Shows lotados por todo o Brasil, com públicos descomunais. Se aproximando do nosso estilo, o Titãs alcançou feito similar, emplacando nada menos que seis shows lotados no Allianz Parque, em São Paulo (todos no mesmo ano!). Isto alavancado pelo fato de terem se reunido com a formação clássica, incluindo Nando Reis e Arnaldo Antunes. O público é ávido por consumir aquilo que embalou sua juventude há duas ou três décadas. Com Sebastian Bach, a lógica é a mesma.

Com o sentimento de reviver momentos de glória do passado (e que glória! Afinal, os álbuns do Skid Row, de fato, marcaram gerações), os presentes na apresentação do ex-vocalista do dito grupo fizeram vista grossa a performance de Bach, e se concentraram em curtir petardos como “Big Guns”, “Sweet Little Sister”, “Here I Am”, “18 and Life” e “Monkey Business”, entre outras. Tecnicamente falando, a banda era boa. O frontman, por sua vez, envelheceu mais para vinagre que para vinho. Ao não saber adaptar a voz ao fator idade, acabou soando até mesmo irritante em momentos mais altos.

Entre os materiais novos, Bach abriu com a excelente e poderosa “What do I Got to Lose?”, que saiu em single em 2023 e integra o iminente Child Within A Man, primeiro álbum solo em uma década. Deste trabalho, o público também ouviu o bom single “Everybody Bleeds”, espremido entre “Piece of Me” e “Slave to the Grind”, diferentes entre si e diametralmente opostas à referida novidade, mais moderna e pesada. O outro momento solo veio com a áspera “American Metalhead”, cover do Painmuseum registrado em Angel Down (2007). De resto, a nostalgia foi o elemento principal. “The Treat”, “Rattlesnake Shake”, “I Remember You”, “Wasted Time” (cantada parcialmente acapella) e a catártica “Youth Gone Wild” carregam, sozinhas, um show nas costas, independente da interpretação. Ver Sebastian Bach ao vivo pela primeira vez – meu caso – foi emocionante, em uma hora de diversão. Mas nada mais além disso.

Ouça as músicas do show:

Repertório:
What Do I Got to Lose?
Big Guns [Skid Row]
Sweet Little Sister [Skid Row]
Here I Am [Skid Row]
18 and Life [Skid Row]
Piece of Me [Skid Row]
Everybody Bleeds
Slave to the Grind [Skid Row]
American Metalhead [Painmuseum]
Monkey Business [Skid Row]
The Threat [Skid Row]
Rattlesnake Shake [Skid Row]
Wasted Time [Skid Row] / By Your Side (acapella)
I Remember You [Skid Row]
Tom Sawyer [Rush]
Youth Gone Wild [Skid Row]

Mr. Big

Com um punhado de hits, Lean Into It é o segundo álbum do Mr. Big, lançado em 1991. Dele veio a grande maioria das músicas do repertório, desde clássicos como “Green-Tinted Sixties Mind” e a enérgica “Alive and Kickin’”, até músicas menos cotadas como “CDFF-Lucky This Time” e “Never Say Never”, que soaram tão gloriosas quanto. Eric Martin, um dos melhores vocalistas de todos os tempos, continua soando fantástico ao cantar de acordo com o que a idade lhe permite. Aliado a isto está o vigor de sua presença de palco – o cara não para um minuto sequer. E isto não é apenas ao vivo, ele é pilhado 24/7, como pude comprovar nos inúmeros shows e uma turnê que fiz com ele no decorrer das últimas duas décadas.

Se em outras oportunidades Billy Sheehan deixou de vir ao Brasil por causa de vacina, desta, ele veio, e apresentou uma performance monstruosa, como sempre. Do lado direito do palco, na visão do público, Paul Gilbert, outro extraterrestre como instrumentista, hipnotizou o público e disputou atenção com Martin. Cada nota, melodia, solo ou posição que fazia eram magnetizantes. A abertura com “Addicted to that Rush”, com sua intro crescente que desemboca num hard rock delicioso e instigante, seguida pela semi balada e maravilhosa “Take Cover” ditou o ritmo de toda a apresentação. Na frenética “Daddy, Brother, Lover, Little Boy (The Electric Drill Song)”, Gilbert fez seu famoso solo de guitarra com sua furadeira em mãos, cuja ponta conta com quatro palhetas. 

Todo o material do Mr. Big transborda bom gosto, com riqueza de detalhes, trabalho de vocais primorosos e qualidade técnica desumana, que ditou a regra e foi e continua sendo copiada até hoje por bandas em todo o mundo. Mesmo nos momentos dos solos a energia segue em alta. E até mesmo nas covers “Shy Boy” (da antiga banda de Sheehan, Talas, também gravada por David Lee Roth) e “Baba O’Riley”, que fecharam o setlist e poderiam, em um show de festival, terem sido trocadas por outras duas canções próprias, afinal, o repertório foi pouco variado no quesito álbuns: Apenas os quatro primeiros foram representados, ficando de fora, portanto, Actual Size e Get Over It, seus sucessores, assim como todos os discos após o retorno das atividades. Tanta coisa deles, como “Dancin’ with My Devils”, “Superfantastic”, “Shine”, “Lost in America”, “Electrified”, “Gotta Love The Ride” ou “Fragile” poderiam ter dado as caras. Quiçá, dos primórdios, , ou até mesmo “30 Days in the Hole” (outra cover, aliás), “Price You Gotta Pay”, “The Whole World’s Gonna Know”, “Temperamental”… Deixei-me levar pela empolgação. O Mr. Big faria tranquilamente outro repertório, completamente diferente, com 16 músicas tão boas quanto as apresentadas no Summer Breeze Brasil 2024. Afortunados aqueles que conseguiram ver a banda ao vivo. Esta foi a última oportunidade, já que estão em sua turnê de despedida.

Ouça as músicas do show:

Repertório:
Addicted to That Rush
Take Cover
Daddy, Brother, Lover, Little Boy (The Electric Drill Song)
Alive and Kickin’
Green-Tinted Sixties Mind
CDFF-Lucky This Time [Jeff Paris]
Never Say Never
Just Take My Heart
My Kinda Woman
To Be With You 
Wild World [Cat Stevens]
Colorado Bulldog
Shy Boy [Talas]
Baba O’Riley [The Who]

Gene Simmons

Tem como um show que começa com “Deuce”, “Shout it out Loud” e a fantástica e pesada “War Machine”, com um dos membros originais do Kiss e uma boa banda de apoio, ser ruim? Não. Depois, vieram “Detroit Rock City”, “Cold Gin” e “Calling Dr. Love”, sem contar, mais pra frente, a presença de “Lick it Up”, “Parasite”, “Love Gun” e por aí vai. A questão, amplamente discutida por quem assistiu a apresentação completa de “Gene Simmons” no Summer Breeze foi a falta de novidades. Em entrevista para a revista Roadie Crew, o linguarudo deixou os verdadeiros fãs da banda em êxtase, ao deixá-los vislumbrar um repertório com diversos lados B do quarteto mascarado, que encerrou as atividades no final do ano passado.

Não foi o que aconteceu. As únicas novidades foram “Are You Ready”, uma canção que jamais saiu da fase “demo”, da carreira solo de Simmons, e duas covers de Led Zeppelin e Motorhead. Boas músicas, sim, mas não exatamente o que a galera estava aguardando. Quanto a performance em si, tudo nos conformes, com uma roupagem até mais pesada que a do Kiss. O gigante baixista e cantor transparecia estar se divertindo, e cantou muito bem, interagiu com o público e chegou a frisar que cantaria determinadas músicas “ao vivo mesmo”.

Esperava-se a entrega de um show de qualidade, e todos tiveram isto. Mas foi possível notar que houve uma debandada considerável de público do começo do show até as canções derradeiras. Foi o headliner com menos público dos três dias. Quem optou por cruzar a passarela e conferir a última banda do Sun Stage, foi brindado com um show realmente forte, e bem mais violento…

Ouça as músicas do show:

Repertório:
Deuce [Kiss]
Shout It Out Loud [Kiss]
War Machine [Kiss]
Detroit Rock City [Kiss]
Cold Gin [Kiss]
Calling Dr. Love [Kiss]
I Love It Loud [Kiss]
Parasite [Kiss]
Communication Breakdown [Led Zeppelin]
Lick it Up [Kiss]
Are You Ready 
Ace of Spades [Motörhead]
Love Gun [Kiss]
100,000 Years [Kiss]
Let Me Go, Rock ‘n’ Roll [Kiss]
I Was Made for Lovin’ You [Kiss]
Rock and Roll All Nite [Kiss]

Biohazard

O Biohazard já esteve algumas vezes no Brasil, e desta feita, retornou com a formação clássica. Assim como o Mr. Big, optaram por focar nos principais trabalhos dos anos 1990, excluindo até mesmo o disco Mata Leão, de 1996. Foram cinco músicas do terceiro álbum, State of the World Address (1994), seis do inquestionável Urban Discipline (1992) e três do debut auto-intitulado, de 1990. Neste caso, a fórmula deu certo. A quase metálica “Urban Discipline”, que criou um clima de expectativa no público volumoso, que ansiava por agressividade, que explodiu na assassina “Shades of Grey”. A essa altura, o guitarrista Billy Graziadei já tinha pulado umas trocentas vezes e até mesmo em direção às caixas de som que estavam no pit (o espaço entre o palco e a grade), atiçando a galera do gargarejo.

Tão insano quanto, Evan Seinfeld parecia intimar todo mundo para a porrada a cada gesto ou olhar para a multidão. Do outro lado do palco, Bobby Hambel não ficava para trás na empolgação. No kit de bateria, Danny Schuler era pura precisão e violência. A somatória visual da presença de palco casca grossa, com o som brutal de um setlist primoroso, resultou em uma das performances mais memoráveis do primeiro dia de festival. Era impossível ver só um pedaço do show. Quem chegava, parava e ficava por ali mesmo, o que gerou o efeito contrário de Gene Simmons. No fim do set, havia bem mais gente que no começo.

A recompensa era ouvir pérolas como o metal de “Tale from the Hard Side” e o hardcore “Wrong Side of the Tracks”, “Five Blocks to the Subway”, além da ótima cover para “We’re Only Gonna Die (From Our Own Arrogance)”, do Bad Religion, presente no Urban Discipline. Música esta que o próprio Bad Religion tocou na última turnê deles no Brasil, no final de 2023. Todos saíram após os acordes finais de “Hold My Own” de alma lavada, após presenciarem um massacre sonoro impiedoso. O Biohazard tem nove álbuns de estúdio, e está trabalhando em mais um, o sucessor de Reborn in Defiance, que saiu há doze anos.

Ouça as músicas do show:

Repertório:
Urban Discipline
Shades of Grey
Tales From the Hard Side
Wrong Side of the Tracks
Black and White and Red All Over
Retribution
Five Blocks to the Subway
How It Is
Down for Life
Victory
Love Denied
We’re Only Gonna Die (From Our Own Arrogance) [Bad Religion]
Punishment
Hold My Own

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