[Cobertura] Summer Breeze Brasil 2024 – 3º dia

Summer Breeze Brasil 2024

28 de abril de 2024
Memorial da América Latina
São Paulo/SP

por Clovis Roman e Kenia Cordeiro

Overkill

Overkill (foto: Clovis Roman)

No 10º e último show da atual turnê pela América Latina, o Overkill subiu ao palco do Summer Breeze pouco depois das 13h, sob um sol escaldante e para um público ávido, que chegou cedo para ver uma das grandes lendas do thrash metal mundial. A abertura com a faixa-título do mais recente álbum Scorched (o 20º de uma carreira de quase 35 anos) – trabalho também representado por “The Surgeon” e a cadenciada e aderente “Wicked Place” -, seguida pela maravilhosa “Bring me the Night”. Neste ponto, o baixista David Ellefson (ex-Megadeth), que substitui temporariamente o membro original D.D. Verni, afastado devido a uma cirurgia no ombro, é apresentado pelo vocalista Bobby “Blitz” Ellsworth e é ovacionado. Nem parece que ele – cristão confesso – recentemente foi demitido de sua banda original por supostamente manter contato íntimo online com uma garota menor de idade.

No âmbito musical, exímio músico que é, fez o esperado, “tocou muito” e agitou como se fosse um membro oficial do conjunto. Até mandou um snippet de “Peace Sells” antes de “The Surgeon”. Mas Ellefson foi um coadjuvante. Quem brilhou, como sempre, foi Ellsworth, que interpretava as canções com letras e gestos totalmente imerso no metal. Ver o vocalista alucinado nos alto de seus quase 65 anos é inspirador. Ainda mais quando a experiência é acompanhada de pertardos como “Hello from the Gutter”, “Coma”, a insana e tocada quase no dobro da velocidade original “Elimination” (cujo videoclipe passava muito na MTV nos anos 1990), “Ironbound” (que se assemelha muito ao Exodus) e “Rotten to the Core”.

Além do vocalista, vale frisar a performance do baterista Jason Bittner – cujo passado tem muitas bandas questionáveis – que esmurrou a bateria, e subiu ao seu posto já com dedos do meio em riste em direção ao público (!?!?). Mesmo que não seja a música mais interessante do universo, “Fuck You” funciona muito bem para encerrar um repertório vibrante de 75 minutos. Quando cobri um show da banda em 2010, terminei o texto falando que é um crime inafiançável não tocarem “In Union We Stand”, e defendo essa tese até hoje.

Repertório
Scorched
Bring Me the Night
Electric Rattlesnake
Hello From the Gutter
Wicked Place
Coma
Horrorscope
Long Time Dyin’
The Surgeon
Ironbound
Elimination
Rotten to the Core
Fuck You [The Subhumans]

Avatar/Killswitch Engage

Após ser massacrado por “fãs” da banda, por conta da resenha que fiz quando eles abriram para o Iron Maiden em 2022, fiquei curioso em verificar se o Avatar havia evoluído de alguma maneira. Este seria meu terceiro show da banda, o segundo como jornalista. E a resposta para minha dúvida é simples. Não. É muita preocupação com a parte cênica, deixando o esmero pelas composições de lado. Há partes instrumentais interessantes, que pdoeriam ser melhor exploradas, como em “The Eagle Has Landed”, mas o que predomina é um pop com guitarras, uns gritos e um vocalista que não fecha a boca um segundo sequer – quando não está cantando, fica fazendo caretas para a plateia.

Por outro lado, o insoso Killswitch Engage eu nunca tinha visto. E ficou a vontade de nunca ter visto, após um show sonífero para aqueles que não os conhecem. Tocaram apenas para seus fãs que, admito, eram numerosos na grade até certa distância em direção a pista. O metal está sendo cada vez mais desvirtuado, com toneladas de bandas pseudo pesadas ganhando protagonismo. Temo pelo estilo daqui uma década. O cover de “Holy Diver”, clássico do verdadeiro metal, do Dio, deve ter sido pensado como uma homenagem, mas soou como uma pilhéria desrespeitosa. Se você gosta dessas bandas, bom para você.

Carcass

O Carcass era uma banda que tinha tudo para cair no esquecimento, após seu final melancólico na segunda metade dos anos 1990, após a saída de Michael Amott e o lançamento do fraquíssimo Swansong (que tem algumas pérolas em meio a um monte de sons que o Megadeth teria descartado). Após retornarem aos palcos em 2008, com Amott nas guitarras, a banda tomou forma novamente e virou um trabalho de tempo integral novamente para Jeff Walker (baixo e vocal) e Bill Steer (guitarras), hoje acompanhados por Daniel Wilding na bateria e Nippy Blackford nas guitarras. Com o lançamento do cirúrgico Surgical Steel (provavelmente o melhor disco de metal da década de 2010) e Torn Arteries, que deu uma guinada revigorante no som da banda, o grupo segue incansável nos palcos mundo afora. Ou quase.

O repertório foi bem escolhido e com execução primorosa, mas o calor pegou o velho Jeff Walker de jeito. Ele aguentou bem até “316L Grade Surgical Steel”, mas a partir dessa, ele quase não conseguiu ficar em pé devido ao sol escaldante que castigava todo mundo ali. A música teve versos inteiros deixados de lado por Walker, que focava apenas em tocar seu instrumento. Tomou água, respirou e seguiu o jogo. Mas no meio da faixa seguinte, “Corporal Jigsore Quandary”, sentou no praticável da bateria durante a parte instrumental e deixou de cantar algumas partes, o que se repetiu na dobradinha saideira, com “Heartwork” e “Tools of the Trade”. Chegou a colocar uma toalha – laranja fluorescente – enrolada com gelo dentro para rebater a temperatura.

Enquanto Walker fritava, Bill Steer brilhava destilando alguns dos melhores riffs do death metal, sendo ele um dos guitarristas mais subestimados do estilo. Com uma discografia praticamente impecável, compôs um punhado de clássicos e ainda passou pelo Napalm Death nos anos 1980. Não é pouca coisa. Esperto, ele ficou boa parte do show atrás de uma imensa escultura em formato de mão, garantindo uma sombra. Um grande destaque ficou para a execução da introdução de “Black Star”, logo emendada pela grudenta “Keep On Rotting in the Free World”, ambas do supracitado Swansong. Estas são algumas daquelas canções que estão na parte boa do CD, e soaram dilacerantes ao vivo.

Repertório
Buried Dreams
Kelly’s Meat Emporium
Incarnated Solvent Abuse
Under the Scalpel Blade
This Mortal Coil
Tomorrow Belongs to Nobody / Death Certificate
Dance of Ixtab (Psychopomp & Circumstance March No. 1 in B)
Black Star / Keep On Rotting in the Free World
The Scythe’s Remorseless Swing
316L Grade Surgical Steel
Corporal Jigsore Quandary
Ruptured in Purulence / Heartwork
Tools of the Trade

Anthrax

Anthrax (foto: Clovis Roman)

Aqui foi a escolha mais dolorida de todo o festival. É impossível ver todos os shows, e é sempre divertido escolher o que ver, e por quanto tempo ver cada banda. As vezes, a melhor solução é ver metade de uma banda e correr para ver metade de outra banda em outro palco. Aqui, optei por acompanhar a integridade do show do Anthrax, em detrimento ao maravilhoso Amorphis, que tocou na mesma hora. A escolha teve um fator decisivo: Sem o baixista oficial Frank Bello (que não explicou em detalhes o motivo da ausência), nada menos que o lendário Dan Lilker – que já passou por bandas inquestionáveis como Nuclear Assault, S.O.D., Brutal Truth e Venomous Concept, e que foi do Anthrax nos primórdios – foi convocado como substituto. Essa foi a primeira vez em quatro décadas que ele se apresentou com o quinteto americano. Era um momento histórico.

Às vezes, a crítica musical nos deixa encurralados. O que dizer que ainda não foi dito sobre petardos do thrash metal como qualquer uma das treze músicas tocadas? Claro que, devido a presença de Lilker, tivemos mais velharias e foi fantástico. Entre as esperadas, o heavy metal totalmente embebido em Judas Priest, “Madhouse” causou uma catarse insana, que se manteve acesa até o fim do setlist, tanto que até apareceram alguns sinalizadores no meio da plateia, algo que até pouco tempo atrás era impensável no Brasil. Entre as menos esperadas, brilharam “Keep in the Family”, a música mais nova tocada esta noite (ela foi lançada em 1990), “A.I.R.” e “Metal Thrashing Mad”. O timbre podre do baixo ganhou protagonismo em diversos momentos, como a introdução de “Got the Time”. Em “I Am the Law”, o arroz de festa Andreas Kisser (e isto prova como o cara é bem relacionado na comunidade metal) fez uma participação especial. Quando chamado ao palco, o baterista Charlie Benante esboçou a percussão de “Kaiowas” em seu instrumento.

Foi meu terceiro show do Anthrax, o primeiro como jornalista. E valeu a pena cada segundo, mais uma vez – mesmo com a dor de ter deixado o Amorphis para trás por causa disso. Agora, que eles voltem para uma turnê própria, afinal, executando a curtíssima turnê pelo Brasil em 2017 (foram dois shows, com o Accept abrindo), três das últimas visitas deles ao nosso país (justamente as que acompanhei), foram para festivais (Rock in Rio em 2019 e Summer Breeze em 2024) ou como banda de abertura (Iron Maiden, em 2016). 

Repertório
Among the Living
Caught in a Mosh
Madhouse
Metal Thrashing Mad
Efilnikufesin (N.F.L.)
Keep It in the Family
Antisocial [Trust]
I Am the Law
In the End
Medusa
Got the Time [Joe Jackson]
A.I.R.
Indians

Mercyful Fate

Mercyful Fate (foto: Clovis Roman)

Outra banda que focou predominantemente no material antigo foi o Mercyful Fate. Mas aqui era um outro cenário. Os precursores do metal demoníaco, que ao invés de se apoiarem na velocidade e nos gritos guturais, comuns nas bandas mais malditas dos anos 1980, resolveram investir no heavy metal com vocais virtuosos, haviam encerrado as atividades no final dos anos 1990. Comercialmente as coisas não estavam rendendo, mesmo que o legado deles nesse período final compreenda discos colossais como Time (1994), Into The Unknown (1996), Dead Again (1998) e o inacreditavelmente satânico 9 (1999). Voltaram às atividades apenas 23 anos mais tarde, após a pandemia, em 2022, com algumas mudanças. Nos vocais, claro, King Diamond; nas guitarras, os mestre Hank Shermann e Mike Wead, e na bateria, Bjarne T. Holm, ou seja, a formação que foi se construindo nos anos 1990 e que havia gravado o derradeiro álbum 9. O baixista Timi Hansen deveria fazer parte disso, porém, faleceu em 2019 após perder a batalha contra um câncer, e foi substituído por Joey Vera e, posteriormente, pela jovem Becky Baldwin (Fury, ex-Control the Storm).

O palco, monumental, com uma iluminação intimidante que reforçava os vultos, nos convidava para uma cerimônia amaldiçoada de louvor ao capeta. “The Oath” e “A Corpse Without Soul” fizeram as honras da abertura, seguidas pela única música nova, composta após esta reunião, “The Jackal of Salzburg”, que não fez feio ao lado de tantos hinos. O repertório revisitou apenas três discos: o EP homônimo (1982), Melissa (1983), Don’t Break the Oath (1984), ou seja, apenas música com 40 anos ou mais de existência. Impressionante constatar como elas não perderam um milímetro sequer de força e jamais soam datadas. Passaram pelo teste do tempo com louvor.  

A ausência de Michael Denner foi sentida, mas o que presenciamos transcendeu quaisquer expectativas foram superadas. Claro que teria sido fenomenal ouvir “The Bell Witch”, “Egypt”, “Nightmare be thy Name”, “Last Rites”, “Into the Unknown”, “Witche’s Dance”, “The Mad Arab” e por aí vai. Em todo caso, ninguém saiu o mesmo depois de ver o Mercyful Fate ao vivo. O impacto de ver “Come to the Sabbath”, “Evil”, “Black Funeral” e “Melissa” em sequência é indescritível. “Curse of the Pharaohs”, “A Dangerous Meeting” e o encerramento com “Satan’s Fall” tiveram força similar, em um show que é impossível citar apenas algumas das músicas tocadas. Todas merecem menção. O Summer Breeze Brasil 2024 teve inúmeros shows memoráveis – ao menos dois nesta mesma data -, mas é inquestionável que o show de Diamond, Shermann, Wead, Holm e Becky foi o melhor de todos os três dias.

Repertório
The Oath
A Corpse Without Soul
The Jackal of Salzburg
Curse of the Pharaohs
A Dangerous Meeting
Doomed by the Living Dead
Melissa
Black Funeral
Evil
Come to the Sabbath
Satan’s Fall

Deixe um comentário