Eric Clapton & Gary Clark Jr.
23 de setembro de 2024
Ligga Arena
Curitiba/PR
Por Clovis Roman
Fotos por Diego Iost
Clapton despontou nos anos 1960, com o The Yardbirds, a John Mayall & the Bluesbreakers e claro, o fabuloso Cream. Manteve-se desde então como artista solo, emplacando hits globais como “Tears in Heaven”, “Layla”, “Cocaine” e “Change the World”. No campo musical, é figura inquestionável. Fora dos palcos, proferiu algumas groselhas e até trouxe essas sandices para um single lançado com Van Morrisson. Como a primeira visita de Eric Clapton a Curitiba foi para tocar, e não fazer palestra, vamos falar apenas de música.
Assim que entrou no palco, ainda mesmo antes de puxar o riff maravilhoso de “Sunshine of your Love”, ouvi ao redor um xingamento pouco edificante direcionado ao senhor de 79 anos. Mas parece ter sido apenas uma breve pilhéria, afinal de contas, as quase 30 mil pessoas presentes se entregaram às camadas sonoras da obra de Clapton – o palco simples, basicamente sem apetrechos visuais, afunilou ainda mais a atenção na música. O referido clássico atemporal do Cream prendeu imediatamente as atenções. Com uma banda brilhante ao seu lado, o músico cantou com um vigor maior que o normal para alguém na sua idade. Nas seis cordas, o domínio técnico e bom gosto nos arranjos foram igualmente impressionantes.
A banda de Clapton é digna de aplausos. Discorrer sobre seus currículos seria gastar linhas e linhas de nomes e elogios. Todavia, merecem destaque a solidez sobrenatural do veterano baixista Nathan East e a dupla das teclas Chris Stainton e Tim Caarmon. Completam o time Doyle Bramhall II (guitarra), Sonny Emori (bateria), Sharon White e Katie Kisson. O repertório, por sua vez, teve variações, sendo a parte elétrica a mais empolgante.
A última constatação é um tanto óbvia, eu sei. Certamente a parte acústica foi mais introspectiva, é a natureza desse formato – “Change the World” ganhou andamento mais rápido, curiosamente. A belíssima melodia não perdeu nada de sua força assim. Mas como este trecho foi um tanto extenso, com seis músicas, deu uma esfriada no clima. Quando a guitarra voltou ao protagonismo, em faixas espetaculares como a excelente surpresa “Pretending” (não tocada no primeiro show da turnê sul-americana, em Buenos Aires, dois dias antes) ou “Crossroad” (de Robert Johnson), a coisa voltou para os trilhos. Só que, a grande ovação da noite veio justamente com os violões em punho: a tocante balada “Tears in Heaven” foi emocionante, e resultou em aplausos efusivos e barulhentos.
Com uma introdução meio bossa nova, “Cocaine” foi outro grande trunfo desse repertório. Um dos riffs mais marcantes da música embalou fãs de todas as idades, e abriu espaço para a despedida, que trouxe novamente ao palco Gary Clark Jr., que havia feito o número de abertura mais cedo. Clapton tocou com uma guitarra com a bandeira da Palestina pintada em seu corpo. Assim, “Before You Accuse Me”, de Bo Didley, deu o adeus definitivo dessa primeira visita – e provavelmente, única – de Clapton a capital paranaense. O show, que começou veloz (após 50 minutos, estavam na 12ª música) e depois trouxe momentos extensos com solos de guitarra quase infinitos – como em “Little Queen of Spades”, outra de Johnson, traçou um bom panorama da carreira do artista, mesmo que canções atemporais como “Layla” ou “White Room” (Cream) tenham ficado de fora. Com a guitarra ou o violão em punhos, “Clapton is God”.
Repertório
Sunshine of Your Love [Cream]
Key to the Highway
I’m Your Hoochie Coochie Man
Badge [Cream]
Kind Hearted Woman Blues
Running on Faith
Change the World
The Call
Nobody Knows You When You’re Down and Out
Tears in Heaven
Pretending
Old Love
Cross Road Blues
Little Queen of Spades
Cocaine
Before You Accuse Me

Gary Clark Jr.
O número de abertura subiu ao palco pontualmente às 19h20. Gary Clark Jr. tem a metade da idade de Clapton, e talento similar. Com uma intro lenta, ambientando um público que basicamente desconhecia sua obra, o show foi tomando forma e ganhando força. A cadência de “Maktub” desembocou na mais ritmada “Don’t Owe You a Thang”. Do repertório de Stevie Wonder, “What About the Children” conectou de vez o público com o artista, ganhando palmas como acompanhamento.
O refrão de “This Is Who We Are” (memorável, mas não fácil), o compasso irresistível de “When My Train Pulls In” (do álbum Black and Blu, de 2012) – que durou oito minutos que poderiam ter sido vinte, sem problema algum – e o encerramento arrastado de “Habits” cimentaram uma performance que, certamente, angariou novos admiradores ao músico. A clareza das harmonias, a economia inteligente das notas, os riffs de bom gosto merecem ser devorados por aqueles que consomem o blues.
Em determinado momento, o guitarrista, econômico também com as palavras (assim como o próprio Clapton foi mais tarde), se apresentou rapidamente, ao esclarecer que era de Austin, Texas. As portas ficaram abertas para que Gary venha de lá para cá mais uma vez – ou quantas quiser – com um show completo, e não apenas 60 minutos cronometrados.
Repertório
Maktub
Don’t Owe You a Thang
When My Train Pulls In
This Is Who We Are
What About the Children [Stevie Wonder]
Bright Lights
Habits

