Por Luís S. Bocatios
Na sexta-feira da próxima semana (18), os Paralamas do Sucesso retornam a Curitiba com sua turnê de comemoração aos 40 anos de estrada. Os ingressos estão à venda pelo Disk Ingressos e os preços variam entre R$95 e R$280.
A banda é formada pelo vocalista e guitarrista Herbert Vianna, um dos grandes compositores e guitarristas do rock brasileiro dos anos 1980; o baixista Bi Ribeiro, versátil e sempre preciso em suas linhas de baixo; e o baterista João Barone, um dos mais influentes músicos de sua geração.
O repertório da atual turnê conta com músicas de nove dos treze álbuns de estúdio lançados pela banda, deixando de fora apenas “Severino”, “Hoje”, “Brasil Afora” e “Sinais do Sim”. Em uma carreira tão extensa e recheada de hits, conheça os cinco discos essenciais de uma das maiores e mais importantes bandas de rock do Brasil.
O Passo do Lui, de 1984
O disco de estreia dos Paralamas, “Cinema Mudo”, foi lançado em 1983 e traz uma lista de músicas bastante admirável para uma banda estreante, como a faixa-título, “Vital e Sua Moto” e “Foi o Mordomo”. Mesmo com uma produção precária, que impede que o lançamento tenha se tornado um clássico, o disco credenciou a banda para um segundo lançamento – este sim, um grande clássico do rock nacional.
É logo no segundo disco, “O Passo do Lui”, que o grupo se afirma não apenas como uma máquina de hits, mas também como a mais prolífica tecnicamente entre as bandas de sua época, uma espécie de The Police brasileiro (influência que nunca sumiu, mas no próximo disco já seria muito menos visível).
Das dez músicas presentes no disco, sete foram hits instantâneos e acabaram se tornando clássicos: o lado A é composto por “Óculos”, “Meu Erro”, “Fui Eu”, “Romance Ideal” e “Ska”. Como se não fosse suficiente, o lado B traz ainda os sucessos “Mensagem de Amor” e “Assaltaram a Gramática” (esta última com participação de Lulu Santos, que também compôs a faixa ao lado de Waly Salomão), além da instrumental faixa-título e das um pouco mais obscuras mas não menos excelentes “Me Liga” e “Menino e Menina”.
Em todas as canções, os músicos demonstram um entrosamento incrível e também brilham individualmente: Vianna não apenas assina nove das dez faixas do álbum, como também entrega solos memoráveis, como o de “Romance Ideal”, e riffs minimalistas e marcantes, como em “Óculos” e “Menino e Menina”.
Enquanto isso, a cozinha funciona em perfeita harmonia: enquanto Barone assume a forma de Stewart Copeland brasileiro da forma mais digna possível, Ribeiro explora um lado mais melódico de seu baixo, diferente do que faria nos discos seguintes, e apresenta linhas de baixo complexas, como as de “Romance Ideal” e “Meu Erro”.

Selvagem, de 1986
Em 1986, os Paralamas do Sucesso lançaram, possivelmente, o disco mais importante de sua carreira. “Selvagem” é uma ruptura com tudo o que a banda fazia até então. Se “O Passo do Lui” traz uma sonoridade inspirada no som britânico do início dos anos 1980, “Selvagem” mergulha em ritmos brasileiros; se “O Passo do Lui” traz uma ingenuidade e até uma certa alienação nas letras, “Selvagem” busca discutir temas políticos e sociais relevantes na época.
Essas diferenças já são sentidas na faixa de abertura, “Alagados”, que veio a se tornar um dos maiores clássicos da banda. A guitarra cheia de swing da introdução logo se junta com uma bateria que traz arranjos percussivos extremamente criativos e brasileiros, enquanto a letra busca retratar o cotidiano dos moradores de favelas.
A pesada faixa-título traz um riff simples que é engrandecido pela performance da cozinha: a bateria é forte e faz a banda pulsar ao lado do baixo, que apresenta uma outra faceta de Bi Ribeiro como instrumentista, trazendo influências e elementos de reggae e dub. O solo de guitarra é cru e soa improvisado, provando a proficiência técnica de Vianna. A letra discute a violência urbana e a censura, chegando a citar um filme de Jean-Luc Godard que havia sido banido dos cinemas brasileiros mesmo após a abertura democrática do país, em 1985.
Outro clássico do disco é “A Novidade”, feita em parceria com Gilberto Gil. Nessa composição belíssima, que fala sobre a fome e a desigualdade social, a cozinha novamente é o destaque, com uma sintonia inigualável que novamente traz influências de reggae.
Não que o disco seja 100% sério e político: faixas como “Melô do Marinheiro” e “There’s a Party” descontraem o clima (essa última, trazendo novamente uma influência gigantesca de The Police), e ainda há espaço para “Você”, cover de Tim Maia que permaneceu por anos no repertório dos shows da banda.
Bora Bora, de 1988
Se “Selvagem” rompia com a sonoridade que a banda explorou em seus dois primeiros discos, seu sucessor, “Bora Bora”, vai ainda mais fundo na direção que a banda havia apontado no disco anterior.
As primeiras faixas do álbum deixam isso muito claro: em “O Beco”, o uso de instrumentos de sopro indica que esse recurso seria preponderante no trabalho. O baixo surge mais forte do que nunca e a letra volta a discutir a violência urbana. Em seguida, a instrumental “Bunda Lê Lê”, a faixa-título, “Sanfona” e “Um a Um” escancaram que a influência de ritmos nordestinos havia tomado quase que por completo a direção musical da banda.
“Fingido” – cuja introdução lembra “Walking On The Moon”, do The Police – indica uma outra direção sonora para o álbum. A faixa seguinte, “Don’t Give Me That”, traz influências fortíssimas de reggae e dub. A partir dela, se torna dominante nas letras o término de Herbert Vianna com Paula Toller, cantora do Kid Abelha, que já havia sido tratado na faixa-título e em “Fingido”.
“Uns Dias” é uma balada grandiosa, que, em alguns momentos, chega a lembrar o álbum “In Through The Out Door”, do Led Zeppelin, por seu uso de teclados. Mas o maior sucesso do disco é “Quase um Segundo”, balada sofrida que traz apenas violão, piano e voz.
A pegada introspectiva permanece na excelente “Dois Elefantes” e na balada “Três”, enquanto “Impressão” e “O Fundo do Coração” parecem amarrar as duas facetas do disco, unindo a introspecção e a brasilidade. O reggae “The Can” termina o álbum em um espírito mais positivo e consolida “Bora Bora” como uma das pedras fundamentais na discografia dos Paralamas do Sucesso.

Big Bang, de 1989
O sucessor de “Bora Bora” traz uma banda ainda mais confiante e segura do caminho musical que estava trilhando. Não que ele ouse muito em relação aos dois trabalhos anteriores da banda, mas sua lista de canções o credencia a figurar entre os grandes trabalhos dos Paralamas do Sucesso.
A principal delas é “Lanterna dos Afogados”, um dos maiores sucessos da banda, conhecida pelo icônico solo de guitarra performado por Herbert Vianna, considerado por muitos como o melhor solo de guitarra da história do rock brasileiro.
Outras canções, como “Perplexo” e “Rabicho de Cachorro Rabugento”, são calcadas em cima do trabalho percussivo comandado por João Barone, enquanto “Dos Restos” traz à tona uma faceta mais pesada da banda e, como não poderia deixar de ser, as baladas também marcam presença, com “Nebulosa do Amor” e “Lá em Algum Lugar”.
“Pólvora”, “Esqueça o Que Te Disseram Sobre o Amor”, “Bang Bang” e “Jubiabá” são canções perfeitamente radiofônicas e apresentam um leque de influências que vai do dub e do reggae ao synthpop característico dos anos 80, passando pela soul music e pela música brasileira. São canções essencialmente “paralâmicas”.
A importância de Big Bang passa exatamente por isso: após explorar novos territórios nos discos anteriores, a banda parece ter encontrado plenamente seu som, e fez isso com um disco recheados de sucessos e de grandes composições.
Os Grãos, de 1991
“Os Grãos” marca outro momento de amadurecimento na carreira dos Paralamas do Sucesso. Após o sucesso dos álbuns anteriores, a banda explora novas texturas sonoras, misturando rock e reggae com influências eletrônicas. Com letras mais introspectivas e arranjos elaborados, o disco representa um passo em direção a uma sonoridade mais densa e complexa, sem abandonar completamente as características que consagraram o grupo.
Maior sucesso do álbum, “Tendo a Lua” exemplifica bem essa nova fase dos Paralamas. A introdução traz guitarras reverberadas, com um som bastante diferente de tudo o que a banda havia feito até então, e a letra, de tom nostálgico e poético, reflete sobre o passar do tempo e a busca por sentido na vida.
Outro sucesso é “Trac Trac”, versão de uma canção do compositor argentino Fito Páez. A canção foi importante para abrir espaço para os Paralamas em outros países da América do Sul, principalmente a Argentina, nos quais a banda faz sucesso até os dias de hoje.
“O Rouxinol e a Rosa” também apresenta elementos novos à sonoridade da banda, como a slide guitar que pontua a música inteira. O arranjo faz com que a música lembre o primeiro disco solo de Eric Clapton, lançado em 1970. O solo de guitarra, altamente “blueseiro”, figura entre os melhores da carreira de Herbert. O slide voltaria a ser utilizado, de forma ainda mais acintosa, na ótima “Dai-nos”, que também conta com um excelente solo de guitarra no melhor estilo George Harrison.
A ruptura com o passado, no entanto, não é completa: “Carro Velho” encaixa perfeitamente na estética dos discos anteriores, assim como a belíssima balada “A Outra Rota”, que começa minimalista como “Quase um Segundo”, mas se torna grandiosa por causa de seu arranjo de cordas.
No geral, “Os Grãos” se destaca por sua variedade de sons e sua maturidade musical. É um trabalho que mostra os Paralamas do Sucesso explorando novos horizontes, sem perder a essência que fez da banda uma das maiores referências do rock brasileiro. O disco é um testemunho da capacidade do grupo de se reinventar, ao mesmo tempo em que permanece fiel à sua identidade musical.
Fotos: Clovis Roman
