[Cobertura] Os Paralamas do Sucesso: noite sem surpresas, mas extremamente divertida no Guaíra

Os Paralamas do Sucesso
18 de outubro de 2024
Teatro Guaíra
Curitiba/PR

Por Luís S. Bocatios
Fotos por Clovis Roman

Na agradável noite da última sexta-feira (18), Os Paralamas do Sucesso visitaram Curitiba pela primeira vez em 2024. Foi a quarta apresentação da banda em Curitiba desde 2021, quando as medidas restritivas da pandemia começaram a diminuir. Em todas essas ocasiões, o repertório foi praticamente igual. Mas quem espera grandes surpresas em um show do Paralamas a essa altura do campeonato?

A banda entrega exatamente o que o público quer: um desfile de sucessos e clássicos que atravessam gerações. O perfil do público, aliás, comprova isso: mesmo que a plateia fosse majoritariamente composta por pessoas que possivelmente acompanham o grupo há décadas, não era raro observar jovens adultos, adolescentes e até mesmo crianças cantando praticamente todas as músicas.

Se há uma banda no Brasil que não precisa ganhar o público em um de seus shows, essa banda é o Paralamas. Mesmo assim, a banda age como se precisasse. Após a introdução do hino Baba O’Riley, do The Who, o grupo entra no palco e emenda três de seus maiores clássicos: “Vital e Sua Moto”, “Cinema Mudo” e “Ska”.

De primeira, a voz de Herbert Vianna soou um pouco mais rouca do que o normal, mas, em poucas músicas, suas cordas vocais já estavam devidamente aquecidas. Mesmo se segurando em algumas notas mais agudas, a performance do vocalista é competentíssima, levando em conta sua idade e o fato de que canta sentado, o que prejudica a voz.

O show tem sequência com dois hits dos anos 90: “Lourinha Bombril” e “Trac-Trac”. Elas abrem espaço para o momento mais pesado do show: após uma citação à “Voodoo Child”, de Jimi Hendrix, uma passagem instrumental pesada e percussiva prenuncia a roqueira e excelente “O Calibre”, música mais recente a figurar no set, lançada no álbum “Longo Caminho”, de 2002.

O momento pesado tem sequência com a magnífica “Selvagem”, um dos pontos altos do show e da carreira do Paralamas. Após a abertura, com um inconfundível riff de guitarra, a seção rítmica, formada por Bi Ribeiro e João Barone, faz a música pulsar e mostra porque é considerada a melhor “cozinha” do Rock brasileiro. Após o excelente solo, há a primeira das duas citações a “Polícia”, dos Titãs, na noite.

É em “Selvagem” que o baixo de Bi Ribeiro brilha ao longo do show, pois, no resto do tempo, ele foi um ponto negativo. Não pela performance de Bi, sempre brilhante; muito pelo contrário. Um baixista do calibre de Bi Ribeiro merecia uma mixagem de som que valorizasse mais a sua participação nas músicas.

João Barone, por sua vez, é uma força da natureza. Com uma energia tão grande quanto nos anos 1980 e uma técnica cada vez mais refinada, o baterista justifica o tamanho (também cada vez maior) de seu kit de bateria, utilizando todas as peças de forma criativa e engenhosa ao longo do show. Apenas a performance de Barone já faz com que o ingresso valha a pena.

Após uma sequência pesada, a mediana “Cuide Bem do Seu Amor” dá início a uma sequência de oito baladas, ela mesma sendo uma das mais bem recebidas pelo público, ao lado de “Aonde Quer Que Eu Vá”. Em termos de performance, os pontos altos desse bloco do show foram a belíssima “Tendo a Lua” e a clássica “Lanterna dos Afogados”. É tocante ver a emoção que Herbert sempre imprime no solo desta última, seu mais reconhecido, mesmo o reproduzindo em praticamente todos os shows há mais de 35 anos.

Como guitarrista, Vianna não está em seu auge e embola algumas notas tanto em riffs quanto em solos. Seu feeling, no entanto, continua intacto, e, nos momentos em que os solos se estendem um pouco, ele continua encantando o público. Seus momentos de guitarra mais marcantes, como os solos de “Lanterna dos Afogados” e “Romance Ideal”, são executados de forma quase perfeita.

Há de se questionar se “bloco das baladas” não foi longo demais, visto que várias músicas poderiam ter sido incluídas ao invés de algumas baladas esquecíveis como “La Bella Luna” e “O Amor Não Sabe Esperar”. O clássico disco Severino, por exemplo, foi totalmente esquecido, assim como músicas como “Uns Dias” e “Quase um Segundo”. Além disso, a banda poderia privilegiar alguns lados B esquecidos pelo grande público mas amados pelos fãs, como “There’s a Party”, “Dois Elefantes” ou “Dai-nos”. 

Se o miolo da apresentação é um pouco mais longo do que deveria, a partir de “Assaltaram a Gramática” o show engrena e não para mais. Em “Você”, cover de Tim Maia, toda a plateia do Teatro Guaira se levantou e cantou junto. “O Beco”, segunda música que tem partes de “Polícia”, manteve todos de pé, mesmo que, no único momento em que o baixo teve seu devido destaque, o som estava estourado. Uma pena, pois é uma das linhas de baixo mais fantásticas da música brasileira.

Em seguida, foi a vez de uma versão decepcionante de “A Novidade”, muito parecida com a que aparece no ao vivo “Vamo Batê Lata”, que tira parte da comovente beleza da composição e a transforma em uma música comum a partir de sua bateria agitada e da inversão de papeis do baixo e da guitarra em relação à gravação original. O público, no entanto, parece ter gostado bastante.

Após a divertidíssima “Melô do Marinheiro”, a plateia se sentou novamente, mas, assim que soaram as primeiras notas da maravilhosa “Alagados”, poucos segundos depois, todo mundo se levantou. O refrão dessa música ao vivo tem um poder descomunal. “Uma Brasileira” e “Óculos” mantiveram todos de pé e encerraram a primeira parte do show com maestria.

A banda deixou o palco ao som de gritos ensandecidos da plateia: “Mais um! Mais um! Mais um!”. Quando voltou ao microfone, Herbert brincou: “eu não gostaria de forçar nenhuma situação, mas por acaso alguns de vocês pediram mais um?”. Simpático.

O bis começou com a excelente “Perplexo” e teve sequência com “Romance Ideal”, outra que foi prejudicada pela mixagem que sufocou a brilhante linha de baixo. Mesmo assim, a composição é tão bonita que isso fica em segundo plano. 

“Ela Disse Adeus” mantém o público animado, enquanto “Caleidoscópio” traz um solo inspiradíssimo de Herbert. O encerramento com o maior sucesso da banda, “Meu Erro”, manda o público pra casa de alma lavada após quase duas horas de hits.

Repertório

Vital e Sua Moto
Cinema Mudo
Ska
Lourinha Bombril
O Calibre
Selvagem
Cuide Bem do Seu Amor
Saber Amar
Tendo a Lua
Aonde Quer Que Eu Vá
Lanterna dos Afogados
O Amor Não Sabe Esperar
La Bella Luna
Será que vai chover?
Assaltaram a Gramática
Você
O Beco
A Novidade
Melô do Marinheiro/Marujo Dub
Alagados
Uma Brasileira
Óculos
Perplexo
Romance Ideal
Ela Disse Adeus
Caleidoscópio
Meu Erro

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