[Cobertura] The Mission e Christian Death: Pilares do rock gótico dançam o catastrófico balé da música obscura

The Mission & Christian Death
15 de outubro de 2024
CWB Hall
Curitiba/PR

por Clovis Roman e Luís S. Bocatios
fotos por Clovis Roman

Christian Death

Como uma galeria de imagens gentilmente beijadas por uma leve e maligna brisa, o Christian Death subiu ao palco e tomou de assalto a casa com um gothic rock soturno, nefasto, tétrico. Mesmo sem integrantes da formação original, dos tempos que tocavam punk rock, o conjunto segue até hoje baseado em duas figuras: o guitarrista e vocalista Valor Kand, que entrou em 1983 (portanto, quatro anos após a fundação) e Maitri, baixista e vocalista que integra o grupo desde 1991. A discografia é confusa e volumosa, mas o que importa é que resultou em uma maneira particular e convincente de moldar canções lúgubres que tanto gostamos.

O público, um tanto disperso, demorou para se alinhar e focar na apresentação. Não houve momentos de grande frenesi, até porque não há um hit monstruoso, como o The Mission tem um punhado. Quem não mergulhou na experiência funesta da banda, não obstante, deixou de apreciar as nuances de músicas como a pulsante “Blood Moon”, a acessível “Beautiful” ou a obscura “Abraxas We Are”. Essas todas, faixas do último disco, Evil Becomes Rule (2022), que dominou o setlist, com sete representantes em um repertório com quinze. Quem queria as velharias mesmo, teve que se contentar com a agonizante “Cavity – First Communion” e a quase punk rock “Romeo’s Distress”, pérolas do debut Only Theatre of Pain (1982).

A despeito do ambiente dark, a interação dos artistas com a plateia foi bastante amigável: “We admire you for being here”, diz Maitri, durante uma pausa provavelmente não combinada, para a saída e retorno breve de Kand. Depois, ela manda um “The world sucks. Be kind”, sugerindo que as pessoas cumprimentassem quem estava ao seu lado, criando um laço afetivo/cordial entre todos. Curioso uma música cuja os principais motes são a dor e a morte, causar este tipo de comunhão. 

Para a reta final, “Church of No Return”, com belas melodias; e “This Is Heresy”, do álbum hereticamente intitulado Sex and Drugs and Jesus Christ, que é uma “Sin City” gótica. No final, o caos tomou conta com microfonia e som dissonantes, numa barulheira digna de Sonic Youth. Nem todos gostaram do show – os fãs das antigas reprovam a atual encarnação do Christian Death -, mas o show foi denso, coeso e cativante. Em suma: o Christian Death é um dos co-autores das escrituras do rock gótico.

Repertório

1 – Elegant Sleeping
2 – New Messiah
3 – We Have Become
4 – Forgiven
5 – The Warning
6 – Rise and Shine
7 – Abraxas We Are
8 – Beautiful
9 – Blood Moon
10 – Romeo’s Distress
11 – Face
12 – As Evening Falls
13 – Cavity – First Communion
14 – Church of No Return
15 – This Is Heresy

The Mission

Após o Christian Death, quem assumiu o palco do CWB Hall foi a principal atração da noite, a banda britânica The Mission, formada por Wayne Hussey (guitarra e vocal), Craig Adams (baixo), Simon Hinkler (guitarra) e Mike Kelly (bateria).

A banda entrou no palco com vinte minutos de atraso – para britânicos, talvez o equivalente a duas horas -, fato que gerou um pedido de desculpas do vocalista após a terceira música. “Desculpem o atraso. Não foi a gente. Estamos aqui faz um tempão”, disse o vocalista.

A performance dos músicos é perfeita: não há momentos de solos elaborados ou de um instrumental super complexo, mas a banda é bastante enérgica e interpreta, em sua maioria, arranjos idênticos aos que estão nos álbuns. Merecem destaque a cozinha, que tem alguns momentos de brilho, e a voz de Wayne Hussey, que soa tão bem quanto nos anos 1980.

O vocalista, aliás, não fala muito, mas tem ótimos momentos de contato com a plateia, como quando estende a mão para cumprimentar os fãs ou mostra empolgação ao ver CDs sendo exibidos, sempre com um sorriso no rosto.

As duas primeiras faixas são arrebatadoras: bastou o primeiro acorde de “Wasteland” para qualquer sentimento negativo pelo atraso ser completamente pulverizado. O refrão da faixa foi entoado a plenos pulmões pelos fãs da banda, assim como o da segunda música, “Beyond The Pale”, que reservou o primeiro momento de interação direta entre Hussey e o público, com o vocalista apontando o microfone para a plateia durante o refrão.

Em seguida, “Hands Across The Ocean”, “(Slave To) Lust” – duas faixas que ainda não haviam sido tocadas nessa passagem da banda pelo Brasil – e “Naked and Savage” diminuem ligeiramente a temperatura, que volta a subir com “Kindness is a Weapon” e pega fogo com “Like a Child Again”. 

“Butterfly on a Wheel”, com seus toques de Depeche Mode, e “Never Again” mantém o clima lá no alto, enquanto a música mais recente do setlist é “Met-Amor-Phosis”, do último álbum de estúdio da banda – “Another Fall From Grace”, de 2016 -, que não teve uma recepção tão forte quanto os clássicos, mas mesmo assim contou com algumas gargantas empolgadas.

A participação da plateia chega ao auge nas duas últimas músicas antes do bis: “Stay With Me”, uma canção pop típica dos anos 80, com um refrão simples e pegajoso, proporcionou um dos momentos mais bonitos do show. Em “Deliverance”, a performance da banda chega ao auge: com uma introdução trabalhada e climática, na qual a cozinha se destaca, e um refrão extremamente marcante, a música levou os fãs ao delírio e contou com aplausos entusiasmados enquanto a banda saía do palco.

O retorno foi com “Never Let Me Down Again”, cover de Depeche Mode executado de forma fiel e extremamente competente, que gerou um dos maiores coros da noite. Em seguida, um dos maiores clássicos da banda, “Severina”, emocionou muitos dos presentes e “Tower Of Strength” fechou a apresentação de forma um tanto quanto anticlimática, visto que a faixa anterior causou uma catarse muito maior e seria um excelente encerramento.

No geral, o The Mission entregou um show sólido, com um setlist que privilegia os cinco primeiros discos da banda, ou seja, repleto de clássicos cultuados pelos fãs. Com uma performance segura e energética, o quarteto fez um concerto intimista que, mesmo com alguns altos e baixos no repertório, proporcionou aos fãs vários momentos catárticos e emocionantes.

Repertório

1 – Wasteland
2 – Beyond The Pale
3 – Hands Across The Ocean
4 – (Slave To) Lust
5 – Naked and Savage
6 – Kindness is a Weapon
7 – Like a Child Again
8 – Butterfly on a Wheel
9 – Never Again
10 – Met-Amor-Phosis
11 – Stay With Me
12 – Deliverance

Bis

13 – Never Let Me Down Again (Depeche Mode cover)
14 – Severina
15 – Tower Of Strength

Galeria de fotos

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