Por Luís S. Bocatios
Na próxima sexta-feira (1º), o The Smashing Pumpkins sobe ao palco da Arena BRB, em Brasília, e encerra um hiato de 9 anos sem se apresentar em terras brasileiras. A passagem da banda pelo Brasil ainda conta com um show no Espaço Unimed, em São Paulo, no dia 3 de novembro.
Desde que tocou no país pela última vez, muita coisa mudou no grupo: além do lançamento de quatro álbuns de estúdio, o vocalista Billy Corgan recrutou de volta o baterista Jimmy Chamberlain e o guitarrista James Iha, que, ao lado de Corgan e da baixista D’arcy Wretzki, integravam a formação clássica da banda, que lançou os clássicos álbuns Gish, Siamese Dream, Mellon Collie and The Infinite Sadness e Machina. A formação atual é completa pela guitarrista Kiki Wong, pelo baixista Jack Bates e pela tecladista Katie Cole.
Trazendo a “The World Is a Vampire Tour” para o Brasil, o The Smashing Pumpkins promete uma exibição de seus maiores clássicos, sem deixar de lado os lançamentos mais recentes. A lista abaixo não está preocupada com o sucesso comercial das músicas, tampouco em listar as melhores canções da carreira do grupo, mas sim em apresentar faixas que ajudam a conhecer diferentes vertentes do trabalho de uma banda tão multifacetada, que apresenta fases distintas ao longo de sua história e experimenta com sonoridades diferentes dentro de um mesmo álbum. Confira:
Siva (Gish, 1991)
Com mais de um milhão de cópias comercializadas, o disco de estreia do The Smashing Pumpkins, Gish, foi o álbum independente mais vendido de todos os tempos até então. O álbum é extremamente energético, bem composto e maduro para uma banda estreante. Canções como “I Am One” e “Rhinoceros” estão entre as favoritas dos fãs até hoje, assim como “Siva”, que é a música que melhor catalisa a essência do álbum.
Com riffs fortes de guitarra, um som de baixo pulsante e uma linha de bateria que mostrava um Jimmy Chamberlain pronto para o estrelato, a música mistura influências do rock alternativo e do rock clássico, trazendo até acordes com sétima, típicos de Jimi Hendrix, para o caldeirão.
A letra acena para alguns conceitos metafísicos, e o solo de guitarra estabelece Billy Corgan como um dos guitarras mais promissores e únicos de sua geração. A canção já apresenta uma “pausa” instrumental, que viria a se tornar outra marca registrada da banda, provando que o The Smashing Pumpkins, sob a batuta de Corgan, era uma banda pronta para dominar o rock alternativo nos próximos anos.
Geek USA (Siamese Dream, 1993)
Após a popularidade de Gish entre os fãs de rock alternativo, o The Smashing Pumpkins invadiu de vez o mainstream com Siamese Dream, de 1993. Impulsionado pelo sucesso avassalador do videoclipe de “Today” na MTV, o disco vendeu mais de seis milhões de cópias ao redor do mundo.
A faceta mais pesada do The Smashing Pumpkins, que viria a ser ainda mais explorada nos discos seguintes, dá as caras em Siamese Dream por meio de “Geek USA”. Além de ser a prova cabal de que Jimmy Chamberlain é um dos melhores bateristas de sua geração, a canção traz diversos riffs memoráveis e apresenta elementos complexos que prenunciam grande parte do que o grupo exploraria em Mellon Collie and The Infinite Sadness.
A gravação de estúdio da canção conta com mais de trinta (!) guitarras, cada uma com um timbre diferente. A letra é bastante abstrata e traz reflexões sobre a angústia adolescente e sobre o estado da juventude norte-americana na década de 1990.
No meio da música, a “quebradeira” é interrompida por uma parte mais calma, que logo se torna pesada novamente, mas em um andamento mais lento. Quando a música volta para seu riff principal, Billy Corgan entrega um dos melhores solos de sua carreira, que reforça o quão único é seu estilo como guitarrista. A canção é encerrada com mais um riff brilhante, esse mais pesado que todos os outros, em um andamento um pouco mais lento que prepara o ouvinte para a faixa seguinte, a majestosa “Mayonaise”.
Mayonaise (Siamese Dream, 1993)
Siamese Dream une o peso de “Quiet”, a beleza de “Spaceboy” e o lirismo de “Disarm” de maneira singular. Nesse sentido, “Mayonaise” sintetiza perfeitamente o álbum como um tudo. Com uma introdução calma e de uma beleza sublime, a canção logo é tomada por guitarras com um timbre absolutamente único, que denota uma influência da sonoridade do shoegaze, movimentado representado por bandas como My Bloody Valentine e Slowdive.
Instrumentalmente, a faixa não é das mais complexas: as guitarras fazem a base de forma consistente, com espaço para licks simples, mas belíssimos, que marcam o final de cada verso, e para um belíssimo solo de puro feeling; o baixo segue as guitarras e a bateria não apresenta viradas mirabolantes como é comum para Jimmy Chamberlain, mas apenas uma levada sofisticada que se repete ao longo da música inteira.
Além da transcendental introdução, a principal força da canção se deve à incrível beleza da composição. Mesmo simples, a harmonia e a melodia constróem um clima melancólico que, após uma quebra instrumental que deixa apenas voz e guitarra, explode em um clímax emocionante que chega no auge com Billy Corgan bradando: “I just want to be me” (eu só quero ser eu mesmo).
O total significado da letra permanece debatido entre os fãs da banda, mas o fato é que Billy Corgan consegue transmitir uma dor quase palpável ao ouvinte. Em uma entrevista de 2012 ao site Crestfallen, o próprio Corgan refletiu sobre a letra: “eu só juntei um monte de frases que achava que não tinham nenhuma conexão, só estava procurando por boas frases para cantar. Quando eu canto essa música hoje em dia, fico chocado com o quanto ela reflete o que eu estava passando na época. É uma espécie de hino estranho da minha experiência, mas eu não achava isso na época”, declarou o cantor sobre uma de suas obras-primas.
Tonight, Tonight (Mellon Collie and The Infinite Sadness, 1995)
Após o lançamento de Siamese Dream, o The Smashing Pumpkins chegou ao topo do mundo. A expectativa pelo lançamento de Mellon Collie and The Infinite Sadness era gigantesca, e nenhum segundo das quase duas horas desse CD duplo desapontou.
O álbum evolui Siamese Dream em todos os aspectos: as influências são cada vez mais diversas, as composições são cada vez mais belas e o instrumental é cada vez mais trabalhado. A faixa-título, que abre o disco, é uma linda instrumental que traz apenas piano e cordas.
Ela engata em “Tonight, Tonight”, que não é apenas um dos maiores sucessos da banda, mas também uma das músicas que melhor encapsula a sonoridade única do The Smashing Pumpkins, bem como o subgênero conhecido como dream-pop, que combina elementos atmosféricos, melodias etéreas e uma abordagem introspectiva nas letras e na sonoridade.
A música demonstra uma versatilidade enorme de todos os instrumentistas da banda, que constroem uma ambientação quase fantasiosa, digna de um daqueles sonhos dos quais a gente não quer acordar. Esse clima, é claro, conta com uma enorme contribuição do brilhante arranjo de cordas; sem ele, a música não seria tão bela.
A letra trata sobre um dos principais problemas da humanidade, o único para o qual não há nenhuma solução: a passagem do tempo. Mesmo assim, diferente de muitas outras letras de Billy Corgan, as palavras têm um tom esperançoso e, quiçá, edificante. Essa abordagem, aliada ao arranjo de cordas e à harmonia construída em cima de um tom maior, cria uma das músicas mais fantásticas dos anos 1990, tanto no sentido literal quanto adjetivo.
Zero (Mellon Collie and The Infinite Sadness, 1995)
Por mais sofisticadas que sejam algumas composições do The Smashing Pumpkins, é impossível não reconhecer que a banda é mais conhecida por suas canções simples que se encaixam perfeitamente no contexto do rock alternativo dos anos 1990.
A canção que melhor representa essa faceta da banda é “Zero”, um dos principais sucessos de Mellon Collie and The Infinite Sadness. Com menos de três minutos de duração, a faixa é agressiva, tem um riff marcante e uma letra tão pessoal para Billy Corgan que o vocalista passou a se apresentar com a famosa camiseta preta com “Zero” escrito em branco, denotando (e, posteriormente, confirmando em entrevistas) que a canção é escrita do ponto de vista de Zero, um de seus alter egos. Será que ele é influenciado por David Bowie?
Mesmo dentro de um contexto radiofônico, a música não deixa de ter as esquisitices que caracterizam o The Smashing Pumpkins, especialmente os harmônicos que permeiam o riff, um toque simples que transforma completamente a música, e o solo de guitarra que flerta com a cacofonia.
Porcelina of the Vast Oceans (Mellon Collie and The Infinite Sadness, 1995)
Por mais que em alguns momentos de Siamese Dream a banda acenasse para algumas influências do rock progressivo, é em Mellon Collie and The Infinite Sadness que ela entra definitivamente no caldeirão de estilos para os quais o grupo acena em suas composições. Isso é mais perceptível em duas canções do álbum: a magnífica “Thru The Eyes of Ruby” e “Porcelina of the Vast Oceans”.
“Porcelina” começa com uma bela introdução climática que dura mais de dois minutos, até que uma explosão deixa a música épica e grandiosa. A parte climática logo volta, e, com ela, Corgan canta uma letra sobre a vulnerabilidade causada pela paixão, apresentada na forma de uma linda melodia.
O refrão, que repete o riff que vem logo depois da introdução, conta com inúmeras guitarras, que vão se revelando aos poucos e geram um resultado poderosíssimo. A estrutura se repete, com diferentes guitarras performando sons um tanto quanto espaciais, que dão um toque todo especial para uma das melhores músicas do álbum.
Tales Of a Scorched Earth (Mellon Collie and The Infinite Sadness, 1995)
Já na segunda metade do disco 2, o The Smashing Pumpkins ainda acha espaço para a música mais pesada de sua carreira. “Tales Of a Scorched Earth” tem riffs pesadíssimos que remetem fortemente ao metal, um dos gêneros que Billy Corgan sempre aponta como fundamental em sua formação musical.
Com um vocal gritado e intencionalmente mal captado, a música impressiona por sua agressividade, que é intensificada por sons malucos que são inseridos em alguns momentos da música, e por mais um solo de guitarra que beira a cacofonia.
Em termos de composição, a canção também é admirável: mesmo sendo extremamente direta, ela tem partes distintas e memoráveis. Para os fãs de rock alternativo, talvez a música seja um pouco pesada demais (apesar de timbres que a suavizam um pouco); para quem gosta de metal ou rock pesado, talvez essa seja a melhor música da banda.
Ava Adore (Adore, 1998)
Durante a turnê mundial de Mellon Collie and The Infinite Sadness, a banda teve alguns problemas sérios em relação a seus integrantes: o tecladista Jonathan Melvoin, que acompanhava a banda ao vivo, morreu, vítima de uma overdose de heroína. O episódio também causou a saída de Jimmy Chamberlain, que estava com Melvoin no momento da overdose e enfrentava sua própria batalha contra o vício.
O álbum seguinte, Adore, foi gravado sem um baterista fixo, a maioria das faixas contando apenas com uma bateria programada de forma eletrônica. A formação da banda conta apenas com Billy Corgan, James Iha e D’arcy, e a sonoridade se distancia de forma substancial dos discos anteriores, com pouquíssimos momentos rockeiros ou radiofônicos (o único hit foi a belíssima “Perfect”).
A faixa em questão, “Ava Adore”, foi escolhida para representar o álbum pois é uma das que melhor exemplifica a sonoridade do trabalho. Com claras influências de Depeche Mode, a sombria canção fala de um relacionamento abusivo causado por uma pessoa manipuladora.
Embebida em uma estética gótica, evidenciada pelo visual de Billy Corgan na turnê e no videoclipe, a canção (e o álbum como um todo) é mais uma amostra da enorme versatilidade da banda, ao mesmo tempo em que prova que Corgan é um dos compositores com a assinatura mais clara de sua geração: em músicas que trazem a tona diferentes influências, que estão inseridas em diferentes estéticas, as composições sempre são altamente reconhecíveis para qualquer um que conheça seu trabalho.
Stand Inside Your Love (Machina, 2000)
O disco seguinte, Machina/The Machines of God, trazia a volta de Jimmy Chamberlain para a bateria, reformando, assim, a formação clássica da banda. O disco não foi tão bem recebido na época, mas, hoje em dia, é comumente citado na lista de favoritos dos fãs.
Assim como todos os discos do The Smashing Pumpkins, o álbum traz músicas extremamente diferentes entre si. “Stand Inside Your Love”uma das mais inspiradas do trabalho, poderia ser definida como um “The Cure americanizado”.
A canção tem uma beleza ímpar, trazendo influências da new wave do início dos anos 1980 e um instrumental bastante discreto em relação aos outros hits da banda (com exceção de Jimmy Chamberlain, que oferece viradas elaboradas e fantásticas).
Em um trabalho repleto de canções genuinamente “Pumpkianas”, como “The Everlasting Gaze” e “Heavy Metal Machine”, “Stand Inside Your Love” se destaca como uma das canções mais bonitas e mais únicas do álbum.
Edin (Aghori Mhori Mei, 2024)
Após Machina, a banda entrou em um hiato que durou até 2006, e retornou com Zeitgeist, álbum lançado em 2007 e feito apenas a quatro mãos: Corgan tocou todos os instrumentos, menos bateria e percussão, que ficaram por conta de Chamberlain. O baterista deixou o grupo em 2009.
Em 2012, a banda lançou Oceania, e, em 2014, Monuments to an Elegy. Em 2018, Corgan recrutou Chamberlain e Iha de volta para a banda, juntando-se ao guitarrista Jeff Schroeder, à tecladista Katie Cole e ao baixista Jack Bates. A formação lançou o excepcional Shiny and Oh! So Bright (2018), o bom Cyr (2020) e a gordurosa ópera-rock Atum (2023).
Em abril de 2024, Schroeder deixou a banda e deu lugar a Kiki Wong. No entanto, o álbum mais recente da banda, Aghori Mhori Mei, foi gravado apenas por Corgan, Chamberlain e Iha.
Bastante pesado, o disco tem bons momentos, mas é bastante irregular. A primeira música, no entanto, é brilhante; com uma introdução sombria e misteriosa, a faixa logo descamba em um riff pesado que traz uma melodia vocal típica de Corgan. Pouco depois, a música “pausa” e tem início um riff que remete ao trabalho de The Who, com aquele timbre clássico da stratocaster de Pete Townshend, que é seguido por uma parte climática.
O solo de guitarra é um daqueles clássicos de Billy Corgan, com timbres esquisitos, mas dessa vez não está tão inspirado quanto em outros momentos. O final da música junta de forma brilhante os riffs pesados com a parte que lembra The Who, provando que, mesmo em momentos que não está em sua plena forma como compositor, Corgan nunca deixa de entregar algumas canções espetaculares.
Foto: @paul_elledge
