Por Luís S. Bocatios
Há exatos 55 anos, o dia 4 de novembro de 1969 entrou para a história como uma das datas mais importantes da história do southern rock, um subgênero do rock produzido no sul dos Estados Unidos que junta influências de country e folk às guitarras distorcidas já populares no final dos anos 60, a partir do trabalho de bandas como Cream e The Jimi Hendrix Experience.
Essa importância se dá a partir do lançamento do autointitulado disco de estreia do The Allman Brothers Band. A banda nunca foi a mais famosa do movimento, que se tornou conhecido mundialmente pelo sucesso de bandas como Creedence Clearwater Revival, Eagles e Lynyrd Skynyrd, mas exibe uma originalidade, uma criatividade e um cacife musical que a alçaram a um status lendário.
A banda foi formada em março de 1969 por dois renomados músicos de estúdio, os irmãos Gregg, vocalista, organista e compositor; e Duane Allman, guitarrista que se tornou um ícone do instrumento por seu domínio da slide guitar.
O primeiro disco foi gravado logo em agosto. Juntaram-se aos irmãos o guitarrista Dickey Betts, o baixista Barry Oakley e os bateristas/percussionistas Jai Johanny Johansson e Butch Trucks, que trabalharam sob a batuta do produtor Adrian Barber.
Os músicos e o produtor entregam uma sonoridade crua, pelo timbre dos instrumentos, mas ao mesmo tempo sofisticada, por apresentar uma complexidade maior na composição e na estrutura das músicas. Essa mistura é o principal atrativo do The Allman Brothers Band: a banda consegue entregar tanto faixas simples e roqueiras quanto canções complexas que chegam a se aproximar até do jazz.
O medley que abre o disco, composto pelas músicas “Don’t Want You No More” e “It’s Not My Cross to Bear”, já é uma prova de que a banda seria eterna. A primeira é uma instrumental que conta com um riff de guitarras harmonizadas, uma das primeiras vezes que o recurso foi utilizado na história da música (o álbum abusa desse recurso com um bom gosto incrível), e traz uma estrutura complexa, com quebras instrumentais que comprovam a capacidade técnica absurda dos músicos, e deixa um espaço para improvisação que Duane Allman utiliza para mostrar que, a partir de então, seu nome se tornaria quase um sinônimo para slide guitar.
Já “It’s Not My Cross to Bear” é um blues clássico, no qual Gregg Allman já se coloca entre os grandes vocalistas da história do rock por meio de sua voz forte, rouca e emotiva que canta sobre um homem que tenta aprender a colocar a si mesmo em primeiro lugar após o término de um relacionamento. A faixa é marcada por um uso forte do órgão, como é comum no blues, e por licks de slide guitar que preenchem o espaço vazio entre os versos.
Os solos de Dickey Betts e Duane Allman, cada um com seu estilo – Betts abusa dos bends e da escala pentatônica, enquanto Allman se mantém com seu uso de slide guitar absolutamente inovador para a época – são extremamente emotivos, fazendo com o que o ouvinte tenha que se conter para não chorar, dependendo de seu estado emocional.
A próxima faixa é “Black Hearted Woman”, uma das mais diretas do disco, mas que, ainda assim, conta com um instrumental complexo, especialmente na introdução. Após isso, a faixa segue uma estrutura mais simples, com versos intercalados com passagens instrumentais e um solo de guitarra rápido e técnico. A letra é mais uma que fala sobre uma decepção amorosa, o tema favorito de praticamente todos os artistas de blues.
A parte final da música é composta por um solo de bateria, ao qual a percussão logo se junta e, pouco depois, o vocal acompanha um lick de slide guitar que dá espaço para um outro solo de guitarra, este mais curto. O riff inicial da música retorna para encerrá-la, mas não antes de um fade-out que leva o ouvinte a se perguntar até onde vai aquela jam e se lamentar por não ouvi-la por mais tempo.
A faixa seguinte, “Trouble No More”, tira rapidamente esse gosto amargo deixado pelo fim da música anterior. O cover de Muddy Waters tem um riff memorável e carrega a estrutura mais simples entre todas as canções do trabalho. Os solos de guitarra, dessa vez, trazem “duelos” entre Allman e Betts, que intercalam frases concisas e belíssimas.
O disco tem sequência com a excepcional “Every Hungry Woman”, que traz a performance de bateria mais explosiva do disco. Mesmo sem viradas mirabolantes, Butch Trucks desce a mão e enche a música de uma energia incrível. A canção é a mais radiofônica do disco, com uma estrutura simples de verso/pré-refrão/refrão.
Em contrapartida, além da bateria, o baixo também soa muito forte, assim como as guitarras, que novamente aparecem harmonizadas – dessa vez, inclusive, em passagens do solo.
Chegando na reta final do álbum, a penúltima música “Dreams” não é um jazz-rock clássico, na linha da Mahavishnu Orchestra ou dos discos de Miles Davis do final dos anos 60, mas, de sua maneira, é basicamente um free-jazz performado por uma banda de rock.
A bateria tem uma levada quebrada e suave, o vocal assume um papel coadjuvante e o baixo fica na mesma linha durante a música inteira e abre um espaço enorme para a improvisação, que é feita por Duane Allman de forma magnífica. O solo é lindíssimo e fica cada vez mais intenso, com escolhas de notas fora do comum e, novamente, uma utilização inovadora do slide guitar.
A canção que fecha o disco, “Whipping Post”, é aberta com um riff de baixo de Berry Oakley que apresenta um dos timbres mais pesados e pulsantes do instrumento de quatro cordas até aquela época. A composição é brilhante, tem um refrão extremamente empolgante, os solos são complexos e a música vai escalando até um final apoteótico que encerra um dos discos de estreia mais esplendorosos da história da música.
O disco seguinte, Idlewild South, de 1970, seguiria um caminho similar, mas com a banda explorando ainda mais as influências jazzísticas em sua sonoridade. Os dois álbuns caminham tão bem juntos que, em 1973, eles seriam relançados juntos, em uma coletânea chamada Beginnings. Em 1971, o grupo lançou At Fillmore East, um dos discos ao vivo mais icônicos de todos os tempos, que apresentava uma banda absolutamente coesa, virtuosa e energética.
Eat a Peach, de 1972, traz algumas canções mais simples e com um toque acústico, mas sem deixar de lado a improvisação, que sempre foi o principal ponto do conceito musical do The Allman Brothers Band. Duane Allman morreu durante o processo de gravação do disco, em outubro de 1971, vítima de um acidente de moto. Portanto, o guitarrista não teve tempo de tocar em nenhuma das três faixas do lado A do disco 1. Pouco mais de um ano depois, em novembro de 1972, Berry Oakley morreu, também vítima de um acidente de moto que ocorreu a menos de três quarteirões de onde a fatalidade que matou Duane havia acontecido.
O primeiro álbum da banda sem a dupla, Brothers and Sisters, é excelente e traz alguns dos maiores clássicos do grupo, como “Ramblin’ Man” e “Jessica”, mas ele também marca o final da fase clássica da The Allman Brothers Band, que, entre inúmeras idas e vindas na formação, permaneceu fazendo turnês até 2014 e lançando discos novos até 2003, com o lançamento do sublime “Hittin’ the Note”.
Com a morte de Dickey Betts, em abril de 2024, o único membro original da banda ainda vivo é o Jai Johanny Johansson: Butch Trucks se suicidou em janeiro de 2017, mesmo ano em que Gregg Allman morreu, em maio, vítima de um câncer no fígado.
O legado do grupo, no entanto, permanece vivo. O sobrinho de Butch Trucks, Derek Trucks, integrou a banda de 1999 até 2014, e já se tornou uma outra lenda da slide guitar, seguindo os passos de Duane Allman. Sua banda, Tedeschi Trucks Band, é uma espécie de herdeira espiritual do The Allman Brothers Band, seguindo com a tradição de jams gigantescas e, sempre que possível, pagando tributo a este grupo seminal da história do rock and roll.
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