[Cobertura] Napalm Death, Krisiun, Ratos de Porão: noite histórica para os fãs de música extrema em Curitiba

Napalm Death
25 de outubro de 2024
CWB Hall
Curitiba/PR

Por Luís S. Bocatios
Fotos de Clovis Roman

Desde que foi anunciada, em abril, a apresentação que traria Ratos de Porão, Krisiun e Napalm Death a Curitiba passou a ser tratada como a noite dos sonhos dos fãs de música extrema. Não por acaso: não é todo dia que temos a chance de testemunhar o maior nome da história do punk/hardcore nacional, uma das bandas mais importantes do death metal nacional e o grupo que inventou o Grindcore, um dos subgêneros mais extremos do metal.

O local escolhido para essas apresentações foi o CWB Hall, casa de shows no bairro do Prado Velho com capacidade para em torno de 700 pessoas. Ver essas três bandas juntas foi fantástico, mas problemas técnicos e o calor prejudicaram a experiência como um todo.  Para os fãs das bandas, no entanto, a oportunidade de presenciar ícones da música extrema se apresentando juntos era tão surreal que nem isso conseguiu apagar o brilho de uma noite marcante.

Ethel Hunter

Quando essa noite histórica começou, ainda nem era noite. Mesmo com um atraso de mais de uma hora para a abertura da casa, o sol ainda raiava quando a Ethel Hunter, banda curitibana de death metal, subiu ao palco.

O atraso fez com que a banda começasse a tocar basicamente no minuto em que as portas se abriram; a fila para entrar na casa não era longa, mas quem estava no meio já entrou durante o show do Ethel Hunter.

A casa estava praticamente vazia, mas o público que chegou depois não perdeu lá grandes coisas: não que a banda seja ruim, mas o som da guitarra e do baixo se resumiu a ruídos. Praticamente só se ouvia a bateria e o assustador (no ótimo sentido) gutural da vocalista Larissa Pires.

Esse problema no som fez com que os momentos um pouco menos pesados tenham sido o destaque do show: neles, o som era um pouco mais nítido, e a banda parecia bastante empolgada. O grupo aproveitou para apresentar várias músicas novas, que ainda não saíram em CD, e foi bem recebido pelo público que já estava no CWB Hall.

Manger Cadavre? (foto: Clovis Roman).

Manger Cadavre?

Logo após o final do primeiro show, os próprios músicos do Manger Cadavre? subiram ao palco para ajustar o som. Nisso, o público já teve contato com a potência que sairia da Flying V do guitarrista Paulo Alexandre.

De fato, o show foi fortíssimo: em pouco menos de uma hora, a banda ganhou o público (com direito ao primeiro mosh da noite, logo na segunda música, “Imperialismo”) com riffs poderosíssimos, uma banda concisa e uma vocalista, Nata Nachthexen, bastante carismática. Na primeira música, “Insônia”, o som ainda estava ruim, mas logo foi corrigido e se tornou aceitável.

Na primeira interação com o público, a vocalista contou que a banda realizou sua primeira turnê internacional neste ano de 2024, e agradeceu aos fãs que seguem o grupo, apoiam e compram camisetas, CDs e outros produtos.

Perto do final do show, ocorreram as primeiras manifestações políticas da noite. Ao anunciar a música “Tragédias Previstas”, Nachthexen explicou que a música é sobre as mais de 700 mil mortes que ocorreram no país por causa da Covid-19. “Não foi uma tragédia, foi uma escolha; Bolsonaro é um genocida e tem que ir pra cadeia!”, declarou a vocalista, que recebeu aplausos do público. Antes da próxima música, “Encarceramento e Morte”, ela também pediu o fim da Polícia Militar.

Em uma performance excelente, o Manger Cadavre? cumpriu com louvor o propósito de aquecer o público para as bandas que viriam a seguir e, de quebra, certamente ganhou alguns novos admiradores que irão atrás de conhecer o seu trabalho.

Ratos de Porão (foto: Clovis Roman).

Ratos de Porão

Perto do início do show do Ratos de Porão, a casa começou a encher, visando a primeira das três principais atrações da noite. Dessa vez, quem ajustou o som foram os roadies, com a exceção do baixista Juninho Sangiorgio, que estava fazendo o próprio ajuste.

Assim que o Ratos subiu ao palco, ficou claro que o show seria avassalador e subiria o sarrafo para as bandas que viriam a seguir. O público estava animadíssimo e, já na primeira música, abriu-se uma roda de mosh que permaneceria ativa durante quase o show inteiro.

A banda deu tudo de si, mas não estava plenamente satisfeita com as condições técnicas do local; João Gordo, no melhor estilo Tim Maia, se irritou várias vezes com o som nas primeiras músicas: “tinha tudo pra ser um puta show, mas esse som tá dificultando!”. Perto do final do show, Gordo passou a se divertir com os problemas no microfone: cantava, via que o som falhava, olhava para a sua equipe técnica e dava uma risada discreta.

Para o público nas primeiras fileiras, no entanto, o som não estava ruim. Por mais que o vocal não estivesse com a maior nitidez do mundo, os instrumentos soavam muito bem. O repertório, com 25 músicas, foi um desfile de clássicos: “Aids, Pop, Repressão”, “Amazônia Nunca Mais”, “Beber Até Morrer”, “Crucificados Pelo Sistema”, “Farsa Nacionalista”, “Caos”… não faltou nada.

Ratos de Porão (foto: Clovis Roman).

Ao anunciar que as duas próximas músicas, “Bad Trip” e “Satanic Bullshit”, pertencem ao álbum Just Another Crime in… Massacreland, que completa 30 anos em 2024, João Gordo contou que não gosta muito do álbum. Após uma recepção extremamente positiva do público às duas músicas, o vocalista explicou sua decepção com o álbum: “esse seria um puta disco de thrash metal, mas aí veio o Grunge e fez todo mundo tocar mais devagar. O Napalm desacelerou, o Sepultura desacelerou e a gente teve que diminuir também”.

A performance da banda é impecável: o carisma de João Gordo dispensa comentários, Jão está sempre com um sorriso no rosto enquanto toca seus riffs poderosos com perfeição, Juninho comanda a interação com o público através de seus gestos, constantemente comprimentando o público e até pedindo mosh com as mãos, e Boka dá um show na bateria.

Diferente do que aconteceu no Knotfest, no último sábado, o público não se incomodou com a bandeira do MST que fica hasteada no palco e nem com a camiseta do mesmo movimento que Juninho veste durante o show inteiro. Não houve ninguém indignado ou dizendo “onde já se viu uma banda punk falar de política? Que absurdo!”. As letras, mais atuais do que nunca, trazem alertas contra o fascismo, a opressão e o fanatismo religioso.

Foi com “Crise Geral” que o Ratos se despediu do público, trazendo o CWB Hall abaixo e fechando com chave de ouro o primeiro clímax dessa noite histórica.

Setlist

Alerta Antifascista
Aglomeração
Amazônica Nunca Mais
Farsa Nacionalista
Ignorância
Lei do Silêncio
Morte ao Rei
Satanic Bullshit
Bad Trip
Morrer
Mad Society
Crianças sem Futuro
Crucificados pelo Sistema
Descanse em Paz
V.C.D.M.S.A. (Vivendo cada dia mais sujo e agressivo)
Guerrear
Políticos em nome do povo…
Caos
Realidades da Guerra
Igreja Universal
Herança
Aids, Pop, Repressão
Beber Até Morrer
Crocodila
Crise Geral

Krisiun (foto: Clovis Roman).

Krisiun

Cansado após o show do Ratos de Porão, o público saiu da casa para tomar um ar e tentar fazer passar um pouco do calor infernal que estava dentro do CWB Hall. Assim que soaram os primeiros acordes do Krisiun, todos voltaram correndo para a pista.

O show começou com “Kings Of Killing”, do clássico disco Apocalypctic Revelation, e o público entrou no clima logo de cara. Curiosamente, nas próximas músicas o clima caiu um pouco; os fãs devotos agitaram em todas as músicas, mas a maioria do público parecia não estar tão familiarizada com o som do Krisiun quanto estava com o do Ratos de Porão. A partir da pesadíssima e excepcional ”Necronomical”, no entanto, a banda cativou de vez quase todos os presentes.

Depois dela, o show engata de vez. O mosh não foi tão grande quanto no show anterior, mas isso provavelmente se deve ao fato de que a performance da banda era tão intensa e interessante que quem não conhecia preferia assistir atentamente ao show ao invés de entrar no mosh.

No entanto, o mosh que os fãs do Krisiun promoveram foi tão intenso e violento que certamente ninguém se arrependeu, com a exceção de um sujeito que, durante “Blood Of Lions”, saiu do mosh com o rosto todo ensanguentado e, provavelmente, um nariz quebrado. Barra pesada.

A performance dos músicos é impecável durante o show inteiro, especialmente a do baterista Max Kolesne, que deixa o público de queixo caído durante o show inteiro com sua incrível técnica aliada a uma agressividade monstruosa. As composições de bateria de Kolesne sempre foram insanas, e ele as reproduz ao vivo de forma impressionante.

O guitarrista Moyses Kolesne é outro que reproduz com perfeição seus pesadíssimos, rápidos e complexos riffs, enquanto o baixista e vocalista Alex Camargo também performa de forma impecável, além de ficar encarregado do contato com o público durante o show inteiro, sempre agradecendo a todos os presentes e exaltando o metal nacional. A apresentação foi tão boa que até o baixista do Napalm Death, Shane Embury, estava assistindo por trás da cortina.

O ponto negativo do show novamente ficou por conta do som, que prejudicou a performance do Krisiun bem mais do que das outras bandas. Os timbres pesadíssimos da guitarra puxaram o sistema de som do CWB Hall ao limite, enquanto o baixo mal era ouvido. Em alguns momentos do show, tudo o que se ouvia era a bateria, os vocais e uma guitarra meio confusa (certamente não por culpa de Moyses Kolesne).

Mesmo assim, o Krisiun, mesmo um pouco menos conhecido do que as outras duas principais bandas da noite, conseguiu conquistar completamente o público que não era familiarizado com o material da banda e deixou o palco ao som do plateia inteira gritando “olê, olê, olê, olê, Krisiun, Krisiun”.

Setlist

Kings of Killing
Combustion Inferno
Ravager
Scourge of the Enthroned
Necronomical
Apocalyptic Victory
Blood of Lions
Serpent Messiah
Hatred Inherit

O lendário Shane Embury (foto: Clovis Roman).

Napalm Death

A grande atração da noite entrou no palco uma hora depois do previsto, quando o público já começava a chiar e ficar impaciente com a demora. Bastou a banda entrar no palco, no entanto, para tudo isso ser esquecido e o público ficar completamente ensandecido.

O Napalm Death fez um show absolutamente impecável, a começar pela performance do vocalista Barney Greenway. Uma das figuras mais peculiares da história do metal, Greenway tem uma presença de palco assombrosa: ele fez o show vestindo uma camiseta vermelha com o símbolo da paz estampado em branco, contrapondo praticamente todos os outros músicos que se apresentaram naquela noite vestidos de preto.

O vocalista exibe todo seu carisma da forma mais esquisita possível: ele passa o show inteiro tremendo, e, mesmo quando está de costas para o público (provavelmente para tentar se encontrar na música, olhando para a bateria), é muito difícil tirar os olhos dele. O vocalista também não poupou interações bacanas com o público, como quando jogou uma garrafa de água para um fã que reclamava do calor, ou quando desceu do palco para autografar um CD.

Napalm Death (foto: Clovis Roman).

Um intelectual com enorme estudo sobre filosofia e política (além, é claro, de artes em geral, como artes visuais, literatura e gêneros musicais distantes do Grindcore), Greenway faz questão de passar sua mensagem ideológica: antes de “Suffer the Children”, o vocalista explica que a canção é uma crítica à religião e faz um discurso condenando o sexismo, a homofobia e a transfobia.

Ao apresentar “Nazi Punks Fuck Off”, cover da lendária banda californiana de hardcore Dead Kennedys, Barney ressalta que trata-se de uma canção antifascista, aproveitando para deixar um recado não tão lisongeiro ao ex-presidente da república Jair Bolsonaro, a quem chama de “babaca odioso do caralho”.

Os outros integrantes também merecem muito destaque: o baixista Shane Embury é outro que tem um carisma único, mesmo que seu baixo tenha sido completamente soterrado pela mixagem de som. O baterista Danny Herrera tem uma performance explosiva (o som de seus tons é destruidor!) e o guitarrista John Cooke reproduz com precisão todos aqueles riffs poderosos gravados em estúdio por Mitch Harris.

Danny Herrera, do Napalm Death (foto: Clovis Roman).

O repertório balanceou muito bem a fase mais recente da banda – principalmente o último disco de estúdio, Throes of Joy in the Jaws of Defeatism, de 2020 – aos discos clássicos, da época em que Greenway ainda nem estava na banda, especialmente Scum, o trabalho de estreia. Vale o destaque para “You Suffer” e “Dead”, músicas de menos de três segundos, que levaram a plateia ao delírio e fizeram Barney brincar: “essas são duas músicas muito diferentes”.

Se durante o show do Napalm Death o som não incomodou tanto, o lado negativo ficou exatamente pelo atraso, pelo qual Barney se desculpou, culpando problemas técnicos enfrentados pela produção. O problema é que o show do Napalm Death depende muito da força do público, que fez de tudo para encontrar alguma energia dentro de si e fez alguns belos moshs, mas claramente já estava cansadíssimo.

A banda, no entanto, não fez por menos e também se entregou completamente; ao final do show, a camiseta de Barney já estava completamente encharcada de suor, pois o vocalista não parou um minuto durante o show inteiro, não poupou nada de sua voz e, junto aos outros músicos que subiram no palco nesta memorável noite de sexta-feira, fez com que o insuportável calor, os problemas no som e o cansaço fossem meros coadjuvantes em um evento fantástico para os fãs de música extrema.

Setlist

From Enslavement to Obliteration
Taste the Poison
Next on the List
Contagion
Rise Above
Resentment Always Simmers
That Curse of Being in Thrall
Amoral
If the Truth Be Known
Backlash Just Because
Fuck the Factoid
Suffer the Children
Mass Appeal Madness
Scum
M.A.D.
Success?
You Suffer
Dead
Nazi Punks Fuck Off
Instinct of Survival
Siege of Power

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