Deep Purple, Queen e Thin Lizzy: há 50 anos, três ícones do hard rock lançavam discos clássicos

Por Luís S. Bocatios

No dia 8 de novembro de 1974, exatos 50 anos atrás, os fãs de rock foram agraciados com o lançamento simultâneo de três discos que se tornariam clássicos do gênero: o Deep Purple lançou Stormbringer, segundo álbum da formação MKIII, o Queen encontrou definitivamente seu som com Sheer Heart Attack, e o Thin Lizzy se estabeleceu como um expoente do rock irlandês com Nightlife. Conheça um pouco mais sobre esses discos e entenda o motivo deles serem tão especiais:

Stormbringer (Deep Purple)

Em fevereiro de 1974, o Deep Purple lançou o clássico Burn, primeiro disco da banda com a formação conhecida como MKIII, que trazia David Coverdale substituindo Ian Gillan no vocal e Glenn Hughes assumindo o baixo no lugar de Roger Glover. Eles se juntaram ao tradicional trio formado pelo baterista Ian Paice, pelo guitarrista Richie Blackmore e pelo tecladista Jon Lord.

Há exatos 50 anos, no dia 8 de novembro daquele mesmo ano, era lançado Stormbringer, que já seria o último álbum da formação. Sim, o Deep Purple sempre foi um caos, mas que caos brilhante! Stormbringer é uma obra-prima do hard-rock, um dos álbuns mais espetaculares que o mundo já teve o prazer de receber.

A épica faixa-título, que abre o disco, é uma prova inequívoca disso: com timbres de teclado esquisitíssimos, um riff absolutamente fantástico e uma performance vocal que coloca Coverdale no topo da lista de melhores vocalistas de todos os tempos, a canção deveria ser inserida no dicionário como explicação do que é o hard-rock.

É claro que a banda também apresenta diversas faixas de hard-rock mais diretas, estilo que a consagrou mundialmente: a excelente “Lady Double Dealer” tem um solo de guitarra esplendoroso e puramente “blackmorístico”, como também é o riff de “High Ball Shooter”, outra representante espetacular do puro hard-rock que o Deep Purple faz como ninguém. Outra que segue essa linha é “The Gipsy”, que tem um riff um pouco mais lento e cadenciado, mas não por isso perde seu poder; muito pelo contrário, a música é excelente.

O álbum ainda apresenta músicas radiofônicas como a belíssima “Holy Man”, cantada por Gleen Hughes, que tem um solo lindo de slide guitar, recurso que Blackmore havia recém-inserido em seu leque de técnicas; “Love Don’t Mean a Thing”, que tem uma linha de baixo extremamente criativa e, assim como “Hold On”, apresenta uma influência da soul music que a banda não havia sinalizado em nenhum momento de sua discografia até então; e “You Can’t Do It Right”, que tem um riff bem hard-rock, mas também apresenta uma pegada swingada deliciosa.

A linda balada “Soldier Of Fortune” encerra o disco e é disparadamente seu maior hit: a composição é belíssima e emotiva, contando com mais uma brilhante performance vocal de Coverdale e outro solo marcante de Blackmore utilizando a slide guitar – dessa vez, com uma harmonização sublime.

O guitarrista não estava contente com a crescente influência do soul e do funk na sonoridade do Deep Purple, e acabou deixando o grupo em 1975 para fundar o glorioso Rainbow. Em outubro do mesmo ano, o Deep Purple lançou o ótimo Come Taste the Band com Tommy Bolin na guitarra, que ia ainda mais fundo nas influências que Blackmore rejeitava. No final das contas, foi bom pra todo mundo; e mesmo que as próximas empreitadas de cada um não tivessem sido bem sucedidas, Stormbringer já é suficiente para imortalizar qualquer banda ou artista.

Sheer Heart Attack (Queen)

O autointitulado disco de estreia do Queen, lançado em 1973, projetou a banda como uma das mais promissoras dos anos 70, com instrumentistas extremamente competentes e um cantor fora de série. Queen II, lançado em março de 1974, reforçava o status do grupo e ainda acrescentava elementos fortíssimos de rock progressivo, com composições épicas e instrumentais complexos em faixas como “Ogre Battle” e “The March of the Black Queen”.

Em 8 de novembro de 1974, o Queen lançou Sheer Heart Attack, álbum que definiu a sonoridade eclética e particular que definiria a fase de ouro da carreira da banda, composta pelos subsequentes A Night at the Opera (1975), A Day in the Races (1976), News of The World (1977) e Jazz (1978).

O disco vai de composições clássicas de hard rock recheadas de riffs memoráveis, como “Brighton Rock” e a fantástica “Now I’m Here”, até músicas que soam como trilhas sonoras para musicais extravagantes, como “Bring Back That Leroy Brown” e a clássica “Killer Queen”, que traz um dos solos de guitarra mais inspirados de Brian May, com um timbre inconfundível e inigualável.

Ainda há espaço para baladas como a linda “Dear Friends” e a acústica “She Makes Me [Stormtrooper In Stilettos]”, para um medley progressivo composto por “Tenement Funster”, “Flick Of The Wrist” e “Lily Of The Valley”, regravadas pelo Dream Theater; e até para o metal, representado pela clássica “Stone Cold Crazy”, que foi regravada pelo Metallica e é considerada por muitos como a primeira música de thrash metal de todos os tempos.

Basicamente, Sheer Heart Attack foi quando o Queen se tornou o Queen: a banda amadureceu e as camadas de guitarra executadas por Brian May, o vocal incomparável de Freddie Mercury, as linhas de voz sobrepostas, a agressividade de Roger Taylor na bateria e a precisão de John Deacon no baixo se tornaram instantaneamente reconhecíveis e colocaram a banda no olimpo do rock, de onde ela nunca mais saiu.

Nightlife (Thin Lizzy)

Após três ótimos discos com o guitarrista Eric Bell (especialmente o primoroso Vagabonds of the Western World), o líder do Thin Lizzy, Phil Lynott (baixista e vocalista), recrutou Scott Gorham e Brian “Robbo” Robertson para formar uma das duplas de guitarristas mais icônicas dos anos 70. A formação, completa pelo tradicional baterista Brian Downey, fez sua estreia no álbum Nightlife, também lançado no dia 8 de novembro de 1974.

A principal palavra para definir o disco – e talvez a banda – é “ecletismo”. Conhecida como uma das principais influências de bandas como Iron Maiden e Metallica, o Thin Lizzy é constantemente referenciada como uma banda de puro hard-rock/metal, mas essa descrição está longe da realidade, e isso pode ser comprovado desde os primeiros discos da banda (basta ouvir “The Rise and Dear Demise of the Funky Nomadic Tribes”, do segundo disco, que apresenta uma influência de bandas como Sly & The Family Stone).

Mesmo no álbum mais famoso da banda, Jailbreak, observa-se uma variedade muito grande nas composições: se “The Angel and The Gambler” apresenta guitarras “funkeadas” e um ritmo que se aproxima do dançante, “Emerald” é uma das faixas mais épicas, grandiosas e densas da história do heavy metal. E ambas são igualmente brilhantes!

Nightlife é um dos trabalhos da banda que melhor exemplifica isso, chegando a puxar mais para o lado da soul music do que do hard-rock. As duas primeiras músicas, “She Knows” e “Night Life”, já apresentam uma influência marcante do soul, e servem como cartões de visita espetaculares da nova dupla de guitarras, com solos alucinantes (o de Night Life, fantástico e virtuoso, tem um dos sons de stratocaster mais puros de todos os tempos).

Essa faceta do disco também é representada por “Showdown”, que tem uma linha de baixo inspiradíssima, e “Still In Love With You”, cujo longo solo apresenta todo o virtuosismo de Robbo. A maravilhosa “Philomena”, que Lynott compôs em homenagem à sua mãe, e a melancólica “Banshee”, que é curta mas belíssima, ficam no meio termo entre o lado mais soul e o lado mais roqueiro do álbum, que é exibido por canções como “It’s Only Money” e “Sha La La”, que poderiam perfeitamente figurar em álbuns como Fighting e Jailbreak.

A banda ainda encontra espaço para baladas como “Frankie Carroll”, uma canção simples guiada por piano e cordas, e “Dear Heart”, a faixa de encerramento, que não é lá a composição mais inspirada do álbum, mas é engrandecida por um arranjo de cordas belíssimo. 

Mesmo estando longe de ser o disco mais famoso da fantástica discografia do Thin Lizzy, Nightlife é um excelente álbum e apresenta um Phil Lynott (que compôs todas as faixas) mais interessado em explorar sonoridades fora da esfera do hard-rock, algo que o grupo sempre fez, mas nunca de forma tão exacerbada quanto no disco que hoje completa 50 anos.

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