[Lista] Os 10 melhores discos de rock progressivo lançados em 1974

Por Luís S. Bocatios

Nesta sexta-feira (22), completam-se 50 anos do lançamento do último disco do Genesis com Peter Gabriel no vocal, a ópera-rock The Lamb Lies Down on Broadway. Aliada à saída de Rick Wakeman do Yes, no ano anterior, e ao hiato do King Crimson, a saída de Gabriel é apontada como um ponto de ruptura na história do rock progressivo, que logo viria a ser atropelado pela chegada do punk e da disco music.

O ano de 1974 é, portanto, um dos anos mais importantes da história do gênero. A essa altura, várias das principais bandas chegavam em seu auge, experimentando com estruturas musicais complexas, longas composições e arranjos ousados que desafiavam as convenções musicais estabelecidas até então. 

Ao mesmo tempo, surgiam novos grupos que traziam frescor e inovação para a cena. Mesmo que o declínio da popularidade do gênero tenha impedido o sucesso de muitas dessas caras novas, a união entre o auge de bandas já estabelecidas com a estreia de novos grupos faz com que o ano de 1974 seja, possivelmente, o mais importante da história do prog rock.

Abaixo, confira um ranking dos dez melhores álbuns de rock progressivo que completam 50 anos em 2024:

10 – Nektar – Down to Earth

Uma das bandas mais “cult” do rock progressivo é a britânica Nektar, que está longe de estar entre as mais famosas do gênero mas construiu uma base de fãs leal, que inclui Steve Harris, baixista do Iron Maiden (em uma entrevista à Revista Metal nos anos 1980, Harris inseriu o álbum Recyled, que o grupo lançou em 1975, em sua lista de 10 discos favoritos).

Um ano antes, a banda lançou Down to Earth, um de seus álbuns mais famosos, que alterna entre momentos super progressivos e outros que poderiam perfeitamente ter se tornado hits populares. O lado A é mais complexo: “Astral Man” tem elementos de fanfarra e toques de humor, enquanto “Nelly the Elephant” é mais tensa, conta com uma linha de baixo incrível e solos de guitarra muito loucos e dissonantes.

“Early Morning Clown” é uma bela canção acústica, que poderia ser radiofônica se não fosse por seu andamento fora do comum, e “That’s Life”, a mais progressiva do disco e uma das melhores, tem outra excelente linha de baixo e harmonias vocais que parecem dissonantes da composição.

O lado B é bem mais direto: a excelente “Fidgety Queen” é puro classic-rock, poderia ser uma música do Deep Purple. “Oh Willie” segue a mesma linha, mas tem um interlúdio longo com solos de guitarra muito bonitos. Já “Little Boy” é uma balada linda, certamente a composição mais radiofônica do disco, e “Show me the Way” não é tão inspirada, mas tem bons momentos, como a parte em que o título é repetido perto do final, e o começo, com um piano e um lick de slide guitar que remete um pouco ao estilo de George Harrison.

“Finale” é uma música curta, de pouco mais de um minuto, que cria um clima adequado para encerrar este ótimo disco de uma banda um tanto quanto subestimada pelo público geral, mas justamente cultuada por fãs do gênero.

9 – Kraftwerk – Autobahn

Autobahn, lançado em 1974, é o disco mais importante da carreira do grupo alemão Kraftwerk, consolidando sua posição como pioneiro da música eletrônica. O álbum se destaca por seu uso inovador de sintetizadores e sequenciadores, instrumentos pouco comuns para a época. 

O álbum utiliza elementos do rock progressivo, como longas composições, uma narrativa musical quase cinematográfica e o foco na experimentação, mas substitui as guitarras, baixos e baterias tradicionais por elementos eletrônicos. Enquanto bandas progressivas mais tradicionais buscavam expandir os limites do rock com influências psicodélicas e orquestrais, o Kraftwerk explorava a tecnologia para criar um som minimalista e hipnotizante. 

Assim, Autobahn ecoa o espírito progressivo de explorar e desafiar as fronteiras da música, mas o faz de uma forma completamente inovadora. A faixa-título, por exemplo, tem mais de 22 minutos e captura a sensação de uma longa viagem pela rodovia alemã, transformando uma experiência corriqueira em uma textura sonora intrigante e repleta de camadas eletrônicas.

O caráter vanguardista do disco pavimentou o caminho para uma série de gêneros que viriam a ganhar forma nas décadas seguintes, como o synth-pop, a música ambiente e o techno. Portanto, Autobahn é um marco que redefiniu os rumos da música eletrônica e do rock progressivo ao introduzir uma abordagem estética inédita e futurista. Essa obra não só revolucionou a música de sua época, mas permanece relevante e influente até hoje, o que pode ser comprovado através do trabalho de bandas como Radiohead e LCD Soundsystem.

8 – Renaissance – Turn of the Cards

O Renaissance é definitivamente uma banda progressiva, mas talvez seja mais folk do que rock. O grupo é mais lembrado por seu magnífico álbum de 1973, Ashes are Burning, mas tem outros grandes trabalhos em sua carreira que passaram despercebidos mas merecem muito mais atenção.

Entre eles está Turn of the Cards, álbum de 1974 que sucedeu seu maior clássico. A incrível qualidade do álbum já é demonstrada nos primeiros segundos de “Running Hard”, que tem um solo de piano magnífico. Assim que o baixo se junta ao piano, a música explode e se torna empolgante, contando com alguns interlúdios um tanto misteriosos que demonstram uma influência da música clássica no estilo de composição. Da metade pro final da música, que tem mais de 9 minutos, também são sentidas algumas influências da música medieval.

“I Think Of You”, a mais curta do álbum, é uma linda canção folk que poderia estar em um disco de Nick Drake; “Things I Don’t Understand” é outra com mais de 9 minutos que tem um início incrível, com uma levada de jazz e uma linha de baixo sutil e precisa. Logo, começa uma melodia vocal que também remete à música medieval e fica progressivamente mais estranha, até um interlúdio com belíssimos vocalizes que dá espaço a um final grandioso.

“Black Flame” tem uma harmonia um tanto misteriosa e conta com uma performance vocal brilhante de Annie Haslam, que tem uma voz lindíssima e um vibrato impressionante. “Cold is Being” é a canção mais simples do disco, apenas órgão e voz, mas tem outra boa melodia. O encerramento fica por conta da majestosa “Mother Russia”, outra música com mais de 9 minutos, que tem momentos soturnos e parece ter influenciado bandas de metal sinfônico.

7 – Yes – Relayer

Após a obra-prima Close To The Edge, de 1972, o Yes perdeu o baterista Bill Bruford para o King Crimson. O disco seguinte, Tales From Topographic Oceans, eleva o progressivo a um nível tão radical que chegou a desagradar o tecladista Rick Wakeman, que também deixou a banda em 1973.

Sem dois dos cinco integrantes da formação clássica, o Yes, que já havia recrutado Alan White para a bateria, também convocou o tecladista Patrick Moraz para gravar seu próximo disco. Completam o time, é claro, o vocalista Jon Anderson, o guitarrista Steve Howe e o baixista Chris Squire.

Relayer é um dos álbuns mais experimentais do Yes, trazendo influências de jazz fusion e música clássica. A começar pela suíte “Gates of Delirium”, que, com mais de vinte minutos de duração, é a peça principal do álbum. Inspirada no romance “Guerra e Paz”, de Leon Tolstoi, a canção mergulha nas nuances da guerra e nas consequências emocionais e espirituais que ela causa nos combatentes.

A música abre com seções instrumentais tensas, com Patrick Moraz mostrando ao que veio nos teclados, que trazem um som mais experimental, mesclando sintetizadores com toques de jazz fusion. A bateria de Alan White e a guitarra de Steve Howe criam uma atmosfera caótica que ilustra uma batalha. A música termina de forma lírica e melódica, onde Jon Anderson canta sobre esperança e paz após a guerra, em um momento emocionalmente poderosíssimo.

“Sound Chaser” é a faixa mais experimental e complexa do álbum. Fortemente influenciada pelo jazz, ela explora mudanças abruptas de tempo e apresenta improvisações extremamente virtuosas. A música que encerra o disco, “To Be Over”, serve como um alívio após a intensidade apresentada pelo álbum até então. É a música mais melódica e acessível de Relayer, com uma sonoridade mais suave e uma sensação de encerramento e reflexão.

Relayer captura o Yes no auge de sua experimentação musical, misturando elementos de rock progressivo, jazz fusion e música erudita. Mesmo que a formação clássica tenha se dissolvido anos antes, o álbum marca o final da fase de ouro do Yes, que entrou em um período de transição e voltou aos holofotes apenas nos anos 1980, mas já com uma roupagem pop totalmente diferente da fase setentista.

6 – Camel – Mirage

Com uma das capas mais famosas da história do rock progressivo, que faz alusão à marca de cigarros Camel, o disco Mirage lançou a banda Camel ao estrelato, consolidando-a como um dos principais nomes do “segundo escalão” do rock progressivo.

O segundo disco do grupo foi lançado em 1974 e é, disparadamente, o melhor de sua carreira (mesmo que Moonmadness e The Snow Goose também sejam ótimos). Aqui está o maior clássico da banda, “Lady Fantasy”, e outras músicas que se destacam tanto por suas virtudes técnicas quanto pelo elevadíssimo nível de qualidade nas composições.

Ambas essas características estão presentes na faixa de abertura, “Freefall”. Já nos primeiros segundos, a música capta o ouvinte com uma introdução interessantíssima, que logo se transforma em uma canção tipicamente progressiva, com andamento fora do comum, quebras instrumentais perfeitamente executadas e melodias de guitarra belíssimas.

A segunda faixa, “Supertwister”, é uma instrumental melancólica e bonita, mas que não chama tanta atenção assim; em seguida, “Nimrodel”, a primeira suíte do álbum, mantém o clima melancólico em sua primeira metade, até que uma parte agitada toma conta, inicialmente comandada por teclados e, depois, pela guitarra, que apresenta uma belíssima melodia. A música é encerrada em uma parte mais misteriosa, com um riff soturno de teclado fazendo a base para um ótimo solo de guitarra.

A outra instrumental do disco, “Earthrise”, tem uma sequência de acordes pouco usual, com ideias que parecem se completar em um tempo diferente do que estamos acostumados. A faixa é bastante energética e tem alguns dos momentos de improvisação mais interessantes de Mirage.

“Lady Fantasy” finaliza o disco de forma brilhante: em sua introdução, a faixa já mostra ao que veio, com um excelente riff e uma bateria forte que abre espaço para longa uma seção com solos de guitarra extremamente sofisticados e virtuosos que chegam a remeter ao trabalho do The Allman Brothers Band, especialmente a música “In Memory of Elizabeth Reed”. A música vai “progressivando” aos poucos, com a adição de teclados que constróem um clima contemplativo que é quebrado por uma parte agressiva e excelente que tem outros solos excelentes de guitarra e teclado e encerra o disco com chave de ouro.

5 – Genesis – The Lamb Lies Down on Broadway

Após uma trinca de discos antológicos e fundamentais para moldar o rock progressivo (Nursery Crime, Foxtrot e Selling England By The Pound), o Genesis realizou seu álbum mais ambicioso. A ópera-rock The Lamb Lies Down On Broadway narra a jornada de Rael, um jovem porto-riquenho vivendo em Nova York, em busca de autodescoberta.

A história é uma mistura de realidade e fantasia, com o protagonista enfrentando situações bizarras em cenários oníricos e simbólicos. O álbum é uma exploração do conflito interno de Rael e trata de temas como alienação, identidade, perda e transformação espiritual, tratando de conceitos filosóficos como a Caverna de Platão.

Entre as 23 músicas do álbum, algumas se destacam muito. Entre elas, a maravilhosa e grandiosa faixa-título, que abre o disco misturando elementos radiofônicos com uma linha de baixo frenética que tem um timbre único e fortíssimo. O momento em que o título da música e do disco é cantado é um dos mais gloriosos da história do rock. O soturno medley formado por “Fly on a Windshield” e “Broadway Melody of 1974” fecha a trinca inicial do disco de forma impecável.

Também merecem destaque “In The Cage”, a mais longa do disco, que tem mais de oito minutos e começa com uma batida jazzística que se transforma em um daqueles momentos grandiosos que só o rock progressivo é capaz de proporcionar; a excelente “Back in N.Y.C”, que parece carregar uma melancolia travestida de raiva, e “The Carpet Crawlers”, o maior clássico do disco, que tem em seu miolo, a parte “you gotta get in to get out”, um dos momentos mais bonitos de toda a história do rock progressivo.

A principal suíte do disco é “The Colony of Slippermen (The Arrival/A Visit to the Doktor/Raven)”, que junta todos os clichês do rock progressivo – como as partes diferentes, o virtuosismo e a complexidade musical – e as embala com aquela classe típica do Genesis, que sempre foi muito mais agradável aos ouvidos desacostumados do que as outras bandas do gênero.

As roqueiras “Counting out Time” e “Lilywhite Lilith” e as belíssimas “Anyway” (que tem um dos momentos mais pesados e um dos melhores solos de guitarra do disco), “Here Comes the Supernatural Anaesthetist” e “The Lamia” são outros momentos fantásticos, assim como “The Light Dies Down on Broadway”, que encaminha o disco para o final em um tom melancólico, que é confirmado pela penúltima música, “In the Rapids”, mas contradito pela incrível “It”, que encerra de forma grandiosa e alegre o disco, a participação de Peter Gabriel na discografia do Genesis e a fase de ouro do rock progressivo.

4 – Gentle Giant – The Power and the Glory

O Gentle Giant é uma daquelas bandas que o público geral não conhece tanto, mas qualquer fã de rock progressivo que se dedicar a conhecer o trabalho do grupo por alguns dias chegará à conclusão de que se trata de um dos melhores nomes da história do gênero.

A banda foi fundada em 1970 pelos irmãos Phil, Derek e Ray Shulman e, até 1974, havia lançado apenas belos discos: os impecáveis Gentle Giant (1970), Acquiring the Taste (1971) e Three Friends (1972), e os ótimos Octopus (1972) e In a Glass House (1973). No ano do auge do progressivo, o Gentle Giant também chegou a seu auge com o magistral The Power and the Glory.

O álbum é caracterizado por sua estrutura não linear, com pedaços de músicas voltando a aparecer em outros momentos, e pelas mudanças abruptas de ritmo e tonalidade que mantém o ouvinte constantemente envolvido. A voz do vocalista Derek Shulman é única e muito bonita, e a instrumentação é riquíssima, com pianos, guitarras e teclados se entrelaçando para criar texturas sonoras complexas.

O lado A de The Power and The Glory é uma das coisas mais brilhantes da história do rock progressivo: a faixa de abertura, “Proclamation”, tem uma harmonia complexa e dobras vocais sofisticadas, além de uma linha de baixo genial e longas partes instrumentais que exibem músicos altamente virtuosos. Em seguida, “So Sincere” tem tempos quebradíssimos, guitarras que trabalham juntas de uma forma complementar mas muito pouco usual e uma melodia vocal ainda mais estranha do que os outros aspectos da canção.

A lindíssima “Aspirations” deixa a esquisitice um pouco de lado ao abraçar a poesia em uma composição lindíssima e extremamente emotiva, que conta com outra linha de baixo muito criativa. O lado A é encerrado com a magnífica “Playing the Game”, que parece muito influenciada por Herbie Hancock em sua levada funkeada e timbres de teclado bastante característicos do trabalho do jazzista (a introdução lembra muito “Watermelon Man”, canção de Headhunters, álbum mais famoso de Hancock). A brilhante composição tem uma melodia inspiradíssima e deixa espaço para improvisações fantásticas.

Quando o lado B se inicia, o nível continua altíssimo: “Cogs in Cogs” tem uma daquelas introduções clássicas de bandas como Emerson, Lake & Palmer, e logo se torna a música mais pesada do álbum, com um vocal agressivo e pausas instrumentais que dão ainda mais destaque ao que está sendo cantado. O miolo da faixa é um pouco mais suave, mas tão bom quanto o resto, e o final é grandioso, voltando aos riffs do início da canção.

As duas próximas músicas, “No God’s a Man” e “The Face”, são as duas menos inspiradas do trabalho: a primeira é uma meio-balada razoável com momentos bacanas e uma bela performance vocal, mas não faria falta caso fosse deixada de fora; a segunda tem um começo bastante criativo, especialmente em seu uso do violino, mas a melodia é um tanto quanto desinteressante. Os solos de guitarra e violino, no entanto, fazem com que a música valha a pena.

“Valedictory”, que encerra o disco, tem o riff mais roqueiro e algumas das improvisações mais inspiradas do disco, enquanto a melodia repete partes de “Proclamation”, gerando uma sensação de círculo se completando.

Em alguns relançamentos, o álbum é encerrado por “The Power and the Glory”, que inexplicavelmente foi lançada apenas como single em 1974. Trata-se de uma das melhores músicas da carreira da banda: uma linha de baixo fantástica guia a canção a um refrão apoteótico, que tem uma melodia extremamente empolgante e fecha o trabalho de forma ainda melhor do que o lançamento original.

3 – Biglietto Per L’Inferno – Biglietto Per L’Inferno

No início dos anos 1970, a Itália foi um dos principais polos de produção do rock progressivo, tendo gerado bandas e discos fantásticos, como Sirio 2222 e YS, do Il Balletto di Bronzo; Passio Secundum Mattheum e Papillon, do Latte e Miele; e o auto-intitulado disco do Alphataurus, um dos grandes discos da história da música.

Uma das bandas mais interessantes a surgir desse movimento foi a Biglietto Per L’Inferno, que lançou seu auto-intitulado álbum de estreia em 1974. No ano seguinte, a banda gravou Il Tempo Della Semina, mas o disco foi lançado apenas em 1992; portanto, Biglietto Per L’inferno é basicamente o único disco da banda, mas foi suficiente para cravar seu nome na história do rock progressivo.

A faixa de abertura, “Ansia”, é uma espetacular composição que conta com sintetizadores futuristas, partes muito bem construídas e uma melodia vocal melancólica que introduz com maestria o clima do disco.

A segunda música, “Confessione”, é magnífica: ela tem uma introdução curta e calma, mas logo se torna pesada, trazendo riffs potentes e uma performance vocal agressiva. O primeiro solo de guitarra mistura feeling e técnica com muito bom gosto, e a música vai se tornando cada vez mais dramática, como apenas os italianos sabem fazer, até atingir o auge em um momento que conta apenas com vocais harmonizados. A segunda metade da canção é extremamente progressiva, com solos de guitarra brilhantes e momentos muito empolgantes.

A seguir, “Una Strana Regina” diminui a velocidade do disco, com uma instrumentação minimalista e uma melodia que, estranhamente, remete ao estilo de composição de Neil Young. Um interlúdio que começa perto dos três minutos chega a flertar com uma clima épico, mas a bateria frenética acaba puxando mais para o caótico. Após o solo de guitarra mais melódico e emocionante do disco, a faixa se encerra com um clima um tanto quanto circense que, para falar a verdade, soa um tanto deslocado.

“Il Nevare” é uma porradaria quase do início ao fim: os momentos mais calmos da faixa são curtos e contribuem para o peso das partes mais agitadas, que surgem arrebatadoras e contam com uma linha de baixo fantástica e extremamente criativa.

O disco é encerrado com a suíte “L’Amico Suicida”, que tem mais de 14 minutos e conta com movimentos diferentes que se alternam abruptamente e revelam uma influência enorme da música clássica. A faixa é a que mais exige tecnicamente dos músicos, que entregam performances incrivelmente complexas e intensas, transformando a canção em um dos momentos mais impressionantes da história do rock progressivo.

2 – Os Mutantes – Tudo Foi Feito Pelo Sol

O primeiro disco d’Os Mutantes sem Rita Lee é um dos melhores discos progressivos de todos os tempos. Lançado em um período turbulento, no qual Sérgio Dias se viu como o único integrante original a permanecer na banda, o álbum chegou a ser criticado por Rita Lee por parecer muito com o Yes. No entanto, a beleza das composições e o vigor das performances fala por si só.

A formação recrutada por Sérgio Dias era totalmente nova, com Antônio Pedro de Medeiros substituindo Liminha no baixo, Rui Motta no lugar de Dinho Leme na bateria e Túlio Mourão no piano, órgão e sintetizadores. 

Quatro das sete músicas do disco ainda tem a participação de Liminha como compositor, pois o baixista deixou a banda dias antes desta entrar em estúdio para gravar o álbum. Levando em conta sua lamentável abordagem como produtor no rock brasileiro dos anos 80, que limitava as performances dos músicos, talvez ele não tenha se arrependido tanto assim de não tocar em um disco tão virtuoso, mesmo sendo um músico extremamente hábil.

A faixa de abertura do disco mostra que Rita Lee não estava tão errada assim: é puro Yes. A densa e complexa “Deixe Entrar Um Pouco D’Água no Quintal” lembra muito o clima de “South Side Of The Sky”, clássico da banda britânica. A instrumental “Pitágoras” é calcada no piano e tem passagens intrincadas que demonstram a técnica apuradíssima de todos os músicos, enquanto “Desanuviar”, que é uma das melhores músicas do disco (e certamente a mais viajada), tem um final sublime, com frases lindíssimas de cítara e baixo fretless.

“Eu Só Penso em Te Ajudar” é a música mais roqueira do álbum: a cozinha tem uma performance de tirar o fôlego, o trabalho de guitarra é excelente e a performance vocal de Sérgio Dias alcança notas altíssimas (além do sotaque paulistano mais carregado de todos os tempos). A faixa ainda apresenta elementos progressivos inconfundíveis, com partes diferentes, passagens instrumentais virtuosas e tempos quebrados.

Falando em tempos esquisitos, “Cidadão da Terra” é outra excelente música que lembra muito Yes, principalmente nos vocais harmonizados e no som de baixo, o mais parrudo do disco, que remete ao trabalho de Chris Squire. A penúltima faixa, “O Contrário de Nada é Nada” é bem simples, chegando a destoar um pouco da proposta do disco, mas é boa.

Se havia qualquer dúvida sobre a capacidade d’Os Mutantes em fazer um dos melhores discos progressivos da história, o encerramento, com a faixa-título, acaba com qualquer questionamento. “Tudo Foi Feito Pelo Sol” é tão linda e tão única que tentar descrevê-la chegar a ser uma perda de tempo. Dê play nesse brilhante álbum e se deleite.

1 – King Crimson – Starless and Bible Black/Red

O ano de 1974 foi tão especial para o rock progressivo que o King Crimson lançou não apenas um, mas dois dos melhores álbuns da história do gênero. O primeiro deles é Starless and Bible Black, que foi lançado em março e consolida a formação mais incrível da banda: o guitarrista Robert Fripp (o único que esteve em todas as formações), o baixista e vocalista John Wetton e o baterista Bill Bruford, recém-saído do Yes.

O álbum é um dos mais estranhos do King Crimson – e isso é dizer bastante. A música de abertura, no entanto, é uma pedrada: “The Great Deceiver” é praticamente um heavy metal, com riffs rápidos e pesados, intercalando momentos agressivos com tempos quebrados. “Lament”, a incrível faixa seguinte, segue a mesma linha.

O disco tem outros belíssimos momentos, como “We’ll Let You Know”, que soa como uma jam do mais puro jazz fusion. A longuíssima faixa-título segue uma linha parecida, enquanto “Fracture”, que encerra o disco, tem uma introdução enorme e calma, que vai se intensificando através de batidas jazzísticas de Bill Bruford e descamba em um peso estrondoso, que já prenunciava o que a banda viria a explorar em seu próximo trabalho.

Sete meses depois, em outubro, o King Crimson lançou “Red”, sua obra-prima máxima. Ainda mais pesado e mais complexo que seu antecessor, o álbum traz alguns dos momentos mais sublimes da história do Rock.

A começar pela faixa-título, certamente a mais pesada da carreira da banda. Os riffs de guitarra soam como a trilha sonora de um pesadelo horripilante, assim como o interlúdio orquestral no meio da faixa, enquanto Bill Bruford apresenta viradas de bateria alucinantes. O peso no rock atingia um novo nível.

A faixa seguinte, “Fallen Angel”, não é tão pesada quanto, mas mantém o clima soturno do álbum e traz novos elementos, como o uso de instrumentos de sopro que se intercalam com a guitarra e os vocais de forma perturbadora. Em “One More Red Nightmare”, a banda se supera em termos de complexidade musical, mas, ao mesmo tempo, a música tem partes que chegam a ser “assobiáveis”. Nessa faixa, Bill Bruford tem uma das melhores performances de um baterista em todos os tempos.

A esquisitíssima “Providence” traz performances inesquecíveis de todos os músicos. Se os quatro primeiros minutos são compostos basicamente por violinos e sintetizadores dissonantes, os quatro últimos trazem o som de baixo mais pesado da história até então, com um solo absolutamente memorável de John Wetton. Robert Fripp exibe seu virtuosismo em criar sons aterrorizantes e Bill Bruford acompanha tudo isso com uma levada jazzística.

Sobre “Starless”, que encerra o disco, não há muito o que falar, pois, assim como “Tudo Foi Feito Pelo Sol”, a faixa é absolutamente indescritível. É um exercício inútil tentar entender como tamanha esquisitice pode ser tão bela e transcendental. É ouvir para crer. Vale ressaltar o relançamento que o álbum recebeu em 2024, o “Elemental Mix”, que apresenta um som de baixo inacreditável.

Após cinco anos de uma banda em franca ascensão, não havia mais para onde crescer. “Red” marca o final da fase clássica do King Crimson, que iria voltar a lançar um álbum apenas em 1981 (o excelente “Discipline”), mas com uma formação diferente e longe do território sonoro explorado até então. Por esses e outros motivos, é fácil chegar à conclusão de que 1974 foi, possivelmente, o ano mais importante da história do rock progressivo.

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