[Cobertura] Crypta: banda mais quente do metal brasileiro prova mais uma vez que tem tudo para crescer cada vez mais

Crypta
19 de novembro de 2024
Tork N’ Roll
Curitiba/PR

Por Luís S. Bocatios
Fotos de Clovis Roman

Na terça-feira (19), a Crypta, uma das bandas atualmente mais badaladas do metal nacional, se apresentou em Curitiba pela quinta vez. Foi a primeira apresentação da trupe comandada por Fernanda Lira no Tork n’ Roll; elas já haviam se apresentado três vezes no Basement Cultural, uma vez no CWB Hall e, agora, chegaram ao palco do maior bar de rock da América Latina.

Crypta (foto: Clovis Roman)

A abertura ficou por conta da curitibana Royal Rage, que faz um thrash metal “raiz” que chega a flertar com o death, e da argentina In Elements, que faz um metalcore com toques eletrônicos e de metal industrial.

Royal Rage

A noite começou com a banda curitibana Royal Rage, que subiu ao palco pontualmente às 19h30. Na ocasião, o quarteto havia se tornado um trio: o guitarrista Sol Perez não pode comparecer à apresentação, devido ao falecimento de seu pai. O vocalista e guitarrista Pedro Ferreira homenageou o colega: “que toda a energia que vocês estão passando pra gente seja transferida para o Sol nesse momento difícil”.

Mesmo desfalcada, a banda teve uma performance excelente: com ótimas músicas e músicos altamente competentes, a Royal Rage agradou muito o público presente – que, é verdade, era pouco. A sonoridade parece uma mistura de Slayer com o Metallica dos primeiros discos, com linhas vocais claramente inspiradas no trabalho de James Hetfield em Kill ‘em All, Ride the Lightning e Master of Puppets. A música “Lampião” ainda traz uma influência de ritmos brasileiros como o maracatu que, é claro, remete imediatamente ao Sepultura, especialmente à introdução da música “Phantom Self”.

A tarefa de se comunicar com o público verbalmente ficou por conta de Pedro Ferreira, que pediu moshs e walls of death. Os moshs foram um tanto quanto chochos, mas a wall of death teve bastante adesão e foi um momento bacana do show. Outro momento empolgante foi um curto cover da introdução de “Raining Blood”, do Slayer, outra evidência de que a sonoridade do Royal Rage tem uma grande influência da banda liderada por Tom Araya.

Ferreira ainda celebrou o fato da banda estar prestes a sair em uma turnê europeia e ressaltou a importância do Tork n’ Roll na trajetória do grupo. “É simbólico que o nosso último show antes de sairmos em turnê pela Europa seja nesse palco. Aqui, nós abrimos pro Cannibal Corpse, um show que abriu diversas portas na nossa carreira”, lembrou.

In Element

A segunda banda da noite foi a argentina In Element, que faz um metalcore com toques eletrônicos e de metal industrial e é bastante conceituada em seu país de origem. Diferente da Royal Rage, a banda não empolgou o público em momento algum.

O público foi se dispersando cada vez mais ao longo do show, e nem a excelência instrumental da banda conseguiu cativar os presentes, que parecem ter aproveitado o momento para comprar cervejas e vasculhar as inúmeras lojas e restaurantes bacanas que o Tork n’ Roll abriga.

É verdade que o vocalista foi simpático e tentou angariar o público, mas de fato o interesse foi ficando cada vez menor ao longo do show – especialmente a partir de um horrendo e inexplicável cover de “In The Air Tonight”, clássico de Phil Collins. Infelizmente, para a banda e para os presentes, não rolou a menor química entre o In Element e o público do Tork n’ Roll.

Mesmo que a primeira impressão em Curitiba não tenha sido tão positiva, a banda segue em franca ascensão em sua carreira latino-americana e pode voltar ao Brasil em um futuro próximo. Em um show solo, talvez a banda consiga mostrar seu talento ao público de forma mais assertiva.

Crypta

Mesmo com menos de cinco anos de carreira e apenas dois discos lançados, a Crypta já está consolidada como uma das maiores bandas de metal brasileiras na atualidade. Com o vindouro final do Sepultura e o hiato do Angra, talvez a aposta mais segura seja de que o lugar mais alto no trono de metal verde e amarelo será ocupado pelo grupo comandado por Fernanda Lira.

Muito disso se deve à vocalista em si: além de um vocal competentíssimo e de uma proficiência enorme no baixo, Lira tem um carisma incrível. Durante o show, ela interage com o público sempre de forma empolgada e graciosa; no final, ela passou longos minutos sentada no palco e atendendo aos pedidos dos fãs por fotos e autógrafos. 

Crypta (foto: Clovis Roman)

Uma passagem divertida desse momento foi que um fã entregou uma cerveja na mão de Lira, que ficou meio sem entender e ensaiou autografar o copo, até que o fã explicou que havia comprado a cerveja para ela, que disse que não bebia mas agradeceu pela intenção. O fã saiu um tanto quanto confuso e entristecido.

Em termos de competência, o restante da banda não fica nem um pouco atrás: a dupla de guitarristas formada por Tainá Bergamaschi e Jessica Falchi é absolutamente técnica e virtuosa, executando com perfeição solos extremamente complexos e dobras de guitarra matadoras; a baterista Luana Dametto é monstruosa e reproduz com perfeição tudo o que está no disco e muito mais com uma precisão impressionante e uma energia brutal.

Crypta (foto: Clovis Roman)

O repertório contou com absolutamente todas as músicas do álbum mais recente da banda, o ótimo Shades of Sorrow (2023), mas em uma ordem diferente: a trinca de abertura foi composta pela matadora “The Other Side of Anger”, pela pesadíssima “Poisonous Apathy” (que também é a segunda do disco), e pela espetacular “Lift the Blindfold”, uma das melhores músicas da banda. 

A quebradeira não parou por um segundo: com uma roda mosh se estabelecendo na plateia, a banda emenda “The Outsider, “Lullaby for the Forsaken”, “Stronghold” e “Trial of Traitors”, todas também do Shades of Sorrow e extremamente bem recebidas pelo público, que parecia conhecer todas as músicas de cabo a rabo.

Crypta (foto: Clovis Roman)

É comum que o som seja decepcionante e atrapalhe a experiência em shows de bandas tão pesadas quanto a Crypta, que usam afinações mais baixas: quanto mais graves as notas, mais difícil é distinguir um instrumento do outro, então é fácil que o som se transforme em uma grande massa sonora desagradável. Nesse caso, para a alegria de todos os presentes, o som estava ótimo, tanto na captação dos instrumentos quanto na mixagem, que conseguiu unir todos os timbres e o vocal de forma competentíssima.

Em um dos momentos em que conversou com o público, Fernanda Lira fez questão de agradecer a todos os presentes, ressaltando que, em plena terça-feira, aquele era o maior público para o qual a banda havia tocado em Curitiba. A ascensão das moças é incrível.

Crypta (foto: Clovis Roman)

A primeira música do disco de estreia da banda, o excelente Echoes of the Soul (2021), veio já na reta final do show: “Under the Black Wings” é um death metal puro e pesadíssimo que foi executado perfeitamente e teve uma recepção calorosa do público, que parecia esperar mais músicas do primeiro disco.

Em seguida, mais uma trinca de músicas do disco mais recente: a frenética “Dark Clouds”, que é a primeira de Shades of Sorrow e traz uma performance inacreditável de Luana Dametto; a trabalhada “Agents of Chaos”, que tem um belíssimo dueto de guitarras no início e mudanças de ritmo interessantíssimas; e “Lord of Ruins”, que encerra o disco de forma arrebatadora e tem um dos melhores riffs que a banda fez até hoje.

Crypta (foto: Clovis Roman)

O encerramento do show veio com a última música do primeiro disco, “From the Ashes”, que talvez seja a faixa mais famosa da banda até o momento – não por acaso, já que talvez seja a música que melhor captura a essência do que é a Crypta, com uma excelência que explica o motivo pelo qual a banda está conquistando seu espaço na história do metal brasileiro de forma incontestável e admirável.

Repertório
The Other Side of Anger
Poisonous Apathy
Lift the Blindfold
The Outsider
Lullaby for the Forsaken
Stronghold
Trial of Traitors
Under the Black Wings
Dark Clouds
Agents of Chaos
Lord of Ruins
From the Ashes

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