Dream Theater
16 de dezembro de 2024
Live Curitiba
Curitiba/PR
por Clovis Roman e Kenia Cordeiro
O trabalho de Mike Mangini como baterista do Dream Theater por mais de uma década foi soberbo. Foram cinco álbuns e turnês memoráveis, mas o fator nostálgico costuma ser mais forte que a regularidade. Portanto, a volta do membro original Mike Portnoy ao comando das baquetas foi saudado com lágrimas de emoção e desmaios mundo afora. A primeira turnê começou mantendo uma tradição consolidada com Mangini: Repertórios fixos.
O 29º show da reunião foi realizado em Curitiba, com as mesmas 18 músicas apresentadas nas performances anteriores. Pegos de surpresa ou não, os presentes se deleitaram com um setlist muito bem escolhido (mas que ainda assim deixou alguns disco da fase Mangini de fora e, sentidamente, o Six Degrees of Inner Turbulence), passeando por toda a trajetória do Dream Theater, em um show de três horas que parece ter durado nem metade disso.

Alguns momentos curiosos aconteceram ainda no primeiro dos três atos do concerto. Por alguma questão técnica, “Barstool Warrior” foi reiniciada após alguns segundos. Nada que tenha quebrado o clima. Em outro momento, o público puxou um alto coro de “ô, o Portnoy voltou”, respondido por Labrie com um “Bom, então vamos tocar apenas mais uma música esta noite”, entre risos. “Se vocês vão me sacanear, eu sacaneio vocês de volta. Estou brincando”, acrescentou, antes de anunciar a próxima canção: “Vamos voltar ao álbum Awake. Esta é ‘The Mirror’”. Com um peso descomunal, melodias, passagens intrincadas e uma genialidade poucas vezes igualada, a faixa, oriunda de um álbum igualmente genial, foi um destaque de uma noite sem pontos negativos. Nela, houve um trecho estendido para o brilho do tecladista Jordan Rudess, e uma breve citação a “Lie”, que, infelizmente, não foi tocada (algo que fizeram em 2010, no último show deles na cidade com Portnoy).
Da fase intermediária, a caótica “Panic Attack” foi um dos momentos que o baixista John Myung foi ovacionado pelos fãs, pelo trabalho marcante do instrumento, e “Constant Motion”, de um disco irrepreensível, cirúrgico e poucas vezes lembrado como um dos melhores: Systematic Chaos (2007). Dos anos 1990, “Hollow Years” representou Falling Into Infinity, todavia, cantada em sua versão demo, disponibilizada em Lost Not Forgotten Archives: Falling into Infinity Demos 1996/1997. O primeiro ato, que durou 75 minutos, desde a abertura impressionante com “Metropolis Pt. 1: The Miracle and the Sleeper” e a dobradinha – do melhor álbum de todos os tempos da história da humanidade, Metropolis Pt. 2: Scenes from a Memory (1999), com – “Overture 1928” e “Strange Déjà Vu”, até o final com “As I Am”, despertou diversas emoções, todas levando a um estado de elevação espiritual.
Muito mais por vir
Um bem vindo intervalo de vinte minutos foi interrompido com “Night Terror”, do vindouro Parasomnia, que sai ano que vem. Certamente é cedo para alçá-la ao status de clássico, mas o fato é que a canção é sublime, com refrão pegajoso e todas as convenções musicais que tornaram o grupo a referência que é atualmente. A expectativa para Parasomnia é grande. Passeando por momentos dos anos 1990 e 2000, trouxeram momentos que demonstram as diversas peculiaridades musicais, indo da delicada “Vacant” a acessível e pomposa “Under a Glass Moon”, desembocando na estonteante instrumental “Stream of Consciousness”, que consegue transbordar técnica e feeling. Aliás, como já declarei em outras resenhas de shows do Dream Theater: Quem argumenta que o som da banda não efunde sentimento, nunca ouviu de maneira apropriada o trabalho do quinteto. Não tem como. Traço um paralelo com a geração TikTok, que consome conteúdos curtíssimos e sem conteúdo, pela total falta de interesse em fazer uma imersão em obras artísticas mais robustas – a pressa é inimiga da perfeição.

Cada canção escolhida fala por si só, todavia, é impossível passar batido pela magnificência exuberante de “Octavarium”, uma suíte de quase 25 minutos repleta de passagens intrincadas, melodias, riffs, solos e tudo o mais que uma grande peça progressiva pede. A letra, sensacional, traz diversas referências a músicas e artistas, indo de “Lucy in the Sky With Diamonds” (The Beatles) até o vocalista Tim ‘Ripper’ Owens, ex-Judas Priest. Assisti a diversos shows do Dream Theater, e ver esta música ao vivo pela primeira vez foi transcendental. A sublimidade se manteve com a densa “Home” e as duas mais famosas músicas do grupo: a reluzente balada “The Spirits Carries On” (quem não se emociona com isto, está morto por dentro), e, no encore, o hit “Pull Me Under”, de uma perfeição que preenche tanto uma casa fechada quanto um imenso espaço aberto, como foi no Rock in Rio 2022.
O som sofisticado do Dream Theater não é para todos, todavia, isto não implica em que quem ouve é superior; de maneira alguma. Todavia, eu e todos os presentes que lotaram a Live Curitiba, nos consideramos afortunados em poder desfrutar da rica obra e das performances celestiais que ainda nos proporcionam.
Repertório
Metropolis Pt. 1: The Miracle and the Sleeper
Act I: Scene Two: I. Overture 1928
Act I: Scene Two: II. Strange Déjà Vu
The Mirror
Panic Attack
Barstool Warrior
Hollow Years
Constant Motion
As I Am
Night Terror
Under a Glass Moon
This Is the Life
Vacant
Stream of Consciousness
Octavarium
Act II: Scene Six: Home
Act II: Scene Eight: The Spirit Carries On
Pull Me Under
