[Lista] 10 cinebiografias de músicos de rock

Por Luís S. Bocatios

Um dos filmes mais comentados dos últimos tempos é Um Completo Desconhecido, cinebiografia de Bob Dylan dirigida por James Mangold e estrelada por Timothee Chalamet. A obra, que tem estreia no Brasil marcada para o dia 27 de fevereiro, está indicada a oito categorias no Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Ator.

Aproveitando o burburinho gerado pelo filme, decidimos listar 10 cinebiografias de músicos ou bandas de rock que foram bem sucedidas comercialmente ou mereciam um reconhecimento maior do grande público.

Sid & Nancy (1986, dirigido por Alex Cox)

O filme mais antigo da lista foi um dos primeiros a dramatizar a vida de um artista de rock; Sid Vicious, o lendário baixista do Sex Pistols. Em Sid & Nancy, a história de um dos punks mais famosos de todos os tempos é contada através de sua famosíssima e extremamente tóxica relação com Nancy Spungen, a quem o cantor assassinou a facadas em outubro de 1978.

De todas as cinebiografias dessa lista, essa é a que aborda o menor período de tempo: de meados de 1977 até o final de 1978. Mesmo assim, o filme consegue fazer com que o público entenda perfeitamente as nuances do relacionamento do casal e como eles foram prejudiciais um ao outro – apesar de, em algum momento, haver um sentimento genuíno e doce entre os dois, mesmo que sempre motivado pelas coisas erradas.

Muito disso se deve às performances centrais de Chloe Webb e Gary Oldman, em um de seus primeiros papeis de destaque no cinema; a dupla funciona tanto em conjunto, com uma ótima química em tela, quanto separadamente, fazendo o possível para desenvolver seus personagens mesmo sem uma grande ajuda do roteiro, que é um tanto quanto monocórdico em alguns momentos e não é ajudado pela montagem, que deixa o filme bem mais longo do que deveria.

A história do Sex Pistols, é claro, também é abordada, e todas as cenas com Johnny Rotten, muito bem interpretado por Andrew Schofield, são ótimas. No entanto, o filme não está tão interessado na trajetória da banda quanto na espiral descendente do casal que protagoniza a história ou sequer na tentativa fracassada de carreira solo do baixista após o fim da banda.

A direção é de Alex Cox, conhecido pelo maravilhoso clássico do sci-fi oitentista Repo Man, que também tem um punk como protagonista – ou seja, não era uma temática desconhecida pelo diretor. O cineasta imprime uma estética cinzenta que casa perfeitamente com a história e acaba gerando um visual puramente oitentista, que jamais poderia ter sido feito fora dos anos 1980.

Mesmo longe da perfeição, Sid & Nancy consegue ser um retrato interessantíssimo de um relacionamento tóxico, do declínio de duas vidas e de um momento fundamental na história do rock.

The Doors – O Filme (1991, dirigido por Oliver Stone)

Em 1991, chegou a vez do The Doors, uma das bandas mais icônicas da história do rock, ter sua história contada no cinema. A missão ficou com o diretor Oliver Stone, que havia recentemente sido um dos raríssimos diretores a vencer mais de um Oscar de Melhor Direção – em 1987, foi premiado por Platoon, e, em 1990, por Nascido em Quatro de Julho.

Apesar de uma recepção mista da crítica e de não ter tido nenhum reconhecimento em premiações, o filme foi um sucesso avassalador e, junto com o CD da trilha sonora, teve uma importância tremenda para apresentar o The Doors a uma nova geração.

A performance de Val Kilmer como Jim Morrison entrou para a história como uma das mais impressionantes em termos de semelhança com o biografado. O ator encarna todos os tiques, trejeitos e manias de Morrison com absoluta convicção – tanto que os ex-membros do The Doors chegaram a dizer que o ator havia estrapolado um pouco no nível de chatice do verdadeiro Jim.

O fato é que um filme tão marcante quanto esse, com todos os defeitos que ele possa ter (e tem!) não poderia ficar de fora de uma lista dessas.

Cazuza – O Tempo Não Para (2004, dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho)

O único filme brasileiro da lista conta a história da vida de Agenor de Miranda Araújo Neto, o famoso Cazuza, primeiro vocalista do Barão Vermelho e dono de uma carreira de solo recheada de hits como “Exagerado”, “Ideologia”, “Blues da Piedade”, “Vai à Luta” e, é claro, “O Tempo Não Para”.

Se utilizando da estrutura clássica de cinebiografias, o filme faz tudo com extrema competência: responsável pela esplendorosa direção de fotografia de filmes como Central do Brasil e Lavoura Arcaica, Walter Carvalho assume a obra como co-diretor ao lado de Sandra Werneck. A dupla realiza um excelente trabalho tanto na recriação do Rio de Janeiro dos anos 1970 e 1980 quanto na direção de atores e na condução narrativa da obra.

O destaque fica para Daniel de Oliveira, que encarna Cazuza com um tremendo respeito pela memória do compositor, adotando todos os seus trejeitos e suas marcas registradas, mas também lhe dando uma complexidade que ultrapassa a caricatura e o transforma em um personagem riquíssimo.

Johnny & June (2005, dirigido por James Mangold)

Um Completo Desconhecido não é a primeira experiência do diretor James Mangold em retratar a vida de um ícone da música norte-americana: Johnny & June, lançado em 2005, conta a história do casal formado por Johnny Cash e June Carter, dois ícones da música country dos Estados Unidos.

Sem nenhuma inovação estrutural ou narrativa, o filme retrata de forma excepcional a complexidade de uma relação composta por personalidades tão diferentes, mas, ao mesmo tempo, complementares. Grande parte disso se deve às impecáveis performances do sempre brilhante Joaquin Phoenix e de Reese Witherspoon, cuja atuação foi premiada com o Oscar de Melhor Atriz em 2006. A química entre os atores é absolutamente espetacular; sem ela, o filme definitivamente não funcionaria tão bem.

Johnny & June foi indicado a cinco categorias no Oscar 2006, e acabou vencendo apenas o prêmio de Melhor Atriz. Mesmo assim, deu a James Mangold uma experiência perfeita para, quase 20 anos depois, assumir a responsabilidade de contar a história de Bob Dylan nas telonas.

Não Estou Lá (2007, dirigido por Todd Haynes)

Um Completo Desconhecido também não é a primeira obra cinematográfica a retratar a vida de Bob Dylan, longe disso: entre os inúmeros documentários que tratam sobre algum período da vida do cantor, os que mais se destacam são No Direction Home e Rolling Thunder Revue, ambos dirigidos pelo lendário cineasta Martin Scorsese, conhecido por ser um grande fã de rock.

Entre as obras ficcionais, a primeira cinebiografia de Dylan foi lançada em 2007 e dirigida pelo talentosíssimo cineasta Todd Haynes, responsável por filmes como Longe do Paraíso (2002) e Carol (2015). O filme adota uma abordagem extremamente criativa e perfeita para retratar as diferentes fases da vida e da carreira do compositor: seis atores interpretam seis personagens diferentes que representam fases distintas na vida de Dylan.

Christian Bale, Richard Gere, Marcus Carl Franklin, Heath Ledger, Ben Whishaw e até a atriz Cate Blanchett assumem a responsabilidade de incorporar diferentes momentos na vida de um dos artistas mais importantes da história da música.

Essa escolha de roteiro e direção faz com que o filme se torne não apenas uma das cinebiografias mais criativas e únicas da história do cinema, mas também uma obra que, apesar do fracasso absoluto nas bilheterias, angariou admiradores que não necessariamente são fãs de Bob Dylan, mas respeitam as escolhas corajosas e criativas do diretor, que, de fato, geram um filme único e imperdível.

Control (2007, dirigido por Anton Corbjin)

A carreira de Anton Corbjin começou no ramo da fotografia, onde se notabilizou por tirar fotos históricas de bandas como Depeche Mode e U2. Em seguida, ele passou a dirigir videoclipes – entre os mais famosos, estão os de “Heart Shaped Box” do Nirvana e “Enjoy the Silence”, do Depeche Mode. Em 2007, decidiu começar sua carreira como cineasta sem se distanciar da música ao dirigir a cinebiografia de Ian Curtis, vocalista do Joy Division que se matou aos 23 anos de idade.

Cinematograficamente, trata-se do melhor filme dessa lista com uma distância considerável para o segundo colocado. O esmero visual pelo qual Corbjin sempre foi conhecido na fotografia e nos videoclipes foi completamente transmitido para o cinema: a cinematografia em preto e branco do filme não apenas é deslumbrante, mas também serve para ilustrar perfeitamente a depressão e a melancolia que sempre permearam a vida de Curtis, assim como planos que isolam o protagonista nos cantos do quadro, ressaltando a estranheza e o isolamento que ele sentia.

O filme também realiza um estudo de personagem admirável, passando pela descoberta do amor de Curtis pela música através de sua idolatria a David Bowie, por seu interesse pelo punk e, é claro, por sua relação com os companheiros de Joy Division, por sua epilepsia e sua depressão. O ator Sam Riley não apenas está assustadoramente parecido com Curtis, mas também encarna os trejeitos, as ansiedades e o espírito do cantor de forma espetacular.

Control é um filme indispensável para os fãs de Joy Division, para os interessados na cena punk e pós-punk da Inglaterra no final dos anos 1970 e para qualquer um que aprecie um cinema bem feito.

The Beach Boys: Uma História de Sucesso (2014, dirigido por Bill Pohlad)

Em 2014, chegou a vez do lendário Brian Wilson, um dos músicos mais importantes da história da música pop, ter sua história contada nas telonas.

The Beach Boys: Uma História de Sucesso retrata, de forma não-cronológica, dois momentos distintos na vida do compositor: o primeiro, nos anos 1960, envolve a produção dos discos Pet Sounds, um dos mais aclamados de todos os tempos, e Smile, que só foi finalizado em 2004, quando o cantor, interpretado por Paul Dano, começa a enfrentar problemas de saúde mental, agravados pela pressão que sofria de seus companheiros de banda e pela conturbada relação com seu pai, a quem havia acabado de demitir do cargo de empresário do The Beach Boys.

O segundo, nos anos 1980, aborda a relação do compositor, agora interpretado por John Cusack, com Melinda, que viria a se tornar sua esposa até o início de 2024, quando morreu. Na época, por sua saúde mental debilitada, Wilson estava sob os cuidados do psicológo abusivo Eugene Landy, que, segundo Gloria, empregada da casa em que os dois moravam, “é mais louco que o Brian”.

O filme conta com ótimas performances de Paul Dano, Elizabeth Banks (Melinda) e do sempre excelente Paul Giamatti (Eugene). John Cusack também não compromete, mas, assim como toda a parte que se passa nos anso 1980, é consideravelmente menos interessante do que o Wilson dos anos 1960. De fato, a alma do filme está nas cenas em que vemos o compositor em estúdio trabalhando nos brilhantes e revolucionários arranjos de Pet Sounds.

De certa forma, a produção reflete a trajetória do próprio Brian Wilson: nos anos 1960, é fantástica; nos anos 1980, é extremamente deprimente. Se no caso do compositor isso é uma consequência de seus problemas mentais, no caso do filme é uma consequência de um roteiro pouco competente ao fazer o público se envolver em uma história tão tragicamente interessante quanto a de Wilson, e de uma direção que pouco faz para retratar de forma visual a angústia do compositor.

Lords of Chaos (2018, dirigido por Jonas Åkerlund)

Poucas vezes um grupo tão deplorável de pessoas entrou em contato quanto no começo da cena do black metal norueguês, no final dos anos 1980. É dessa premissa que o diretor Jonas Åkerlund parte para retratar figuras como Dead, Varg Vikernes, Hellhammer e o protagonista Euronymous, que foram parte fundamental da criação de bandas lendárias do black metal como Mayhem e Burzum.

Mesmo que algumas cenas sejam pesadas (especialmente as que envolvem automutilação), o cineasta opta por extrair todo o senso de ridículo possível da narrativa, deixando claro que as ideias radicais do grupo (que envolviam nazismo e incendiar igrejas, entre outros) só eram colocadas em prática caso os garotos estivessem bem alimentados com o leite quente que a mamãe fez para eles.

O principal defeito do filme também reside nessa falta de seriedade com a qual o diretor trata alguns dos acontecimentos que, de fato, mereciam ser retratados com uma carga dramática maior (especialmente o “grande confronto” no final). Além do mais, o único personagem tratado com o mínimo de profunidade é Euronymous, que de fato é bem desenvolvido e consegue até angariar certa simpatia do público (até por algumas omissões ou distorções do filme em relação ao que de fato pode ter ocorrido).

Todos os outros personagens são limitados à caricatura – especialmente Varg Vikernes, que, apesar de bem interpretado por Emory Cohen, é retratado praticamente como um Darth Vader. Mesmo assim, o filme consegue entreter bem o espectador e contar de forma competente uma das histórias mais malucas de todos os tempos. Se você não souber nada sobre a história, tente assistir ao filme sem nenhum “spoiler”.

Rocketman (2019, dirigido por Dexter Fletcher)

O principal responsável por essa onda recente de cinebiografias é o filme Bohemian Rhapsody, que conta a história do Queen, foi um tremendo sucesso de bilheteria e venceu quatro das cinco estatuetas do Oscar às quais foi indicado. O filme não está nessa lista por causa de sua tremenda falta de qualidade; em pouquíssimo tempo, as vitórias que o filme teve no Oscar (especialmente nas categorias de Melhor Ator e Melhor Montagem) se tornaram alguns dos prêmios mais vergonhosos da história da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

O primeiro filme a se aproveitar dessa nova demanda do mercado cinematográfico foi Rocketman, cinebiografia do cantor e compositor britânico Elton John. Adotando a estrutura de um musical, a obra gera excelentes momentos, especialmente no momento da música que dá título ao filme.

A performance de Taron Egerton é ótima e, em um ano normal, teria sido indicada ao Oscar de Melhor Ator, mas 2019 foi um ano recheado de atuações brilhantes (mesmo se houvesse uma segunda lista com outros 5 indicados, a presença de Egerton não seria garantida). O ator não apenas ficou a cara de Elton John, mas conseguiu cantar as músicas de forma muito competente e similar a Elton – além, é claro, de oferecer um desempenho dramático bastante competente.

Mesmo longe de ser uma obra-prima, o longa consegue manter o público engajado ao longo de suas mais de duas horas, é divertidíssimo e, mesmo com momentos que flertam perigosamente com a breguice (e por vezes padecem), pinta um retrato bastante digno da vida de um dos músicos mais bem-sucedidos da história da música pop.

Foto: Grok IA

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