[Lista] Os 10 melhores discos de estreia da história do metal

Por Luís S. Bocatios

No dia 13 de fevereiro de 1970, há exatos 55 anos, o Black Sabbath lançava seu autointitulado disco de estreia e fundava o heavy metal. Para celebrar essa data, elaboramos uma lista com os dez melhores álbuns de estreia da história do gênero.

O único critério da lista foi não considerar estreias de artistas solo já consagrados em bandas (como Ozzy Osbourne e Ronnie James Dio) e de bandas com integrantes já experientes e saídos de outros grupos famosos (como Rainbow, Shaman e Celtic Frost).

Black Sabbath (Black Sabbath, de 1970)

Chuva, trovões, sinos de igreja. Aos poucos, o som vai ficando mais intenso. Junto com um dos trovões, um riff horripilante traz o “intervalo harmônico do diabo”, arrepia até a espinha e é seguido por uma letra mais assustadora que qualquer filme de terror. Nascia o heavy metal.

Se o disco de estreia do Black Sabbath fosse composto apenas pela faixa-título, ele já teria um lugar garantido entre os mais importantes da história da música. Praticamente todas as bandas de heavy metal até hoje se baseiam em alicerces que não existiam antes de “Black Sabbath”: letras macabras, riffs soturnos, atmosfera sombria, a intenção de perturbar o ouvinte… tudo isso começa exatamente aqui.

O riff que Tony Iommi compôs para a música se utiliza do chamado “trítono”, intervalo harmônico composto por três notas dissonantes que chegou a ser banido pela Igreja Católica na idade média por supostamente ter o poder de invocar o diabo. O mais impressionante é que, 55 anos depois, a música não perdeu sequer um fiapo de seu poder: qualquer um que apagar as luzes, deixar o fone no volume máximo e fechar os olhos terá uma experiência aterrorizante com a faixa.

O disco de estreia do Black Sabbath ainda traz outros petardos inesquecíveis da história do heavy metal (ainda que as raízes de blues-rock que a banda trazia fossem extremamente sentidas): a segunda faixa, “The Wizard”, é marcada principalmente pela gaita tocada por Ozzy Osbourne na introdução, mas também traz uma performance avassaladora da cozinha formada por Geezer Butler e Bill Ward. Enquanto Butler mostrava suas credenciais como um dos maiores baixistas de todos os tempos, com um estilo inconfundível e um timbre único e fantástico, Ward apresenta seu estilo inimitável, que trazia técnicas do jazz para um contexto totalmente diferente e muito mais pesado.

A introdução de “Behind the Wall of Sleep” traz mais desse andamento jazzístico proporcionado por Ward, que logo é substituído por uma batida mais reta e um riff absolutamente magistral de Iommi. Outro destaque é a maravihosa entrega vocal de Ozzy, que parece já ter nascido icônico.

O lado A é encerrado pela clássica N.I.B, que começa com um solo de baixo histórico de Geezer Butler e, logo em seguida, por um dos riffs de baixo mais icônicos de todos os tempos. Mesmo com partes diferentes, a canção é relativamente simples e, talvez por isso, tenha se tornado uma das mais famosas da carreira da banda.

Composto por apenas três faixas (só uma autoral), o lado B é bem mais obscuro: a primeira música é “Evil Woman”, cover da banda de blues-rock Crow. Divertidíssima, a faixa é marcada principalmente por uma linha de baixo pulsante e por um riff bastante pegajoso. A única música autoral do lado B é a ótima “Sleeping Village”, que traz a banda brincando com dinâmicas diferentes, inclusive experimentando com um som acústico, e uma seção que deixa clara a influência jazzística de Bill Ward. Mesmo assim, a faixa tem momentos muito pesados e riffs inspiradíssimos.

O disco é encerrado com “Warning”, cover da banda The Aynsley Dunbar Retaliation, que ultrapassa os dez minutos de duração e é conduzida por uma linha de baixo simples mas extremamente marcante, que, ao lado da sempre perfeita bateria de Ward, faz a base para solos incríveis de Iommi e uma ótima performance vocal de Ozzy. A faixa passa por várias mudanças e peca por ser longa demais; mesmo que se mantenha interessante por boa parte de sua duração, é muito repetitiva e não justifica os dez minutos. Nada que apague, é claro, o brilho e muito menos a importância de um dos trabalhos mais revolucionários da história da música.

Vale lembrar que, no relançamento do disco em 1996, a excelente faixa bônus “Wicked World” foi inserida no trabalho. Poderia perfeitamente ter entrado no lançamento original.

Iron Maiden (Iron Maiden, de 1980)

Demorou um pouco para que o heavy metal decolasse de vez como um dos gêneros mais populares do mundo: as crianças que ouviram Black Sabbath desde cedo foram começar a lançar discos apenas nos anos 1980, que foi exatamente quando o metal assumiu o topo do mundo.

Maior ícone do metal oitentista e da New Wave of British Heavy Metal, como foram batizadas as bandas britânicas de metal que surgiram no final dos anos 1970, o Iron Maiden lançou seu disco de estreia no primeiro ano da década. O álbum trazia uma banda pronta, com músicas complexas e genuinamente impressionantes para músicos tão jovens. A sonoridade trazia influências de Thin Lizzy, Wishbone Ash e do rock progressivo misturadas de uma maneira absolutamente única e inovadora, que leva o ouvinte desde o submundo de Londres (evocado na capa magistral de Derek Riggs) até histórias de terror gótico.

A formação trazia o baixista Steve Harris, líder da banda, os guitarristas Dave Murray (único além de Harris a estar em todos os discos do Maiden) e Denis Stratton, o excelente baterista Clive Burr (praticamente um Keith Moon do metal, por seu estilo frenético e dinâmico) e o saudoso vocalista Paul Di’Anno, que trazia um toque de punk para a sonoridade da banda que deixaria completamente de existir com a entrada de Bruce Dickinson em 1982.

O repertório é surreal: o lado A é composto por quatro clássicos, a começar pela maravilhosa “Prowler”, que apresenta guitarras que trabalham juntas de forma única e uma cozinha frenética e fantástica; ou seja, praticamente tudo o que você precisa saber sobre a banda. Em seguida, a power ballad “Remember Tomorrow” já traz o Maiden experimentando com dinâmicas diferentes; o refrão explosivo é contraposto pelos versos calmos, que trazem uma linda interpretação de Paul Di’Anno. Uma parte depois do segundo refrão é mais complexa e traz riffs incríveis, que criam uma atmosfera soturna e levam a banda a caminhos inspirados pelo rock progressivo.

O primeiro hit do Maiden foi a terceira faixa, “Running Free”, que traz uma linha de baixo marcante e uma letra que conversou com a juventude da época. Fechado o lado A, “Phantom of the Opera” é a primeira canção abertamente progressiva do Maiden: com uma introdução sombria, a música tem partes que trazem andamentos diferentes e riffs que não tem nada a ver um com o outro, mas funcionam juntos de forma incrível. É uma das maiores obras-primas da história do metal, e talvez a música que melhor encapsule o que é o Iron Maiden. Como uma banda consegue estrear desse jeito?

O lado B começa com a excelente instrumental “Transylvania”, que traz uma das melhores performances da carreira de Steve Harris. Em seguida, a ótima balada “Strange World” tem outra bela interpretação de Di’Anno e solos de guitarra incríveis. A penúltima música é a incrível “Charlotte, the Harlot”, que é bastante energética e traz outra interação fantástica entre as guitarras e outra performance surreal de Harris.

O disco é encerrado com a faixa-título, que tem como principal marca as guitarras harmonizadas da introdução. Apesar de ser a única que está no repertório do Maiden até hoje, nunca ficando fora de nenhum show, é das menos inspiradas.

Poucas vezes uma banda esteve tão pronta em seu disco de estreia quanto o Iron Maiden; era impossível que a banda não se tornasse uma das maiores de todos os tempos. Dito e feito: até hoje o Maiden reina absoluto no maravilhoso castelo do heavy metal.

Diamond Head (Lightning to the Nations, de 1980)

Outra banda seminal da New Wave of British Heavy Metal é o Diamond Head, formada pelo vocalista Sean Harris, pelo guitarrista Brian Tatler, pelo baixista Colin Kimberley e pelo baterista Duncan Scott. Com uma influência gigantesca de Deep Purple, o grupo tinha a mesma energia da banda de Richie Blackmore, mas com um peso adicional nas guitarras que viria a ser fundamental para o desenvolvimento do thrash metal.

Não por coincidência, a fantástica “Am I Evil?”, maior clássico do álbum, foi regravada pelo Metallica e protagonizou um dos grandes momentos da história do thrash metal, quando o Big 4 do gênero – composto por Metallica, Megadeth, Slayer e Anthrax – se juntou no palco para executar a canção, evidenciando a importância do Diamond Head para as bandas precursoras do thrash.

Mesmo que a canção tenha quase monopolizado todas as menções que são feitas ao Diamond Head, o disco de estreia prova que a banda é muito mais do que “Am I Evil?”. A faixa-título de Lightning to the Nations, que abre o álbum, já é uma excelente canção: com os riffs mais influenciados por Deep Purple do trabalho, a música traz uma linha de baixo super vibrante e uma bela performance vocal de Harris.

Em seguida, “The Prince” segue uma linha parecida, mas tem riffs mais agressivos, que já aproximam a banda do thrash metal. As performances de todos os integrantes continuam perfeitas, dessa vez com destaque para o baterista Duncan Scott, que, mesmo sem o melhor som de bateria à disposição, entrega grooves interessantíssimos e ótimas viradas.

“Sucking My Love” já entra totalmente no território do que viria a ser o thrash metal, com riffs que poderiam facilmente estar em algum dos primeiros álbuns do Metallica, pois claramente influenciaram a banda no início de carreira. A música mais longa do disco, com mais de nove minutos de duração, apresenta uma linha de baixo perfeita, solos de guitarra incríveis e uma parte mais lenta no meio que é super interessante e vai crescendo até chegar em um final absolutamente arrasador.

A já citada “Am I Evil?”, de fato, talvez seja a melhor música do álbum. Com uma introdução soturna e guitarras que constróem um clima sombrio, trata-se da música mais pesada de Lightning to the Nations. O refrão é destruidor, assim como a performance vocal de Sean Harris, e a música é devidamente creditada como uma das mais importantes da história do metal, por ter influenciado enormemente das bandas que vieram a se tornar algumas das maiores do gênero.

As duas próximas músicas são as mais curtas do disco: “Sweet and Innocent” está longe de ser ruim, mas é um tanto quanto genérica e não se destaca, enquanto “It’s Electric” é uma das mais legais, contando com uma certa influência de Queen (especialmente da música “Stone Cold Crazy”) que a diferencia do resto das músicas.

O final, com “Helpless”, é magnífico: com uma introdução de bateria extremente criativa, a composição é explosiva, agressiva e marcante, com grandes performances de todos os músicos e timbres de guitarra pesados como poucos da época. A música encerra com chave de ouro esse trabalho que entraria para a história como um grandes clássicos “cult” da história do metal, que não teve tanto sucesso na época de seu lançamento mas foi importantíssimo ao influenciar bandas que marcaram a história do gênero – além, é claro, de ser um belíssimo disco, com composições incríveis e performances brilhantes de todos os integrantes.

Mercyful Fate (Melissa, de 1983)

O primeiro lançamento do Mercyful Fate foi o autointitulado EP de 1982, um dos mais influentes da história do metal, mas o primeiro disco que a banda lançou foi apenas em 1983, o clássico Melissa.

O trabalho expandia o que a banda já havia explorado no EP do ano anterior: letras ocultistas e uma atmosfera sombria incrível, que viria a influenciar o desenvolvimento do metal extremo nos anos seguintes. A cozinha formada pelo baterista Kim Ruzz e pelo baixista Timi Hansen fornecia a base para combinar riffs pesados e melódicos de Hank Shermann e Michael Denner com a teatralidade vocal de King Diamond.

As duas primeiras faixas, “Evil” e “Curse of the Pharaoh”, são as mais simples e, consequentemente, as mais famosas do disco. Se a primeira tem uma pegada bem próxima do hard-rock (um dos riffs é idêntico ao de “Eye of The Tiger”, do Survivor), a segunda tem uma influência claríssima de Deep Purple, que já é sentida no riff inicial. Ambas tem muita qualidade (“Curse of the Pharaoh”, especialmente, é fantástica), mas o Mercyful Fate puro começaria na próxima faixa.

A macabra “Into the Coven” abre com um violão que remete à música medieval, mas logo é substituído por uma sequências de riffs destruidores. A letra fala sobre um homem que entrega sua alma ao diabo e a belíssima e complexa composição tem espaço para solos de guitarra majestosos.

Em seguida, “At the Sound of the Demon Bell” é uma das que mais explora dinâmicas e andamentos diferentes no disco. A faixa traz corais incrivelmente sombrios performados por King Diamond e uma grande performance do baterista Kim Ruzz. A mais curta do álbum, “Black Funeral”, tem menos de três minutos, mas mesmo assim consegue deixar sua marca, principalmente por causa de seus riffs cavalgados e das marcantes guitarras harmonizadas perto do final da música.

A penúltima faixa é “Satan’s Fall”, que ultrapassa os onze minutos de duração e traz um arsenal de riffs fantásticos e pesadíssimos (talvez alguns dos mais pesados da música até então), além de um dos solos de guitarra mais bonitos da história do metal. A performance vocal de King Diamond chega ao auge da teatralidade e a letra é digna de um filme de terror dos bons. Talvez seja a obra-prima da banda.

O disco é finalizado com a faixa-título, que é outra enorme candidata ao posto de melhor música da carreira do Mercyful Fate. Com um início lindíssimo, que traz uma guitarra incrivelmente melódica que sola sobre um arpeggio, a música conta a história de uma mulher que foi assassinada pela Igreja Católica na época da caça às bruxas.

King Diamond atinge algumas das notas mais agudas já registradas em sua carreira, imprimindo um feeling descomunal à história que está sendo contada. Os riffs são absolutamente brilhantes, assim como a linha de baixo, que em alguns momentos se aventura na parte mais aguda do instrumento.

Goste-se ou não de Mercyful Fate, é inegável que Melissa foi um divisor de águas dentro do metal, expandindo as fronteiras sonoras e, principalmente, conceituais do gênero, exercendo uma enorme influência sobre a música e a identidade visual do metal extremo.

Metallica (Kill ‘em All, de 1983)

Se o principal atrativo do disco de estreia do Iron Maiden é trazer uma banda madura e pronta para o estrelato, o primeiro álbum do Metallica é maravilhoso pelo motivo oposto: eles eram apenas moleques que adoravam metal (inclusive o próprio Maiden) e não queriam nada da vida além de tocar juntos e se divertirem.

É exatamente nessa falta de maturidade que reside o charme de “Kill ‘em All”. Conhecida por ser uma banda que evoluiu muito cedo (Ride the Lightning e Master of Puppets já traziam arranjos muito mais complexos) e, posteriormente, por ter se esquecido de suas raízes thrash metal para se adequar ao mainstream, o Metallica deixou em seu disco de estreia um registro imperdível do mais puro thrash.

Mesmo com essa crueza, os integrantes da banda já provavam seu imenso talento: James Hetfield oferece riffs surreais, Kirk Hammett chega com seus solos característicos, Cliff Burton se apresenta como um dos grandes baixistas de sua geração e Lars Ulrich começa sua trajetória como um baterista criativo que utilizava técnicas e peças de bateria que foi deixando de lado ao longo da carreira (como o prato de condução).

O repertório fala por si só: “Seek & Destroy” raramente fica fora de um show do Metallica, tendo sido por anos a responsável pelo encerramento; “Hit the Lights” volta e meia também aparece, assim como “Whiplash”. Ainda há canções excelentes que a banda acabou deixando de lado ao longo do tempo, como as fantásticas “The Four Horsemen” e “Phantom Lord” (as mais trabalhadas do disco), “No Remorse”, “Motorbreath” e “Metal Milita”.

Além disso, “(Anesthesia) Pulling Teeth” entrou para a história como uma das melhores performances de um baixista na história do heavy metal e um dos maiores testemunhos da grandeza artística do saudoso Cliff Burton. Kill ‘em All é um registro perfeito das raízes de uma das bandas mais famosas da história do metal.

Slayer (Show no Mercy, de 1983)

No mesmo ano da estreia do Metallica, a banda mais bem-sucedida comercialmente do Big 4 do thrash metal, a banda mais brutal do grupo também mostrou suas credenciais com um disco de estreia absolutamente maravilhoso. Show no Mercy, do Slayer, mistura o heavy metal de bandas como Iron Maiden e Judas Priest com o peso revolucionário do Venom e do primeiro EP do Mercyful Fate.

O resultado é um disco que flerta entre o thrash metal e o speed metal de maneira fantástica, com faixas incríveis que permaneceriam para sempre entre as favoritas dos fãs. Mesmo com uma produção um tanto quanto amadora, o quarteto formado pelo baixista e vocalista Tom Araya, os guitarristas Kerry King e Jeff Hanneman e o baterista Dave Lombardo mostrou que tinha talento de sobra.

Se Tom Araya e a dupla de guitarristas pareciam prontos, com a técnica já altamente apurada e riffs violentíssimos, Lombardo ainda estava um pouco “verde” demais e, é verdade, é bastante prejudicado por um som de bateria precário, pra dizer o mínimo. Nos discos seguintes, todos sabem, o baterista se provaria como um dos maiores de todos os tempos.

As faixas “Evil Has No Boundaries” e “The Antichrist”, que abrem o disco, mostram a faceta mais pesada da banda, que seria o caminho adotado nos próximos trabalhos. Já “Die by the Sword” soa, em alguns momentos, como uma música do Judas Priest, assim como “Metal Storm/Face the Slayer”, cujas guitarras harmonizadas da introdução e os riffs galopantes aproximam a música mais do heavy/speed metal do que do thrash, mesmo que a faixa acabe se desenvolvendo a ponto de chegar no thrash.

Falando em thrash metal, a maravilhosa “Black Magic” é uma das músicas que mais cedo encapsulou tudo o que o gênero tinha de melhor a oferecer: os riffs são rápidos, pesados e criativos, a bateria é incansável, o vocal é agressivo e a faixa em si é fantástica – assim como “Tormentor”, que tem uma pegada tão agressiva quanto, mas puxa mais para o lado do speed metal, com riffs técnicos e uma melodia vocal muito bem trabalhada.

A trinca final é sensacional: “The Final Command” tem os riffs mais rápidos do disco, é empolgante como poucas outras músicas na carreira da banda e tem um solo incrível de guitarras dobradas; “Crionics” é puro heavy metal, com riffs galopantes, uma melodia épica, guitarras harmonizadas e mudanças de tempo que remetem ao Iron Maiden; e a faixa-título encerra o trabalho de forma brilhante, apresentando alguns dos riffs mais agressivos do metal até então, solos de guitarra fantásticos e uma performance vocal brutal de Tom Araya.

Nos próximos discos, o Slayer foi se tornando uma banda cada vez mais pesada e soturna que chega a flertar com o metal extremo, mas o álbum de estreia da banda se destaca por ser diferente e mais “juvenil” do que a banda viria a fazer em sequência, se tornando um trabalho único dentro de uma das discografias mais celebradas do metal.

Exodus (Bonded by Blood, de 1985)

Uma opinião quase unânime entre os fãs de thrash metal é que, se o Big 4 fosse um Big 5, o Exodus seria a primeira banda na lista para se juntar a Metallica, Megadeth, Slayer e Anthrax. O disco de estreia da banda – Bonded by Blood, de 1985 – é uma das maiores pérolas do thrash metal e um dos álbuns que melhor representa o estilo.

Com uma produção crua e perfeita para a sonoridade do disco, a banda conta com a seguinte formação: o vocalista Paul Baloff, os guitarristas Rick Hunolt e Gary Holt (que se juntou ao Slayer após a morte de Jeff Hanneman, em 2013, mas também continua no Exodus), o baixista Rob McKillop e o baterista Tom Hunter. Logo em sua estreia, o Exodus apresenta um disco absolutamente brutal, cheio de riffs memoráveis e performances ferozes de todos os músicos.

A trinca de abertura prova isso com maestria: a faixa-título, que abre o disco, “Exodus” e “And Then There Were None” são aulas de thrash metal, com riffs rápidos e marcantes e solos de guitarras muito técnicos e extremamente divertidos. Em seguida, “Lesson in Violence” impressiona pela brutalidade e rapidez dos riffs, possivelmente os melhores do álbum, pelo quão empolgantes são o pré-refrão e o refrão e por uma parte em que riff e solo trabalham juntos de forma incrivelmente criativa.

“Metal Command” talvez seja a canção mais técnica do disco, com passagens intricadas ao final de cada estrofe, solos sensacionais e um refrão extremamente energético. Já “Piranha” começa com uma belíssima introdução de bateria, que logo é substituída por riffs frenéticos que dão uma diminuída na velocidade para os versos, mas voltam a pisar no acelerador para a parte final da canção, que conta com solos de guitarra alucinantes.

Faltando pouco para o final, o álbum dá uma acalmada pela primeira vez, com uma belíssima introdução de violão em “No Love”. A calmaria, no entanto, dura pouco, pois o que se vê depois é uma quebradeira magnífica; a canção tem riffs um pouco mais cadenciados, mas que compensam com, possivelmente, o maior peso do disco inteiro. Novamente, os solos se destacam, assim como a performance do baterista Tom Hunting, que domina a música e imprime dinâmicas diferentes com uma facilidade tremenda.

A penúltima música do disco, “Deliver Us To Evil”, é a mais longa, com sete minutos de duração, e talvez a melhor. Com inúmeras partes diferentes, guitarras belissimamente harmonizadas que surgem do nada, uma linha de baixo marcante e a performance vocal mais agressiva do trabalho, a faixa dá tempo para que as partes se desenvolvam por si só e tem, na parte em que as guitarras intercalam solos, um dos grandes momentos da carreira do Exodus.

A faixa de encerramento não poderia ser mais representativa do que é Bonded by Blood: rápida, feroz, intensa e pesada, “Strike of the Beast” é perfeita e figura entre as melhores do trabalho, sacramentando o disco como uma das estreias mais impressionantes e icônicas da história do metal.

Candlemass (Epicus Doomicus Metallicus, de 1986)

Se o termo “doom metal” estivesse no dicionário, ao lado dele deveria estar Epicus Doomicus Metallicus, primeiro disco do Candlemass e um dos mais sombrios, soturnos e fantásticos de todos os tempos.

Lotado de riffs dolorosos, arrastados e demoníacos, Epicus Doomicus Metallicus é uma experiência deprimente por causa de suas composições cavernosas e dos temas sobre os quais trata, mas ao mesmo tempo revigorante por sua inacreditável excelência musical (além, é claro, dos fãs da banda terem um pé na melancolia e certa predileção pelo sofrimento, do qual conseguem tirar prazer).

Liderado pelo baixista Leif Edling, que assina sozinho todas as composições e é o único membro que nunca deixou a banda, o Candlemass ainda contava com o baterista Matz Ekström e com o guitarrista Mats Björkman. Completam a formação os convidados Johan Längqvist (vocais), Klas Bergwall e Christian Weberyd (guitarristas).

A primeira música, “Solitude”, tem uma belíssima introdução acústica e um dos riffs mais soturnos de todos os tempos. A canção já denota uma influência absurda de Black Sabbath que jamais deixaria o disco e é cantada da perspectiva de um narrador que espera pela morte, pois considera que ela significa a liberdade: “solitário e abandonado, estou chorando/torço para que a minha hora chegue, a morte significa vida/por favor, me deixe morrer na solidão”. Nada é mais doom metal que isso.

Em seguida, “Demon’s Gate”, com seus mais de nove minutos (a mais longa do disco), leva o ouvinte em uma jornada absolutamente aterrorizante para os portões do inferno, o destino encontrado pelo narrador após sua morte. Na falta de adjetivos para descrever o riff principal da música, basta dizer que, se Tony Iommi, o maior riffeiro de todos os tempos, o tivesse escrito, ele estaria entre os melhores de sua carreira. Como se não fosse o suficiente, a canção ainda reserva outros riffs absolutamente fantásticos, um mais “endiabrado” que o outro.

Mas a campeã no quesito “música mais sombria” é “Crystal Ball”, cuja introdução apresenta outro riff inesquecível. Mesmo assim, é na parte dos versos que reside a principal força da música. Com um peso descomunal e uma performance surreal de Längvist, a música é uma das mais pesadas já registradas.

A excelente “Black Stone Wielder” é a faixa que mais se aproxima do heavy metal clássico, ainda que, é claro, a atmosfera fantasmagórica continue sendo peça chave da canção. O disco vai para a terceira marcha, com um pouco menos de força e um pouco mais de velocidade, trazendo uma quebra de ritmo absolutamente necessária para que o álbum não se torne repetitivo.

A penúltima música, “Under the Oak” pinta um cenário apocalíptico em que a humanidade está prestes a ser extinta. O poderosíssimo riff que abre a canção se torna ainda mais impactante com a entrada da segunda guitarra, em uma jogada de mestre do produtor Ragne Wahlquist. Após uma parte magistral com guitarras harmonizadas, a música entra na parte mais cavernosa de todo o disco, quando Längvist canta “I cry for the ones I have lost” (pt: eu choro por quem perdi) e é encerrada com um solo de guitarra absolutamente devastador. É mais uma obra-prima que encaminha o álbum para um final apoteótico, que viria com a inacreditável “A Sorcerer’s Pledge”.

Com uma introdução acústica majestosa, a composição é a mais elaborada do disco (o que é dizer bastante), contando com inúmeras partes diferentes, riffs e andamentos distintos e uma parte central que tem um uso absolutamente fantasmagórico de sintetizadores. O encerramento da música traz backing vocals sublimes de Cille Svensson, que executa com perfeição uma melodia vocal que jamais sairá da cabeça de qualquer um que escute a Epicus Doomicus Metallicus, um dos maiores discos da história da música.

Angra (Angels Cry, de 1993)

A única exceção em relação à regra apontada no início deste texto é a estreia do Angra, cujo vocalista André Matos havia saído do Viper, banda já bem-sucedida, e o já estabelecido baterista Alex Holzworth foi chamado para o estúdio com urgência após a saída de Marco Antunes. No entanto, todos os integrantes eram tão jovens e a banda trazia um frescor tão grande que o disco merece estar na lista.

No primeiro disco, o Angra misturava o heavy metal do Iron Maiden e do Queensryche ao power metal do Helloween e a influências da música brasileira e da música erudita. É uma mistura que tinha tudo pra dar errado, mas a banda fez dar certo como poucas outras misturas na história do metal.

As primeiras cinco faixas de Angels Cry (depois da vinheta “Unfinished Allegro”) são absolutamente impressionantes: “Carry On” dispensa comentários, “Time” é uma power-ballad brilhante como poucas outras na história do metal nacional, a faixa-título é uma composição fantástica, cheia de partes diferentes e bastante influenciada por Iron Maiden, “Stand Away” é outra ótima power-ballad que traz uma das performances mais impressionantes da carreira de André Matos e “Never Understand”, além de ser uma das composições mais brilhantes de todos os tempos, é genial ao introduzir elementos de baião ao heavy metal e utilizar de marcas harmônicas da MPB (a ponte é inspirada por Tom Jobim).

Completam o disco “Wuthering Heights”, cover de Kate Bush que foi o principal hit do trabalho nas rádios da época; “Streets of Tomorrow”, que abre com um riff pesadíssimo e sensacional, mas não é uma composição tão inspirada; “Evil Warning”, a mais progressiva do álbum e uma das melhores; e “Lasting Child”, também altamente progressiva e cheia de elementos da música clássica.

Também é impressionante o quão pronta a banda estava: enquanto André Matos já se coloca como um dos melhores vocalistas de todos os tempos, com um alcance vocal inigualável, a dupla de guitarristas formada por Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt já apresenta uma dinâmica que se manteve sempre igual: Loureiro tem uma abordagem mais técnica e rápida, enquanto Bittencourt entrega solos mais melódicos. Eram basicamente Dave Murray/Adrian Smith do Brasil.

O baixista Luís Mariutti é outro que já começou entrando no panteão dos maiores de sua geração: além de uma rapidez impressionante nas quatro cordas, o músico introduz a técnica do “two-hands”, basicamente um tapping no baixo, que se tornou sua principal marca registrada. O baterista Alex Holzwarth, por sua vez, tem uma excelente performance, mas teve pouco tempo para elaborar linhas de bateria trabalhadas e acaba sendo o que menos se destaca.

É verdade que a segunda metade do álbum tem alguns pontos baixos no repertório e que a produção não envelheceu tão bem e tem alguns momentos genuinamente péssimos (como o famigerado “chain, chain, chain” no final de “Angels Cry”), mas a performance dos músicos e, principalmente, o brilhante repertório fazem com que o disco tenha seu lugar garantido nessa lista.

System of a Down (System of a Down, de 1998)

Em 1998, o metal precisava de uma certa oxigenação no mainstream. Não que não houvessem discos bons ou artistas novos competentes, mas o gênero não atingia um alto nível de popularidade em todas as camadas da sociedade desde o início dos anos 1990, quando o Metallica estraçalhou a bolha e chegou aos quatro cantos do mundo.

Essa oxigenação veio exatamente com o autointitulado disco de estreia do System of a Down – que, é verdade, não elevou a banda ao topo do mundo, mas abriu caminho para que seu sucessor, Toxicity, o fizesse. A banda misturava influências de Slayer e Sepultura com elementos da música oriental e com um toque absurdo de originalidade que a diferenciava de todas as suas contemporâneas do chamado new-metal, como Korn, Slipknot e Limp Bizkit. Acima de tudo, o System of a Down é uma banda original, estranha e impossível de ser imitada.

Assim como no primeiro disco do Iron Maiden, o que impressiona na estreia do System of a Down é o quão pronta a banda estava. Os músicos já se apresentam com uma personalidade incrível: Serj Tankian tem um vocal inconfundível, Daron Malakian é um dos guitarristas mais criativos de sua geração e compõe riffs como poucos outros, Shavo Odadjian é um baixista um tanto quando discreto, mas sempre brilha quando é requisitado, e John Dolmayan, mesmo que não seja o baterista mais técnico entre seus contemporâneos, certamente é o mais criativo e genuinamente musical, tocando para a música e não para exibir seu virtuosismo (mesmo que ele também seja altamente técnico).

As composições também são incrivelmente bem acabadas e complexas, misturando partes calmas que criam um clima mais tenso com momentos absurdamente pesados e outros que tem até toques de humor, como nos versos de “Sugar” e “Suggestions”.

Além disso, a produção de Rick Rubin também é fundamental para que o disco passasse longe de se tornar mais um enlatado do new-metal noventista: o som de todos os instrumentos é pesado, mas passa longe de enjoar o ouvinte, como acontece até em álbuns ótimos da época, como Roots, do Sepultura. A guitarra tem um timbre único, o baixo é discreto mas altamente pulsante quando recebe algum destaque, e o som da bateria de John Dolmayan é sublime, sem efeitos desnecessários e cru, servindo totalmente ao propósito do álbum ao mesmo tempo em que é um deleite para alguém que foque apenas na bateria.

As cinco faixas que abrem o disco são incrivelmente maravilhosas: além das já citadas “Sugar” e “Suggestions” (terceira e quarta, respectivamente), ainda há a faixa de abertura, “Suite-Pee”, que tem uma das introduções de guitarra mais marcantes da carreira da banda e um refrão inesquecível; “Know”, que é tão boa quanto; e “Spiders”, que talvez até hoje seja a obra-prima da banda, conseguindo ser melódica e pesada na mesma medida. Merecem destaque a introdução de baixo, a magistral performance de Tankian e a linha de bateria precisa criada por Dolmayan, que exemplifica o que foi dito acima sobre não ser tão virtuosa, mas cumprir um papel rítmico perfeito para o que a música precisa.

Outras faixas fenomenais que merecem destaque são “Soil”, que tem um andamento esquisito e irresistível; “War”, que consegue trabalhar climas diferentes mesmo com menos de três minutos de duração e tem um refrão incrivelmente explosivo; “Mind”, a mais longa e mais trabalhada do disco, com mais de seis minutos; a maravilhosa “Peephole”, que é a música mais esquisita do álbum, tem um ritmo que remete à valsa e um dos refrões mais gloriosos da carreira da banda; e “CUBErt”, cuja linha de bateria tem momentos que remetem ao jazz.

Completam o disco as boas, mas não tão especiais “DDevil”, “Darts” e “Pluck”, que são um pouco repetitivas, mas não é surpresa caso alguém cite alguma delas como a favorita do álbum, pois o trabalho é tão nivelado por cima que escolher as melhores e piores se torna uma questão ainda mais subjetiva do que normalmente é.

À medida em que o tempo vai passando, vai se tornando cada vez mais claro que o System of a Down vai entrar para a história como uma das maiores bandas de metal de todos os tempos, e o disco de estreia da banda já mostrava que eles estavam prontos para marcar o seu nome no panteão dos imortais do gênero.

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