Rotting Christ
11 de fevereiro de 2025
Tork N’ Roll
Curitiba/PR
Por Luís S. Bocatios
Fotos de Clovis Roman
A banda grega de death/black metal Rotting Christ é figurinha carimbada no Brasil, já tendo visitado o país nove vezes. A única vez que Curitiba esteve na rota, no entanto, foi logo na primeira vinda da banda ao país; em 1998, o Rotting Christ se apresentou no 92 Graus, casa de shows histórica na capital paranaense.
Desde então, a banda visitou todas as regiões do país, mas ainda não tinha voltado para Curitiba. Na noite desta terça-feira, 11 de fevereiro de 2025, a espera de quase três décadas chegou ao fim com uma apresentação fantástica no palco do Tork n’ Roll.

A formação atual do Rotting Christ conta com os irmãos Sakis Tolis (guitarra e vocais) e Themis Tolis (bateria), os únicos membros fundadores que continuam na banda, além do guitarrista Kostis Foukarakis e do baixista Kostas “Spades” Heliotis.
Contando com um som de altíssima qualidade, como é comum no Tork, a banda ofereceu uma performance absolutamente impecável. Mantendo-se fiéis aos arranjos originais das músicas, que são executados com perfeição, os músicos tem uma energia imensa e contemplam o público com um espetáculo pesado, agressivo e inesquecível.

Se o Themis Tolis e Kostis Foukarakis se limitam a executar suas partes e não tem um grande contato com o público, Sakis Tolis está sempre conversando com a plateia, agradecendo pela presença de todos e demonstrando alegria em estar de volta à Curitiba após 27 anos. Kostas Heliotis, por sua vez, não fala com o público nenhuma vez durante o show, mas agita, pede moshs e tem uma ótima presença de palco.
Subindo ao palco pontualmente às 20h30, a banda construiu um repertório perfeito, sem nenhuma falha e que passeia de forma justa por sua carreira, mesmo que se concentre mais no trabalho realizado nos anos 2010. Todas as músicas foram muitíssimo bem recebidas pelo público, e a ordem das faixas é fundamental para que o show funcione tão bem.
“Aealo”, faixa-título de um dos álbuns mais bem-sucedidos da banda, dá início ao concerto com os dois pés na porta: rápida, agressiva e épica, a música traz o público de imediato para o universo sombrio que o Rotting Christ exploraria durante a próxima uma hora e vinte.

Em seguida, “Pretty World, Pretty Dies” tira um pouco o pé do acelerador, mas continua a imersão do público com sua sonoridade grandiosa e soturna. Após a primeira interação de Sakis Tolis com o público, o vocalista apresenta a excelente e climática “Demonon Vrosis”, a primeira música que foi entoada pelo público a plenos pulmões, especialmente no explosivo refrão.
O show tem continuidade com “Kata Ton Demona Eaftou”, que mistura o mais puro death metal com os coros grandiosos que sempre trazem um tom épico para as composições da banda. Mesmo não sendo uma das composições mais inspiradas, mantém o público altamente engajado.
Um dos momentos mais bacanas do show foi em “Like Father, Like Son” – música do mais recente álbum de estúdio da banda, Pro Xristou, lançado em 2024. A música é belíssima (e tem um riff que remete muito a “The Alchemist”, de Bruce Dickinson), mas o mais bacana é que o vocalista passou a música inteira interagindo com um garotinho de não mais de cinco anos que estava nas costas do pai nas primeiras fileiras da plateia. A felicidade de pai e filho era contagiante.

Na sequência, a frenética “Elthe Kyrie”, apesar de boa, foi o único momento no qual o público deu indícios de que poderia estar ficando um pouco cansado. Logo após isso, o vocalista pergunta se o público está preparado para ouvir algumas músicas antigas e anuncia a brilhante “King of a Stellar War”.
Com um verso poderosíssimo e uma parte em que o público cantarola junto com as guitarras, foi o grande momento do show e levou o público à loucura. A música, inclusive, é muito mais impactante ao vivo do que em sua gravação original, muito por limitações técnicas que deixam o som do disco muito menos pesado do que deveria.
A viagem às origens da banda continua na pesadíssima e misteriosa “The Sign of Evil Existence”, o momento mais puramente black metal do set, e “Non Serviam”, outra que foi entoada à plenos pulmões pelo devoto público que estava no Tork n’ Roll.
Em seguida, o baixista pede para que o público abra espaço para o mosh pit que ocorreria na próxima música, “Societas Satanas”. O cover de Thou Art Lord, outra banda importantíssima da cena grega de black metal, contou com um público ensandecido que parecia se perguntar “por que não abrimos um mosh antes?”.
Se encaminhando para o final do show, a banda volta para músicas mais climáticas e trabalhadas. “In-Yumen Xibalba” é, possivelmente, a música mais complicada de todo o repertório, com uma longa introdução, partes distintas, guitarras que trabalham juntas de forma a criar um clima absurdamente sombrio e uma performance vocal brutal.
A penúltima música do set principal segue a mesma linha, mas consegue ser ainda mais sombria: “Grandis Spiritus Diavolos” tem um riff absolutamente matador e contou com a participação mais animada do público durante o show inteiro. O final da música, com a plateia toda pulando enquanto o guitarrista faz um excelente solo de guitarra, é para fazer qualquer metaleiro delirar.
O mesmo se aplica à excelente “The Raven”, composição épica que também passa por diversos momentos e climas diferentes e ainda oferece outra melodia de guitarra para o público cantarolar. A plateia não decepcionou e mais uma vez participou do show de forma muito bacana.
A banda se despediu rapidamente do público e algumas pessoas foram embora, mas em poucos minutos os músicos voltaram para tocar a ótima “Noctis Era”, que, de certa forma, resume o que a banda apresentou na noite de terça-feira no Tork n’ Roll: agressividade, grandiosidade, peso e uma atmosfera que jamais sairá da mente de qualquer um que a presenciou.
Repertório:
Aealo
Pretty World, Pretty Dies
Demonon Vrosis
Kata Ton Daimona Eaytoy
Like Father, Like Son
Elthe Kyrie
King of a Stellar War
The Sign of Evil Existence
Non Serviam
Societas Satanas
In Yumen-Xibalba
Grandis Spiritus Diavolos
The Raven
Noctis Era
Torches of Nero
A banda gaúcha de black metal Torches of Nero ficou com a responsabilidade de abrir a noite e o fez com estilo: com um visual bem trabalhado, a banda apresenta um black metal honesto, mas sem grande brilho.
A caracterização da banda é bem feita, com cada um dos integrantes com uma roupa diferente: o baterista usa apenas um capuz e uma cruz invertida, mas o baixista vestia algo que parecia uma roupa religiosa ou ritualística e uma máscara preta com chifres. A roupa mais chamativa era a do vocalista e guitarrista, que usava uma burca vermelha que lembra a roupa que a caveira usa na capa do disco Leprosy, clássico do Death.
Os músicos merecem pontos por terem se sujeitado a vestir o elaborado figurino mesmo em uma das noites mais quentes da história recente de Curitiba. Se isso não é comprometimento, a palavra já não tem mais significado.
Musicalmente, a banda faz um black metal puro, que remete às origens do gênero, de forma competente. Talvez por ainda estar no início de carreira, com apenas um disco lançado, a banda ainda não encontrou uma identidade própria e nem um diferencial para outras representantes do gênero, mas isso é absolutamente comum para bandas iniciantes, especialmente em gêneros que tem características tão marcantes quando o black metal.
