No começo de março, a banda norueguesa de metal progressivo Leprous chega ao Brasil para datas em Belo Horizonte (Mister Rock), Curitiba (Tork n’ Roll) e São Paulo (Vip Station) nos dias 11, 12 e 13 de março, respectivamente. O Acesso Music conversou com Robin Ognedal, guitarrista da banda há quase dez anos, sobre a passagem da banda pelo Brasil, sobre a sonoridade dos trabalhos recentes da Leprous e muito mais!
Confira a íntegra da entrevista abaixo.
Por Luís S. Bocatios
Essa é a terceira vez da Leprous no Brasil, mas nas primeiras vezes vocês só tocaram em São Paulo e agora também vão tocar em Curitiba e Belo Horizonte. O que você lembra das vezes em que tocou em São Paulo e o que espera das outras cidades?
Robin Ognedal – Eu me lembro da casa de shows muito bem, é um lugar muito particular, faz muito calor lá dentro. Acho que é por causa da energia da plateia latino-americana, que é muito especial e muito diferente do que estamos acostumados na Europa. Uma vez, quando estávamos aí, eu me deparei com um carnaval quando estava indo para a casa de shows, foi bem legal. A gente sempre vê fotos, documentários e coisas do tipo, então foi muito legal ver pessoalmente. É um país ótimo, a natureza é linda e tudo mais, mas eu amo fazer shows, então, pra mim, a parte mais legal são os shows que fizemos na América Latina porque eu sinto que, como as pessoas sabem que não tocamos aí com tanta frequência, elas sabem que tem que aproveitar porque pode demorar um tempo até o próximo show. É o sentimento que eu tenho, que as pessoas apreciam muito o momento que temos juntos durante o show.
A Leprous geralmente é rotulada como uma banda de metal progressivo, mas o som de vocês carrega muitas outras influências. Você concorda com esse rótulo? Se não, há algum subgênero no qual você diria que a banda se encaixa?
Ognedal – Eu sou muito ruim com subgêneros. Não ligo muito pra isso, pra mim a música é boa ou não, mas acho que, quando as pessoas pensam em prog metal, elas pensam em algo muito diferente do que nós fazemos. Eu não tenho nada contra prog metal, mas o que penso sobre o gênero é diferente do que nós fazemos. Mas eu acho que cada um tem sua própria conotação do que é prog metal, então não posso falar em nome dos outros.
O seu primeiro disco com a Leprous foi Malina, de 2017. Como você entrou na banda?
Ognedal – Bom, primeiro eles me chamaram pra fazer a turnê norte-americana do The Congregation como substituto do Oystein (Landsverk, guitarrista anterior) e, depois que eu fiz a turnê, ficou claro que o Oystein tem família, tem filhos, e que a sua rotina fazia com que não fosse possível que ele acompanhasse a banda nos caminhos que ela desejava tomar, então, de forma não-dramática, nós trocamos de trabalho: ele pegou o meu lugar na The Scheen, que faz menos turnês, e eu peguei o lugar dele no Leprous porque eles gostaram do meu trabalho. Quando eu fui convidado a entrar na banda permanentemente, eles disseram “ei, você quer entrar na banda?”, e eu disse “com certeza!”, e eles disseram “ótimo, vamos começar a gravar o disco novo em dez dias”. Eu não tinha começado a compor partes de guitarra ou aprender as partes, não estava pronto para gravar as guitarras para um disco em dez dias, mas tive que gravar. Foi estressante, mas uma experiência definitivamente muito legal.
Como você vê a evolução da banda desde que você entrou? Houve uma mudança de estilo? Se sim, como você se adaptou como guitarrista para o que o álbum e a nova direção musical da banda estavam pedindo?
Ognedal – Sem querer tomar os créditos pela mudança de direção na banda, que definitivamente não são meus, mas de todos nós juntos e talvez principalmente do Einar (Solberg, vocalista), que é o capitão criativo da banda, mas eu acho que pelo menos os sons de guitarra mudaram um pouco quando eu entrei na banda, porque eu toco stratocasters e telecasters e tenho um estilo de tocar mais retrô, quase calcado no blues, e sinto que trouxe isso cada vez mais para a Leprous. Especialmente nesse último disco, sinto que estou fazendo aquilo que eu gosto, sem tentar me encaixar em nada específico.
O último álbum da banda, Melodies of Atonement, tem uma sonoridade bastante moderna. Você acha que é importante que as bandas continuem atentas a novos sons e estejam cientes sobre como bandas novas do mesmo estilo soam?
Ognedal – Não necessariamente, mas geralmente sim. Eu respeito totalmente pessoas que pensam “eu adoro isso, nunca me canso disso e quero fazer isso pra sempre”, como o Ac/Dc. Eu acho que é legal, tem seu valor, e se eles estão felizes fazendo isso, que continuem fazendo, mas eu acho que, para muitas pessoas que se interessam por tocar música ou gostam de música, é importante se desafiar, descobrir coisas novas e continuar se desenvolvendo musicalmente. Definitivamente nós estamos sendo influenciados por o que quer que esteja ao nosso redor, o que pode ser o motivo pelo qual o disco soa moderno, mas certamente nós nunca pensamos “vamos fazer algo que soe moderno”, nós apenas fizemos música e foi isso que aconteceu.
É claro, tem o Ac/Dc, mas também tem o David Bowie, que passeou por diversos estilos diferentes ao longo da carreira. Pra você, especialmente, é importante continuar evoluindo como músico e angariando novas influências?
Ognedal – Definitivamente. Eu acho que todos nós temos nossas próprias jornadas musicais, não necessariamente lançando coisas. Depende das pessoas da banda, mas, no Leprous, todos nós recebemos novas informações daqui e dali, e isso tudo acaba se juntando.
Instrumentalmente, vocês trazem alguns timbres muito interessantes neste disco. Como guitarrista, qual foi a sua abordagem em Melodies of Atonement? Você aplicou alguma técnica diferente? Eu especificamente gostei muito das guitarras em “Faceless”.
Ognedal – Obrigado, cara! Sim, eu tinha começado a brincar com slides, porque eu adoro alguns guitarristas que tocam slide fora do mundo do metal, então tive um período de folga e pensei “beleza, vamos tentar aprender a tocar um pouco de slide”, mas pensando que nunca usaria isso no Leprous, apenas por satisfação pessoal. Quando fizemos o disco, eu percebi que não era ilegal testar nada, nada seria estúpido ou brega, então foi um espaço criativo bastante livre, no qual eu não estava receoso em talvez não encaixar no que as pessoas imaginariam que a guitarra na Leprous deveria ser, sabe? Então eu usei muito slide, tentei criar partes de guitarra que são memoráveis, até cantaroláveis.
Você pode mencionar alguns dos seus guitarristas favoritos que usam slide? Você gosta do Duane Allman, do Derek Trucks?
Ognedal – Esses são os dois! O Derek Trucks é quase a minha única inspiração até agora. Também tem alguns guitarristas do Instagram, como o Ariel Polsen. Eu acho ele sensacional, dê uma olhada nele. Mas sobre o Derek Trucks, o fraseado dele é diferente de todo mundo.
Quando as pessoas achavam que ninguém poderia substituir o Duane Allman, o Derek Trucks foi lá e talvez tenha até superado.
Ognedal – Pois é, é uma loucura! Ele vem se alimentando disso desde a infância, é maravilhoso! E eu também acho que melodias vocais se transmitem muito bem para a guitarra, e é por isso que eu gosto de slide, você pode fazer as coisas como um cantor faria.
O slide faz você sentir a emoção, né?
Ognedal – Sim, com certeza! A dor, a alegria, qualquer coisa que você estiver sentindo.
E quando você começou a tocar guitarra, teve algum guitarrista em específico que te inspirou, tipo “eu quero ser como ele”?
Ognedal – Sim, começou com o Metallica, então Kirk Hammett e James Hetfield, mas rapidamente eu mudei para o Alexi Laiho, do Children of Bodom. Ele foi uma inspiração gigantesca pra mim por muitos anos, mesmo que às vezes não seja tão aparente no meu trabalho, mas eu tenho muito a agradecer ao Alexi Laiho pela minha mão direita. Também teve um guitarrista da minha cidade natal que tocava em uma banda chamada Pagan’s Mind, ele se chama Jorn Viggo Lofstad, ele é um guitarrista incrível e era meio que um heroi local; eles deixavam a gente assistir ao ensaio deles, então eu podia vê-lo de pertinho. Ele foi uma grande inspiração pra mim, tanto quanto os nomes mais famosos.
O Brasil tem uma cena progressiva muito forte, desde o rock progressivo, que era grande nos anos 1970, até o metal progressivo, que começou nos anos 1990 e se tornou um dos subgêneros mais populares na cena do metal no Brasil. O que você sabe sobre a cena da música progressiva no Brasil ou sobre a música brasileira em geral?
Ognedal – Pra ser completamente honesto, você até está me colocando em uma posição meio desconfortável aqui, me desculpe dizer, mas eu não sabia sobre a cena prog brasileira. Fiquei bastante curioso pra saber mais sobre. Eu até estava pensando, será que é o prog metal que é tão bem aceito na América Latina ou é o metal em geral? Porque me parece que o metal é maior na América Latina do que na Europa.
Sério?
Ognedal – Sim! Talvez seja o fato de que são bandas internacionais, então mais pessoas vão nos shows, mas parece que vocês gostam muito de metal, especialmente o metal nórdico. E é muito legal pra gente ter uma forma de fugir do inverno daqui, porque meu deus!
Você está na linha de pensamento certa, porque está muito calor por aqui! Inclusive, se você quiser ir pra Amazônia é melhor ir rápido, porque infelizmente está pegando fogo.
Ognedal – Pois é, essa é a triste verdade! Tomara que algo possa ser feito, algumas pessoas estão tentando fazer alguma coisa. Eu gostaria de poder fazer algo além de ser ambientalmente consciente e votar em partidos que levam isso a sério.
Bom, como vocês tem um disco novo, certamente vão tocar algumas músicas dele, mas, tirando isso, o que os fãs podem esperar do repertório?
Ognedal – Pra ser sincero, nós ainda não planejamos o repertório para esses shows. Estivemos muito ocupados com os shows da Europa, que encerramos no último sábado, e agora estou na minha fase de ficar deitado no sofá tentando recuperar o sono, mas nós temos várias opções de repertório, porque muitas músicas estão ensaiadas, então podemos fazer várias coisas diferentes, não é nada do tipo “temos que decidir o repertório para podermos planejar questões de pré-produção”, porque tem várias músicas que podemos tocar, então veremos! Talvez até trocar de repertório a cada noite… eu não sei bem. Como sempre, você pode esperar que o repertório vai ser imprevisível, nós sempre tentamos fazer com que cada show seja único, que seja diferente a cada vez que alguém nos veja ao vivo.
Legal! Existe uma certa tendência de bandas tocarem várias músicas de discos que estão completando dez anos de lançamento ou coisas assim. Esse ano, The Congregation está completando dez anos. Você acha que pode haver uma atenção especial a esse disco nos repertórios?
Ognedal – Nós vamos tocar algumas músicas do The Congregation nos Estados Unidos um pouco depois, mas talvez você tenha me dado uma ideia. É um disco bem representado, e nós sentimos que tocamos as músicas que se destacam, mas quando você tem tantos discos é muito difícil escolher as músicas. A gente toca “Slave” e “The Price” em quase todos os shows, então não sei, mas talvez a gente toque outra. Você quer alguma em particular?
Eu acho que você vai escolher bem!
Ognedal – Acho que sim!
A banda é muito prolífica, vocês lançam um disco novo a cada dois ou três anos. Vocês já estão coletando ideias para um próximo lançamento ou ainda é muito cedo?
Ognedal – Não, já estamos bem adiantados. Definitivamente já é algo concreto, estamos trabalhando em coisas novas, o que não significa que estamos necessariamente no estúdio gravando, mas já tem algo saindo!
Legal, então talvez demore ainda menos que o último disco, que demorou três anos. Será que podemos esperar algo em 2026?
Ognedal – Talvez! Eu não quero prometer nenhuma data ou botar nenhuma pressão, mas nunca demora muito entre os discos do Leprous, então é provável que continue neste fluxo. Não posso prometer nada além disso.
Ótimo! Por último, você gostaria de deixar uma mensagem para os seus fãs brasileiros?
Ognedal – Primeiramente, nós somos muito gratos, é tão legal que a gente possa ir tocar no Brasil e que vocês estejam interessados na nossa música e vindo aos nossos shows. Muito obrigado pela energia que vocês sempre nos dão na plateia, é uma coisa realmente especial, não é algo que estamos acostumados, é uma experiência! Então muito obrigado (em português). Falei certo?
Perfeitamente! Muito obrigado pelo seu tempo!
Ognedal – Muito obrigado por me receber, foi ótimo!
Te vejo no show em Curitiba!
Ognedal – Maravilha, te vejo lá! Diga um oi se me encontrar. Eu não faço a menor ideia de como serão esses dias, mas espero te ver por lá!
Pois é, vocês tem shows em três dias seguidos, né? Não vai ter muito tempo pra se divertir!
Ognedal – É, e nem pra dormir! Provavelmente a maioria do sono vai ser no chão de aeroportos.
Se serve de consolo, não são viagens longas, então você deve chegar ao seu destino em mais ou menos uma hora.
Ognedal – Bom saber, mas ainda assim, toda a rotina de ir para o aeroporto, pesar as bagagens, fazer o check-in… mesmo assim tem que acordar muito cedo!
Imagino! Mais uma vez, muito obrigado!
Ognedal – Muito obrigado pelo espaço e eu estou muito animado para voltar à América Latina! Te vejo por lá!
Até, boa noite!
Ognedal – Pra você também!
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