[Entrevista] Uriah Heep: Bernie Shaw explica dinâmica da banda e turnê de despedida que passa pelo Brasil

Após mais de cinco décadas de carreira, a lendária banda britânica Uriah Heep anunciou sua turnê de despedida, intitulada The Magician’s Farewell Tour, com cinco shows confirmados no Brasil em abril de 2025, nas cidades do Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte.

Para promover esta turnê, que acontece um ano e meio depois da turnê anterior, conversei com o exímio vocalista Bernie Shaw, que fala sobre o momento da banda e os planos – sim, há planos!

por Clovis Roman
transcrição: Luis Gustavo Schu Bocatios

Clovis: Primeiramente, muito obrigado por me conceder essa entrevista! É a última do dia, né?

Bernie: Sim, já fiz cinco! Perdi uma delas, porque conversei demais com o primeiro.

Clovis: Acontece! A gente pode remarcar. Fui eu que marquei essas entrevistas todas, vou conversar com os caras para remarcarmos para a próxima semana. Espero que dê certo.

Bernie: Beleza!

Clovis: Vamos às perguntas: primeiramente, como é a sensação de celebrar mais de 50 anos de estrada nessa turnê de despedida?

Bernie: Eu quero saber onde o tempo foi para! Afinal, Mick me disse umas semanas atrás: “você já parou pra pensar que está na banda há 39 anos?”. Eu fiquei completamente embasbacado. A banda tem 55 anos e está muito forte, e eu não tinha ideia de que já se passaram 39 anos da minha vida sentado, bebendo e rindo ao lado do Mick Box. É surreal! Nós já viajamos para 65 países, logo serão 67 com a Argentina e o Uruguai, então nós demos a volta no planeta nos divertindo e levando a nossa marca musical para as pessoas. Algumas pessoas tem que parar e pensar o quão sortudas elas são por estarem no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas, fazendo algo pelo qual você é completamente apaixonado, e, ao mesmo tempo, conseguir pagar o aluguel com isso. Muita gente toca e precisa ter um trabalho durante o dia pra pagar o aluguel. Nós somos muito, muito sortudos no Uriah Heep, porque é um nome global e nós podemos ir onde quisermos e levarmos a música conosco.

Bernie Shaw ao vivo com o Uriah Heep, em São Paulo, 2023 (foto: Clovis Roman).

Clovis: Isso é ótimo! E nós somos sortudos por podermos ouvir os discos que vocês gravaram nesses quase 40 anos desde que você entrou na banda, estreando com um disco ao vivo e depois Raging Silence, Different World e todos os demais. Somos muito sortudos por poder ouvir esses discos até hoje e pra sempre.

Bernie: Acho que esse é o legado do músico. Quando estivermos mortos, a música continuará viva, e eu acho que Chaos and Colour foi meu 10º ou 11º disco, algo assim, eu já perdi as contas [N. do E.: na verdade, é o 9º disco de inéditas, ou o 11º de estúdio, se contarmos Tottally Driven e Celebration, dois trabalhos com regravações de clássicos]. É muito bom saber que estou deixando algo do qual sou orgulhoso, esses discos todos.

Clovis: Claro! Falando sobre o repertório dessa turnê, eu vi que vocês tocaram recentemente músicas como “Shadows of Grief” e “The Magician’s Birthday”. Como vocês fizeram a escolher de resgatar algumas músicas que nós não ouvíamos faz algum tempo, como foi a reunião para definir as músicas para essa turnê?

Bernie: Foi muito divertido! Em todas as turnês, é muito difícil estruturar 90 minutos de músicas quando você tem 25 discos pra escolher. Especialmente nessa turnê, nós queríamos dar uma chacoalhada e fazer algo diferente, e o Mick sugeriu algumas das músicas diferentes que nós colocamos, como “The Magician’s Birthday”. Mas, sabe, ela tem doze minutos e meio, algo do tipo, é uma música longa e você não pode tocar metade dela. É tipo quando o Lynyrd Skynyrd toca “Freebird”: você quer ouvir “Freebird”! Inteira! Então, tivemos que escolher algumas músicas mais curtas, nos dá mais tempo para tocar as músicas longas. Funcionou bem. Fizemos sete shows no Reino Unido com o April Wine e o Tyketto e três deles tiveram ingressos esgotados. Aí está a prova de que, o que quer estejamos fazendo, as pessoas estão gostando.

Clovis: E os fãs no Brasil vão assistir ao mesmo repertório ou vocês estão preparando alguma surpresa para nós, latino-americanos?

Bernie: Não, nós gostamos de definir um repertório, nos agarramos a ele e deixá-lo perfeito para a turnê. O repertório desse ano é o que estamos tocando agora, não vamos mudar ou fazer nada de diferente: essas são as músicas e o show será ao redor delas.

Clovis: Beleza! Vocês já tocaram na América Latina várias vezes, desde 1989, depois 1996, três ou quatro vezes mais. Como você vê a plateia latino-americana no geral?

Bernie: O sangue latino é quente e apaixonado, e sempre que chegamos na América do Sul vocês enlouquecem. Não tem limites. Quando você vai a um festival ou a um show, vocês sabem se descabelar e não tem nenhum problema em fazer com que a banda saiba o quanto vocês apreciam. É um dos melhores lugares para se tocar, é sempre muito emocional, e é isso que eu amo sobre tocar aí! Não há pretexto: eles apenas estão lá para se divertir, eles nos amam e mostram isso!

Clovis: Que legal! Agora, falando um pouco sobre o futuro: Chaos & Colour foi lançado há dois anos. Vocês tem planos para um novo disco de estúdio?

Bernie: Claro! O Mick e o Phil estão sempre compondo. Compositores compõem, assim como pintores pintam, você não acorda um dia e fala “eu não vou mais pintar”. Se você tem um talento e uma arte que te movem, você não consegue desligar como um interruptor, e o Mick e o Phil provavelmente vão continuar compondo juntos mesmo depois que o Uriah Heep acabar, todos nós estivermos velhos e grisalhos. Eu não vou ficar grisalho. O Dave também sempre está compondo músicas para os amigos dele, ele compõe com uns caras de Los Angeles, e o Russell também tem um parceiro de composição agora e também apresentou algumas músicas. Temos que mergulhar para escolher umas onze ou doze músicas que queremos gravar para o próximo disco, a piscina está ficando maior, não menor.

Uriah Heep ao vivo em Curitiba, 2023 (foto: Clovis Roman).

Clovis: Olhando em retrospectiva, se você tivesse que escolher três discos do Uriah Heep para alguém que nunca ouviu a banda, quais você escolheria?

Bernie: Essa pergunta é muito, muito difícil! “Chaos & Colour”, é claro, porque acho um dos melhores discos; “Demons and Wizards”, porque esse é um disco de só 45 minutos, não é longo, mas alçou o Uriah Heep a um status mundial; e o terceiro… nossa senhora. Você está perguntando para um geminiano, então o que eu falar hoje pode não ser o que eu falaria amanhã, mas provavelmente o Very ‘Eavy… ‘Very Umble, porque esse é o disco onde tudo começou e é um disco cru de puro rock. A partir dali, a banda ficou um pouco mais melódica, mais progressiva, sempre seguindo o mesmo estilo, mas dando uma polida a mais no acabamento. Então o primeiro disco, “Demons and Wizards” e o último, porque tem um fio que os amarra.

Clovis: Eu não tenho total certeza sobre isso, mas vocês gravaram aquele disco e DVD Acoustically Driven, e não sei se chegaram a tocar algum show acústico depois disso. Você acha que, depois dessa turnê de despedida, talvez vocês possam fazer um ou dois shows totalmente acústicos, só por diversão ou algo do tipo?

Bernie: Bom, a turnê se chama “The Magician’s Farewell”, mas a banda não vai parar, apenas não vamos mais fazer aquelas turnês longas de oito, nove, dez semanas, juntando a América do Sul, os Estados Unidos e o Canadá. Nós estamos muito velhos pra isso por causa da burocracia e da dificuldade que está agora para viajar. Com o Reino Unido tendo saído da União Europeia, está muito complicado conseguir vistos e organizar uma turnê. Você tem que dar um jeito na burocracia, tem que saber as leis de todos esses países que você vai. Antigamente, era só marcar a turnê e chegar lá, hoje em dia tem uma lista enorme de equipamentos, tudo é etiquetado. Eles olham quantas cordas, quantas baquetas, quantos amplificadores, quantos isso, quantos aquilo. É muito complicado e custa milhares de dólares em cada país. Antes, com a União Europeia, isso só acontecia na Rússia e na Suíça; hoje em dia, são todos os países da Europa, então ficou muito difícil tocar lá.

Nós decidimos dar uma diminuída: ainda vamos tocar em todos os festivais de verão que pudermos, mas não vamos sair por dois meses e meio. Três ou quatro semanas é o máximo que queremos ficar longe de casa, das nossas famílias. Sabe, nos últimos 39 anos, eu passei 200 dias por ano longe da minha família. Não vale mais a pena. Nós amamos o que fazemos, mas precisamos diminuir o ritmo. Eu vou fazer 69 anos esse ano, o Mick vai fazer 78. Nós queremos passar um pouco mais de tempo com as nossas famílias, mas não estamos acabando com a banda.

Sobre a ideia de fazer algo acústico novamente, eu adoraria! Eu fiz alguns shows com o Mick e uma orquestra, eu adoraria fazer isso. O Deep Purple fez isso, mas o Deep Purple está em um nível superior, eles podem bancar isso. Tudo se resume a se o promotor vai pagar por isso. Sabe, cinco caras são cinco caras, mas cinco caras e uma orquestra de quarenta pessoas? Soa maravilhoso, mas alguém tem que pagar por isso.

Clovis: Essa é uma ótima notícia, porque a maioria das pessoas acha que a banda vai acabar depois dessa turnê.

Bernie: Não, não! Não vamos acabar! Eu adoro o nome da turnê, “The Magician’s Farewell”, mas o mágico é apenas uma parte do mistério, da mística e do conteúdo lírico do Uriah Heep, temos muitas outras ideias e facetas, então sim, estamos dizendo adeus a uma parte disso, mas de jeito nenhum isso quer dizer que vamos parar. Ainda tem muita vida pela frente!

Clovis: Essa é a melhor notícia que recebemos esse ano! Bom, muito obrigado, apenas uma última coisa: deixe uma mensagem para os fãs brasileiros e latino-americanos os convidando para os shows.

Bernie: Olá, aqui é o Bernie Shaw, vocalista do Uriah Heep! Passando só pra dizer que nós estamos indo para a América do Sul em duas semanas e eu espero ver todos os fãs do Uriah Heep marcando presença! É um show brilhante, tem várias músicas diferentes no repertório, é um excelente novo show, então seja parte disso e venha ver a banda! Tchau!

Fotos: Clovis Roman

Deixe um comentário