Pentagram
29 de março de 2025
Basement
Curitiba/PR
Por Luís S. Bocatios
Fotos de Clovis Roman
Formado em 1971, o Pentagram é um dos grupos pioneiros do doom metal, sendo considerado parte do “big 4” do gênero ao lado de Candlemass, Saint Vitus e Trouble. O disco de estreia saiu apenas em 1985 – ou seja, a banda demorou uma década e meia para começar a angariar fãs de fora do cenário underground da Virginia, estado da costa leste dos Estados Unidos onde o grupo foi formado.
Após passar por inúmeros hiatos e formações diferentes, que sempre mantiveram o Pentagram como um dos principais nomes do metal underground, a fama generalizada finalmente veio nesse início de 2025, quando um fã gravou o olhar diabólico do vocalista Bobby Liebling durante a performance da música “The Ghoul”, um dos clássicos da banda, em San Diego. O vídeo teve mais de 56 milhões de visualizações no Instagram, viralizando a imagem do vocalista pouco antes da segunda visita do grupo ao Brasil (a primeira foi em 2022, com shows em São Paulo e no Rio de Janeiro).
A primeira vez do Pentagram em Curitiba aconteceu na noite de sábado, 29 de março, no palco do Basement, e contou com a abertura da curitibana Espectro e da mineira Pesta, que encaixaram perfeitamente na estética sonora da noite e se provaram bandas competentíssimas e bastante promissoras para o cenário do metal nacional.
Espectro
A primeira banda da noite foi a Espectro, quinteto curitibano formado pelo vocalista Reinaldo Vuicik, pelos guitarristas Luan Bremer e João Wegher, pela baterista Karina D’Alessandre e pelo baixista Felipe Leite. O som é um heavy-doom clássico, muito influenciado por bandas como Saint Vitus, Candlemass (o guitarrista Luan Bremer trajava uma camiseta do magnânimo disco Epicus Doomicus Metallicus) e, é claro, o próprio Pentagram.
Tecnicamente, a banda é super competente: o vocalista tem uma bela voz, a cozinha traz uma baterista extremamente firme e um baixista que faz a banda pulsar, a dupla de guitarristas preenche o som de forma pesadíssima e ainda tem momentos inspirados de guitarras harmonizadas. As composições também são ótimas, trazendo riffs soturnos que encaixam perfeitamente na atmosfera macabra que tomaria conta da noite.
Nas breves interações com o público, o vocalista apresentou a banda, anunciou o lançamento de um compacto para o mês de maio e ressaltou a felicidade em estar tocando junto com o Pentagram, uma de suas maiores influências. “Nós começamos fazendo cover do Pentagram. Estar abrindo pra eles é surreal, estamos muito gratos!”, disse Vuicik.
O repertório, é claro, focou no único disco de estúdio da banda, o auto-intitulado de 2022. O grande destaque foi a excelente música “Crimson Star”, que encerrou o show trazendo ecos claríssimos de Black Sabbath por meio de seus riffs pesados e soturnos, seu baixo marcante e sua bateria robusta. De certa forma, a canção é excelente para exemplificar não apenas a sonoridade da banda, mas também a qualidade das composições, que apresentam um grupo extremamente promissor que merece a atenção dos metaleiros curitibanos.

Repertório
The Ritual
Twist the Knife
Wicked Life
Death Dealing
Mind Lord
1000 Nights
Crimson Star
Pesta
A estética sonora sombria da noite teve continuidade com a apresentação da Pesta, banda de Belo Horizonte que fez sua estreia em terras curitibanas. Com mais de dez anos de estrada e dois discos lançados, o grupo é ligeiramente mais pesado e soturno do que o Espectro, e elevou ainda mais o nível do evento.
Assim como a banda de abertura, a Pesta é um quinteto. Formado pelo vocalista Thiago Cruz, pelos guitarristas Marcos Resende e Daniel Rocha, pelo baixista Anderson Vaca e pelo baterista Flávio Freitas, o grupo consegue construir uma atmosfera sombria em cada um dos riffs e em cada uma das melodias performadas.
O grande destaque é o vocalista Thiago Cruz, que carrega ao mesmo tempo uma aura que remete ao hard-rock/heavy metal setentista e uma voz que, em alguns momentos, lembra muito a de Layne Stayley (Alice in Chains). A banda de Seattle, aliás, parece ser uma das principais influências do quinteto, que oferece algumas harmonias tão amargas quanto às dos momentos mais pesados do Alice in Chains.
Assim como aconteceu no show do Espectro, a Pesta também fez questão de valorizar o momento e exaltar o Pentagram, que foi descrito pelo vocalista como “uma das nossas grandes referências”. Ambas as bandas de abertura deixaram um gosto de “quero mais” no público, certamente angariaram alguns admiradores e aqueceram perfeitamente a plateia para o espetáculo nefasto que viria a seguir.
Repertório
Anthopophagic
Witches Sabbath
Black Death
Words of a Madman
Shadow of a Desire
Marked by Hate

Pentagram
Às 21h45, quinze minutos antes do horário marcado para o início da apresentação do Pentagram, o trio formado pelo guitarrista Tony Reed, pelo baixista Scooter Haslip e pelo baterista Henry Vazquez já estava no palco. Faltava apenas o lendário vocalista Bobby Liebling, que, mesmo com o status de ícone do doom metal e recentemente tendo viralizado mundialmente, fez questão de atender os fãs ao chegar no Basement.
O vocalista entrou no palco às 21h50 sob o som de um coro da plateia que pedia por “Bobby, Bobby, Bobby”. Sua entrada levou o público ao êxtase, que foi confirmado por “Live Again”, responsável por abrir o show e o disco de estúdio mais recente da banda, Lightning in a Bottle (que dominou o repertório, com 6 das 13 músicas reproduzidas). Foi bem recebida pela plateia, assim como a segunda, “Starlady”, que foi apresentada por Siebling como sendo sobre “uma mulher misteriosa que eu conheci há muito tempo atrás”.
Foi a partir da terceira música, no entanto, que o público incendiou de vez o Basement. “The Ghoul” – faixa do clássico Relentless, o disco mais famoso da banda – contou com inúmeros celulares alçados ao alto para tentar captar o recém-viralizado olhar maléfico do vocalista, que não os decepcionou e entregou exatamente o que as pessoas desejavam logo nos primeiros segundos de música.
Para além do meme, a música é uma aula de doom metal: com riffs diabólicos, um refrão marcante e uma performance vocal possuída, foi o maior coro da noite e fez com que basicamente todos os presentes fossem à loucura e entrassem de vez no clima para o que a banda apresentaria a seguir.
A próxima música foi “I Spoke to Death”, também de Lightning in a Bottle, que já merece ser inserida na lista das melhores músicas da carreira do Pentagram. O riff principal é idêntico ao de “Burning Blood”, do Six Feet Under, e o refrão, estranhamente, tem uma lógica similar ao de “Cidadão da Terra”, clássico da fase progressiva d’Os Mutantes. A performance feroz de todos os integrantes faz com que a música tenha uma energia intensa e fabulosa, mas o baterista Henry Vazquez merece um destaque especial por suas incríveis viradas e por seu uso criativo e agressivo do bumbo.
Dando sequência ao momento mais empolgante do show, a banda emenda os clássicos “When the Scream Comes” – única representante do clássico Day of Reckoning, de 1987 -, outra das mais bem recebidas pela plateia (alguns poucos fãs chegaram a cantarolar a parte das guitarras harmonizadas), e “Sign of the Wolf (Pentagram)”, a única que teve um coro comparável ao de “The Ghoul”.

A temperatura cai um pouco com “Might Just Wanna Be Your Fool” e “Solve the Puzzle”, ambas do disco novo, mas volta a subir com “Review Your Choices”, faixa-título do álbum de 1999. Após a música, a banda fez uma longa pausa em que o vocalista conversou com o público, dizendo que “queria passar mais tempo” com a plateia, e chegou a tocar trechos curtos de outras canções.
A primeira parte do show foi encerrada com mais duas músicas de Lightning to the Bottle: a razoável “Thundercrest” e a excepcional “Walk the Sociopath”, que tem um dos climas mais funestos entre todas as músicas do Pentagram, com riffs sinistros e um andamento cadenciado que parecem ter sido compostos pelo próprio demônio. A banda saiu do palco sob calorosos aplausos.
Após uma curta pausa, o quarteto retorna para as duas derradeiras canções: a pesada “Forever My Queen”, e “20 Buck Spin”, o momento em que a banda mais se aproxima do hard-rock clássico, mesmo que com seu característico peso. Essa veia da canção é ainda mais explícita pelos longos solos improvisados performados por Tony Reed, que demonstra um grande repertório técnico ao solar de forma que chega a remeter aos grandes solistas dos anos 1970, como Eric Clapton e Jimmy Page.
Sendo ovacionados pelo público, os músicos liderados por Bobby Liebling se despediram do palco e partiram para seu compromisso em São Paulo no dia seguinte. Sortudos são os que tiveram a oportunidade de testemunhar essa passagem tão especial do Pentagram pelo Brasil, que lavou a alma dos fãs e os deu a certeza de que, não importa o quão viral seja um meme sobre a banda, o lugar dela sempre foi e continuará sendo no underground, com as pessoas que realmente apreciam o trabalho de um dos grupos mais influentes para toda uma geração de bandas pesadas.
Repertório
Live Again
Starlady
The Ghoul
I Spoke to Death
When the Screams Come
Sign of the Wolf (Pentagram)
Might Just Wanna Be Your Fool
Solve the Puzzle
Review Your Choices
Thundercrest
Walk the Sociopath
Forever My Queen
20 Buck Spin

