Vocalista do Uriah Heep revela planos para o futuro e reflete sobre o legado da banda

Banda se apresenta na Ópera de Arame neste sábado (12) e ainda tem outras quatro datas marcadas pelo Brasil

Por Luís S. Bocatios
Foto de Clovis Roman

Neste sábado (12), a icônica banda britânica Uriah Heep se apresenta no palco da Ópera de Arame, em Curitiba. O show faz parte da turnê Magician’s Farewell (pt: a despedida do mágico), que marca a despedida do grupo de grandes turnês e ainda passa por São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre.

Mesmo que o título da excursão levante a suspeita de que a banda está prestes a se aposentar, o vocalista Bernie Shaw esclarece que não é bem assim: “é uma despedida das longas turnês que nós fazíamos, que abarcavam toda o continente americano, da América do Sul ao Canadá, mas não vamos parar”, explica. 

Naturalmente, um dos motivos para o grupo diminuir consideravelmente o ritmo foi a idade dos músicos. Como conta Shaw, “ o Mick (Box, guitarrista) não está ficando mais jovem. Ele é o membro original e não aguenta mais essas turnês muito longas, quer passar tempo com a família. Eu também quero”. O vocalista ainda acrescentou que até a saída do Reino Unido da União Europeia foi um fator levado em conta: “foi a pior coisa que aconteceu conosco. Agora estamos de volta à burocracia da idade da pedra e isso faz com que viajar seja muito difícil”.

Os planos do Uriah Heep estão longe do final, pois a banda ainda planeja se apresentar em grandes festivais e lançar novos discos. “Ainda vamos fazer os festivais de verão, seja na Europa, na Escandinávia ou na América, vamos continuar gravando coisas novas, mas vamos diminuir o tempo que passamos longe de casa. A gente quer fazer shows de qualidade, e, se estivermos cansados demais por causa de voos, não vamos conseguir.”, conta.

A trajetória do Uriah Heep começa em Londres, no final dos anos 1960, quando o guitarrista Mick Box e o vocalista David Byron, que tocavam juntos em bandas covers, decidiram formar um projeto profissional e se dedicarem 100% à música. Em 1970, a banda lançou seu disco de estreia, o clássico …Very ‘Eavy… Very ‘Umble, e engatou uma sequência de lançamentos que foram importantíssimos para o desenvolvimento do hard-rock, do heavy metal e do rock progressivo.

A formação clássica da banda se desfez aos poucos a partir do final dos anos 1970 e se estabilizou definitivamente apenas em 2013, com a entrada do baixista Dave Rimmer. O baterista Russell Gilbrook já havia se juntado à banda em 2007, enquanto Bernie Shaw e o tecladista Phil Lanzon estão ao lado do membro-fundador Mick Box desde 1986.

Apesar de sua enorme influência nas origens do hard-rock, a banda nunca atingiu o nível de fama de algumas de suas contemporâneas, como Led Zeppelin e Queen — mesmo que, segundo Shaw, o próprio Freddie Mercury lhe tenha dito que Brian May é um enorme fã do Uriah Heep. 

O status mais nichado da banda impede que ela faça apresentações em grandes arenas no Brasil e na América do Sul, o que chateia o vocalista: “Nós sempre somos bem recebidos por aí, mas eu gostaria que pudéssemos tocar em lugares maiores, nos quais pudéssemos trabalhar um pouco mais na produção”. Para a alegria de Shaw, a Ópera de Arame tem mais do que o dobro da capacidade do CWB Hall, local no qual a banda se apresentou em sua última visita a Curitiba, em dezembro de 2023.

Já se passaram 55 anos desde o disco de estreia do Uriah Heep, e, desde então, a banda já lançou 25 álbuns de estúdio. Segundo o vocalista, a tarefa de escolher um repertório que abarque toda essa carreira é tão difícil quanto parece: “Como você consegue resumir 55 anos em 90 minutos? Temos que tocar os clássicos, mas também queremos tocar músicas de quando eu entrei na banda e de quando Dave e Russell entraram na banda. Nós tentamos fazer o que achamos que vai agradar a maioria, mas não tem a menor chance de conseguirmos agradar a todo mundo. Mas isso é o rock n’ roll!”.

No fim das contas, o repertório traz desde músicas do primeiro álbum até faixas do mais recente lançamento da banda, Chaos and Colour (2023), que Shaw classifica como o melhor que já gravou com a banda. “É fantástico! Nós gravamos aquele disco em dezessete dias. Quanto tempo o Metallica demorou pra fazer o Black Album? Quase um ano!”, brinca.

Para o vocalista, a longevidade do Uriah Heep se deve à sinceridade artística de Mick Box, que sempre se manteve fiel ao estilo da banda: “eu sou o quinto vocalista, mas a sonoridade nunca mudou, não importa quantas pessoas entraram como bateristas, tecladistas, baixistas e vocalistas. Quando o Mick e o David (Byron, vocalista original) começaram essa banda, eles tinham um sonho e um objetivo de onde eles queriam chegar. Se você gosta das coisas antigas, existe uma grande chance de gostar das coisas novas, porque podem até ter rostos diferentes na capa do disco, mas o que transparece no coração da música não mudou”, reflete.

Além da liderança artística que exerce na banda, Box ainda é uma das pessoas mais importantes na vida pessoal de Shaw: “ele é o meu melhor amigo, é meu padrinho de casamento. Eu aprendi com esse homem do que com qualquer outro ser-humano que conheci na vida”.

Mesmo que o caminho da banda esteja se aproximando do final, alguns planos de estender a turnê já estão sendo debatidos pelos integrantes desde os sete shows no Reino Unido que abriram a excursão: “o promotor veio no último show com doze garrafas de champanhe, uma coisa bem ‘rock n’roll old school’, e nos sondou para fazermos uma parte dois. Não somos contra a ideia de fazer outros sete shows. Não setenta, mas sete ou dez”.

Ele ainda revela um desejo que falta ser realizado em sua carreira: “eu adoraria tocar no Rock in Rio! Não somos o Iron Maiden ou o Queen, não vamos ser headliners, mas eu adoraria!”. A procura por ingressos da turnê revela que o interesse do público pela banda ainda é enorme, o que, segundo o vocalista, é um combustível para o quinteto continuar firme, mesmo que o caminho já esteja chegando perto do final: “se o interesse está lá, se os fãs compram ingressos e nós ainda estamos saudáveis, felizes e com vontade de fazer bons shows, não há razão para guardarmos as armas”.

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