[Cobertura] Uriah Heep: o rock setentista em seu mais puro estado

Uriah Heep
12 de abril de 2025
Ópera de Arame
Curitiba/PR

Por Luís S. Bocatios
Foto por Clovis Roman

Para resumir de forma simplista, o Uriah Heep é um daqueles casos de bandas tão brilhantes quanto suas contemporâneas, mas que não ficou tão famosa assim. Quando suas contemporâneas são Led Zeppelin, Black Sabbath, Deep Purple e Mountain, entre tantas outras, há de se concordar que a concorrência é um tanto quanto desleal.

Mesmo assim, não é exagero afirmar que o nível artístico da banda é tão elevado quanto o dos outros citados, assim como sua importância histórica, já que o grupo foi um dos principais responsáveis por romper as barreiras do rock clássico com o hard-rock, o heavy metal e o rock progressivo.

Apesar da fase mais lembrada do Uriah Heep ser a dos anos 1970, com o vocalista David Byron, a banda permaneceu sempre com a qualidade lá no alto. É difícil dizer que os discos recentes são tão bons quanto obras-primas como Look at Yourself, Demons and Wizards e The Magician’s Birthday, mas a banda inegavelmente manteve sua relevância artística, inclusive em seu último lançamento, o ótimo Chaos & Colour, de 2023.

Após inúmeras mudanças de formação, a banda atualmente conta com o vocalista Bernie Shaw e o tecladista Phil Lanzon, que estão na banda desde 1986, o baterista Russell Gilbrook, que entrou em 2007, e o baixista Dave Rimmer, membro desde 2013. Eles são capitaneados pelo lendário guitarrista Mick Box, que é o principal compositor, um dos membros fundadores e o único que participou de todas as formações da banda.

Em sua sexta visita ao Brasil, o Uriah Heep trouxe a turnê The Magician’s Farewell, nome que sugere uma despedida dos palcos – que, no entanto, já foi descartada pela banda. Segundo Bernie Shaw, é apenas uma despedida das longas turnês, e o público brasileiro ainda pode esperar ver o Uriah Heep mais uma vez.

Os mais cínicos podem criticar a divulgação da turnê como apenas uma forma de vender mais ingressos, mas é quase impossível que qualquer um que tenha presenciado a apresentação da banda na Ópera de Arame, em Curitiba, neste sábado (12), não fique feliz com a possibilidade de ver outro show da banda, pois o que foi visto no palco não foi nada mais, nada menos do que uma aula de rock n’ roll.

Pontualmente às 21h30, as luzes da Ópera se apagaram e o público se levantou. Para os desavisados, já no primeiro riff da música de abertura – “Grazed by Heaven”, do álbum Living the Dream, de 2018 – ficou claro que o show não se trataria apenas de um exercício de nostalgia e devoção ao passado, mas sim de uma performance incrivelmente competente de uma banda que valoriza tanto seu catálogo mais recente quanto os clássicos do passado, pois sua relevância artística nunca foi embora.

Já na primeira música, nota-se o invejável entrosamento dos músicos no palco e o excelente estado no qual se encontra a voz de Bernie Shaw – que, aos 69 anos, está naquela seleta lista de vocalistas cuja voz pouco envelheceu ao longo dos últimos 40 anos, assim como Glenn Hughes, Bruce Dickinson e, até pouco tempo atrás, Steven Tyler.

A música é excelente, pesada e conta com um refrão empolgante que contagiou a plateia. A segunda música segue a mesma linha: “Save Me Tonight”, primeira representante do último disco da banda, tem um riff de heavy metal, versos interessantíssimos e um ótimo solo de Mick Box. A trinca inicial é encerrada com a ótima “Overload”, um petardo de hard-rock que seria um clássico caso lançado nos anos 1970.

Antes da quarta música, Bernie Shaw se comunica com o público pela primeira vez, ressaltando a felicidade da banda em estar de volta ao Brasil e explicando que a noite ia contar com músicas mais recentes e músicas mais antigas. Foi a deixa para anunciar a majestosa “Shadows of Grief”, primeira música dos anos 1970 a aparecer no repertório.

Presente no maravilhoso Look at Yourself, a faixa é uma das que melhor exemplifica a sonoridade clássica da banda, trazendo uma mistura do hard-rock com o progressivo. Mesmo com um arranjo de bateria um tanto quanto simplificado – o que é uma pena, visto que a performance de Ian Clarke na gravação original é delirante -, a música é apresentada de forma incrivelmente energética, conduzida pelo teclado climático de Phil Lanzon, originalmente composto pelo lendário Ken Hensley, que, ao lado de Jon Lord, é a maior referência do teclado no hard-rock.

O show teve sequência com “Stealin'”, um dos maiores clássicos da banda e uma das músicas mais deliciosas do rock setentista. Nessa noite em específico, tocar uma música chamada “Stealin'” (em português, “roubando”) deve ter tido um gosto um tanto quanto amargo para Mick Box, que teve seu colar roubado mais cedo naquele dia. O guitarrista está oferecendo uma “recompensa valiosa” para quem tiver alguma informação sobre o colar. Fica aqui o apelo para que o prezado ladrão o devolva.

Construída em cima de um formato mais radiofônico para a época, a canção carrega semelhança com a sonoridade de bandas como The Rolling Stones e Lynyrd Skynyrd. Foi um dos grandes momentos do show: o público foi à loucura ao ser incentivado por Bernie Shaw a cantar os maravilhosos backing vocals junto com a banda.

O transcendental solo de Mick Box é incrivelmente simples, com bends maravilhosos, e representa de forma magistral uma forma de fazer música e de tocar guitarra típica dos anos 1970 que, infelizmente, se perdeu no tempo. Testemunhar uma execução tão linda deste solo é uma cena que jamais sairá da retina de quem estava na Ópera de Arame.

A sequência das duas últimas músicas é tão fenomenal que o público precisa de um certo tempo pra se recuperar da emoção. “Hurricane”, ótima música de Chaos & Colour, mantém o nível do show lá no alto, mas dá um tempinho para que o público se recupere do que havia acabado de acontecer e se prepare para o que viria a seguir. Se ela não estivesse entre “Stealin'” e “The Wizard”, é possível que as lágrimas do público alagassem a Ópera de Arame e fizessem com que o show tivesse que ser cancelado.

Quando Mick Box empunhou um violão, todos já sabiam o que estava por vir. Bernie Shaw pôs o braço ao redor dos ombros de Mick e o apresentou para o público: “senhoras e senhores, este é Mick Box, meu melhor amigo”. O guitarrista foi ovacionado pelo público, que ficou ainda mais emocionado já nas primeiras notas de “The Wizard”.

Faixa de abertura do álbum mais famoso da banda, Demons & Wizards, a balada é uma das composições mais bonitas da carreira da banda, intercalando momentos suaves com outros daquele peso característico das grandes power-ballads do rock. Foi outro dos grandes momentos da noite.

Em seguida, o clima de festa retorna com “Sweet Lorraine”, primeira das três representantes do maravilhoso The Magician’s Birthday. Foi o primeiro momento no qual o baixo de Dave Rimmer teve o devido destaque, muito pelo timbre mais agudo que permeia a linha de baixo da canção, composta pelo genial baixista Gary Thain. O alto astral e o interlúdio um tanto quanto lisérgico da música transportam o público para os anos 1970.

O show como um todo, aliás, é a melhor experiência possível para um fã de rock setentista que deseja se aproximar do que seria assistir a um show na época: sem firulas visuais, com grandes partes instrumentais que valorizam o improviso e não se apressam para acabar. Ao lado do Deep Purple, é o melhor show do mundo para, em 2025, se sentir o mais próximo possível dos anos 1970.

Em seguida, “Free n’ Easy” foi a única representante no repertório da fase do Uriah Heep com John Lawton nos vocais. Presente no álbum Innocent Victim, de 1977, a canção é heavy metal puro. Pesada a ponto de fazer inveja em bandas artificiais que precisam abaixar a afinação da guitarra em três tons para terem algum peso, a música funciona ainda melhor ao vivo do que na gravação de estúdio. O riff brutal sai estralando das caixas de som e pega o público pelo pescoço.

Logo após a música, Shaw explicou que, apesar do nome, a turnê não é uma despedida dos palcos, mas sim uma diminuição no ritmo. O vocalista ressaltou que está na banda há 39 anos e passou, em média, 200 dias por ano em turnê. “Eu não sei vocês, mas eu não tenho mais 25 anos. Agora tenho 37”, brincou o vocalista, tirando risos da plateia.

Outro dos grandes momentos do show começa a seguir, com a maravilhosa e extremamente progressiva “The Magician’s Birthday”, que é uma composição extremamente complexa com inúmeras partes diferentes. A letra conta uma história esotérica que é brilhantemente ilustrada pela harmonia, que insere tons de mistério, e pelo brilhante instrumental.

O trabalho de teclado é um dos mais complexos da carreira da banda, inserindo tons dissonantes que chegam a remeter a trilhas-sonoras de giallo, subgênero do cinema de horror italiano que foi extremamente popular nos anos 1960 e 1970. Enquanto isso, o miolo da música traz um solo gigantesco de guitarra, improvisado a cada noite de forma diferente por Mick Box, que passa minutos tocando e jamais deixa de interagir com a plateia, praticamente nos convidando a fazer parte do improviso.

A seguir, chegou a vez de “Gypsy”, faixa de abertura do disco de estreia da banda, Very ‘Eavy… Very ‘Umble. Entre os fãs, talvez seja o maior clássico do Uriah Heep. Com um dos riffs mais pesados da história quando foi lançado, a música evidencia a influência que o grupo exerceu em bandas como o Queen, principalmente pelos vocais harmonizados um tanto quanto operáticos. Aliás, a performance de Bernie Shaw é mais uma evidência de sua maravilhosa forma vocal, atingindo notas agudas com uma potência fantástica.

Vale ressaltar que a banda vinha de shows em três dias seguidos, o que torna ainda mais impressionante tanto a performance vocal de Shaw quanto a energia da banda em cima do palco.

A última música da primeira parte do show é a magnífica “July Morning”, uma das mais belas da história do rock. A introdução de teclado é maravilhosa, o solo de guitarra no primeiro minuto é sublime. Com um vocal sutil, Bernie Shaw canta sentado em um dos teleprompters e comove a todos que estavam na Ópera de Arame. Nas partes mais intensas, ele se levanta e entrega uma performance de cair o queixo, chegando em notas altíssimas.

A música ainda apresenta um solo de teclado inspiradíssimo e um riff de guitarra absolutamente fantástico, que carrega uma grandiosidade inacreditável. Como Bernie Shaw revelou em entrevista ao Acesso Music, Brian May é um grande fã de Uriah Heep, e “July Morning” certamente é uma das músicas que mais influenciou a sonoridade do Queen.

Após deixar o público completamente emocionado e embasbacado pelo brilhantismo da rendição de “July Morning”, a banda sai do palco. Pouco depois, retorna para o bis, que contou com apenas duas músicas.

A primeira delas é a espetacular “Sunrise”, outra que tem uma linha de baixo fenomenal. Com um timbre de guitarra altamente robusto, a canção é pesada e tem um riff simples, mas, em compensação, um pós-refrão extremamente cativante que a eleva a outro nível. Contando com um Bernie Shaw possuído, em sua melhor performance na noite, a música é arrebatadora.

Para encerrar a noite, a clássica “Easy Livin'” surge como uma opção perfeita, sendo cantada a plenos pulmões pelo público, que ovacionou a banda ao final da apresentação e deixou a Ópera de Arame com a alma lavada e a certeza de ter testemunhado um espetáculo do rock setentista em seu mais puro estado.

Repertório

Grazed By Heaven
Save Me Tonight
Overload
Shadows of Grief
Stealin’
Hurricane
The Wizard
Sweet Lorraine
Free n’ Easy
The Magician’s Birthday
Gypsy
July Morning
Sunrise
Easy Livin’

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