Tim ‘Ripper’ Owens
9 de maio de 2025
Hard Rock Cafe
Curitiba/PR
Por Luís S. Bocatios
Fotos de Clovis Roman
O vocalista Tim ‘Ripper’ Owens é basicamente o Blaze Bayley do Judas Priest: ambos compartilham a coragem em substituir dois dos maiores ícones da história do heavy metal (Rob Halford e Bruce Dickinson), a constante comparação com seus antecessores, a resistência dos fãs e, finalmente, uma reavaliação generosa de seus trabalhos após os vocalistas clássicos retornarem às bandas.
Substituindo Rob Halford, que deixou a banda em 1992, Owens gravou os discos Jugulator, de 1997, e Demolition, de 2001, além dos ao vivo ’98 Live Meltdown e Live in London. Todos foram malhados na época de seus lançamentos, mas, hoje em dia, contam com o carinho dos fãs, que reconhecem ter pesado a mão nas críticas por desejarem a volta de Halford.
Mas a biografia do vocalista não se resume ao Judas Priest: o vocalista ainda integrou as bandas Winter’s Bane, Iced Earth e Beyond Fear, entre outras, além de ter colaborado com o guitarrista Yngwie Malmsteen nos álbuns Perpetual Flame, de 2008, e Relentless, de 2010. Em 2019, uniu forças a K.K Downing, que deixou o Priest em 2011, e faz parte do K.K’s Priest, banda que toca Judas Priest ao vivo mas também lança ótimos discos.
Após sua saída do Priest, em 2003, ‘Ripper’ se tornou figurinha carimbada no Brasil, inclusive em Curitiba. O vocalista se apresentou na capital paranaense em 2009, 2015, 2016, duas vezes em 2017 (uma em maio e outra em outubro), duas vezes em 2023 (uma em abril e outra em novembro) e, agora, em 2025.

A observação óbvia é de que o público parece ter saturado um pouco das visitas de ‘Ripper’, pois a apresentação da quinta-feira, 8 de maio, no Hard Rock Cafe, devia contar com menos de 40 pessoas. Em determinado momento, o vocalista comentou que parecia “uma festa de aniversário privada”. Mesmo com um público minúsculo, problemas na iluminação, no retorno e nos amplificadores, o vocalista e sua excelente banda se entregaram totalmente e fizeram um show excelente e divertidíssimo.
Logo na abertura, com “Jugulator”, ‘Ripper’ já reclamava do retorno, fazendo sinais para a equipe técnica de que algo estava errado. Mesmo assim, a performance da música foi brutal: com uma sonoridade que elevava a enésima potência a abordagem super agressiva de Painkiller, último álbum do Priest antes da saída de Halford, a canção tem uma performance vocal possuída e poderosíssima, que foi executada ao vivo perfeitamente.
A segunda música foi o lendário cover de “The Green Manalishi (With the Two Prong Crown)”, lançado pelo Priest no clássico Killing Machine, de 1979. Mais uma vez, a performance do vocalista chamou a atenção por sua potência e alcance, mas também por sua habilidade de se comunicar com o público, o que ficou explícito quando incentivou a plateia a cantarolar a esplendorosa parte de guitarras harmonizadas perto do final da música.
Também vale citar que o nível dos músicos recrutados para a turnê é altíssimo: a excelente dupla de guitarristas, formada por Bruno Luiz e Wander Cunha, exibe um excelente entrosamento ao executar dobras de guitarra altamente complexas de forma perfeita, enquanto a cozinha, formada pelo baixista Fabio Carito e pelo baterista Marcus Dotta, enche o som de energia e potência.

Enquanto a equipe técnica buscava resolver os problemas de retorno, o guitarrista Bruno Luiz divertia o público com improvisações de guitarra e uma performance do icônico solo de entrada da maravilhosa “Victim of Changes” — que, aliás, teria caído como uma luva no repertório, mas não foi tocada. Em seguida, a banda emenda “Burn in Hell”, principal single de Jugulator, e “Hellfire Thunderbolt”, música mais famosa do K.K’s Priest, cuja rapidíssima dobra de guitarras é genuinamente impressionante e foi executada com maestria por Bruno Luiz e Wander Cunha.
Se não tivemos “Victim of Changes”, pelo menos fomos agraciados com uma performance incrível de “Beyond the Realms of Death”, uma das canções mais fantásticas da carreira do Judas Priest e de toda a história do heavy metal. Alternando entre versos melódicos e um refrão poderosíssimo, a música foi o ponto alto da noite e trouxe uma banda afiadíssima auxiliando o belo vocal de ‘Ripper’. Antes da música, o vocalista repetiu uma de suas falas no ’98 Live Meltdown, prometendo “acelarar, desacelerar, depois acelerar de novo, depois desacelerar de novo”, e ainda elogiou a plateia por, “como de costume na América do Sul”, ser muito barulhenta.
A única representante do trabalho de Owens com a Beyond Fear foi “Scream Machine”, que, mesmo competente, foi uma das que menos empolgou o público. Em seguida, veio a última música de Jugulator, a excelente “Blood Stained”, que foi aclamada e teve seu refrão cantado com vontade pelo público.
O K.K’s Priest foi relembrado novamente com “One More Shot at Glory”, cujo anúncio chegou a confundir alguns fãs que acharam que ouviriam “One Shot at Glory”, clássico de Painkiller. Mesmo assim, foi muito bem recebida, com seu tom épico e seus solos de guitarra incríveis. Em seguida, o vocalista relembrou a memória do saudoso Paul Di’ Anno, a quem dedicou a música “Wrathchild”, cover de Iron Maiden que, como era de se esperar, agradou muito.

Durante a canção, a guitarra de Wander Cunha teve um problema técnico que demorou um pouco para ser resolvido. “Você está demitido”, brincou ‘Ripper’, tirando risadas de Cunha. Em conversa com Bruno Luiz, o vocalista contemplou o que poderia ser tocado com apenas uma guitarra. “Vocês já imaginaram ouvir Judas Priest com uma guitarra só? Bom, vão ouvir agora!”, brincou ao anunciar a primeira faixa de Demolition a ser performada na noite: “Hell is Home”, que também foi cantada pelo público em alto e bom som, e, na metade da música, o problema da segunda guitarra foi resolvido.
Caminhando para o final do show, a banda emendou dois clássicos imortais do Judas Priest: a maravilhosa “Electric Eye”, a mais divertida do show, e o hino “Living After Midnight”, cujo final foi com o público cantando repetidamente o refrão enquanto ‘Ripper’ apontava o microfone para a plateia.
Antes da última música, o vocalista agradeceu ao público presente, que, mesmo em pouquíssimo número, demonstrou empolgação, cantou junto com o vocalista e assistiu a apresentação de uma excelente banda que não poupou esforços por estar tocando para um público pequeno. A performance da pesada “One on One” foi a prova final de que, não importa para quantas pessoas estiver tocando, Tim ‘Ripper’ Owens dará tudo de si — e ele ainda tem muita lenha para queimar.

Músicas
Jugulator [Judas Priest]
The Green Manalishi (With the Two Prong Crown) [Fleetwood Mac]
Burn in Hell [Judas Priest]
Hellfire Thunderbolt [KK’s Priest]
Beyond the Realms of Death [Judas Priest]
Scream Machine [Beyond Fear]
Blood Stained [Judas Priest]
One More Shot at Glory [KK’s Priest]
Wrathchild [Iron Maiden]
Hell Is Home [Judas Priest]
Electric Eye [Judas Priest]
Living After Midnight [Judas Priest]
One on One [Judas Priest]
