The Exploited, Ratos de Porão, The Chisel, Escalpo e Your Fall
7 de maio de 2025
Tork n’ Roll
Curitiba/PR
Por Luís S. Bocatios
Foto por Clovis Roman
A quinta visita do The Exploited a Curitiba se deu na noite desta quarta-feira, 7 de maio, na The Final Tour: South America 2025, que marca a despedida da banda. O grupo fechou praticamente todo o circuito underground curitibano ao longo das décadas: em 1993, tocou no Aeroanta; em 2009, no Ópera 1; em 2019, no Jokers; em 2022, no Basement Cultural e, em 2025, no Tork n’ Roll.
A programação do evento foi à altura da história do grupo, trazendo quatro bandas de abertura: a curitibana Your Fall, a rio-clarense Escalpo, a britânica The Chisel e as lendas do Ratos de Porão. Entre shows melhores e piores, a noite foi agradabilíssima para os fãs de punk que se despediram do The Exploited.
Your Fall
Pontualmente às 19h30, a banda curitibana de hardcore Your Fall subiu ao palco. Competentíssima, a banda combina o peso do thrash metal com a rapidez do hardcore. A melhor comparação a ser feita com a sonoridade de outra banda estava escancarada no boné do baixista Yury Sakhr: Suicidal Tendencies.
Com o Tork ainda praticamente vazio, era muito fácil chegar na grade. O vocalista Beto Martyres pediu para o público que estava sentado ou fora do bar se aproximar, mas o pedido foi atendido por pouquíssimas pessoas. Se o público não estava interessado pela banda, azar do público; os músicos deixaram tudo no palco e entregaram um show excelente.

Martyres tem uma presença de palco marcante e vocais fortes, que entregam a brutalidade necessária para que a banda seja levada a sério no meio do hardcore. A dupla de guitarristas, formada por André Ribas e Cláudio Alves Fuentes, apresenta riffs rápidos e agressivos, enquanto o baterista Thiago Dahlke enche a banda de energia e potência. O baixo de Yury Sakhr parecia se limitar a seguir as guitarras, mas, justiça seja feita, seu baixo estava soterrado pelo sistema de som e pouco conseguia ser ouvido — este, aliás, foi o único problema de som durante o show; de resto, tudo se ouvia perfeitamente bem.
Em um repertório bastante enxuto, que percorreu menos de meia hora, a banda conseguiu marcar presença e passar sua mensagem com efetividade, e ainda teve algumas músicas que se destacaram, como “Overcoming Peace”, a penúltima do set, cuja mistura de thrash metal com hardcore punk chega a remeter aos primeiros discos da carreira do Anthrax. Para primeira apresentação de uma noite com cinco shows, a primeira banda surpreendeu positivamente e fez um show competentíssimo.
Repertório
We’re Not In This World
Your Last Step
Cold and Grey
Hard Times (Cover)
Nightmare
The End
Survive
My Sanity
Watch Out
One More Chance
Overcoming Peace
Passion
Escalpo
O peso da noite se intensificou com a banda de metal punk Escalpo, natural de Rio Claro, cujo som é claramente muito influenciado pelo Ratos de Porão. Naturalmente, as letras também tem uma pegada política quase sempre presente no punk, especialmente no punk brasileiro.
O vocalista Alisson Big Bull fez questão de ressaltar isso em alguns momentos ao longo do show. Na penúltima música, “Retrocedendo”, ele explicou que a música foi feita durante a pandemia, quando o país vivia sob o regime de “um governo fascista que estava matando gente”. Já a música que fechou o show, “Desumanização”, foi descrita pelo vocalista como sendo sobre a exploração que os europeus realizaram na América do Sul.

A banda subiu ao palco às 20h10, cinco minutos antes do horário marcado, e não teve à sua disposição um som tão bom quanto o do show anterior. Basicamente, ouvia-se apenas baixo e bateria, com as guitarras totalmente abafadas na mixagem. Quase nada do que o vocalista cantava (ou até falava entre as músicas) era compreensível.
Isso fez com que as músicas soassem excessivamente repetitivas e pouco empolgassem o público, que chegou a engajar em alguns poucos mosh pits e respeitou a banda durante os pouco mais de 35 minutos da apresentação, mas claramente esteve muito menos engajado do que nos outros shows da noite.
Repertório
Onda de Estupidez
Olhando Pro Chão
Eviscerando o Opressor
Escravidão Auto Imposta
Desconstrução/Destruição
A Dor do Açoite
Retrocedendo
Desumanização
The Chisel
Formada em Londres no ano de 2020, a The Chisel é uma banda de punk rock que adota uma abordagem mais comercial e melódica do que a das bandas anteriores da noite. Francamente, a sonoridade do repertório apresentado pela banda no Tork n’ Roll remete bastante aos dois primeiros discos do Green Day, que tem um som mais cru em relação ao pop-punk que consagrou o trio californiano.
Se o Escalpo subiu ao palco antes do horário previsto, a The Chisel atrasou cerca de dez minutos, o que obrigou a banda a cortar três músicas do repertório. O lado bom é que esse atraso foi basicamente o único ponto negativo da apresentação, pois, enquanto a banda esteve no palco, o público não parou de dançar, pular, fazer moshs e se divertir.
O repertório contou com apenas dez músicas: cada um dos dois discos de estúdio que a banda lançou até hoje — Retaliation, de 2023, e What a Fucking Nightmare, de 2024 — contou com quatro representantes e o EP de estreia, Deconstructive Surgery, de 2020, teve duas músicas no set.

O vocalista Callum Graham mostrou ter enorme carisma e talento para se comunicar com o público, ganhando a simpatia de todos logo de cara ao exalar felicidade por estar abrindo para os “lendários” The Exploited e Ratos de Porão. Antes da ótima “Nice to Meet You”, o vocalista perguntou se alguém já havia visto a banda ao vivo e saudou as cinco pessoas que levantaram a mão. Vale lembrar que é a primeira visita da banda ao Brasil, portanto é até surpreendente que alguém já tivesse os visto anteriormente.
O show estava tão bacana que contou com audiência qualificada: ao lado do palco, João Gordo e Jão, que se apresentariam a seguir, ficaram alguns minutos assistindo aos britânicos e pareceram curtir bastante, aplaudindo ao final das músicas e acenando a cabeça de forma positiva ao longo da performance.
O público, por sua vez, certamente curtiu, sem ficar parado em nenhum momento durante o show inteiro e aplaudindo a banda em todos os momentos. Se uma banda saiu do Tork n’ Roll na noite desta terça-feira maior do que entrou, essa banda é o The Chisel. Certamente angariaram novos fãs e devem pintar novamente no Brasil em breve.
Repertório
No Gimmicks
Come See Me
Sit and Say Nothing
Nice to Meet You
Unlawful Execution
Cry Your Eyes Out
Evil by Evil
Class Oppression
Retaliation
Chisel Boys
Ratos de Porão
Quem já foi a um show do Ratos de Porão sabe que qualquer oportunidade de ver a banda ao vivo deve ser apreciada — e o público do Tork n’ Roll certamente o fez. É válido o argumento de que “quem já viu um show do Ratos, já viu todos”, pois, mesmo que os repertórios sejam diferentes, a vibe do show é sempre a mesma, mas isso é um ponto muito mais positivo do que negativo.
A última apresentação da banda em Curitiba aconteceu em outubro de 2024, no CWB Hall, em evento que ainda contou com Ethel Hunter, Manger Cadavre?, Krisiun e Napalm Death. Na ocasião, o som estava péssimo e João Gordo, consequentemente, de mau-humor. Mesmo assim, o show foi divertidíssimo. No Tork, tanto o som quanto o humor de Gordo estavam excelentes; ou seja, foi ainda melhor e mais divertido.
Mesmo com o atraso da banda anterior, o Ratos entrou no palco exatamente no horário, às 21h50, mas fez um show mais curto: se em outubro do ano passado a banda apresentou 25 músicas, desta vez o repertório contou com apenas 18 canções, que percorreram cerca de quarenta minutos. O show passou voando; quando o público deu por si, já estava ouvindo “Beber até Morrer”, tradicionalmente uma das últimas músicas do show do Ratos.
A performance da banda foi impecável como sempre: Jão é infalível na guitarra, com seu estilo único de se portar no palco que envolve apoiar o pé em algum lugar e levantar a guitarra para conseguir fazer os solos um pouco mais rápidos; o baixista Juninho Sangiorgio, com sua já tradicional camiseta do MST, atua quase como um representante da plateia em cima do palco, sempre curtindo com os fãs na beira do palco e ajudando a organizar moshs; e o baterista Boka entra mudo e sai calado, mas performa de forma enérgica, poderosa e impecável.

Sem problemas de som o irritando, João Gordo fica livre para ser o grande frontman que é, fazendo suas caretas, gestos com as mãos que acompanham as músicas e sempre brincando com a plateia — além, é claro, de manifestações políticas contra a extrema direita e a anistia para os golpistas do 8 de janeiro. Sua performance vocal também continua altamente satisfatória e tão brutal quanto nos velhos tempos. É bom demais ver que o vocalista está cuidando de sua saúde e melhorando fisicamente.
Essa nova fase da vida de Gordo ainda gera alguns momentos engraçados, como o vocalista anunciando “Beber até Morrer” com uma cerveja na mão e falando “mas agora é sem álcool”. Ao falar sobre o The Exploited, o vocalista comentou “última vinda do Exploited, eles estão uns tiozinhos, se despedindo… uma hora vai chegar a nossa vez também”. O público chiou, chateado por pensar na possibilidade do fim do Ratos de Porão.
Com o público nas mãos do início ao fim, não foi difícil para a banda se destacar com uma performance agressiva que gerou um mosh praticamente infinito durante o show inteiro. O repertório trouxe um equilíbrio interessante entre as fases da banda: é claro que não faltaram os clássicos dos álbuns Brasil e Crucificados pelo Sistema, que tiveram quatro representantes cada no repertório, e Anarkophobia, com duas faixas, mas os dois discos mais recentes da banda, Século Sinistro e Necropolítica, também foram lembrados — o primeiro com “Conflito Violento” e o segundo com a excelente “Alerta Antifascista”, que parece ter chegado para ficar nos repertórios da banda.
O show do Ratos de Porão é aquele que você termina já ansioso para saber quando será o próximo. Quem já viu, tem que ver quantas vezes puder; quem nunca viu, não sabe o que está perdendo.
Repertório
Ódio
Unknown
Anarkophobia
Amazônia Nunca Mais
Sofrer
S.O.S. País Falido
Morrer
Crocodila
Exército de Zumbis
Alerta Antifascista
Crucificados pelo Sistema
Não Me Importo
Caos
Conflito Violento
Unknown
Beber Até Morrer
AIDS, Pop, Repressão
Crianças Sem Futuro
The Exploited
A grande atração da noite subiu ao palco pontualmente às 23h, fazendo jus à pontualidade britânica que, é claro, também se estende à Escócia, país no qual a banda foi formada. A formação atual da banda conta com o vocalista Wattie Buchan — único membro original, que, conforme João Gordo adequadamente escreveu, está “um tiozinho” —, o baixista Irish Rob, que está na banda desde 2004; o guitarrista Steve Campbell, membro desde 2020, e o baterista Garry Gman Sullivan, que se juntou ao The Exploited em 2024.
Enquanto Irish Rob e Steve Campbell fazem o básico do punk com bastante competência, Sullivan adiciona um toque especial às canções por causa de seu estilo jazzístico, dando um tempero extra totalmente inesperado à banda. Buchan, aos 67 anos, permanece com seu clássico moicano vermelho e faz o show sem camisa, com uma performance vocal que cumpre bem o que tem que ser feito.
O repertório teve espaço para pelo menos uma representante de cada disco de estúdio que a banda lançou ao longo da carreira. Os mais bem representados foram o primeiro — Punk’s Not Dead, de 1981, que teve seis faixas na lista — e o último — Fuck the System, de 2003, com cinco músicas. Troops of Tomorrow teve quatro músicas; Beat the Bastards, Let’s Start a War… Said Maggie One Day e The Massacre tiveram duas cada; e Death Before Dishonour e Horror Epics tiveram uma cada. Ainda houve espaço para o cover de “Troops of Tomorrow”, do The Vibrators.

A banda foi outra que não deixou de fazer manifestações políticas: antes da quarta música, “The Massacre”, o vocalista dedicou a canção ao povo da Palestina e mandou um “fuck Israel!”. Mais tarde, mandou Donald Trump para o mesmo lugar. Na última música antes do bis, “Fuck the USA”, o público cantou o refrão — que diz exatamente o mesmo que o título — com uma vontade daquelas! O espírito do punk permanece vivo.
Vale ressaltar que podem ter havido outras manifestações políticas, mas o sotaque escocês do vocalista é tão carregado que foi difícil de entender. Ele apresentava o nome de todas as músicas antes de performá-las, mas continuava quase impossível de entender. Isso dificultou sua interação com o público, que de fato não estava compreendendo praticamente nada que saia da boca do vocalista. Não que tenha sido um grande problema, pois a música fala por si só.
Os grandes momentos do show foram os grandes sucessos da banda, especialmente “Beat the Bastards”, a já mencionada “Fuck the USA”, “Chaos is my Life”, “Punk’s Not Dead” e “Army Life”. A melhor de todas, no entanto, foi “Sex and Violence”, na qual os fãs foram convidados a subir no palco e cantar junto com a banda, em um momento divertidíssimo e que certamente jamais será apagado da memória dos presentes.
No final das contas, o show do The Exploited não foi explosivo como a banda certamente soava ao vivo no passado, mas foi super competente, gerou belos momentos e, caso tenha sido de fato a despedida da banda, foi com imensa dignidade.
Repertório
Let’s Start a War
Fight Back
Dogs of War
The Massacre
UK ’82
Chaos is My Life
Alternative Play
Noize Annoys
Troops of Tomorrow
Never Sell Out
I Believe in Anarchy
Don’t Forget the Chaos
Drug Squad Man
Rival Leaders
Beat the Bastards
Cop Cars
Fuck the System
Porno Slut
Army Life
Fuck the USA
Sex & Violence
Punks Not Dead
Was It Me
