Fabio Lione + Dogma
16 de maio de 2025
Teatro Bom Jesus
Curitiba/PR
Por Luís S. Bocatios
Fotos de Clovis Roman
2025 está sendo um ano de reencontro entre Fabio Lione e o catálogo do Rhapsody. Com o Angra prestes a entrar em hiato, o vocalista realizou, em janeiro, a Epic Tales Brasil Tour, cujo repertório passeava por praticamente todas as bandas nas quais cantou. Entre abril e maio, chegou a vez da Dawn of Victory Tour, na qual performou o álbum Symphony of Enchanted Lands na íntegra, além de outros clássicos do Rhapsody, com direito a uma orquestra no palco.
Se essa reaproximação com o trabalho da banda que o fez mundialmente famoso é um “spoiler” do que pode acontecer durante o hiato do Angra, não dá pra saber; o fato é que os fãs que estavam com saudade de ver Lione performando os clássicos Rhapsody tiveram um deleite durante o show de sexta-feira (16) no Teatro Bom Jesus.
Como se o ótimo show principal não fosse o suficiente, a banda Dogma ainda fez um show de abertura que certamente foi o suficiente para angariar novos fãs na capital paranaense e deixar muito felizes os fãs que foram ao show com o intuito de ver a banda das freiras “from hell”.

Dogma
Permeada de mistérios em relação à origem de suas integrantes, a banda Dogma tem se destacado por sua postura provocativa e questionadora em relação aos costumes religiosos que são levados como regra na sociedade. Com um visual que mistura roupas de freiras e o corpse paint tradicional de bandas de black metal, o quinteto tem uma sonoridade que passeia entre momentos mais pesados e mais comerciais, o que gerou diversas comparações com o trabalho do Ghost.
A formação traz a vocalista Lilith, as guitarristas Rusalka e Lamia, a baixista Nixe e a baterista Abrahel. Todas são muito competentes, mas o principal destaque fica com a dupla de guitarristas, que exibe não apenas uma técnica apuradíssima mas também um timbre perfeito para a sonoridade da banda.
Mesmo que a banda tenha qualidade musical, é inegável que seu principal foco é a performance ao vivo: com coreografias ensaiadas, movimentos bem definidos e frases prontas entre as músicas (“as coisas tem um gosto melhor quando são más”, por exemplo), a banda pode parecer brega ou forçada para quem estiver com má vontade, mas executa com competência o que se propõe a fazer. Além do mais, a Dogma soa muito melhor e mais poderosa ao vivo do que em estúdio.
O repertório traz praticamente a íntegra do autointitulado disco de estreia da banda, o único lançado até o momento; das onze faixas do álbum, nove são performadas ao vivo — as únicas deixadas de fora são “Feel the Zeal” e “Free Yourself”. No lugar delas, entram o cover de “Like a Prayer”, clássico da Madonna, e a recém-lançada “Banned”.
Mesmo que a banda contasse com fãs na plateia — uma garota, aliás, foi vestida a caráter, com figurino e maquiagem idênticas à das integrantes —, o público pareceu demorar um pouco para entender exatamente o que estava assistindo. Isso fez com que a recepção das duas primeiras músicas, “Forbidden Zone” e “My First Peak”, fosse moderada, embora positiva. A partir do “iron maideniano” riff de “Made Her Mine”, o público entrou de vez na onda das freiras.

Em seguida, veio o interessante single “Banned”, cujo andamento de tango levanta fortes suspeitas de que a banda tem uma origem latina. “Carnal Liberation” não é das composições mais inspiradas, mas logo em sequência a banda apresenta o cover de “Like a Virgin”, que fez com que a maior parte do público levantasse o celular e cantasse junto com a banda. Mesmo que o cover não seja lá um primor e soe um tanto caricato, é inegável que ele se encaixa perfeitamente na estética e no conceito da banda.
Percebendo que o público já estava em suas mãos, a banda usou “Bare to the Bones”, que lembra muito Ghost, para pedir que a plateia participasse com gritos e palmas, o que deu muito certo. A baixista Nixe é a mais carismática de todas, mantendo contato com a plateia durante o show inteiro, mesmo sem passar perto do microfone. Ela curte junto com o público.
Outra que remete instantaneamente ao Ghost é a boa “Make Us Proud”, cujo riff parece altamente inspirado em “Cirice”, uma das melhores músicas da banda liderada por Tobias Forge. A canção abre a sequência mais pesada do show, que ainda conta com a excelente e soturna “Pleasure From Pain”, a melhor do repertório. A penúltima música é a ótima “Father I Have Sinned”, a mais famosa da banda, cujo refrão lembra muito o de “Square Hammer”, outra música do Ghost.
O final do show vem com a última música do primeiro disco, a misteriosa e pesada “The Dark Messiah”, uma das composições mais trabalhadas da banda. As moças saem do palco mantendo a pose, sem sequer se despedir do público, mas sob aplausos intensos de uma plateia que parece ter recebido muito mais do que esperava de uma banda de abertura.
Repertório
Forbidden Zone
My First Peak
Made Her Mine
Banned
Carnal Liberation
Like a Virgin
Bare to the Bones
Make Us Proud
Pleasure From Pain
Father I Have Sinned
The Dark Messiah
Fabio Lione
Symphony of Enchanted Lands
Perto das 20h40, a orquestra e a banda sobem ao palco e o sistema de som começa a tocar “Epicus Furor”, vinheta de abertura do clássico Symphony of Enchanted Lands, um dos discos mais cultuados da história do power metal. Quando explode “Emerald Sword”, maior hit do Rhapsody, Lione sobe ao palco e já conta com um público ensandecido, que canta o refrão a plenos pulmões.
Logo após a primeira música, o vocalista sauda a plateia e pergunta “vocês não vão ficar sentados o show inteiro, né?”. Assim que termina a introdução acústica de “Wisdom of the Kings” e a música explode, boa parte do público se levantou e assim permaneceu durante as quase duas horas de show.
Durante a narração de “Heroes of the Lost Valley”, Lione olhava para a banda e narrava junto, no melhor estilo fãs do Iron Maiden na introdução de “The Number of the Beast”. Na última frase da narração, “with you!”, o vocalista apontou para o público, e a banda começou a ótima e complexa “Eternal Glory”, uma das melhores músicas da noite. A melodia do final foi cantarolada pelo público em uníssono, em um daqueles momentos que só os shows de metal conseguem proporcionar.
A excelência dos músicos, aliás, chama a atenção durante o show inteiro: a dupla de guitarristas, formada por Thiago Maranduba (Nesher) e Vitor Lopes (Delohim) é absolutamente virtuosa e executa com perfeição as guitarras extremamente complexas compostas por Luca Turilli; o baixista Fernando Poy (Nesher, Delohim) não tem tanto destaque na mixagem de som, mas, sempre que exigido, dá um show de técnica e rapidez; falando em rapidez, o baterista Adailton Domingues (Nesher) é um monstro, assim como o tecladista Flavio Sallin (The Heathen Scythe), que, no show de Joinville, foi classificado por Lione como o melhor tecladista com quem já tocou. Em Curitiba, Fabio se limitou a dizer “o cara é foda!”. O som também estava ótimo (e muito alto!).
Antes de “Beyond the Gates of Infinity”, o vocalista a descreve como “diferenciada” e relata que a composição de Turilli foi inspirada pela banda italiana Goblin, responsável pela trilha sonora de filmes como “Prelúdio Para Matar” e “Suspiria”, do cineasta italiano Dario Argento. De fato, a música é uma pérola do power metal, com os típicos toques autorais e progressivos que fizeram o Rhapsody se destacar entre tantas bandas de power metal na década de 1990. A performance da banda e da orquestra é impressionante.
Em seguida, Lione novamente convoca o público para ficar de pé e apresenta “Wings of Destiny” como a primeira balada do Rhapsody. Os versos trazem um baixo altíssimo estralando no sistema de som e guiando a música, que emocionou vários membros da plateia. O trio de backing vocals, que ficaram atrás da orquestra, acenderam a lanterna do celular e instigaram o público a fazer o mesmo, gerando um dos momentos mais bonitos da noite.
Antes de “The Dark Tower of Abyss”, Fabio conta para o público que o Rhapsody tocou essa música apenas duas vezes e a descreve como “muito louca”. Ele tem razão: o instrumental é tão complexo quanto a composição, cuja dinâmica única que eleva a música a uma das mais interessantes do disco. O vocal do “Mago” na música é ainda mais impressionante do que no resto do show, com um vibrato absolutamente único que só ele é capaz de fazer. Mesmo os fãs do Angra que acham que a voz dele não se encaixa com o catálogo da banda são obrigados a admitir que é impressionante o quão pouco sua voz envelheceu desde os anos 1990.

Chegando no final do disco, Lione exalta o saudoso Christopher Lee, narrador da banda, e conta que o ator tinha mais de 200 filmes em seu currículo e falava nove línguas, lembrando de uma vez em que passou dez minutos conversando com Lee em inglês, até que o ator falou: “ma perché non me parla in italiano?”, tirando risadas da plateia. O cantor, aliás, divertiu a plateia durante o show inteiro, contando excelentes histórias e fazendo observações hilárias. Durante o hiato do Angra, talvez a equipe de empresariamento de Lione deveria considerar shows de stand-up; talento para isso ele tem.
Brincadeiras à parte, a penúltima música do disco é a épica “Riding the Winds of Eternity”, dedicada a Christopher Lee, que traz melodias de guitarra incríveis e uma participação maravilhosa da orquestra, que brilha nesta faixa mais do que em qualquer outro momento do show. Ao final da música, Lione aponta para o céu e diz “obrigado por tudo que você fez”, direcionado a Lee.
Fechando a íntegra de Symphony of Enchanted Lands, temos a faixa-título, uma obra-prima de mais de 13 minutos capaz de impressionar mesmo quem não é fã de power metal. Uma composição brilhante, que passa por inúmeros movimentos e condensa todos os elementos que consagraram o Rhapsody, a canção tem um tom épico e progressivo que certamente a coloca entre as grandes composições do metal dos anos 1990. A performance dos músicos é brilhante, conseguindo empolgar o público na mesma medida em que o mantém admirado pela complexidade dos arranjos que estão sendo executados. Encerra com chave de ouro a primeira parte do show.
Bailão do Rhapsody
Se a primeira metade do show seguia todo um conceito e trazia a performance de um álbum completo na íntegra, a segunda metade é praticamente um bailão do Rhapsody, com todos os maiores hits da banda, fazendo o público se divertir sem parar. Antes disso, o vocalista tirou um tempo para a clássica interação em que canta sílabas para a plateia repetir.
Além disso, ele provou mais uma vez seu talento natural para a comédia ao comentar sobre um possível livro de memórias que seria lançado durante o hiato do Angra. “Será que eu vou falar toda a verdade? Aí vai dar problema na América Latina, no Japão, nos Estados Unidos e na Europa! Acho melhor não… vamos ver!”.
Em sequência, vieram “In Tenebris” e “Knightrider of Doom”, dobradinha responsável pela abertura do álbum Power of the Dragonflame, de 2002. Na segunda, o som do baixo era avassalador. O ânimo da plateia foi ao máximo com “Land of Immortals”, clássico do primeiro disco do Rhapsody, Legendary Tales. Antes de executá-la, Lione contou que essa foi a primeira música que ele cantou com a banda.
Em seguida, chegou a vez da progressiva “The Wizard’s Last Rhymes”, outra que o vocalista descreveu como “diferenciada”. A canção mistura power metal com a Sinfonia do Novo Mundo, do compositor checo de música clássica Antonín Dvorak. É outra que deixou o público de queixo caído com a performance dos músicos.
Antes da rapidíssima “Rain of a Thousand Flames”, Lione alfinetou algumas bandas brasileiras que, segundo ele, se preocupam mais com a rapidez do que com a qualidade das composições. “Não tomem isso como um gringo sendo arrogante, e sim como um gringo falando a verdade”, brincou, antes de cantar um pedaço do refrão de “Wind of Change”, do Scorpions, como exemplo de boa composição. Escolha curiosa.
“Rain of a Thousand Flames” de fato serve como um exemplo de música rápida que não perde o foco na composição, mas o que mais impressiona é mesmo a velocidade. A histamina do baterista Adailton Domingues é surreal. Para desacelerar, no entanto, nada melhor do que “Lamento Eroico”, balada mais clássica da carreira do Rhapsody e a primeira música da carreira da banda a ser cantada em italiano.
A incrível cantora curitibana Vanessa Rafaelly se juntou a Lione no palco, dando um toque especial a uma música já incrivelmente emotiva, que faz jus à escola dramática que permeia praticamente todo o cancioneiro italiano. O dueto entre as duas vozes é transcendental e eleva a música a ser o grande momento desta segunda parte do show.
Engatando novamente a quinta marcha, Lione anuncia “Holy Thunderforce”, que descreve como sua segunda música favorita de Dawn of Victory, que ainda não tinha tido nenhuma representante no repertório. A penúltima música foi um cover pois, segundo Fábio, “não existe só Rhapsody e Angra no mundo”. Para ele, é “uma música incrível, de uma banda incrível, que tinha um vocalista incrível”: “We Are the Champions” pode ser uma escolha questionável de cover, mas, obviamente, o público gostou e cantou junto de forma empolgadíssima no refrão.
Faltando apenas uma música para o final, Fabio contou para a plateia que, no dia seguinte, teria que cantar por 4 horas em São Paulo: “no DVD acústico do Angra eu cantei 5 horas, não vai mudar muito”. Em seguida, brincou: “é muito engraçado, depois disso você olha um comentário de um fã reclamando que você errou uma nota ou falando ‘o cara não é simpático’. Depois de cinco horas chegou o empresário do Angra, eu falei ‘posso fumar um cigarro? posso ter cinco minutos para mim?’ Mas é isso aí!”.
A última gargalhada da noite foi quando Lione começou a listar tudo que já havia sido tocado na noite e olhou para a banda para tentar se lembrar de tudo: “tocamos coisas do Rain of a Thousand Flames, do Dawn of Victory, do Legendary Tales, o Symphony na íntegra… Lamento Erótico? Não era Eroico?”, brincou com o tecladista. Repito: Lione tem futuro no stand-up.
Para encerrar uma noite épica que relembra os melhores momentos da carreira do Rhapsody, nada melhor do que a música que conta com o refrão mais grandioso da carreira da banda: “Dawn of Victory” mandou a plateia para casa de alma lavada e concretizou a glória perpétua que o catálogo do Rhapsody carrega junto ao coração dos fãs.
Repertório
Epicus Furor
Emerald Sword
Wisdom of the Kings
Heroes of the Lost Valley
Eternal Glory
Beyond the Gates of Infinity
Wings of Destiny
The Dark Tower of Abyss
Riding the Winds of Eternity
Symphony of the Enchanted Lands
In Tenebris
Knightrider of Doom
Land of Immortals
The Wizard’s Last Rhymes
Rain of a Thousand Flames
Lamento Eroico
Holy Thunderforce
We Are the Champions (Queen)
Dawn of Victory
