[Cobertura] Buzzcocks: às vezes, a nostalgia revigora a alma

Buzzcocks
25 de maio de 2025
Basement Cultural
Curitiba/PR

Por Luís S. Bocatios
Fotos de Clovis Roman

Formada em 1976, a banda britânica Buzzcocks se destacou logo no início de carreira pelo pioneirismo no cenário da música independente. O primeiro EP do grupo, Spiral Scratch (1977), foi lançado pelo selo próprio New Hormones, em um movimento revolucionário para a época. Desde então, o punk já morreu e ressuscitou algumas vezes, mas o Buzzcocks continua como um de seus grandes representantes.

Mesmo que o único integrante original seja o guitarrista (e agora vocalista) Steve Diggle, a banda tem à sua disposição um repertório brilhante, formado por alguns dos melhores discos da história do punk, como Another Music in a Different Kitchen e Love Bites, ambos lançados em 1978, e a icônica compilação Singles Going Steady (1979), uma das maiores coleções de hits de todos os tempos.

Como a última turnê do Buzzcocks no Brasil havia sido em 2010, a excursão de 2025 marca a primeira visita da banda ao país sem o saudoso vocalista, guitarrista e principal compositor Pete Shelley, falecido em 2018. Atualmente, a banda é composta por Diggle, pelo baterista Danny Farrant, na banda desde 2006, e pelo baixista Chris Remington, membro desde 2008. Em turnês, o grupo ainda conta com o guitarrista de apoio Mani Perazzoli.

O local escolhido para a segunda apresentação do Buzzcocks em Curitiba — a primeira foi no finado Vintage Café, em 2001 — foi o Basement Cultural, que comporta cerca de 470 pessoas. Mesmo que a banda merecesse um lugar muito maior, há de se entender que as circunstâncias todas fazem que o público seja bastante reduzido. Além do mais, a casa estava praticamente lotada e o ambiente do Basement Cultural carrega uma aura underground que se encaixou perfeitamente com a apresentação.

O pré-show foi bastante confuso: a página do Basement no Instagram informou que as portas abririam às 17h, mas a produção não divulgou o horário das atrações, mesmo que tenham detalhado o cronograma dos shows em São Paulo, no dia anterior, e Porto Alegre, dois dias depois. Grande parte do público sequer sabia da banda de abertura, Antivírus.

O lado bom é que o Buzzcocks fez tudo valer à pena: a banda subiu ao palco em torno das 20h15 e já emendou os clássicos “What Do I Get?”, “Harmony in My Head” e “I Don’t Mind”. Um começo avassalador, que emocionou os fãs que estavam lá para se divertir e empolgou alguns sujeitos já entorpecidos que começaram a causar problemas, empurrando garotas adolescentes e gerando desconforto em todos na frente do palco. Infelizmente, não é raro surgir um energúmeno que não sabe os limites de se divertir e acaba atrapalhando a experiência dos outros.

Idiotas à parte, a trinca inicial é uma perfeita representação da sonoridade clássica do Buzzcocks: mesmo com uma atitude tão forte quando a de outras bandas, o grupo sempre teve uma consciência pop muito aguçada, fornecendo melodias que jamais deixam a mente de quem as escuta. Outro exemplo maravilhoso disso é a quarta música do set, “Everybody’s Happy Nowadays”, outro grande sucesso que claramente inspirou o trabalho do The Strokes — quase todas as faixas do fantástico Is This It parecem estruturadas com referência nessa música.

Após quatro clássicos em sequência, a banda tira o pé do acelerador com “Senses Out of Control”, primeira representante de Sonics in the Soul (2022), último álbum de estúdio da banda. A música é boa (assim como todas as outras do disco que foram tocadas), mas definitivamente não era o que o público queria ouvir — diferente de “Fast Cars”, que jogou o astral novamente lá pra cima.

A seguir, a dobradinha “Sick City Sometimes” e “Isolation” traz duas músicas dignas de figurarem no repertório, pois representam a fase de reunião da banda, mas também não empolgaram tanto assim: na primeira, o público estava totalmente morto; na segunda, alguns cantaram junto e Diggle empolgou o público ao referenciar o “moinho de vento” de Pete Townshend, do The Who.

A maior decepção da noite ironicamente ficou por conta de uma das melhoras músicas da banda: a mudança de ritmo entre a introdução, os versos e o refrão de “Autonomy” não foi muito bem feita, chegando a causar certo estranhamento. Também foi o momento mais prejudicado pelo som, que, mesmo bem mixado, estava extremamente baixo (as pessoas não precisavam nem levantar a voz para conversar durante as músicas). O incrível riff do refrão, um dos principais charmes da música, foi completamente inaudível.

Chris Remington cumpre com competência o difícil papel de substituir Steve Garvey. (Foto: Clovis Roman)

A guitarra de apoio, aliás, ficou soterrada durante o show inteiro, tornando difícil comentar a performance de Mani Perazzoli, que pouco foi ouvido. Todos os outros integrantes estavam ótimos: a cozinha formada por Farrant e Remington é ótima e aplica uma energia que mantém a banda soando jovem; Diggle, por sua vez, claramente não está acostumado a ser frontman (entra mudo e sai calado, com raras exceções de frases de agradecimento e “are you ready to rock?”), mas toca guitarra muito bem, daquele seu jeito próprio quase percussivo que remete ao estilo de Pete Townshend. Seu vocal não alcança as notas mais altas, mas, na maior parte do tempo, o barulho do público compensa.

Outra música do disco novo, “Bad Dreams” foi o momento mais climático do show, com um solo de guitarra estendido que não disse muita coisa. Em compensação, o momento de maior catarse veio logo em sequência, com a magistral “Why Can’t I Touch It?”. Tudo funcionou: o volume do som aumentou e fez com que o clássico baixo da introdução soasse impecável, o público cantou à plenos pulmões e a banda soube aproveitar o momento, repetindo várias vezes o refrão.

Em uma consideração pessoal, foi extremamente emocionante ouvir ao vivo a música que tornou este resenhista fã do Buzzcocks no já longínquo janeiro de 2017, aos 14 anos de idade, quando assistiu ao excelente e subestimado filme Mulheres do Século XX. Não contente em entregar um roteiro de ouro e uma das melhores atuações da última década (Annette Bening), o filme ainda me apresentou Buzzcocks e chamou a atenção para o fato de que Talking Heads é muito mais do que apenas “Psycho Killer”.

Foi um daqueles momentos de show que nos fazem viajar no tempo: mesmo que a banda esteja com apenas um membro original e que o interesse esteja em faixas lançadas há mais de quarenta anos, o catálogo do Buzzcocks é tão significativo na vida e na formação musical de tantos fãs que o show se torna uma viagem nostálgica não apenas pela carreira da banda, mas também pelo nosso próprio passado.

A boa “Destination Zero”, que faz parte do primeiro single que a banda lançou após a morte de Pete Shelley, passou batida, enquanto a deliciosamente pop “Love You More” foi das melhores da noite. A excelente e super punk “Orgasm Addict” teve um começo meio confuso, com Diggle à capela, mas, quando engatou, foi muito bem.

Em seguida, a banda tocou “Manchester Rain”, a melhor do disco novo a ser apresentada; a música teria qualidade o suficiente para estar em algum disco clássico da banda, mas o público parecia jamais tê-la ouvido. Há de se entender que a banda queira tocar canções novas, mas o número pareceu um tanto exagerado, especialmente ao levarmos em conta que o seminal A Different Kind of Tension, de 1979, foi completamente e deploravelmente ignorado.

Após o final da música, a banda sai do palco e fica cerca de cinco minutos fora, enquanto um roadie regula um violão. Diggle volta ao palco, pega o violão e toca algumas frases e riffs que mais uma vez evidenciam sua influência de Pete Townshend, até que começa uma versão de “Love is Lies” apenas com voz e violão que remete muito aos primeiros discos dos Beatles. Após o primeiro refrão, a banda entra e executa o arranjo clássico desta belíssima canção, que emocionou o Basement Cultural. Enquanto guarda o violão e pega a guitarra novamente, Diggle apresenta seus companheiros de banda ao público.

Em seguida, a popíssima “Promises” e o petardo “Why She’s a Girl From the Chainstore” voltaram a incendiar a casa, a ponto de nem incomodar a recepção morna de “Just Got to Let it Go”, última representante do último álbum no repertório. Uma das quatro músicas do primeiro EP da banda, “Boredom”, serve como um exemplo perfeito de tudo o que o punk representa e foi das mais celebradas da noite por um público que parecia ciente de sua importância histórica.

A penúltima música — “Chasing Rainbows/Modern Times”, de The Way (2014), último disco com Pete Shelley — também deu uma baixada na energia, mas o público sabia o que estava por vir e não deixou por menos. Quando Diggle perguntou se alguém já havia se apaixonado por alguém que não devia, a casa foi abaixo.

O lendário Steve Diggle com sua telecaster. (Foto: Clovis Roman)

Quando soam os primeiros acordes de “Ever Fallen In Love (With Someone You Shouldn’t’ve?)”, o público ensandecido começa a pular, dançar e berrar como se não houvesse amanhã. O maior sucesso da banda é um exemplo perfeito de como fazer uma música pop de qualidade, com uma melodia simples mas extremamente criativa, um instrumental inventivo e uma modulação tonal no refrão que exemplifica o talento da banda para criar harmonias marcantes que são passadas de geração em geração.

Enquanto a banda deixa o palco, o público canta “ole, ole, ole, Buzzcocks” e o baterista faz uma batida para acompanhar o que a plateia está cantando. Mesmo com quase 50 anos de carreira, apenas um membro original e tocando em casas cuja capacidade é muito aquém da que sua história merece, o Buzzcocks prova que, pelo menos nesse caso, os fãs se apaixonaram por quem deveriam ter se apaixonado.

Repertório

What Do I Get?
Harmony In My Head
I Don’t Mind
Everybody’s Happy Nowadays
Senses Out of Control
Fast Cars
Sick City Sometimes
Isolation
Autonomy
Bad Dreams
Why Can’t Touch It?
Destination Zero
Love You More
Orgasm Addict
Manchester Rain
Love is Lies
Promises
Why She’s Girl From a Chainstore
Just Got to Let It Go
Boredom
Chasing Rainbows/Modern Times
Ever Fallen in Love (With Someone You Shouldn’t’ve?)

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