Sepultura
29 de maio de 2025
Ópera de Arame
Curitiba/PR
Por Luís S. Bocatios
Fotos de Clovis Roman
A turnê de despedida do Sepultura, Celebrating Life Through Death, já se estendeu por mais de um ano e, segundo Andreas Kisser, não deve ser encerrada antes do final de 2026. Mesmo que alguns vejam a turnê como uma jogada de marketing e uma forma de vender mais shows, o fato é que, quanto mais oportunidades tivermos para ver o Sepultura antes que acabe, melhor — ainda mais ao levarmos em conta a qualidade das performances entregues.
Em sua segunda visita a Curitiba durante a turnê, o Sepultura entregou um repertório renovado em relação ao apresentado na Live Curitiba, em março de 2024. Se no ano passado a fase puramente thrash metal da banda (de Morbid Visions, de 1985, até Arise, de 1991) se resumia a quatro músicas, dessa vez tivemos oito representantes dos quatro primeiros discos.
Essa escolha de repertório, inclusive, faz com que a escolha pela Ópera de Arame tenha atrapalhado ainda mais a energia do show: poucos contam com um público tão animado e afim de pular e entrar em moshs quanto o Sepultura, mas isso se tornou impossível pela estrutura do teatro. Não que o público tenha ficado morto, pois tentou curtir da melhor forma que conseguia, mas esse repertório em algum lugar que permitisse mais animação teria gerado uma apresentação ainda mais brutal que o do ano passado.

A loucura começa logo na primeira música, a fenomenal “Beneath the Remains”, que acaba de voltar para o set após uma ausência de quase seis anos — até uma semana atrás, a última vez que o Sepultura apresentou a música foi em 2019, antes da pandemia. Dona de uma rapidez e de um poder incríveis, a faixa se mostra uma excelente abertura, mesmo que “Refuse/Resist” tenda a ser mais catártica.
O thrash metal continua solto com a clássica “Inner Self”, que completa a dobradinha de abertura do álbum Beneath the Remains. O baterista Greyson Nekrutman demonstrou uma certa confusão com as constantes mudanças de ritmo da música, algo que se repetiria algumas vezes ao longo da noite. Mesmo assim, o público cantou junto e fez o possível para curtir da melhor forma possível dentro do teatro. Como o termômetro marcava 7 graus, era possível ver fumaça saindo da boca de todos os integrantes — que, diga-se de passagem, não se intimidaram com o frio e mantiveram seus figurinos: Andreas de regata e Derrick de regata e bermuda. Guerreiros!
A trinca inicial foi encerrada com outra pérola que não era tocada desde antes da pandemia: “Desperate Cry”, do magnânimo Arise, que também teve um Greyson meio confuso. Talvez ele estivesse sem “ritmo de jogo”, já que a banda fez apenas três shows em 2025 antes de voltar a Curitiba. Em compensação, sua performance na ótima “Phantom Self” foi perfeita, especialmente na já clássica introdução, que tem viradas de bateria surreais. Mesmo assim, foi o momento mais frio até então; a predileção do público pela fase com Max Cavalera é inegável, o que é compreensível mas injusto, visto que Machine Messiah e Quadra são tão bons quanto os clássicos.
Em seguida, o público vai à loucura com “Attitude”, sempre um dos grandes momentos de shows do Sepultura. Uma das músicas mais brilhantes da banda, ela tem tudo o que precisa para funcionar ao vivo: é pesada, tem momentos para que a plateia participe de forma intensa e, acima de tudo, é uma composição absolutamente brilhante. Mesmo que Greyson tenha sido um pouco “mão fofa” na introdução, o impacto da faixa é sempre arrebatador.

Também vale citar que o som não estava dos melhores: raramente se ouvia o baixo de Xisto, o timbre da guitarra de Andreas não estava tão pesado quanto de costume e, em vários momentos, ouvia-se praticamente apenas o bumbo da bateria. A acústica da Ópera de Arame não é a melhor possível para bandas pesadas.
A dobradinha que vem a seguir traz duas músicas boas, mas que dão uma certa enjoada: “Means to an End”, outra linha de bateria incrível de Eloy Casagrande que Greyson executa com competência, e “Kairos”. A maior raridade da noite foi “The Treatment”, faixa regular de A-Lex que não deixou tantas impressões assim. No lugar dela, cairiam muito melhor pérolas como “From the Past Comes the Storms” e “Inquisition Symphony”, de Schizophrenia, ou músicas mais recentes como as excelentes “Machine Messiah”, “Sworn Oath” ou “Raging Void”, mas, sendo justo, é impossível agradar a todos.
Quando um violão é levado ao palco, Andreas Kisser toca a introdução de “Fly By Night”, do Rush, logo antes da canção mais impressionante da noite. Passados cinco anos do lançamento de Quadra, é possível afirmar sem medo que “Guardians of Earth” é uma das grandes obras-primas do metal brasileiro em todos os tempos.
Mesmo com versos pesadíssimos que representam a brutalidade da destruição do ecossistema, tema discutido pela letra, a banda ainda acha espaço para representar a beleza da natureza a partir do melhor solo da carreira de Andreas Kisser, que carrega um lirismo emocionante. A performance de Derrick Green também impressiona, com uma visceralidade destruidora. Mesmo com tantos clássicos, “Guardians of Earth” consegue se destacar como o momento musicalmente mais impressionante do show. É uma obra-prima que deveria ser reverenciada da mesma forma que os clássicos.

Em seguida, a mediana “Choke” teve alguns momentos esquisitíssimos: no meio da música, a banda inteira pareceu se perder e teve que se unir no meio do palco para tentar se encontrar novamente. Após a música, Andreas perguntou ao público se alguém acompanhava o Sepultura desde o começo e anunciou que tocariam “uma coisa mais ‘véia’, do álbum Schrizophrenia”. Mesmo reconhecendo que a estrutura da Ópera de Arame não permitia moshs, o guitarrista disse que o local parecia “um daqueles teatros ingleses que o Iron Maiden tocava na Inglaterra e o povo ficava só no headbanging, então eu quero ver vocês fazerem isso também, porque agora vem um thrash metal old school de 1987!”.
“Escape to the Void”, que geralmente concentra alguns dos maiores moshs da noite, mostrou que o público estava afim de curtir, pois houveram algumas tentativas, obviamente frustradas, de abrir rodas entre as cadeiras do teatro. O headbanging solicitado por Andreas também foi feito com vontade, e alguns até foram levantados e carregados nos braços do público. O máximo de loucura que a Ópera permitia foi atingido.
Em outro grande momento, “Kaiowas” foi executada com fãs subindo ao palco para batucar junto à banda. Ao anunciá-la, Andreas errou a data de lançamento da obra-prima Chaos A.D.: ele disse que o disco era de 1994, mas é de 1993. Pra gente ver como os fãs se importam muito mais com esses detalhes do que os próprios músicos.
A partir daí, a porradaria não parou mais: “Dead Embryonic Cells”, uma das grandes músicas da história do thrash, foi executada com perfeição — mesmo que a “mão fofa” de Greyson tenha voltado a aparecer. Vale ressaltar que as críticas ao baterista não são sobre sua qualidade técnica ou sua capacidade instrumental, mas sim à sua performance nessa noite, que, como já foi apontado, pode ter sido prejudicada pelos meses em que a banda não subiu aos palcos: tanto na Live Curitiba quanto na terceira noite no Espaço Unimed, em São Paulo, o baterista havia mandado muito melhor.
Se a música seguinte, “Agony of Defeat”, não é tão pesada quanto as que estão à seu redor em termos de riffs, o peso de sua atmosfera sombria compensa. Uma das grandes composições de Quadra, a canção é diferente de tudo o que o Sepultura fez na carreira e tem Derrick Green mais uma vez como destaque. Não restam dúvidas de que Quadra é um dos pontos altos da carreira do Sepultura.

O desfile de clássicos que encaminha o show para o final tem início com “Orgasmatron”, lendário cover do Motorhead que foi tocado pela metade, seguido por “Troops of Doom”, música da época em que nem Andreas estava na banda — dos integrantes atuais, apenas Xisto, um dos membros fundadores, já fazia parte. Como de costume, o público cantarolou o riff inicial e enlouqueceu quando a canção se torna uma porradaria que puxa até mais para o death metal do que para o thrash.
Em seguida, a plateia vai a êxtase com a dobradinha “Territory” e “Refuse/Resist”: geralmente executadas em ordem reversa, as músicas estão entre as melhores da banda, mesmo que alguns já tenham enjoado delas. Greyson novamente embolou a icônica introdução de “Territory”, mas seguiu em frente e mandou bem no resto da música. “Refuse/Resist” dispensa comentários: é uma das grandes canções do Sepultura e, mesmo que seu impacto não seja tão grande quanto na abertura dos shows, é sempre um momento inesquecível.
Tão inesquecível quanto é a magnífica “Arise”, cuja agressividade sempre impressiona e faz com que seja impossível enjoar. O infalível final com “Ratamahatta” e “Roots Bloody Roots”, pra variar, encerra muito bem a noite
Mesmo que a aura de despedida não tenha estado tão forte nesta noite gelada na Ópera de Arame quanto esteve no show da Live em 2024, a devoção do público pelo trabalho da banda é sempre gigantesca. Caso tenha sido a última chance do público curitibano se encontrar com o Sepultura, ela foi muito bem aproveitada.
Repertório
Beneath the Remains
Inner Self
Desperate Cry
Phantom Self
Attitude
Means to an End
Kairos
The Treatment
Guardians of Earth
Choke
Escape to the Void
Kaiowas
Dead Embryonic Cells
Agony of Defeat
Orgasmatron
Troops of Doom
Territory
Refuse/Resist
Arise
Ratamahatta
Roots Bloody Roots

