A banda Siegrid Ingrid foi um dos principais nomes da música extrema brasileira no início dos anos 1990, realizando uma mistura de thrash metal, hardcore, death metal e grindcore. Com o disco novo Back From Hell lançado em 2023, vinte e quatro anos após o clássico The Corpse Falls, o vocalista M. Punk e o guitarrista André Gubber refletiram sobre o passado e revelou planos para o futuro em entrevista ao Acesso Music.
Back From Hell marca o retorno definitivo da banda após um hiato de 24 anos sem um álbum completo. Como foi o processo de composição e gravação desse trabalho? Que desafios vocês enfrentaram e superaram nesse caminho?
Gubber – O processo de composição começou na pandemia, naquele momento não tínhamos condições de se reunir para tocar, então começamos a escrever algumas músicas e à medida que as restrições foram diminuindo e conseguimos nos encontrar presencialmente fomos evoluindo na conclusão desse material. Então podemos concluir que todas as incertezas que estavam sobre as nossas vidas durante aquele período serviu como inspiração. A gravação ocorreu durante 2022, e tivemos a ideia de trazer um álbum caótico e que retratasse tudo o que aconteceu durante esse período que ficamos inativos, além de mostrar nossa indignação com o presente em uma pegada atual e ainda mais agressiva.
A trajetória da banda é marcada por diversas formações. Como vocês encaram hoje essa instabilidade passada e de que forma a formação atual impacta positivamente o som da banda?
M. Punk – O Siegrid Ingrid é uma banda underground e somos gratos por todos que de alguma forma contribuíram e ainda contribuem para a construção da nossa história. Estamos com uma base bem estabilizada há alguns anos; o Gubber (guitarra) me acompanha desde 1993 e participou de todos os álbuns, o Luiz Berenguer (baixo) está na banda desde meados de 1998, ou seja, gravou o “The Corpse Falls”, o “Back From Hell” e o “Massacre in Lorena”, então estamos bem coesos. Ocorreram substituições de bateristas, mas acredito que cada um, com sua característica musical acabou somando, porque sabemos que a estrutura da nossa sonoridade jamais foi alterada por essas mudanças.
“Drásticas Consequências” é uma porrada sonora e visual, com uma crítica social forte. Como vocês veem o papel do metal extremo na denúncia do caos social e político atual?
Gubber – Acho que o Heavy Metal e seus subgêneros sempre tiveram esse papel primordial de abordar temas que denunciam a falência da humanidade como um todo. Pessoalmente, não acredito em nenhum tipo de político ou na ideia de que eles irão beneficiar os mais necessitados. A classe política age em benefício próprio e todos que quiserem e puderem ter uma voz ativa para criticar a corrupção e as mazelas da sociedade podem e devem fazê-lo.
O videoclipe de “Enéas” foi um marco nos anos 90, misturando crítica, sarcasmo e agressividade. Vocês sentem que esse espírito provocador continua vivo nas composições atuais?
M. Punk – Sim, com certeza! Se as pessoas se interessarem em ler as letras mais à fundo, perceberão que músicas como “Nojo”, “Dead Inside”, “Templo dos Vermes” e “The Visionary” por exemplo, tem conteúdo crítico e provocativo sobre temas que abordam o comportamento humano, a exploração religiosa, a possibilidade de novas pandemias e a denúncia da violência contra mulheres e crianças.
O álbum ao vivo Massacre In Lorena veio quase como uma surpresa e mostrou uma banda em plena forma. O que esse registro representa emocionalmente e artisticamente para vocês?
M. Punk – Sim, de fato, o lance da gravação foi totalmente inusitado e sem nenhum tipo de planejamento. Tivemos a oportunidade de fazer uma mini-tour com o Nervochaos e o Martin que era membro da equipe, registrou todos os shows com o equipamento que se equipara a um estúdio móvel. Ao final dos shows ele nos enviou esse material e ficamos muito impactados com a qualidade da gravação e como tinha captado toda a verdade do que aconteceu naquela noite memorável, então, resolvemos que deveríamos lançá-lo daquela forma, sem edições. Com certeza é um grande feito e estamos muito satisfeitos com a qualidade que alcançamos nesse álbum.
Vocês já participaram de coletâneas com nomes lendários como Sepultura e Sarcófago. Como é, hoje, ocupar esse espaço dentro da história do metal nacional e ainda estar na ativa com relevância?
M. Punk – Nos sentimos honrados em poder estar na ativa até hoje e de alguma forma, sermos citados como referência para alguns músicos e fãs que nos acompanham por todos esses anos. É uma luta constante, mas já temos ciência do que podemos alcançar e somos gratos por ainda continuar compondo, se apresentando e trabalhando para nos mantermos relevantes no cenário underground nacional, que aliás, é repleto de ótimas bandas.
A mistura de Thrash, Hardcore e Death Metal sempre foi uma marca da banda. O que mudou e o que permaneceu na identidade sonora de vocês desde Pissed Off até Back From Hell?
Gubber – Acho que não ocorreram muitas mudanças, mas sim, uma evolução. De certa forma, a cada disco evoluímos musicalmente e liricamente, mas mantivemos as nossas principais características até hoje, ou seja, misturamos elementos que vão do hardcore ao death metal. Mas é inegável que o Back from Hell é mais agressivo e próximo ao Death Metal em comparação ao Pissed Off, por exemplo.
Com o relançamento de Pissed Off e a promessa de relançar The Corpse Falls, vocês veem o passado como combustível para manter a banda viva no presente?
Gubber – Esse não é exatamente o nosso combustível, nossa motivação atual está em tocar ao vivo, fazer novas músicas e acreditar que ainda temos coisas relevantes para mostrar, então estamos mais focados no presente mesmo. No entanto, o relançamento desses álbuns é uma ótima oportunidade de revisitar essa época e principalmente, mostrar nossa música para as novas gerações que não acompanhavam a banda quando esses álbuns foram lançados, ou seja, 1995 e 1999, respectivamente.
O que o público pode esperar da “Back From Hell Tour” daqui pra frente? Há planos para novo material, turnês internacionais ou outros projetos ainda este ano?
M. Punk – Temos alguns shows importantes agendados pelo Brasil para o segundo semestre e nosso repertório será focado principalmente no material gravado no “Massacre in Lorena” que abrange todos os nossos três álbuns. Além disso, planejamos até o fim do ano lançar algum material inédito. Fiquem ligados!
Foto: Luiz Berenguer
