[Resenha] Whitesnake – Ready An’ Willing
(WikiMetal/Oporto da Música – nacional)
por Clovis Roman
O ano era 1980 e David Coverdale tinha o seu Whitesnake já estabelecido como uma banda com vida própria. Com Ready an’ Willing (Listo y Dispuesto, na Argentina; ou Listo y Con Ganas, no México), chegavam ao terceiro álbum de estúdio. Ou quarto, se considerarmos o Snakebite fora do mercado britânico – este foi inicialmente um EP de quatro faixas lançado na Grã-Bretanha, mas que ganhou mais faixas em território internacional, alguns meses depois. Vale frisar que este disco veio é creditado como sendo da David’s Coverdale Whitesnake.
Voltando a obra foco dessa matéria, Ready an’ Willing ganhou uma nova prensagem no Brasil pela WikiMetal e Oporto da Música, com embalagem em digipack e 5 faixas bônus excelentes, as mesmas da reedição de 2006. No encarte, todas as letras das faixas regulamentares, fotos, e um texto interessante que conta os pormenores da trajetória do grupo naqueles tempos.
Quanto às performances individuais, Ian Paice salta aos ouvidos de imediato, por trazer, neste, que foi seu primeiro disco com o grupo, um groove e técnica imbatíveis, que enriqueceram os arranjos, e posteriormente, as performances ao vivo. Na faixa de abertura, brilha a vistosa linha de baixo do monstruosos Neil Murray, nesta que é a versão definitiva de “Fool for Your Loving”. Posteriormente, ela foi regravada no disco Slip of the Tongue (1991); é uma boa releitura, mas nem chega perto da original.
Ligando esta à faixa-título está “Sweet Talker”, um rock and roll simples e direto que, como segunda faixa, aplica uma dose de ânimo extra e mantém o ouvinte ligado. “Ready an’ Willing”, a música, traz uma cadência moderada mas vibrante, com linhas vocais sedutoras de David Coverdale. É impossível esquecer o refrão “sweet satisfaction”, e não querer decorar cada palavra da ponte que o antecede. Guitarras suingadas, um contrabaixo inacreditável e uma camada de teclado primorosa de Jon Lord completam os elementos dessa música simplesmente perfeita.
Apoteótica e mais acessível, “Carry Your Load” é uma pérola esquecida, e outra na qual Murray se destaca. Ela inicia uma sequência de músicas mais tranquilas. Outra balada vem na sequência. “Blindman” tem uma aura blues, belíssimos solos e uma interpretação arrepiante de um Coverdale mais contido e proporcionalmente mais emocional. Ela é uma regravação, pois é original do disco White Snake (1977), trabalho solo de Coverdale, logo que ele saiu do Deep Purple.
Como um prenúncio do que rolaria uma década e pouco mais tarde, “Ain’t Gonna Cry No More” é um som folk nos momentos iniciais, e que depois se desenvolve em um rock anos 1960, lembrando também muito o que o Led Zeppelin fazia, porém, sem os exageros. No começo dos anos 1990, Coverdale se uniu a Jimmy Page e lançaram, em 1993, o excelente disco Coverdale–Page. O projeto se findou logo depois.
O blues escancarado “Love Man” muda um pouco o clima, mas não soa deslocada. Todavia, não traz nada de novo, afinal, é um blues. Quem esperava por algo mais agitado, é convidado a dançar com “Black and Blue”, um boogie animado, que basicamente é um blues, porém liberto do estado letárgico. Quando o ânimo está subindo, Coverdale e seus comparsas entregam a última canção da tracklist original: “She’s a Woman”, um amálgama de todos aqueles elementos do som da banda que tanto amamos, que resulta em um hard rock eletrizante.
As faixas bônus
Esta edição de Ready an’ Willing traz cinco faixas bônus muito interessantes, que agregam valor ao produto. Primeiro, “Love for Sale”, cujos alguns versos acabaram parando em “Hit An’ Run”, gravada no disco seguinte, Come And Get It (1981), como as frases “I’ve never had a home sweet home life. An’ I don’t want a nine to five”.
As outras quatro foram registradas ao vivo na participação no Reading Festival de 1979, realizada no dia 26 de agosto, em um dia que também teve atrações como Peter Gabriel, Molly Hatchet e o Wild Horses, então nova banda do guitarrista ex-Thin Lizzy, Brian Robertson). São duas autorais: “Love Hunter” e “Breakdown” (do Northwinds, 1978, segundo registro solo de Coverdale, pré-Whitesake), que traz nesta versão uma breve citação ao refrão de “Whitesnake”, canção que também é da carreira solo, do disco homônimo (1977).
As duas músicas compostas por terceiros são também grandes registros. Primeiro, o irresistível rhythm and blues “Ain’t no Love in the Heart of the City”, gravada originalmente por Bobby “Blue” Bland e composta pela dupla Michael Price e Dan Walsh, que se tornou um hit da banda de Coverdale. Na sequência, “Mistreated”, da ex-banda do vocalista, em uma versão bem mais legal sem os gritos caóticos de Glenn Hughes. Assim como nos tempos púrpuras, a performance é quase infinita, e ainda há uma breve citação a outra canção, no caso, “Soldier of Fortune” (da qual é cantada as duas primeiras estrofes), outra belíssima balada de seu catálogo pregresso. A formação estelar que performa neste concerto é a mesma que gravou Ready an’ Willing: o baixista Neil Murray, a estupenda dupla de guitarristas Bernie Marsden e Micky Moody, a antiga cozinha do Deep Purple: o baterista Ian Paice e o tecladista Jon Lord, além, claro, de Coverdale.
O Whitesnake atual deixou os palcos em 2022 (com apenas Coverdale como remanescente) e não deve mais voltar. Ficam as memórias dos shows e discos estelares como Ready an’ Willing para lembrarmos dessa banda maravilhosa.
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Músicas
Fool For Your Loving
Sweet Talker
Ready An’ Willing
Carry Your Load
Blindman
Ain’t Gonna Cry No More
Love Man
Black And Blue
She’s A Woman
Love For Sale (Previously Unreleased)
Ain’t No Love In The Heart Of The City (Live At The Reading Festival ’79)
Mistreated (Live At The Reading Festival ’79)
Love Hunter (Live At The Reading Festival ’79)
Breakdown (Live At The Reading Festival ’79)
Foto: Clovis Roman (2019)
